A língua kaiowá (tavyterã ñe'ẽ), também conhecida como guarani-kaiowá, é uma língua indígena pertencente ao ramo guarani da família tupi-guarani. Ela é falada principalmente no Mato Grosso do Sul e na Fronteira Brasil–Paraguai.
Segundo o censo do IBGE em 2022, cerca de 38,6 mil brasileiros declararam falar a língua, sendo praticamente toda a população Guarani-Kaiowá local. O II Censo Nacional de Poblacion y Viviendas indica também aproximadamente 15 mil falantes no Paraguai e pesquisas linguísticas registram cerca de 510 na Argentina. Apesar do povo Guarani-Kaiowá enfrentar ataques e perseguições devido a conflitos territoriais, a sua língua se encontra ativa e foi adotada como cooficial no município de Amambai em 2024, assim mantendo-se viva e em processo de valorização.
O kaiowá tem origem Guarani que remonta às florestas tropicais das bacias do Alto Paraná e Alto Uruguai. No século XVI, durante a chegada dos colonizadores, povos Guarani já se encontravam amplamente espalhados pelo sul e interior da América do Sul. Porém, o contato intenso com o português e o espanhol levou ao deslocamento territorial e influências socioculturais profundas nos modos de vida dos povos Guarani-Kaiowá. Atualmente presente ao longo dos rios Apa, Dourados e Ivinhema e em regiões próximas ao Mbarakaju e Jejui. Marcados pela resistência histórica à colonização, escravização e violência bandeirante, em 2019 ainda resistem ao avanço do garimpo, da mineração e do agronegócio em terras indígenas.
Escrita com o alfabeto latino, a língua kaiowá possui uma escrita bastante fonêmica, ou seja, existe forte correspondência entre os sons e as letras. Como em outras línguas tupi-guarani, a oralidade tradicional antecede a escrita formal. Logo, a escrita foi inicialmente desenvolvida com o auxílio de missionários e vem se desenvolvendo com linguistas e educadores. O kaiowá possui empréstimos e influências do português e espanhol e sua ordem básica documentada é Sujeito-Verbo-Objeto (SVO), embora haja certa flexibilidade sintática dependente do contexto discursivo, em que há o uso do Sujeito-Objeto-Verbo (SOV). Etimologia Foram documentados muitos nomes dados por europeus ou outros indígenas ao idioma dos Guarani-Kaiowá. O termo mais comum em português é kaiowá, dado possivelmente por missionários e linguistas. Ele tem origem no guarani ka’a ogua ou ka’agua (“da mata”). Em especial, ka’a significando “mata” e -gua sendo “de (lá)”. O sufixo -o em ka’a-o-gua sugere “grande" ou "densa” (mata alta). Essa denominação vem possivelmente da prática de “esconder-se” nas matas e lugares de difícil acesso, distanciando-se do branco e evitando o contato. Assim, etimologicamente kaiowá significa ka’a + ogua (“povo da mata [alta]”).
Os falantes geralmente referem-se à sua língua pelo termo genérico avañe’ẽ (“língua do povo”) em que ava significa “povo” e ñe’ẽ “fala" ou "palavra”. Além disso, o próprio povo Guarani-Kaiowá usa a autodenominação paĩ-tavyterã. Segundo fontes etnográficas, paĩ-tavyterã significa aproximadamente “habitante do povo (aldeia) da verdadeira terra futura” (do guarani távy-yvy-ete-rã). A forma reduzida tavyterã também é usada pelos falantes, por isso, de mesmo modo, é utilizado o termo tavyterã ñe'ẽ ("língua do povo tavyterã"). Em outras palavras, os Guarani-Kaiowá preferem associar seu nome a essa ideia de “povo do futuro verdadeiro”. Distribuição miniaturadaimagem|Registro da população Guarani-Kaiowá em Dourados, Mato Grosso do Sul (2007).|272x272pxO censo demográfico do IBGE (2022) registrou 50 mil pessoas pertencentes à etnia Guarani-Kaiowá, em sua maioria no Mato Grosso do Sul (44 mil pessoas). Na pesquisa, a língua kaiowá foi identificada como a segunda língua indígena mais falada no Brasil com cerca de 38,6 mil falantes. O II Censo Nacional de Poblacion y Viviendas aponta que há aproximadamente 15 mil falantes no Paraguai (2012), também há registros de cerca de 510 falantes na Argentina. A grande maioria dos falantes está localizada principalmente no Mato Grosso do Sul, especificamente na região frontal à fronteira com Paraguai. Contudo há também pequenas comunidades em áreas vizinhas do Paraguai e da província de Misiones, na Argentina.
Em geral, a língua é ensinada em casa e usada cotidianamente nas aldeias. Estima-se que a maioria dos Guarani-Kaiowá é bilíngue, falando kaiowá e português, e que a taxa de alfabetização entre eles é relativamente baixa. A Constituição Brasileira e leis de educação indígena garantem o uso escolar do kaiowá. Em Amambai (Mato Grosso do Sul), por exemplo, a lei municipal 2.905/2024 tornou o kaiowá língua cooficial, assegurando atendimentos e documentos públicos bilíngues. Esse mesmo município apoiou a recente tradução da Constituição Federal para o kaiowá, validada junto a comunidades locais.
Dialetos e línguas relacionadas A língua kaiowá é geneticamente próximo de outras variantes do guarani sul‐continental, fazendo parte do subgrupo I do tupi-guarani, que inclui os guaranis mbyá, nhandeva e o guarani paraguaio. Em alguns países, o kaiowá é chamado por nomes distintos: em espanhol-Guaraní brasileiro aparece também como caiová, cainguá, caiuá, etc., e no Paraguai costuma receber o nome Pai Tavyterã, um dos endônimos da língua.
Muitos linguistas classificam a língua kaiowá como sendo uma variedade do guarani, assim como nhandeva e mbyá. Os falantes dessas línguas compartilham alta inteligibilidade entre si. Estudos indicam que o kaiowá recebeu empréstimos de línguas vizinhas: cerca de 200 palavras do léxico atual vêm do espanhol, por contato histórico, e do português, por contato moderno, além de algumas do quéchua via espanhol.
Em resumo, o kaiowá preserva a estrutura gramatical típica do guarani (incluindo sufixos de tempo como -rã “futuro” e -kue “passado” no nome) mas absorve termos de contato com as culturas dominante.
História miniaturadaimagem|272x272px|Manifestação Guarani-Kaiowá na aldeia indígena de Ita'y, em Mato Grosso do Sul (2012).Os guaranis kaiowá são descendentes dos grupos guaranis das antigas missões jesuíticas do século XVII, das regiões do Itatín e do Guairá. Para escapar dos ataques de bandeirantes, eles migraram para o sul do atual Mato Grosso do Sul ainda no século XVII. Até meados do século XX, os kaiowá permaneceram em relativa reclusão nas matas do extremo sul de Mato Grosso do Sul e leste do Paraguai, mantendo a língua em usos tradicionais. Porém a partir da década de 1920, com a colonização intensiva e a expansão de fazendas, houve expulsão dessa população de terras indígenas. Em resposta, comunidades Guarani-Kaiowá formaram reservas e aldeias atuais.
Apesar do intenso contato e de políticas de integração no século XX, a língua sobreviveu como elemento central da cultura. Comparada ao guarani antigo (séculos XVII‑XVIII), o kaiowá moderno mantém muitos traços tradicionais como marcadores nominais de tempo, demonstrados na gramática recente mas também apresenta mudanças morfossintáticas decorrentes do isolamento relativo.
Documentação linguística Até o século XX a língua kaiowá não havia sido escrita de forma sistemática. Os primeiros registros de gramática e léxico são recentes. A atuação missionária foi responsável pelos primeiros registros da língua. Em 1961, a Doutora em Linguística e Antropologia Loraine Bridgeman já havia publicado um esboço fonológico do Kaiwa (como então chamava-se a língua). Loraine fazia parte da SIL (Associação Internacional de Linguística), um grupo missionário que, em 1963, foi responsável pela criação de cartilhas utilizadas na alfabetização dos indígenas. Com a colaboração desses linguistas, a escola da Missão tornou-se pioneira na alfabetização bilíngue na região. Além da alfabetização, eles trabalhavam na tradução da Bíblia para a língua kaiowá.
No século XXI, a documentação da língua ganhou grande caráter acadêmico. A linguista Valéria Faria Cardoso produziu diversos artigos de grande importância para uma definição gramática geral do kaiowá e uma analise morfologia e de sintaxe essenciais para o estudo da língua. Em 2022, a linguista, antropóloga e missionária Graciela Chamorro publica o dicionário kaiowá-português, um obra essencial para o enriquecimento da língua e sua preservação, tornando-a mais acessível a não falantes.
Ensino e uso institucional miniaturadaimagem|272x272px|Escola e posto de saúde na aldeia de Passo Piraju, em Mato Grosso do Sul (2012).A educação linguística kaiowá, assim como outras línguas indígenas, foi estimulada pela legislação brasileira, a Constituição de 1988 e a LDB(Lei de Diretrizes e Bases) de 1996 preveem ensino escolar diferenciados em língua materna. Em 1997 foi realizado um experimento de ensino bilíngue na Escola Municipal de Caarapó, no Mato Grosso do Sul. De fato, anteriormente à ação governamental, já havia programas de alfabetização bilíngue guarani (kaiowá)–Português em Mato Grosso do Sul. Os missionários tiveram importante papel pionéiro nesse processo de alfabetização, criando cartilhas para o estudo da língua. A partir do século XXI escolas indígenas com orientações bilingues, e material didático adaptado em kaiowá, têm se tornado mais comuns.
O município de Amambai (Mato Grosso do Sul) reconheceu formalmente o kaiowá como co-oficial em 2024, o que implica oferta de serviços públicos e documentos tanto em português quanto em Kaiowá. A lei municipal de Amambai ainda prevê “incentivar o aprendizado e o uso da língua cooficial nas escolas indígenas e meios de comunicação”. Além disso, como parte da política de valorização linguística (Programa Língua Indígena Viva no Direito), foram concluídas traduções da Constituição Federal para o kaiowá em 2025, com validação junto às comunidades. Atos que buscam a valorização e manutenção do kaiowá em espaços institucionais e o reconhecimento como língua viva.
Fonologia Consoantes A língua kaiowá possui 15 fonemas consonantais, organizados em três grupos: oclusivas (obstruentes orais), nasais e continuantes (incluindo fricativas, aproximantes e vibrante). As oclusivas fonêmicas são /p, t, k, kʷ, ʔ/ . As nasais são /m, n, ɲ, ŋ, ŋʷ/. Os continuantes incluem o aproximante /w/, as fricativas /s, ʃ, h/ e a vibrante /ɾ/. Esses fonemas estão distribuídos nos lugares de articulação bilabial, alveolar, palatal, velar, lábio-velar e glotal. A tabela abaixo resume o inventário consonantal em AFI.
É interessante destacar que, o fonema /m/ tem realização [m] antes de vogais nasais, mas aparece como [mb] (ou [b]) antes de vogais orais. Esse fenômeno ilustra a diferença entre fonema (/m/) e fones ([m], [mb], [b]). Vogais A língua distingue seis fonemas vocálicos orais (/i, e, ɨ, o, u, a/) que contrastam com suas contrapartes nasais. Assim, há seis vogais orais e seis nasais. Em AFI, podem ser agrupadas por altura e posição, conforme a tabela abaixo.
Alofones No kaiowá alguns fonemas podem apresentar diferentes realizações fonéticas dependendo da posição na palavra ou da influência de vogais nasais próximas. Essas variações não são percebidas pelos falantes como mudanças de significado, mas apenas como diferenças naturais de pronúncia dentro do sistema fonológico da língua. A presença de alofonia também está relacionada à forte presença de nasalidade.