Coruja-das-torres, Tyto furcata (no Novo Mundo), ou Tyto alba (no Velho Mundo), é uma ave de rapina noturna que pertence à família dos titonídeos, também conhecida pelos nomes de bebe-azeite, coruja-azeiteira, coruja-católica, coruja-da-igreja, rasga-mortalha e suindara. Ocorre numa vasta tipologia de habitats, sendo tipicamente associada a paisagens agrícolas abertas, desde terrenos cultivados e quintas e bosques pouco fechados.
Descrição thumb|left|Um adulto T. furcata em voo, Pirenéus, (França). thumb|left|Uma ninhada. thumb|left|Subspécie Australiana (T. f. delicatula dando o chamado shree; SE Queensland.
Mede cerca 20 a 36 cm de comprimento, com uma envergadura de cerca de 75-110 centímetros. A forma da cauda é uma maneira de distinguir a coruja-das-torres de verdade quando vista em voo, como os movimentos são oscilantes e o abrir das pernas balançando as penas brancas. O rosto com a sua forma peculiar e os olhos negros dão à ave voando uma aparência estranha e surpreendente, a crista de penas acima do bico se assemelha a um nariz.Bruce (1999), Svensson et al. (1999): pp.212-213>Bruce (1999), Svensson et al. (1999): pp.212-213, OwlPages (2006)
Seu peso varia de 250 a 700 g, sendo as fêmeas geralmente 25% maiores que os machos. Podem viver até 10 anos em ambiente selvagem, e a coruja-das-torres mais velha conhecida vivia em cativeiro na Inglaterra e já havia completado 25 anos quando deixou de por ovos. É uma ave de médio porte, com cores castanho-claro e manchas pretas nas costas e parte de trás da cabeça, além de pequenas e finas manchas pretas ou marrom escuras espalhadas por todo o corpo exceto na parte interna das asas (parte "de baixo"). Seu peito, e toda parte inferior do corpo, tal como a área interna das asas são de cor branca, podendo também apresentar-se na cor branco-acinzentado ou branco amarelado. A plumagem é suave e densa, com delicadas extremidades nas asas para abafar o som produzido pelas mesmas ao se moverem. As asas são redondas nas bordas e tem curvatura bastante suave, medem em média 107 cm em membros adultos. As linhas lacrimais seguem dos olhos até o bico. Bico tem forma de gancho para dilacerar carne. O pescoço tem área de "giro" de 270° para compensar o fato de seus olhos serem imóveis, elas costumam balançar a cabeça da esquerda para a direita quando estão curiosas ou analisando o ambiente, pois assim elas aumentam a área que visualizam e podem visualizar as imagens tridimensionalmente. A cauda é utilizada como estabilizador durante o bote. As pernas longas e poderosas amortecem o impacto das aterrisagens e estão cobertas de penas brancas até o tarso, onde geralmente não há abundância de penas. Os ouvidos assimétricos permitem localizar as presas no escuro pois sua capacidade auditiva lhe permite diferenciar o tempo que o som chega em cada ouvido, os grandes discos faciais atuam como uma antena nesse complexo sistema auditivo, recolhendo sons o canalizando-os para os ouvidos.
Tem excelente visão noturna. Possui a capacidade de distinguir na escuridão a uma altura de 10 metros qualquer coisa que se movimente no solo. Possui a visão cem vezes melhor que a dos homens e necessita de apenas 10 por cento da luz que o olho humano usa para distinguir alguma coisa. Isso pode ser explicado por ela ter olhos enormes em relação ao seu tamanho, e a forma alongada (ao contrário do esférico sistema ótico humano) se alarga em direção à retina, abrindo espaço entre a pupila e o cristalino.
Comportamento É uma ave naturalmente noturna e, frequentemente, apresenta alguma atividade crepuscular. Corujas-das-torres encontradas em atividade durante o dia estão geralmente famintas ou buscando alimento para sua ninhada. Permanecem durante o dia em fendas de árvores, cavidades de rochedos, forros ou sótãos de casas, torres de igreja, etc. Costumam banhar-se em poças d'água e pequenos córregos. Seu voo extremamente silencioso dá-se devido à sua adaptação a caças noturnas: sua aproximação não é identificada pela presa, que é facilmente capturada. São encontradas solitárias ou aos pares. Geralmente são sedentárias, não saindo de uma região depois de instaladas. O seu território possui um raio de 7400 m, em média.
Voz A sua vocalização é um grito rouco, que se assemelha ao ruído de tecido sendo rasgado.Chamamento típico Apresenta um piar agudo quando se fere ou machuca, que também é vocalizado repetidas vezes para o acasalamento.Chamamento de acasalamento Se surpreendida no seu esconderijo ou empoleirada, começa então a repetidas vezes reproduzir um som de estalar, chocando sua língua ao bico. As crias emitem um som de pedido como de um ressonar ruidoso.Som de pedido de crias
Alimentação thumb|Crânio As corujas-das-torres são animais noturnos altamente dotados para caçar pequenas aves, invertebrados, roedores, pequenos lagartos e anfíbios. A sua principal ferramenta de caça é a sua aguçada audição que lhes permite ouvir sons e definir a posição da presa na escuridão total. Voam baixo, assim elas escutam os movimentos de suas presas e identificam facilmente obstáculos próximos pelo eco de seu quase inaudível bater de asas. A coruja posiciona as pernas para a frente, estica suas garras afiadas, posicionando 3 garras para frente e uma para trás, para apanhar a sua presa: os invertebrados, elas costumam comer vivos e inteiros, enquanto que pequenos vertebrados são mortos por asfixia, apertando fortemente as garras contra o peito deles. Suas presas são geralmente engolidas inteiras, presas muito grandes são desmembradas ou então arrancando pequenos pedaços e comendo-os, também não é raro encontrar corujas-das-torres comendo presas pequenas por partes ou arrancando pequenos pedaços delas antes de engolir o resto de uma única vez. Acredita-se que façam isso para saborear a carne e o sangue, aparentemente a bílis não lhes é desagradável apesar do forte odor, esse raro hábito alimentar já foi identificado em alguns corujas-das-torres em cativeiro possuídas por falcoeiros brasileiros. Cerca de 8 a 10 horas mais tarde elas regurgitam uma única pelota de material que não conseguiu digerir, essa pelota úmida e preta (chamada de cast ou pellet em inglês) geralmente contém coisas como ossos, dentes, restos de carapaça de invertebrados, penas e pelos. Também é comum as corujas-das-torres nunca beberem água, sendo que elas retiram o líquido de que necessitam da carne que consomem.
Reprodução thumb|Tyto alba guttata - MHNT Quando as corujas-das-torres acasalam, tornam-se parceiros para a vida toda. Se reproduzem pelo menos uma vez ao ano em qualquer época, definido apenas pela quantidade de comida disponível em seu território. O macho inicia a corte chamando a fêmea, ele faz um voo de exibição, incluindo fortes batidas de asas. O par nidifica geralmente nos mesmos locais que usava anteriormente. A fêmea põe os ovos em uma cavidade escura e os incuba. Cada ovo é posto com 2 ou 3 dias de diferença para que choquem em tempos diferentes. Os progenitores estão sempre caçando em turnos, evitando deixar a prole sozinha, quando isso ocorre a chance de que seus filhotes sejam atacados por corvos ou outros predadores é grande. As crias mais velhas são alimentadas primeiro e por vezes as mais novas morrem de fome, as mais velhas comem então as suas irmãs já mortas, assegurando a sua sobrevivência. As Tyto albas/Tyto furcata ganham peso até o quinto ou sexto mês de vida, quando começam a gradualmente perder peso e reduzir seu apetite, a coruja é quase adulta.
Predadores e parasitas direita|miniaturadaimagem|Três filhotes de coruja-das-torres ameaçando um invasor Entre os predadores da coruja de celeiro encontram-se o grande gambá americanos (Didelphis), o guaxinim comum e mamíferos carnívoros semelhantes, assim como águias, falcões e outras corujas. Entre as últimas, a coruja-do-mato (Bubo virginianus), nas Américas, e a coruja-real-asiática (B. bubo) são notáveis predadores de corujas-das-torres. Apesar de algumas fontes afirmarem que há pouca evidência de predação por corujas-grandes, um estudo de Washington descobriu que 10,9% da dieta da corujas-grandes locais era composta de outras corujas.Marti, Carl D.; Poole, Alan F.; Bevier, L. R. (2005): "Barn Owl (Tyto alba)" The Birds of North America Online (A. Poole, Ed.). Na África, os principais predadores das corujas-das-torres são as corujas-reais e as corujas-do-cabo.Steyn, P. (1983). Na Europa, embora menos perigosas do que as corujas-águia, os principais predadores diurnos são o açor do norte (Accipiter gentilis) e o minhoto (Buteo bute ). Cerca de 12 outras grandes aves de rapina diurnas e corujas também foram descritas como predadores de corujas de celeiro, desde o falcão do-tanoeiro até enormes águias carecas e águias douradas.Voous, K.H. 1988. O açor está aumentando em populações devido à maior proteção que essas aves agora recebem.
Quando perturbada em seu local de poleiro, uma coruja-das-torres zangada abaixa a cabeça e a balança de um lado para o outro, ou a cabeça pode ser abaixada e esticada para a frente e as asas estendidas e inclinadas enquanto a ave emite assobios e faz barulho de estalo com seu bico. Outra atitude defensiva envolve deitar no chão ou agachar-se com as asas abertas.Witherby (1943) pp. 343–347
As corujas-das-torres são hospedeiras de uma grande variedade de parasitas. As pulgas estão presentes nos locais de nidificação e, externamente, as aves são atacadas por piolhos e ácaros de penas que mastigam as bárbulas das penas e que são transferidos de ave para ave por contacto direto. Moscas sugadoras de sangue, como Ornithomyia avicularia, estão freqüentemente presentes, movendo-se entre a plumagem. Parasitas internos incluem o trematódeo Strigea strigis, a tênia Paruternia candelabraria, várias espécies de nematoides parasíticos, e vermes do filo Acanthocephala no gênero Centrorhynchus. Esses parasitas intestinais são adquiridos quando as aves se alimentam de presas infectadas. Há alguma indicação de que as aves fêmeas com mais e maiores manchas têm uma maior resistência aos parasitas externos. Isso está correlacionado com a menor bursa de Fabricius, glândulas associadas à produção de anticorpos, e uma menor fecundidade da mosca sanguessuga Carnus hemapterus, que ataca filhotes.
Tempo de vida alt=Captive bird landing|direita|miniaturadaimagem|Pousando na mão enluvada de um manipulador. Os pássaros em cativeiro costumam viver mais do que os selvagens Excepcionalmente para um animal carnívoro de tamanho médio, a coruja-das-torres é r estrategista, produzindo um grande número de filhotes com alta taxa de crescimento e baixa probabilidade de sobreviver até a idade adulta. Enquanto as corujas selvagens têm vida curta em média, o potencial de vida, ou longevidade, da espécie é muito maior. Indivíduos cativos podem chegar a 20 anos ou mais; uma coruja-das-torres cativa, na Inglaterra, viveu até os 25 anos. Ocasionalmente, uma selvagem atinge uma idade avançada. A idade recorde para uma coruja selvagem americana é de 11,5 anos, enquanto uma ave holandesa atingiu a idade de 17 anos e 10 meses. Levando em consideração esses indivíduos de vida extremamente longa, a média de vida da coruja-das-torres é de cerca de quatro anos e, estatisticamente, 2/3 a 3/4 de todos os adultos sobrevivem de um ano para o outro. Essa mortalitade não é distribuída uniformemente ao longo da vida da ave, e apenas um filhote em cada três sobrevive até a primeira tentativa de reprodução.