Cuidados aloparentais são prestados por indivíduos que não sejam os progenitores diretos. Estes cuidados incluem comportamentos como abraçar, catar, transportar e cuidar, podendo ser influenciados por fatores como a idade da cria, relação entre o aloparente e a mãe, e a idade e experiência reprodutora da alomãe.Guerra, R. F. 2000. Mães, filhotes e uma análise dos custos do cuidado parental. A Primatologia no Brasil, 7: 107-149.Wang, Z. & Novak, M. A. 1994. Alloparental care and influence of father presence on juvenile praire voles (Microtus ochrogaster). Anim. Behav., 47: 281-288.

Termo O termo foi usado pela primeira vez por Edward O. Wilson em 1975, em seu livro Sociobiology.Rowell, T. E.; Hinde, R. A.; Spencer-Booth, Y. (1964). ""Aunt"-infant interaction in captive rhesus monkeys". Animal Behaviour. 12: 219–226| https://doi.org/10.1016/0003-3472(64)90004-1 Porém, interações entre crias e outros indivíduos do grupo que não os progenitores têm sido dados diferentes nomes, na sua maioria termos em inglês, entre os quais "tia" (do inglês aunting), "compartilhamento infantil" (do inglês infant sharing), "comportamento alomaternal" (do inglês allomaternal behaviour) e "alento" (do inglês allomothering).Maestripieri, D. (1994a). Social Structure, infant handling and mothering styles in group-living old world monkeys. International Journal of Primatology. 15: 531 – 553.

Como se pode notar pela variedade de nomes utilizados na literatura, as interações entre crias e outros indivíduos pode tomar várias formas, que vão desde comportamentos de natureza claramente benigna, como o transporte ou a amamentação da cria, formas aparentemente neutras, como tocar, cheirar e inspecionar, até formas claramente negativas como o rapto ou puxar e arrastar.Hrdy, S.B. (1976). Care and Exploitation of Nonhuman Primate Infants by Conspecifics other than the Mother. In Advances in the Study of Behavior, Vol. 6. pp. 101-158. Entretanto, as consequências para a cria, para a mãe e para o manipulador nem sempre são claras e um comportamento inofensivo como o tocar ou cheirar pode ser prejudicial à cria e/ou mãe se, por exemplo, for indutora de algum tipo de stress.

Apesar de os termos mais frequentemente encontrados na literatura serem esses, estas denominações sugerem uma relação entre interações com crias e cuidado às crias, o que nem sempre é verdade.Wasser, S. K. & Barash, D. P. (1981). Reproductive suppression among female mammals: implications for biomedicine and sexual selection theory. Quarterly Review of Biology, 58, 513-538. Portanto, o nome utilizado para descrever interações entre crias e indivíduos que não sejam os progenitores deve ser o mais neutro possível, sendo "manuseio infantil" (do inglês infant handiling) o termo mais apropriado, segundo Mastripieri.

Evolução Existem várias teorias para os comportamentos aloparentais, como na existência de algum grau de parentesco, a alomãe pode assim aumentar a probabilidade de os genes que partilha com a cria serem passados a gerações futuras. Os cuidados aloparentais podem aumentar as hipóteses de o aloparente vir também a cuidar das suas crias no futuro, tendo mais experiência, e os aloparentes podem fornecer cuidados a crias cujas mães podem ajudá-las no futuro. As interações entre crias e indivíduos que não os pais representam um fenômeno complexo e sua natureza diferente torna pouco provável a adequação de apenas uma explicação funcional uma vez que vários processos poderão ter moldado a evolução das interações aloparentais.Silk, J.B. (1999). Why are infants so atractive to others? The form and function of intant handling in bannet macaques. Animal Behaviour, 57, 1021-1032.https://doi.org/10.1006/anbe.1998.1065

Natureza das interações aloparentais Seleção de parentesco

As interações aloparentais podem ter sido favorecidas pela seleção de parentesco,Riedman, M.L. 1982. The evolution of alloparental care and adoption in mammals and birds. Q. Rev. Biol. 57: 405-435|https://eurekamag.com/research/001/137/001137763.php caso estas aumentem o sucesso reprodutivo das mães através do aumento das hipóteses de sobrevivência de suas crias, tempo acrescido para se alimentarem e socializarem e/ou diminuição do tempo entre partos. De acordo com esta hipótese, em chacais, hienas e cães selvagens os cuidados são dirigidos a crias com grau de parentesco próximoMoehlman, P. D. (1980). Jackals of the Serengeti. National Geographic, 158, 840-850. e em grupos de Callitrichidae os ajudantes são muitas vezes parentes, podendo assim aumentar a sua adaptação inclusiva. Vale lembrar, que nesse tipo de interação,os aloparentes são aparentados diretamente com os pais da cria em questão. Goldizen, A. W. (1987). Tamarins and marmosets: Communal care of offspring. In B. B. Smuts, D. L. Cheney, R.M. Seyfarth, R. W. Wrangham & T. T. Struhsaker (Eds.), Primate societies (pp. 34-43). Chicago: University of Chicago Press. https://doi.org/10.1016/0376-6357(93)90133-C

Altruísmo recíproco

O cuidado aloparental pode também ser uma forma de altruísmo recíproco como parece ser o caso em algumas espécies de SuricatasRood, J. P. (1978). Dwarf mongoose helpers at the den. Zeitschrift-fuer-Tiepsychologie, 48, 277-287. https://doi.org/10.1111/j.1439-0310.1978.tb00260.x e em leões,Parker, C. & Pusey. A. (1984). Infanticide in carnivores. In G. Hausfater & S. B. Hrdy (Eds.), Infanticide in animals and man; Comparative and evolutionary perspectives (pp.31-42). New York: Aldine. em que os prestadores dos cuidados recebem ajuda na criação da sua própria descendência.

Todas as classes de sexo e idade participam no manuseio infantil, embora a frequência e a natureza destas interações assim como as motivações prováveis destes indivíduos possam ser muito diferentes. Entre as espécies de primatas do Velho Mundo, apesar de em alguns casos se observarem o manuseio de crias por machos, este ocorre a taxas muito inferiores ao realizado por fêmeas. Em fêmeas de espécies paleotropicais o interesse em crias aparece cedo, antes da maturidade e persiste durante toda a vida.Maestripieri, D. (1994b). Influence infants on female social relationships in monkeys. Folla Primatologica, 63, 192-202. https://doi.org/10.1159/000156819 Por exemplo, as fêmeas de langures iniciam o manuseio de crias muito cedo, aos três meses de idade.

No gênero Macaca as fêmeas iniciam o manuseamento de crias com apenas alguns meses de idade e a partir do primeiro ano de vida podem notar-se já diferenças entre sexos, com as fêmeas muito mais envolvidas nesta atividade do que os machos.Lovejoy, J. and Wallen, K. (1988). Sexually dimorphic behaviour in group-housed rhesus monkeys (Macaca mulata) at 1 year of age. Psychobiology, 16, 348-356. https://doi.org/10.3758/BF03327332 Sabe-se ainda que fêmeas de macacos vervet de idade avançada possuam um papel importante no estabelecimento e manutenção de relações com os seus reinos.Fairbanks, L. A. (1988). Vervet monkey grandmothers: Interactions with infant gradoffspring. International Journal of Primatology, 9, 425-441.

Não adaptativa ou da atração natal

As diferenças entre machos e fêmeas na atração a crias pode dever-se a predisposições genéticas e hormonais para o cuidado materno.Coe, C. L. (1990). Psychobiology of maternal behaviour in nonhuman primates. In N. A. Krasnegor & R. S. Bridges (Eds.), Mammalian parenting (pp. 157-183). Oxford: Oxford University Press. Estímulos tais como o tamanho da cria quando do nascimento, as suas características morfológicas e os seus padrões motores, pode ser uma coevolução, com a receptividade materna a crias e contribuírem para a formação de um laço forte entre a mãe e a cria.

A alta receptividade a crias pode assegurar que as fêmeas serão boas mães. Segundo este ponto de vista o interesse das fêmeas por crias não aparentadas poderá ser uma extensão do interesse nas suas próprias crias Quiatt, D. 1979. Aunts and mothers: adaptive implications of allomaternal behavior of nonhuman primates. American Anthropologist. 81: 310 – 319. https://doi.org/10.1525/aa.1979.81.2.02a00040 e uma grande parte do manuseio de crias poderá não ter qualquer função específica ou valor adaptativo – hipótese não adaptativa ou da “atração natal”. Se o interesse das fêmeas por crias constituir uma extensão do comportamento maternal, então se espera que as interações com as crias sejam de natureza benigna, e que o interesse nas crias seja maiores quanto mais jovens estas sejam, uma vez que este é o período de maior dependência da mãe.Silk, J. B. (2003). Natal attraction in adult female baboons (Papio cynocephalus ursinus) in the Moremi Reserve, Botswana. Ethology, 109, 627-644. https://doi.org/10.1046/j.1439-0310.2003.00907.x

Existem evidências de que, de fato, os recém-nascidos são os mais atraentes, e que a atração das fêmeas pelas crias decresce com a idade destas. Por exemplo, dados recolhidos de um grupo de babuínos, Papio cynocephalus, na reserva Moremi no Botswana, obtiveram que as crias foram mais atrativas quando eram mais jovens. Além disso, as fêmeas foram mais fortemente atraídas a crias de outras fêmeas quando elas próprias tinham também crias jovens, e o seu interesse nas outras crias decresceu à medida que as suas próprias crias amadureceram. As fêmeas pareceram ser igualmente atraídas a todas as crias, mas ter maior acesso às crias aparentadas ou de fêmeas subordinadas. As fêmeas quase sempre emitiram vocalizações conhecidas por “grunts” quando manusearam as crias.

Como em outros contextos os “grunts” são um sinal seguro de que um comportamento não agressivo se vai seguir, estas interações não foram de natureza negativa. Embora, esta hipótese explique as diferenças entre sexos na atração a crias e na frequência do manuseio, não explica porque é que as fêmeas juvenis de muitas espécies são os manipuladores mais frequentes, ou seja, porque é que esta atração não aparece apenas na idade reprodutora sendo ativada, por exemplo, por mecanismos fisiológicos relacionados com a gravidez e o parto. De fato existem dados que apontam nesse sentido, refere que as alterações endócrinas produzidas durante a gravidez e o aleitamento estão associadas a um maior nível de resposta a criasMaestripieri, D. & Zehr, J. L. (1998). Maternal responsiveness increases during pregnancy and after estrogen treatment in macaques. Hormones Behav-,34, 223-230. https://doi.org/10.1006/hbeh.1998.1470 e fêmeas desse gênero em aleitamento manuseiam mais a crias de outras fêmeas do que fêmeas que não estão a amamentar.Maestripieri, D. & Wallen, K. (1995). Interest in infants varies with reproductive condition in group-living feale pigtail macaques (Macaca nemestrina). Physiologu and Behaviour, 57, 353-358. https://doi.org/10.1016/0031-9384(94)00222-QPaul, A & Kuester, J. (1996). Infant handling by female Barbary macaques (Macaca sylvanus) at Affenberg Salem: Testing functional and evolutionary hypothesis. Behavioural Ecology and Sociobiology, 39, 133-145. https://doi.org/10.1007/s002650050275

Aprendendo com a mãe

O aparecimento cedo por interesse em crias na vida de uma fêmea pode ser adaptativo em todas as espécies em que a cria é dependente da mãe por um longo período de tempo e em que o comportamento materno é aprendido através da observação e prática - a hipótese “aprendendo com a mãe”.Lancaster, J.B. (1971). Play-mothering: The relations between juvenile females and Young infats among free-ranging vervet monkeys (Cercopithecus aethipos). Folie Primatologica 13, 161-182.