O Sítio Arqueológico de São Nicolau é um conjunto de ruínas remanescentes da redução jesuítica homônima, que fazia parte dos Sete Povos das Missões. Está localizado no município gaúcho de de mesmo nome.

História Os Trintas Povos das Missões, também referenciados como a "experiência missioneira platina", podem ser descritos como uma integração colonial realizada pelos jesuítas, com utilização de elementos dos ethos regionais guaranis, do catolicismo e redução em aldeias autóctones na região. Esse processo ocorreu entre os séculos XVII e XVIII em territórios atualmente pertencentes ao Rio Grande do Sul, Paraná, Paraguai, Argentina e Uruguai.

Nota: também é utilizado o termo "redução" para referir-se às Missões, por conta da cédula real do rei Filipe II, que exigiu a redução (com sentido de purificação) dos povos nativos.

Primeiro ciclo missioneiro Também conhecido como primeira fase reducional, esse ciclo missioneiro (1610-1640) foi marcado pela conversão dos povos nativos da região à fé católica. Entre os interesses envolvidos pode-se citar a defesa do expansionismo hispânico, transição do modo de vida indígena e evitar-se sua exploração por encomenderos espanhóis e apresamento por bandeirantes paulistas.

Nesse período foi fundado São Nicolau do Piratini, em 3 de maio de 1626, pelos padres Miguel de Ampuero e Roque Gonzalez. Embora tenha inicialmente prosperado, ultrapassando 2.500 almas, o assentamento foi atacado por bandeirantes, resultando em emigração e transferência da redução para Apósteles em 1638.

Vale ressaltar que dentro da historiografia há o debate se a formação historiográfica do Rio Grande do Sul se inicia em 1626 a partir da fundação de São Nicolau, a serviço da coroa espanhola, ou em 1737 com a construção do Forte Bom Jesus por Silva Paes, sob a coroa portuguesa.

Segundo ciclo missioneiro Também conhecido como Sete Povos das Missões, contou com as últimas das 30 reduções fundadas. Entre as características desse período estão o indígena já reduzido ao catolicismo (tendo ocorrido inclusive expulsão dos pajés dos assentamentos), uso da língua guarani, casas coletivas e uso de instituições hispânicas administrativas, como o cabildo, controlado pelos caciques. Já os meios de produção dividiam-se entre uma lógica comunitária (tupambaé) e uma particular para subsistência familiar (amambaé).

Além disso, o barroco europeu influenciou a pintura, teatro, música e arquitetura das reduções, com obras de indígenas e jesuítas sendo atribuídas ao estilo atualmente chamado barroco missioneiro. O urbanismo também seguiu do parentesco espanhol, com a igreja e praça sendo os principais espaços de socialização.

A redução de São Nicolau foi refundada em 2 de fevereiro de 1687, em local próximo ao assentamento original. Em seu primeiro ano contava com 3.000 almas, sendo em 1710 já 6.070 batizados. A redução contava com igreja, hospital, residência de padres e casas de indígenas, todas possuindo telhas. É dito que os guaranís dessa localidade eram os melhores escultores das Missões, além de terem desenvolvido outras atividades culturais como religião, música, canto, dança, teatro, desenho e pintura. O sítio arqueológico hoje existente corresponde às ruínas desse período.

Decadência e posterioridade Os Sete Povos das Missões viriam a se desestruturar a partir das disputas que decorreram do Tratado de Madrid (1750), que decretou a troca da Colônia de Sacramento portuguesa pelos Sete Povos que eram até então possessão hispânica.Tratado de Madrid - Artigo XVI

Das Povoações ou Aldeias, que cede S. M. C. na margem Oriental do rio Uruguai, sairão os Missionários com todos os móveis, e efeitos, levando consigo os Índios para os aldear em outras terras de Espanha; e os referidos Índios poderão levar também todos os seus bens móveis e semoventes, e as Armas, Pólvora, e Munições, que tiverem; em cuja forma se entregarão as Povoações à Coroa de Portugal com todas as suas Casas, Igrejas e Edifícios, e a propriedade, e posse do Terreno. (...)Os povos missioneiros se recusaram a efetuar a troca e estourou a Guerra Guaranítica (1754-1756), que levou à morte um considerável contingente dos guaranis da região. Posteriormente, em 1759, houve a expulsão dos jesuítas das colônias portuguesas, seguida pela expulsão das colônias hispânicas, o que contribuiu para um cenário de pobreza e desorganização na região das missões. O território continuou sendo disputado entre os lusos e hispânicos até 1801, quando trocou de lado pela última vez, para as mãos dos portugueses. Já ao longo do século XIX, viajantes relataram presença indígena próxima às ruínas, embora pequena. Conflitos com imigrantes viriam a ocorrer também no final do século por disputa de terras.

Em seu diário de viagem ao Rio Grande do Sul (1820-1821), o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire relata a presença de brancos e indígenas pela região, saques feitos por soldados e inclusive sua visita à Aldeia de São Nicolau. Lá ele relata casas em ruínas e poucos moradores, atribuindo a decadência à invasão dos gaúchos em abril de 1819, que levou a destruição, fuga de moradores e recrutamento dos jovens, não havendo mais que duas dúzias de casas habitadas quando passou. Das construções viu a igreja, que descreveu em detalhes, localizada em uma praça cercada de casas, um convento com um edifício para artífices, um pomar murado, cemitério, capela, casas caiadas e um hospital inutilizado. Já sobre a população descreveu haver 25 indígenas velhos morando com suas mulheres, um cura, um mestre-escola guarani que ensinava uma dúzia de crianças, o administrador e um português que tratava doentes com plantas da região, mas não mencionou o número de moradores não indígenas. Em termos administrativos, mencionou o cabildo, com os principais cargos sendo de capitão co-regedor, tenente co-regedor, alcaide e escrivão.

A atual cidade de São Nicolau conta com 5.118 habitantes segundo o censo de 2022, tendo sendo construída sobre os remanescentes da Redução de São Nicolau e conservando parte de suas ruínas.

Arqueologia e conservação As primeiras prospecções arqueológicas registradas no sítio de São Nicolau datam do fim dos anos 50, efetuadas pelo padre Luís Gonzaga Jaeger do Instituto Anchietano de Pesquisas, embora não tenha utilizado metodologia específica. Porém essa atividade é considerada como tendo sido de interesse particular, sem ter ocorrido publicação de trabalho acadêmico acerca.

O primeiro estudo arqueológico rigoroso é atribuído a José Proenza Brochado, ligado a PUCRS, Danilo Lazzarotto e Rolf Steinmetzda da Fundação de Integração Desenvolvimento e Educação do Noroeste do Estado do RS (FIDENE-RS), transcorrido entre 1967 e 1969. Todavia, foi relatado que o estudo estava restrito à cerâmica e considerações tecnológicas sobre.

Em 1970 o sítio foi tombado e adquirido pelo SPHAN (atual Iphan).

Na década de 1970 ocorreram escavações organizadas por José Saia, representante do SPHAN, que buscavam compreender o alcance dos remanescentes arqueológicos. Todavia, posteriormente foram relatados equívocos metodológicos dessa fase.

Já a partir do final da década (1979-1981) o arqueólogo Fernando La Salvia coordenou escavações decorrentes de um convênio entre o SPHAN e a Subsecretaria de Cultura, Desportos e Turismo do Governo do Estado. O espaço escavado foi de aproximadamente 4.500m2, a maior escavação até então no estado. Ademais, se passou no centro da cidade, que se apropriara do espaço arqueológico, ao ponto que a praça atual seguia os contornos da redução antes existente.

Foram escavadas estruturas da igreja, colégio, hospital, adega, sistema de esgotos situado nos fundos da igreja e cabildo, entre as quais os afloramentos de um muro que deveria circundar o conjunto colégio-convento, pisos, oito bases de colunas e também um espaço subterrâneo, referido como adega, que era utilizado para conservação de alimentos.

Nos relatórios ambém é citada uma pia batismal em perfeito estado de conservação, hoje exposta no museu do município. Todavia, a falta de atitudes para estabilização e conservação levaram a um dano muito grande à área, o que posteriormente levou à realização de um projeto de proteção do patrimônio arqueológico missioneiro, patrocinada pelas Fundação Nacional Pró-Memória, pela Secretaria de Cultura, Desporto e Turismo do Rio Grande do Sul e por La Salvia. Outros projetos para melhor conservação do patrimônio das Missões viriam a ser realizados nas décas de 80 e 90.

Entre 2003 e 2008 foram feitas obras de consolidação básica de estruturas, instalação de placas e passarelas.

Acerca dos materiais das construções, pode-se citar:"(...) o arenito, empregados nas construções em trabalhos de cantaria; o itacuru, para as fundações; a argila vermelha local, nas olarias missioneiras, para a execução de tijolos, pisos cerâmicos e telhas; a tabatinga, usada como tinta para branquear as construções; e o ñau, tipo de barro usado para assentar telhas."

Atualidade Atualmente o local preserva o piso original, parte das paredes externas em pedras de arenito, parte de suas colunas de sustentação, alicerce, altar-mor; os remanescentes do Cabildo, a adega e o sistema de esgoto da redução.

Próximo ao sítio encontra-se a "Sala de Exposição - Fragmentos de uma Civilização", que guarda uma exposição organizada em 1988 pela arqueológa Vera Thadeu, voltada para a arte guaranítica e que contém objetos retirados das escavações de 1979.

Na cidade há também o Sobrado da Família Silva, erguido em 1903 com pedras da antiga redução. Lá ocorreram recepções e festividades, além de encontros que vieram a culminar na Coluna Prestes. Em 2004 foi tombado como patrimônio municipal e em 2013 como patrimônio histórico cultural do Rio Grande do Sul. Outra construção que reutilizou materiais da redução é a Casa de Pedra, tombada como Patrimônio Histórico do Estado pelo IPHAE.

O Sítio Arqueológico de São Nicolau, juntamente com os sítios de São Miguel Arcanjo, São João Batista e São Lourenço Mártir, todos situados no Rio Grande do Sul e que antes integravam as reduções dos Setes Povos das Missões, estão hoje sob a proteção do Governo Federal e são reconhecidos como Patrimônio Nacional. Além disso, desde 2009 pertence ao Parque Histórico Nacional das Missões.

Ligações externas

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