Luís Gonzaga Lebrego (Cambuci,DA COSTA, Ferreira (2013). Quarenta - El Tigre, o terror dos goleiros. Gigantes do futebol paraense. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 238-242 na então Província Ultramarina de Cabo Verde, 17 de setembro de 1910 — Belém, 28 de março de 1984), mais conhecido como Quarenta, foi um futebolista luso-brasileiro que jogava como atacante. Grande artilheiro da década de 1920 à década de 1940, conquistou dez campeonatos paraenses, apenas dois menos que os doze do maior campeão estadual do Brasil, o segundo Quarentinha,DA COSTA, Ferreira (2015). Fatos e Personagens do Re-Pa. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 216-220DA COSTA, Ferreira (2002). 1973 - Quarentinha abandona futebol após 18 anos de glórias. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, p. 89 cujo apelido era homenagem ao próprio Quarenta.LEAL, Expedito (2013). Quarentas e Quarentinhas. Re-Pa - Rivalidade Gloriosa. Belém: Meta Editorial & Propaganda, pp. 46-51LEAL, Expedito (2013). Dois Ídolos / Dois Destinos. Re-Pa - Rivalidade Gloriosa. Belém: Meta Editorial & Propaganda, pp. 96-151
Todos os dez títulos foram pelo Paysandu, fazendo de Quarenta o terceiro maior campeão pelo clube, superado pelos onze títulos (entre estaduais, regionais e nacionais) de Zé Augusto e pelos doze do mencionado Quarentinha, com o qual não tinha parentesco.
No resto do país, Quarenta é recordado como pai do primeiro Quarentinha, o mais famoso nacionalmente, por ter jogado na Seleção Brasileira e ainda ser o maior artilheiro do Botafogo.DA COSTA, Ferreira (2013). Quarentinha Lebrego - O artilheiro que não vibrava. Gigantes do futebol paraense. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 243-246 Já Quarenta é o terceiro maior artilheiro do Paysandu, com 208 gols, e também o terceiro maior artilheiro do clássico Re-Pa, com 28.DA COSTA, Ferreira (2015). Eis os maiores artilheiros do Remo x Paysandu, em 101 anos de história. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 221-223 Chegou a ser apelidado de El Tigre como comparação ao artilheiro Arthur Friedenreich, que também possuía essa alcunha. Quem testemunhou pai e filho jogarem afirma que o botafoguense teria técnica inferior à do pai.PROENÇA, Edyr (2024). Quarentinha era pequeno, franzino, mas com excelente visão de jogo. QUARENTINHA, craque eterno!. Belém: Valmik Câmara, p. 93-94
Carreira em clubes Início em tricampeonato do Paysandu
Quarenta nasceu em uma colônia portuguesa, vindo órfão de pai e mãe, ainda na infância, ao Brasil. Em 1959, uma reportagem do Jornal dos Sports sobre seu filho Quarentinha detalhou, a respeito da origem familiar, que seu pai "Luís Lebrego (...) não é brasileiro, é de Cabo Verde. Desembarcou no Pará com 6 anos". O local de nascimento de Quarenta, entre o século XV e o ano de 1975, foi uma província portuguesa no Atlântico africano, similarmente ao status atual do arquipélago da Madeira, de modo que Quarenta era considerado português e até europeu. Com efeito, tal informação da origem paterna faria Quarentinha ser sondado em 1963 pelo Sporting Lisboa e para defender a seleção de Portugal, pois teria direito à mesma cidadania portuguesa do pai.
Criado no Asilo Dom Macedo Costa, Quarenta começou a jogar futebol como aluno de internato do Instituto Lauro Sodré, onde seu número de inscrição era 40 - daí seu apelido. Em grande coincidência, o filho Quarentinha, similarmente, viria a ser o de número 40 na ordem de chamada escolar, reforçando para si o uso natural do apelido. Na mesma nota de 1959 do Jornal dos Sports, o próprio filho comentou: "papai foi 'Luís Lebrego' enquanto não entrou para o Colégio Lauro Sodré. Foi entrar e perder a identidade. Daí em diante, passou a ser mais número do que nome"; e que herdou o apelido dele, com certo contragosto inicial ("chato é. Mas acostuma-se. Que se há de fazer?"), também porque, dentre seus diversos irmãos, "me achavam mais o mais parecido com o 'velho'. No físico e jogando".
Por coincidência, já existiam ligações indiretas dos Lebrego com o Paysandu: o político paraense Lauro Sodré homenageado no nome do internato era pai de Benjamin "Mimi" Sodré, ídolo de Botafogo, Paysandu e com jogos pela Seleção Brasileira.DA COSTA, Ferreira (2013). Mimi Sodré - O Garoto de Ouro do futebol brasileiro. Gigantes do futebol paraense. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 212-213 Os dois Sodré tinham parentesco também com Leônidas Sodré de Castro, precisamente o dirigente homenageado com o nome oficial do estádio da Curuzu; Josefina Sodré de Castro, mãe de Leônidas, era tia de Lauro, de modo que estes eram primos em primeiro grau. Leônidas e Benjamin, por sua vez, estiveram na mesma gestão do Paysandu, respectivamente como primeiro secretário e presidente da diretoria, em 1921. Em 1930, o clube, já sob presidência do próprio Leônidas, adquiriu o referido estádio, sendo esta a razão da escolha do nome oficial. O prédio do internato Lauro Sodré, por sua vez, atualmente abriga a sede do Tribunal de Justiça do Estado do Pará.
Quarenta foi levado ao Paysandu por intermédio do médico Ophir Loyola, dirigente do clube e que trabalhava no próprio Instituto Lauro Sodré, vindo a dar nome a um hospital de referência em oncologia, nefrologia, neurologia e transplante. A primeira oportunidade no time adulto veio quando o atacante ainda tinha 17 anos, em 1927, logo agradando, após a indisponibilidade do concorrente Gengibre.NEGRÃO, Luiz (2024). As trajetórias de Luiz Lebrego e Quarentinha, do Botafogo e Seleção do Brasil. QUARENTINHA, craque eterno!. Belém: Valmik Câmara, pp. 118-120 Quarenta despontou a partir do ano seguinte, participando desde o início do título estadual de 1928, marcando nas três primeiras rodadas e destacando-se desde ali no Re-Pa: foram três clássicos pelo campeonato e marcou em todos. No segundo deles, marcou duas vezes em vitória por 4–2; o segundo gol foi o quarto do clube e os rivais, insatisfeitos com um suposto impedimento, deixaram o campo. Essa vitória igualou ambos na liderança junto ao União Esportiva, forçando um triangular em turno único, realizado já em janeiro de 1929. No clássico dessa fase, Quarenta abriu o placar em vitória de 5–0 sobre os azulinos. O União também foi goleado, por 4–1. Quarenta foi o artilheiro dos campeões, com seis gols em sete partidas.DA COSTA, Ferreira (2013). 1928 - Paysandu consegue mais um bicampeonato. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 45-46
Em meio à campanha, ele estreou na seleção paraense, em 12 de outubro de 1928, marcando o primeiro gol de vitória por 3–0 sobre a seleção cearense pelo Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais e em alguns amistosos.DA COSTA, Ferreira (2013). A seleção do Pará através dos tempos. Gigantes do futebol paraense. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 306-331 Ele firmou-se como craque no estadual de 1929, que representou um terceiro título seguido para o clube. A conquista foi invicta. Na primeira rodada, marcou três vezes em vitória por 13–1 sobre o Luso Brasileiro. Ao todo, foram nove gols em sete partidas, incluindo dois em vitória por 4–0 no Re-Pa.DA COSTA, Ferreira (2013). 1929 - Seis vitórias, um empate e outro tricampeonato vai para a Curuzu. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 47-48 Naquele ano, Quarenta chegou a marcar quatro vezes em um só jogo pela seleção paraense, na vitória de 5–2 sobre a rival seleção amazonense, pelo campeonato brasileiro. Também conquistou o Torneio Início.DA COSTA, Ferreira (2002). 1929 - Campeão do Torneio Início. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, p. 29
Quarenta e o clube voltaram a ser campeões no campeonato de 1931, disputado por apenas quatro clubes. Quarenta marcou três vezes nas quatro rodadas do certame - um dos gols abriu vitória por 3–0 sobre o rival. Outras equipes haviam se retirado da disputa, causando uma cisão no futebol paraense, com Remo e Paysandu permanecendo na federação oficial.DA COSTA, Ferreira (2013). 1931 - Campeonato foi "minguado" com só quatro equipes. Paysandu conquistou o título. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, p. 51 Em paralelo, ele chegou a marcar sete vezes na vitória por 12–2 da seleção paraense sobre a maranhense e outros dois em 6–1 sobre a amazonense no campeonato brasileiro.
Já no Estadual, Remo e a Tuna também viriam a desfiliar-se e a cisão permaneceu no ano seguinte, na maior crise política do futebol estadual, com os dirigentes azulinos fazendo oposição ao novo presidente da Federação, o ex-dirigente alviazul Ophir Loyola, que chegou a licenciar-se e depois renunciar. O impasse envolveu até mesmo o interventor Magalhães Barata e a justiça comum, que deferiu sequestro e imissão na posse de documentos da federação que estavam em poder de membros que renunciaram - chegou a haver tentativa de arrombamento no prédio da federação e proibição de jogos por ordem policial em função de episódios de violência. O estadual de 1932 foi disputado ainda assim, com apenas duas partidas para o Paysandu: vitórias por 11–0 (com três gols de Quarenta) no Recreativa e por 16–0 o Guarany. Em dezembro daquele ano, a cisão foi superada com a criação de uma nova federação.DA COSTA, Ferreira (2013). 1932 - Por conta de crise na administração do futebol, foi fácil, muito fácil para o Paysandu chegar ao bicampeonato. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 52-57
Vasco, São Paulo e retorno thumb|right|200px|Quarenta retratado em 1936. Em meio a essa crise, Quarenta ainda foi campeão em 1933 do Torneio Início, marcando o gol do título sobre o time do Brazil.DA COSTA, Ferreira (2002). 1933 - Bicampeão do Torneio Início. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, p. 33 Mas foi jogar no sudeste, embarcando em 9 de maio de 1933 à então capital brasileira para defender o Vasco da Gama. No Torneio Rio-São Paulo daquele ano, marcou um dos gols em goleada de 4–0 sobre o Santos. O ano de 1933 marcou o início do profissionalismo oficial no campeonato carioca, onde Quarenta chegou a marcar um gol em clássico contra o Flamengo, em derrota de 2–1,Milhões em jogo (maio de 2005). Placar Especial 35 Anos - Coleção de Aniversário n. 2, "Os Grandes Clássicos". Editora Abril, pp. 14-19 empatando momentaneamente a partida ao aproveitar com oportunismo a queda acidental de um adversário; o lance foi já no fim da partida, mas a "meio minuto do final" os rubro-negros conseguiram o gol da vitória.
Na competição, também marcou o terceiro gol ("calmamente", aos 18 minutos do segundo tempo) de triunfo por 3–0 sobre o Bangu, o campeão carioca daquele ano;Resumo histórico do campeonato carioca (2004). Anuário Placar 2003. São Paulo: Editora Abril, p. 260 Pelo Torneio Rio-São Paulo de 1933, destacou-se em especial pelo gol sobre o São Bento de São Paulo, em chute "indefensável" na vitória de 2–0.
No Vasco, era referido como "Quarenta II", por já haver na equipe outro jogador apelidado de Quarenta, um goleiro reserva. Uma contusão, porém, impediu que o atacante atuasse mais vezes como vascaíno; o Jornal dos Sports, em setembro, relatou que "Quarenta, que vinha comandando o quinteto atacante com grande acerto, ressentiu um músculo anteriormente distendido, e eis que uma interrogação veio pairar sobre a sua presença no encontro de amanhã". Em uma das versões para a lesão, Quarenta teria a sofrido em disputa com Junqueira em um duelo com o então Palestra Italia, contra quem o Vasco travou naquele mês duelo pelo Torneio Rio-São Paulo de 1933, com Junqueira e Quarenta escalados. Essa partida, no estádio palestrino, foi marcada por briga generalizada, com agressão à arbitragem e invasão de campo.