Raul Córdula Filho (Campina Grande, 17 de abril de 1943) é um pintor, artista gráfico, cenógrafo, professor e crítico de arte brasileiro.

Biografia Raul Córdula é artista plástico, curador e crítico de arte. Com mais de 50 anos de arte, seu repertório e poética é atravessado pela arte primitiva, o concretismo, neoconcretismo, nova figuração, arte experimental, arte engajada, arte postal.

Conhecido principalmente pela sua pintura geométrica, o artista nasceu em Campina Grande, Paraíba, em 17 de abril de 1943. Filho do professor Raul Córdula, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro – RJ em 1946. Ao regressar a Paraíba, primeiramente em Campina Grande em 1957, começa a pintar acompanhado de um grupo de adolescentes do qual participaram Flávio Bezerra de Carvalho, artista que morreu ainda criança, e Ney Suassuna.

Um ano depois, a família fixa residência em João Pessoa-PB. Nesta época, estudou desenho na Escola de Arte de Campina Grande com o professor Miranda e a professora Lourdes Almeida. O ano de 1959 foi marcante para o jovem que almejava ser artista. Conhece os grupos de poetas e intelectuais, próximos à vertente artística concretista e construtivista, conhece Jomard Muniz de Brito, tem contato com o texto emblemático “Teoria do Não Objeto”, publicado no jornal o Globo no Rio de Janeiro de autoria de Ferreira Gular, imediatamente ao seu lançamento.

No Rio de Janeiro, estudou técnica de pintura com o professor Domenico Lazzarini no Museu de Arte Moderna e história da arte com professor Carlos Cavalcanti ,no Instituto de Belas Artes (atualmente Escola de Artes Visuais do Parque Lage), entre os anos de 1962 e 1963. Assim como, teve orientações técnicas e teóricas nos ateliers de Adão Pinheiro (Olinda), Márcio Mattar (Rio de Janeiro), Iberê Camargo, Lygia Clarck e Hélio Oiticica (Rio de Janeiro).

1960 A dinâmica das artes plásticas no eixo Rio-São Paulo, caracteriza-se pela consolidação de museus de arte e pelas polêmicas e os discursos narrativos trazidos pela Bienal de São Paulo. Uma ampliação do conceito de arte brasileira para arte internacional brasileira parece se esboçar com as defesas e recuos em relação à arte abstrata e o figurativismo. Anos depois, essas polêmicas serão sistematizadas e teorizado por críticos e historiadores de arte. O Museu de Arte Moderna (MAM-RJ) se revelou como um espaço importante às manifestações de vanguarda, realizando mostras como Exposição Opinião 65, Exposição Nova Objetividade Brasileira, em 1967, Salão da Bússola em 1969 e Domingos de Criação em 1971.

No Nordeste, surgem movimentos como o Movimento da Cultura Popular em Recife-PE, o Teatro Popular do Nordeste de Hermilo Borba Filho e Ariano Suassuna, em João Pessoa-PB. Ainda na Paraíba, o Clube do Silêncio, a Geração 59 e o Grupo Sanhauá foram movimentos responsáveis pelas mobilizações de vanguarda, na época, no meio cultural no início da década de 1960. Inicialmente formada por poetas, no decorrer de suas atividades outras categorias artísticas foram acrescidas, como: teatro, música, artes visuais e ciência.

Raul Córdula, seu pai, diretor da Divisão de Documentação e Cultura (DDC), realizou uma série de eventos culturais viabilizando a atuação de artistas de várias linguagens. Raul Córdula Filho teve seu contato com o movimento por meio do Salão de Poesia, organizado pela DDC, em que ilustrava os poemas junto a Walmick Brito. Assim, foi na Geração 59 que o artista ressalta que “adquiriu a sua poética”.

Marcado por esse panorama de efervescência cultural, Raul Córdula integrou o grupo, que criou a Escola de Artes Plásticas Tomaz Santa Rosa, no Theatro Santa Roza, que posteriormente em 1963 foi absorvida pela Universidade Federal da Paraíba, para formar o Serviço de Artes Plásticas do Departamento Cultural da Universidade Federal da Paraíba, núcleo da atual Pró-Reitoria de Extensão Cultural. Como fruto das experiências no ateliê desta universidade, em 1960, acontece a primeira exposição individual do artista na Biblioteca Pública da Paraíba, João Pessoa-PB, apresentando 22 trabalhos. A partir desta data, logo participou dos seus primeiros salões de arte ainda na Paraíba.

Posteriormente, o artista passa a morar no Rio de Janeiro, foi cenógrafo da TV Tupi. Nesse momento já estava casado com a jovem artista Eidelice Cabral, no final da década, em 1967 nasce sua primeira filha. Realizou exposições em importantes galerias do sudeste brasileiro e recebeu premiações nos principais salões de arte do país na época, como o Salão Mineiro. Córdula volta a Paraíba com a missão de criar o Museu de Arte Assis Chateaubriand, em Campina Grande, e formar o acervo da instituição por meio de campanhas com grandes empresários. Nesse retorno, inserindo este museu no circuito nacional de artes visuais, por meio de uma coleção de arte contemporânea de vanguarda, retoma a movimentação da produção artística local e funda a Associação Paraibana de Artistas Plásticos – APAP.

Também no mesmo ano, a Reitoria da UFPB programou, para sua galeria de arte, uma série de exposições de artistas plásticos ligados ao seu Departamento Cultural. Nesta época, uma série de decretos foram emitidos no regime militar brasileiro nos anos posteriores ao Golpe Militar de 1964, havia um clima de tensão envolvido por censuras e repressões militares, e nesse contexto a exposição de Raul foi censurada por ordem do Conselho Universitário no dia seguinte à abertura.

Depois da censura oficial, o governador da Paraíba publicou nota no Jornal O Norte, repudiando tal ato e ofereceu ao jovem um dos espaços culturais da cidade que estavam sob tutela do estado. A mostra foi exposta no Theatro Santa Roza (João Pessoa). A convite de Jomard Muniz de Brito a exposição seguiu para o atelier coletivo Oficina 154 (Olinda), e no Clube Carnavalesco Os Amantes das Flores (Recife). No vernissage da exposição da Oficina 154, o artista assina o II Manifesto Tropicalista – Inventário do Feudalismo Cultural Nordestino escrito por Jomard Muniz de Brito.

Devido a censura o artista foi demitido da UFPB e transferiu-se para São Paulo, que trabalha como cenógrafo na TV Bandeirante (canal 13), e depois para o Rio de Janeiro.

1970 Em tempos de exílio do nordeste, Raul Córdula trabalha como cenógrafo da TV Globo (canal 4) até 1972, assim como, fez programação visual para várias empresas no Rio de Janeiro, entre elas a Rádio Ministério da Educação e Cultura.

Em 1972, ao voltar para Paraíba, abre um Bar com um grupo de amigos, Asa Branca, ambientado por artistas. O Asa Branca se torna um espaço de exibição de produções culturais e artísticas, cujo um dos marcos inesquecíveis foram os espetáculos musicais independentes de Zé Ramalho, Vital Farias, Marconi Notaro e Carlos Aranha. Manteve um escritório de Programação Visual em João Pessoa, até 1975. Nesse mesmo ano Raul Córdula é pai pela segunda vez, do seu primeiro casamento.

Com a exposição censurada e a forte perseguição do regime civil militar, o artista trilhou uma nova fase que mais o consagrou. A pintura abstrata, a geometria dos triângulos, círculos, retângulos, bem como os rabiscos infantis, passam a potencializar aparatos simbólicos com os mais diversos significados.

Nos anos 1970, ganha prêmios no 1º e 2º Salão de Arte Global de Pernambuco, realizado pela Rede Globo de Televisão. No ano seguinte, participa como curador, realizando o 3º Salão – O Artesanato e o Homem. Ainda em 1973, é inaugurado o novo edifício da Assembleia Legislativa em João Pessoa, o artista participa e integra o álbum da exposição em homenagem a inauguração, além de conceber um mural frontispício do edifício, construído em aço inox sobre mármore trave tino.

Ao acompanhar seus passos, é possível entender a mudança entre a fase da pintura figurativa à produção do abstracionismo informal, depois a um abstracionismo geométrico, integrando-se a uma vertente polêmica da arte brasileira.

Nesse período, o artista envereda pela pesquisa com a arte popular, destacando-se a viagem ao México para o 9º Conferência Mundial de Artesanato, como observador da Rede Globo de Televisão, World Craft Council (Conselho Mundial de Artesanato), ONG filiada a UNESCO na categoria A. Nessa viagem, visita o ex-líder das Ligas Camponesas de Pernambuco, Francisco Julião que estava no exílio em Cuernavaca, México.

Esta década, também fica em evidência sua produção como agente cultural entre os estados de Pernambuco e Paraíba, onde funda em 1977 o Núcleo de Arte Popular e Artesanato (NAP) da Casa de Cultura de Pernambuco da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE), cujo acervo é um dos núcleos do Museu do Barro, em Caruaru-PE. No ano seguinte, em 1978, integra o grupo de artistas que funda e coordena o Núcleo de Arte Contemporânea (NAC) da Universidade Federal da Paraíba, retomando a esta universidade como professor das disciplinas História da Arte e Fundamentos da Linguagem Visual II nos cursos de Educação Artística e Arquitetura e Urbanismo do Departamento de Artes do CCHLA da UFPB.

1980 Entre a década de 1970 e 1980, o artista realiza diversas exposições em instituições culturais, bienais e festivais de arte. Sobretudo, suas exposições em diversas galerias de arte – um circuito característico da geração dos anos 1980, o circuito do mercado de arte. Nesta década, o artista encontra-se em uma maturidade plástica, sendo considerado um dos mais importantes representantes do abstracionismo geométrico brasileiro, que sob o rótulo criado pela crítica de geometria tropical distanciando-se (argumento crítico) dos artistas construtivos geométricos europeus.

Nos anos 1980, uma nova configuração do mundo das artes começa a ser desenhada. Assim, neste novo desenho do circuito artístico, há a figura do curador como um novo protagonista responsável por projetar ideias e construir discursos a partir da realidade da obra. Raul Córdula, que já tinha um trabalho na escrita crítica em artes visuais na imprensa paraibana e em diversas exposições, também participa, como impulsionador do desenvolvimento da arte emergente por meio da curadoria. Pode-se destacar a sua entrada na Associação Brasileira de Críticos da Arte – ABCA e Associação Internacional de Críticos de Arte – AICA, e como diretor artístico e diretor técnico da Oficina Guaianases de Gravura, em Olinda, estas últimas funções assumidas até 1984.

Não é apenas com o trabalho de crítica, pesquisa e gestão que sua atuação se torna mais abrangente. Em 1982 produz uma série bem importante no seu percurso artístico, intitulada País da Saudade. Evidenciando mais uma vez sua linha política e experimental. Nos anos 1980, o artista filia-se ao Partido dos Trabalhadores (filiado até hoje), e participa de uma exposição e leilão de suas obras com o intuito de contribuir com a campanha do então candidato a presidência Lula. A exposição e o leilão “Lula lá” teve apoio de diversos artistas do estado de Pernambuco.

Nessa década Raul Córdula já está casado pela segunda vez, uma relação que durou entre 1976 a 1982, e nasceu sua terceira filha em 1981, Carolina Córdula. Seu encontro com sua companheira a artista Amélia Couto data de 1982, marcado pelo encontro com as Brigadas artísticas e toda a efervescência da retomada de setores da sociedade civil à ruas. Desse encontro nasceu em 1985, seu filho Cláudio em 1985. Companheiros até a atualidade, Amélia Couto e Raul Córdula mantém uma parceria afetiva e profissional, um dialogo nas artes, mas com independências em suas trajetórias poéticas, um fruto de suas invenções e trabalho resultou na criação do Instituto Raul Córdula.

1990 Com uma exposição comemorativa de Trinta anos de atividades artísticas na Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), o artista inicia esta década dos anos 1990, marcada por um fluxo de exposições nacionais e internacionais.