Hermes com o infante Dionísio, também conhecido como Hermes de Olímpia, é uma escultura grega representando o deus grego Hermes com o deus Dionísio criança, tradicionalmente atribuído a Praxíteles, e preservado no Museu Arqueológico de Olímpia, na Grécia.
Foi executado em mármore de Paros, e tem 2,13 m de altura. O grupo foi achado em 1877 nas ruínas do Templo de Hera em Olímpia.Hermes of Olympus. Archäologisches Sammlungen. Der Universität Graz Estava em fragmentos, e várias partes faltavam: as duas pernas de Hermes abaixo dos joelhos, seu braço direito, alguns dedos na mão esquerda, a cabeça e os braços de Dionísio, além do pedestal e partes do tronco de árvore. Pouco depois foram encontradas várias dessas partes, que foram reintegradas. As partes ausentes foram recriadas, mas foram removidas em um restauro moderno. Hermes segura Dionísio com seu braço esquerdo, apoiado sobre um tronco de árvore coberto pelo seu manto, que cai até o chão, enquanto o direito permanece elevado. Segurava algum objeto, para o qual Dionísio olha. Orifícios na cabeça sugerem que originalmente Hermes devia ter ostentado uma coroa de louros de metal, e resíduos de pigmento indicam que o grupo foi pintado, pelo menos parcialmente.Frazer, J. C. Pausanias's Description of Greece, vol. III. Cambridge University Press, 2012, pp. 597-599 O dorso de Hermes, originalmente polido como a frente, foi refeito mais tarde por um mestre desconhecido e permanece mal acabado. Outras partes também podem ter sido retrabalhadas, como as sandálias e o pedestal.
O grupo foi encontrado no exato local onde Pausânias informou que Praxíteles, um dos principais escultores do Classicismo Tardio, havia instalado um grupo de Hermes carregando Dionísio infante. Essa atribuição foi contestada pelo diretor das escavações, Gustav Hirschfeld, mas tornou-se largamente aceita no século XIX. Em 1927 Carl Blümmel publicou a primeira crítica mais consistente negando a atribuição, baseando-se na análise do estilo e na técnica usada, alegando que eram típicos do Período Helenístico. Muitos outros acadêmicos mais tarde declararam suas dúvidas, mas de acordo com Antonio Corso a única objeção significativa contra a autoria de Praxíteles que permanece valendo é a existência uma ponte marmórea entre o manto e o quadril de Hermes, um recurso técnico de estabilização da estrutura que só é conhecido no Período Helenístico. Porém, o número de estátuas de mármore do Período Clássico que sobrevive é extremamente pequeno, sendo muito arriscado estabelecer um padrão geral a partir de amostra tão limitada.Childs, William A. P. Greek Art and Aesthetics in the Fourth Century B.C. Princeton University Press, 2018, pp. 70-74 O estilo geral representa bem o Classicismo Tardio. As proporções alongadas e a postura sinuosa, relaxada e sensual de Hermes são consideradas traços típicos da obra de Praxíteles.Ridgway, Brunilde Sismondo. Roman Copies of Greek Sculpture: The Problem of the Originals. University of Michigan Press, 1984, p. 85
Todas as características consideradas anômalas que têm sustentado as críticas contra a autoria de Praxíteles são circunstanciais ou baseadas em evidências fracas, comparações mal documentadas e critérios pouco consistentes, e podem ser explicadas pela sua personalidade como um artista inovador ou pelas intervenções posteriores que a peça sofreu.Corso, Antonio. The Art of Praxiteles, Volume 1. L'Erma di Bretschneider, 2004 Além disso, as alternativas propostas de datação e autoria, que chegam a supor o grupo como uma obra romana original inspirada em mestres clássicos ou uma cópia romana de um original grego, se contradizem mutuamente e têm levantado outros problemas difíceis de conciliar. Apesar desse conjunto de dificuldades e contradições, segundo Olga Palagia e Jerome Pollitt, importantes especialistas, a crítica recente em geral considera o grupo como uma cópia de um original de Praxíteles, ou mesmo de autor desconhecido, mas na opinião pessoal desses autores, é provável que seja o original descrito por Pausânias, opinião compartilhada com Antonio Corso, Brunilde Ridgway e vários outros especialistas reputados. Seja como for, a obra se fixou no cânone do mestre, tem sido um termo comparativo fundamental para o entendimento do seu estilo,Palagia, Olga & Pollitt, Jerome. Personal Styles in Greek Sculpture. Cambridge University Press, 1999, 103-110 e o prestígio do grupo como uma obra sofisticada e de alta qualidade permanece indisputado.Kyrieleis, Helmut. "Olympia Excavations and Discoveries at The Great Sanctuary". In: Valavanis, Panos (coord.). Great Moments in Greek Archaeology. The J. Paul Getty Museum, 2007, p. 106
História
O Estado grego assinou com a Alemanha, em 1874, um acordo para a exploração arqueológica em Olímpia. As escavações de uma equipa alemã começaram em 1875, sob a direção de Ernst Curtius. Em 8 de maio de 1877, a escultura foi encontrada nas ruínas do Templo de Hera, o mesmo local onde Pausânias a tinha visto.Pijoan, José (1966), p. 191. Tratava-se de uma escultura de corpo nu (cabeça, tronco, coxas e braço esquerdo) que representa um jovem apoiado num tronco de árvore coberto por um manto. Encontrava-se protegida por uma espessa camada de argila, estando num estado de conservação excecional.
Foram ainda efetuadas mais seis descobertas distintas, até se reconstituir o grupo escultórico tal como hoje se encontra exposto. A Hermes faltavam o antebraço direito, dois dedos da mão esquerda, ambas as pernas abaixo dos joelhos, o pé esquerdo e os órgãos genitais; ao menino Dioniso faltavam os braços (exceto a mão direita, que repousa sobre o ombro de Hermes) e a ponta do pé direito. Por fim, não foram localizados grande parte do tronco da árvore nem o pedestal.
Tema
Segundo os relatos da mitologia grega, Dioniso era filho do deus Zeus e de Sémele, uma mortal, filha de Cadmo, rei de Tebas. Sémele pediu a Zeus que lhe mostrasse todo o poder que possuía e Zeus, rei dos deuses, manifestou toda a força do seu poder. Ao contemplar o imenso poder de Zeus, Sémele morreu de medo; então o deus, sabendo que ela estava grávida, retirou-lhe o bebé que trazia no ventre e coseu-o à sua coxa. Passados seis meses, segundo o mito, nasceu Dioniso. Logo após o nascimento, foi confiado a Hermes para que dele cuidasse. É provável que esta estátua tenha sido concebida como uma alegoria da paz entre os habitantes de Élide, que tinham Hermes como divindade tutelar, e da Arcádia, cujo patrono era Dioniso.Devambez, Pierre (1972), pp. 150–151.
Identificação e datação miniaturadaimagem|Detalhe das costas de Hermes, onde se observam as marcas da textura estriada deixadas pela «gradina».
O geógrafo grego Pausânias, na sua obra Descrição da Grécia (V, 17, 3), refere que viu uma estátua de tema semelhante no Templo de Hera, em Olímpia, e atribuiu-a a Praxíteles, escultor do .
O autor romano Plínio, o Velho, na sua enciclopédia Naturalis Historia (XXXIV, 87),Plínio, o Velho. Naturalis Historia, XXXIV, 87. atribuiu a Cefisódoto, o Velho (possivelmente pai de Praxíteles) uma escultura de Hermes com o infante Dioniso. A passagem insere-se no Livro XXXIV, dedicado à escultura em bronze, não mencionando a escultura em mármore conservada em Olímpia.
Desde a sua descoberta, a obra tem sido identificada com o Hermes com o Infante Dioniso referido por Pausânias no : «…mais adiante ofereceram outras obras ao Heraion: um Hermes de pedra que transporta o menino Dioniso e é obra de Praxíteles…» (Descrição da Grécia, V, 17, 3).Richter, Gisela M. A. (1980), p. 144. Georg Treu, um dos arqueólogos responsáveis pela descoberta, escreveu com entusiasmo: «Não conheço, entre as obras de arte que vi, nenhuma com a qual esta possa ser comparada. Não há dúvida de que se trata de um original de Praxíteles.»Pasquier (2001), p. 246.
O grupo escultórico revela um grande virtuosismo técnico e apresenta a característica «curva praxiteliana»: uma suave curvatura da anca de Hermes ao apoiar o braço num tronco de árvore. A expressão do seu rosto é nostálgica e apresenta a languidez característica de Praxíteles; a flexibilidade da figura, o aspeto juvenil do deus e o tratamento da musculatura aproximam-na, sem dúvida, do Apolo Sauróctono do Museu do Louvre, bem como do Sátiro em repouso, nos Museus Capitolinos, e da Afrodite de Cnido, no Palácio Altemps, em Roma.Barral i Altet, Xavier (1987), p. 187. No entanto, este é o único exemplar conhecido deste tipo, ao passo que existem numerosas cópias do Sátiro em repouso e da Afrodite de Cnido.Historia del Arte Espasa (2004), p. 217.
A favor da tese praxiteliana, ou pelo menos de que se trata de um segundo original grego da época clássica, foi apresentado como argumento o material utilizado: embora quase todos os exemplares conhecidos de esculturas de Olímpia sejam executados em mármore pentélico, o Hermes foi esculpido em mármore de Paros.Olga Palagia, Figures d'artistes dans l'Antiquité grecque : les limites de la monographie, Museu do Louvre, 24 de março de 2007.
Foi também observado que a cabeça do pequeno Dioniso é semelhante à das estátuas de Dioniso criança encontradas em Braurão e datadas do final do ou do início do ; assim, o Hermes seria um original do .Andrew Stewart, Figures d'artistes dans l'Antiquité grecque, Museu do Louvre (2007).
Contudo, algumas particularidades estilísticas parecem incompatíveis com uma datação no . Assim, ao contrário do que é habitual na escultura dessa época, o cabelo foi executado principalmente com o berbequim, sendo o cinzel utilizado apenas em alguns pontos. Ainda assim, esta poderá ter sido uma inovação introduzida por Praxíteles. Do mesmo modo, o acabamento do tronco da árvore com goiva, e não com a gradina,A gradina é uma ferramenta metálica semelhante ao cinzel, mas com o gume dentado, utilizada pelos escultores para trabalhar a pedra, deixando uma textura estriada. é pouco comum no . O desenho das sandálias é mais característico do período helenístico do que da época clássica. Por fim, o polimento da estátua é muito característico dos mármores do período do Império Romano. Contudo, é possível que esse acabamento corresponda a uma preparação destinada à aplicação de pintura, uma técnica ainda hoje relativamente pouco conhecida.
Todos estes elementos levaram alguns estudiosos a propor outras atribuições em vez da de Praxíteles. O Hermes poderia ser obra de um escultor da época helenística ou já do período romano. A atribuição a Praxíteles dever-se-ia, nesse caso, a um erro ou confusão de Pausânias. Carl Blümel propôs uma solução conciliadora, segundo a qual o testemunho de Pausânias seria correto, mas o escultor seria um outro «Praxíteles», ativo no , cuja assinatura foi encontrada nas escavações de Pérgamo. Contudo, continua a existir controvérsia quanto à datação da obra, pois alguns dos seus traços estilísticos parecem pertencer a uma época posterior. Assim, alguns especialistas defendem que se trata de uma cópia do de um original de Praxíteles do .Barral i Altet, Xavier (1987), pp. 186–188.
Considerações técnicas miniaturadaimagem|esquerda|Detalhe de Hermes com o Infante Dioniso, onde se observa o elevado grau de polimento.
O grupo escultórico foi talhado num único bloco de mármore de Paros da melhor qualidade. Hermes mede entre 210 e 212 centímetros de altura e a obra completa, incluindo a base, atinge cerca de 370 centímetros. O pé direito de Hermes está ligado a um fragmento do plinto, que apresenta orifícios que não coincidem com a base atual, refletindo as alterações efetuadas na estátua. Outras partes do grupo escultórico encontram-se igualmente separadas. O tronco da árvore, contudo, encontra-se unido à anca de Hermes para permitir a colocação de um elemento de ligação.