A feitiçaria islandesa refere-se às antigas práticas mágicas utilizadas na Islândia e na Escandinávia em geral, caracterizada principalmente pelo uso dos Galdrastafir (símbolos ou bastões mágicos islandeses), pelo uso de runas e pela prática do seiður. No contexto atual, é uma forma de feitiçaria que se popularizou no século XX, principalmente por pessoas ligadas ao heathenismo e ao esoterismo. A sua prática possui diversas influências de outros sistemas mágicos, tal como já acontecia no século XVII.

Os símbolos mágicos islandeses (em islandês: , lit. "bastões de galder" ou "bastões de encantamento") são sigilos aos quais eram atribuídos supostos efeitos mágicos, preservados em vários grimórios islandeses, como o Galdrabók, datados do século XVII e posteriores.

thumb|Uma representação no museu Strandagaldur de Jón Rögnvaldsson, a primeira pessoa executada por praticar feitiçaria na Islândia, acusado de criar um fantasma para causar danos a pessoas e ao gado.

O grimório compilado de feitiços islandeses mais conhecido é o Galdrabók. Atualmente, existe na Islândia um museu especialmente voltado para o tema da antiga feitiçaria islandesa, chamado Strandagaldur, situado em Hólmavík.

thumb|Exterior de Strandagaldur, o Museu de Feitiçaria e Bruxaria Islandesa em Hólmavík

Origem thumb|400px|Talbyrdingur no Manuscrito Huld: notável semelhança com representações no grimório cabalístico Sefer Raziel HaMalakh do século XIII thumb|200px|esquerda|Notáveis semelhanças com alguns Galdrastafir: símbolos mágicos do manuscrito Hygromanteia por volta de 1450 A magia na Islândia foi moldada por uma grande variedade de influências.Nilsen, p. 4 Apesar do uso frequente de runas na descrição dos Galdrastafir, bem como dos seus nomes islandeses, a sua origem e tradição certamente não devem ser vistas na Islândia ou na Escandinávia.Bauer/Pesch, p. 44 As influências vêm, na verdade, do misticismo cristão e judaico da Europa.Nilsen, p. 5

A forma dos símbolos mágicos "parece indicar uma continuidade na receção e transmissão de conteúdos cabalísticos".Bauer/Pesch, p. 44 O sistema, composto principalmente por figuras quadradas que conectam linhas retas, "não é de modo algum a invenção de um islandês. Pelo contrário, apresenta uma semelhança notável com o sistema de um grimório cabalístico medieval chamado Sefer Raziel HaMalakh... Graças a uma tradução em latim do século XIII (Liber Razielis Archangeli), a obra gozou de grande popularidade em toda a Europa e acabou por encontrar o seu caminho para a Islândia."Bauer/Pesch, p. 44

Uma "surpreendente semelhança"Bauer/Pesch, p. 45 de alguns Galdrastafir islandeses também existe com os sigilos no grimório e pseudepígrafo escrito em grego antigo HygromanteiaManuscrito Harley MS 5596, fol. 31r (também "Tratado Mágico de Salomão"), que foi escrito por volta de 1450.Explicações detalhadas sobre a origem e a semelhança dos grimórios e Galdrastafir islandeses em comparação com outras obras anteriores em Bauer/Pesch, pp. 44–46.

Aplicação Os símbolos mágicos islandeses eram pintados no corpo, usados como gravuras em amuletos e entalhados em vários objetos, como queijo (por exemplo, o Fengur).Nilsen, p. 4 Cada símbolo deveria, por exemplo, conceder proteção e preservação, detetar ladrões e responsabilizá-los (por exemplo, Þórshamar), confundir e assustar inimigos, causar invisibilidade, ajudar contra o medo do escuro, ganhar o amor de uma mulher ou trazer sorte.Nilsen, p. 4; Bauer/Pesch, p. 44; Foster, Galdrastafir

A grande maioria das ilustrações contém instruções precisas para o uso dos símbolos. Os Galdrastafir não se destinavam apenas a ser desenhados em pergaminho ou papel, mas também a um uso tridimensional. São mencionados os materiais a utilizar (madeira ou chumbo no caso dos amuletos) e as ferramentas, bem como as posições exatas de onde e como deveriam ser colocados num espaço. A forma correta de inscrição e de uso no corpo também é abordada.Bauer/Pesch, p. 46

Classificação dos Galdrastafir por forma Os Galdrastafir podem ser divididos em cinco grupos, de acordo com o investigador australiano especializado em Galdrastafir, Justin Foster.Foster, Galdrastafir

Formas assimétricas As formas assimétricas são os símbolos mágicos islandeses mais antigos, que quase não possuem influência cristã. Eles geralmente apresentam linhas retas que se cruzam com outras linhas ou pequenas formas. thumb|300px|direita|Exemplo de "supersímbolo": Rúðukross – Manuscrito Rún 1928 Formas simétricas Estes Galdrastafir surgiram mais tarde e são esteticamente mais bonitos e atraentes na sua forma. As suas formas variam de muito simples a altamente complexas e elaboradas. Elementos cristãos e pagãos estão misturados nos Galdrastafir simétricos, enquanto outros têm uma referência exclusivamente cristã.

Runas e símbolos semelhantes a runas Alguns Galdrastafir usam carateres rúnicos reais em combinação com símbolos semelhantes a runas, cujo significado é desconhecido e incerto. Alguns carateres rúnicos são codificados como runas secretas de acordo com um determinado sistema.

Insígnias A maioria das insígnias surgiu sob influência cristã e é designada com nomes do Antigo Testamento e do Novo Testamento. Assim, existem, entre muitos outros, por exemplo, Salómons Insigli e Daviðs Insigli (Manuscrito Huld), ou também Jóhannesar innsigli e Jésu Krists innsigli (Manuscrito de Galdrastafir I de Jónas Jónasson). Muitos Galdrastafir deste tipo também trazem a denominação Róðukross ("cruz" no contexto cristão).

"Supersímbolos" Estes "supersímbolos"Tradução para o português do termo "super stave" cunhado por Justin Foster "são os símbolos mais complexos e frequentemente os mais belos."Foster, Galdrastafir Eles têm predominantemente uma função protetora contra o mal. Frequentemente, estas estruturas elaboradas são dedicadas a santos cristãos.

Exemplos das diferentes formas

Uso atual thumb|Draumstafir ("símbolo do sonho") numa t-shirt Mesmo nos tempos atuais, uma série de Galdrastafir continua a ser usada, sendo o Vegvísir o mais conhecido. Estes antigos símbolos mágicos islandeses são aplicados, entre outros, em joias, amuletos e vestuário, bem como sob a forma de tatuagens; no entanto, a interpretação atual de vários antigos símbolos mágicos islandeses em termos de funcionamento e origem difere do seu significado original.Bauer/Pesch, p. 51

Tabela de símbolos mágicos Nome Descrição ImagemAd fá stúlkuConquistar uma rapariga.100px|Conquistar uma rapariga.ÆgishjálmurEncantamento de terror, para induzir o medo e proteger contra o abuso de poder.100px|ÆgishjálmurAngurgapiGravado no fundo de barris. Sem objetivo claro.100px|AngurgapiBrýnslustafirPara utilização em pedras de afiar.100px|BrýnslustafirDraumstafirPara sonhar com os desejos mais profundos do coração.100px|DraumstafirDreprúnAniquilar o gado do inimigo.De uma pedra rúnica datada do , no Antikvarisk-Topografiska Arkivet de Estocolmo.100px|DreprúnFeingurUma runa relacionada com o rito de fertilidade.100px|FeingurGapaldurUsado no calçado, sob o calcanhar do pé direito, para assegurar a vitória nas lutas corporais islandesas (glíma).100px|GapaldurGinfaxiSemelhante ao Gapaldur, mas sob os dedos do pé esquerdo.100px|GinfaxiHólastafurPara abrir colinas.100px|HólastafurKaupalokiProsperidade em trocas comerciais e negócios (segundo um manuscrito do século XIX).100px|KaupalokiLásabrjóturPara abrir uma fechadura sem chave.100px|LásabrjóturMáladeilanGanhar uma causa judicial.De um manuscrito do , da Biblioteca Nacional e Universitária da Islândia, em Reiquiavique.100px|MáladeilanNábrókarstafurNecropantas, um par de calças feito com a pele de um defunto, capaz de produzir uma quantidade incalculável de dinheiro.100px|NábrókarstafurÓttastafurInduzir o medo.100px|ÓttastafurRosahringur MinniUm círculo menor de proteção.100px|Rosahringur MinniSmjörhnúturO nó de manteiga, para assegurar que a manteiga não foi obtida por meios mágicos.100px|SmjörhnúturStafur gegn galdriContra a bruxaria.De um manuscrito do , na Biblioteca Nacional de Reiquiavique.100px|Stafur gegn galdriStafur til ad vekja upp draugPara invocar fantasmas e espíritos malignos.100px|Stafur til ad vekja upp draugÞjófastafurContra os ladrões.De um texto médico do , na Coleção Arnamagnæan de Reiquiavique.100px|ÞjófastafurTóustefnaPara afugentar raposas.100px|TóustefnaVarnarstafur ValdemarsSímbolo de proteção de Valdemar, aumenta os favores e a felicidade.100px|Varnarstafur ValdemarsVatnahlífirProteção contra o afogamento.100px|VatnahlífirVegvísirOrientar as pessoas durante o tempo nublado ou tempestades. A cantora Björk Guðmundsdóttir tem este símbolo tatuado no braço esquerdo.100px|VegvísirVeiðistafurSorte na pesca.100px|Veiðistafur

Percurso histórico e condenações Na Islândia, o uso de pequenos feitiços tornou-se comum no quotidiano de algumas pessoas para os mais diversos fins: desde capturar um ladrão até curar o próprio gado ou lançar pragas no do vizinho, conservar comida e cerveja, evitar a morte por afogamento, entre outros. No século XVII, cerca de 21 islandeses foram mortos na fogueira por praticarem feitiçaria; o primeiro a ser condenado e executado por tal prática foi Jón Rögnvaldsson, acusado de criar um fantasma para causar danos às pessoas e ao gado.

"O principal facto que tornou a caça às bruxas na Islândia particularmente única é que a maioria dos acusados de feitiçaria eram homens. De um total aproximado de 120 julgamentos, somente 10 envolviam mulheres. Desse total, 21 pessoas foram queimadas como bruxas, sendo que apenas 1 era mulher. Vale a pena destacar também que a maioria das pessoas acusadas de feitiçaria eram justamente as mais pobres."

Com a proibição da magia islandesa, esta passou a ser praticada clandestinamente e muitas informações perderam-se, exceto pela conservação de alguns manuscritos, como o Huld e o Galdrakver.

Renascimento e recontextualização Com um maior interesse pela prática da magia e feitiçaria islandesa a partir do século XX, pessoas ligadas ao esoterismo e ao paganismo germânico em geral começaram a dedicar-se ao estudo e à prática dessa arte. Apesar de o uso dos Galdrastafir se fazer presente numa Islândia já cristianizada, com influência de diversos sistemas e significados cristãos, muitos pagãos hoje trazem o uso destes staves com elementos e simbologias unicamente pagãs. Contudo, a continuidade de influências de outros sistemas mágicos ainda se faz presente, como sempre esteve; isto faz com que os praticantes tenham uma certa liberdade para utilizar os seus próprios métodos para estruturar os seus Galdrastafir e modos de ativação. Muitos deles usam elementos folclóricos regionais, compilam feitiços e difundem-nos de modo artístico, entre os quais Ræveðis e Eril Bolverkr.

Ligações externas

Wikinger-Symbole, die keine sind – Vídeo no YouTube de 17 de abril de 2021 (20" 33') Justin Foster: The Huld Manuscript - ÍB 383 4to. A modern transcription, decryption and translation, junho de 2015 Justin Foster: Galdrastafir. Icelandic Magical Staves Justin Foster: Icelandic Magic Symbols (galdrastafir) and Spell Books (galdrabækur). An Annotated English Translation, 2015 – tradução em inglês do artigo de Ólafur Davíðsson de 1903 Visão geral dos manuscritos islandeses com ilustrações de Galdrastafir (incluindo alguns manuscritos contendo apenas feitiços) Explicações sobre a origem dos Galdrastafir; marcações de sigilos muito semelhantes da Hygromanteia Ilustrações e descrições de mais de 20 Galdrastafir Ilustrações e explicações de 25 Galdrastafir Ilustrações e descrições de cerca de 70 Galdrastafir

Bibliografia

Ólafur Davíðsson: Isländische Zauberzeichen und Zauberbücher, em: Zeitschrift des Vereins für Volkskunde 13, Berlim 1903, pp. 150–167 e pp. 267–279. Mila Fois: Galdrastafir. I Magici Sigilli d’Islanda, 2018, ISBN 978-1-983-18150-4.