thumb|Negros forros de Porto Alegre em 1884. Cultura afro-gaúcha se refere à história, atributos, valores e especificidades da cultura afro-brasileira no estado do Rio Grande do Sul.
Os negros chegaram ao estado como escravos no início do século XVIII. Nos primeiros tempos foram empregados principalmente nas charqueadas, mas logo passaram atuar em uma variedade de ofícios braçais no campo e nas cidades, participando decisivamente da consolidação da economia regional, além de desempenharem papel relevante em operações militares. Mas submetidos a frequentes maus tratos, vistos como simples mercadoria e como força de trabalho que podia ser superexplorada, sua vida em geral era miserável. Depois da abolição da escravatura em 1888, começaram um lento processo de recuperação da sua dignidade e de valorização das suas origens e costumes, processo muito dificultado pelo grande preconceito que existiu e ainda existe contra os afrodescendentes.
A partir da década de 1970, quando o combate à discriminação racial passou a ganhar mais visibilidade e força política, sua cultura e história começaram a ser estudadas pelas academias. Sendo uma área de pesquisa recente, ainda há muitos aspectos mal conhecidos, e suas especificidades ainda são mal delimitadas. Porém, ao contrário do que rezavam mitos construídos pela historiografia mais antiga, já foi possível estabelecer que a presença negra no estado foi significativa desde o início, embora permaneça como uma etnia minoritária. Da mesma forma, a cultura desenvolvida pelos afrodescendentes no Rio Grande do Sul não foi inexpressiva como se costumava alegar. Ao contrário, floresce há muito tempo com muito vigor e diversidade, dando uma contribuição importante para a formação da cultura e da sociedade estadual, mas foi e ainda permanece menosprezada. Por outro lado, o movimento negro gaúcho tem conseguido ganhar crescente espaço e tem feito importantes conquistas em múltiplos níveis, que estimulam o debate, contribuem para a formação de uma nova consciência coletiva e sedimentam uma cultura que se diferencia de outras expressões afro do Brasil, mas mantém ligações com elas.
A presença negra no Rio Grande do Sul thumb|esquerda|190px|Escravo conduzindo uma tropa de mulas na província de Rio Grande, em aquarela de Debret. thumb|esquerda|190px|Charqueadas gaúchas em aquarela de Debret. thumb|left|190px|Retrato de um Lanceiro Negro, óleo de Juan Manuel Blanes.
Como parte do antigo Reino de Portugal e depois do Império do Brasil, o Rio Grande do Sul compartilhou com as outras partes do país a cultura escravocrata introduzida desde os primeiros tempos da colonização portuguesa. A presença de escravos negros é atestada no estado desde o início do século XVIII, quando o território começou a ser conquistado à Espanha, que primitivamente era senhora dessas terras por força do Tratado de Tordesilhas. Entre 1725 e 1727 um grupo liderado pelo português João de Magalhães, composto em sua maioria de escravos, foi incumbido de proteger a barra da Lagoa dos Patos em Rio Grande, fundar um registro para cobrança de taxas sobre o gado destinado a Laguna e fazer alianças com os indígenas. Em 1727 o sargento-mor Francisco de Souza Faria abriu com a ajuda de escravos um caminho pela Serra do Nordeste para facilitar a passagem de gado do sul para os mercados do centro do país. Participaram também da expedição comandada pelo brigadeiro José da Silva Pais para fundar o Forte Jesus, Maria, José em 1737, na Barra de Rio Grande. 190 escravos acompanharam o Exército Demarcador, encarregado de implantar as determinações territoriais estabelecidas pelo Tratado de Madri de 1750, e outros chegaram junto com os povoadores açorianos. Porém, é provável que tenham aparecido bem antes, junto com as expedições exploradoras de bandeirantes e tropeiros que ocorriam desde o século XVII.Bento, Cláudio Moreira. O negro e descendentes na sociedade do Rio Grande do Sul (1635-1975). Instituto Estadual do Livro, 1976, pp. 51-75
No século XVIII os escravos foram empregados principalmente nas estâncias de criação de gado que foram sendo fundadas.Cruz, Roberto Jair Bastos da. "Marcas Identitárias Africanas no Rio Grande do Sul Através da Escravidão". In: Revista Diálogos, 2016; 18b (3). Número Especial Em 1780 foram registrados 5.102 escravos no estado, cerca de 29% da população total, não incluindo os forros. A partir da primeira década do século XIX sua presença mais que dobrou, quando a cultura das charqueadas ganhava corpo como a principal atividade econômica da então província e exigia maior mão-de-obra. Segundo Gitibá Faustino, "a exploração do ouro em Minas Gerais, no século XVIII, teve importância fundamental no desenvolvimento das charqueadas gaúchas, que se transformaram na fonte abastecedora de carne para a região aurífera". Faustino, Gitibá Guichard. "O Negro Gaúcho e suas origens". In.: Triumpho, Vera et alii (eds.). Rio Grande do Sul: Aspectos da Negritude. Martins Livreiro, 1991, pp. 97-103
Grande parte dos africanos escravizados vinha do Rio de Janeiro, entrando pelo porto de Rio Grande. Segundo Gabriel Berute, 71% deles eram capturados na África Centro-Ocidental (principalmente Benguela e Angola); 26% na África Ocidental e o restante da África Oriental. A maioria era de pessoas adultas do sexo masculino. Na década de 1830 o tráfico negreiro começou a sofrer progressivas restrições, mas há evidências de que continuou de forma clandestina, embora minimizado. Neste século sua presença é registrada também na região das Missões e na região do Vale do Rio dos Sinos, e já eram numerosos nos maiores centros urbanos (Porto Alegre, Rio Grande, Pelotas), desempenhando diversas funções e ofícios, mas sua maior concentração permanecia no campo, ligados às atividades agropecuárias e charqueadoras.Xavier, Regina Célia Lima. "A escravidão no Brasil Meridional e os desafios historiográficos". In: Silva, Gilberto Ferreira da; Santos, José Antônio dos; Carneiro, Luiz Carlos da Cunha (orgs.). RS Negro: cartografias sobre a produção do conhecimento. EDIPUCRS, 2009, pp. 15-31
Eram sempre requisitados em tempo de guerra, e há muitos registros atestando sua bravura. Durante a Revolução Farroupilha (1835-1845), quando compunham mais de um terço das forças revoltosas, junto com mestiços, indígenas e escravos fugitivos do Uruguai, desempenharam papel relevante, destacando-se especialmente os Lanceiros Negros, batalhões formados por forros, que foram dizimados no Massacre de Porongos, um episódio que se tornou emblemático e que tem alimentado uma extensa polêmica.Oliveira, Vinicius Pereira de & Carvalho, Daniela Vallandro de. "Os lanceiros Francisco Cabinda, João aleijado, preto Antonio e outros personagens negros da Guerra dos Farrapos". In: Silva, Gilberto Ferreira da; Santos, José Antônio dos; Carneiro, Luiz Carlos da Cunha (orgs.). RS Negro: cartografias sobre a produção do conhecimento. EDIPUCRS, 2009, pp. 63-82 Carvalho, Comin de & Paula, Ana. "O memorial dos lanceiros negros: disputas simbólicas, configurações de identidades e relações interétnicas no Sul do Brasil". In: Sociedade e Cultura, 2005; 8 (2) Começava a se formar também uma considerável população mestiça. O contingente negro e mestiço formado no estado foi grande: no censo de 1814 havia mais não-brancos que brancos; na abolição da escravatura em 1888, o estado era o sexto do país em número de escravos. Em Pelotas, por exemplo, os negros e pardos perfaziam 30,7% da população, e em Rio Grande, 27,4%.Loner, Beatriz Ana. "A rede associativa negra em Pelotas e Rio Grande". In: Silva, Gilberto Ferreira da; Santos, José Antônio dos; Carneiro, Luiz Carlos da Cunha (orgs.). RS Negro: cartografias sobre a produção do conhecimento. EDIPUCRS, 2009, pp. 246-261 Essa força de trabalho foi a responsável por grande parte do processo de emancipação econômica do estado, principalmente pela sua maciça presença nas charqueadas, que até fins do século XIX foram a maior fonte de divisas.Cunha, João Flores da. "O negro no Rio Grande do Sul: uma história de omissão e esquecimento". In: Revista do Instituto Humanitas — Unisinos, 19/11/2016 Oro, Ari. "Religiões Afro-Brasileiras do Rio Grande do Sul: Passado e Presente". In: Estudos Afro-Asiáticos, 2002; 24 (2) Atualmente os afrodescendentes compõem cerca de 20% da população gaúcha e têm contribuído de maneira significativa em múltiplas áreas da cultura e sociedade.
Florescimento cultural thumb|Negros do Rio Grande do Sul em 1851, aquarela de Herrmann Wendroth.
Foi nas cidades, especialmente em Porto Alegre, que os negros começaram a ensaiar formas de resistência ao domínio branco, e os quilombos, formados com escravos fugidos, teriam um papel importante na preservação da sua história, cultura e identidade e nas lutas pela liberdade.Cogo, Denise (coord.). "As lutas por liberdade e os quilombos". In: Revista RS Negro, 2010, (número único):6-7. Projeto RS Negro: Educando para a Diversidade, PUCRS. Alguns indivíduos começaram a acumular algum modestíssimo patrimônio, por exemplo, quando eram escravos "de ganho", alugados a terceiros para prestação de serviços mas podendo guardar uma pequena parte dos lucros. Uma pesquisa de Paulo Roberto Moreira mostrou que no século XIX foram concedidas mais de dez mil alforrias em Porto Alegre, e cerca de 37% delas foram pagas pelos próprios escravos, mas somente 19,23% foram gratuitas, ou seja, não impunham nenhum vínculo condicionante ou obrigação. A grande maioria exigia trabalho até a morte do senhor, ou por algum período determinado antes de ser efetivada.
Alguns também conquistavam algum reconhecimento social, especialmente os forros, que podiam se dedicar a ofícios independentes com competência e sofriam um preconceito ligeiramente menor. É de notar o caso de Inácio José Filgueira, mulato que comprou sua alforria e pôde ocupar por muitos anos, no início do século XIX, a alta posição de mestre de capela da Antiga Matriz de Porto Alegre, mas, tipicamente, não sem enfrentar constante oposição.Lucas, Maria Elizabeth. "De escravo-peão a mestre de música: uma trajetória entre preconceito e cidadania na ordem escravagista da virada do século XIX". In: 8° Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Porto Alegre, 24-27/05/2017 Estudando o caso de Pelotas, mas refletindo uma realidade geral, Beatriz Loner disse:
"Praticamente não houve profissão manual que não tivesse representantes dessa etnia em seu desempenho, tanto no período imperial quanto na República. [...] Havia muitos trabalhadores especializados entre eles, operários artesãos que exerciam suas atividades no meio urbano, como assalariados ou donos de pequenas oficinas. [...] A quantidade de negros urbanos e livres, na última década do Império, era de tal ordem que permitiu fossem criadas duas entidades de artesãos majoritariamente negros na cidade, sendo que a primeira delas, criada em 1880, contava com cerca de 40 integrantes, quando de sua fundação, todos livres".Loner, Beatriz Ana. "Negros: Organização e Luta em Pelotas". In: História em Revista, 1999; (5):7-28 thumb|esquerda|Danças negras, registro de 1851, aquarela de Herrmann Wendroth