Lapa do Santo é um sítio arqueológico no centro do estado de Minas Gerais que registra a presença humana no Brasil desde atrás. Localiza-se na entrada da caverna homônima que se desenvolve num maciço calcário de trinta metros de altura.

Destaca-se pela presença de dezenas de esqueletos humanos muito bem preservados, com idade entre . O estudo desses remanescentes transformou paradigmas sobre a compreensão de como era a existência humana nesse passado tão remoto. O sítio também conta com uma rica indústria artesanal de artefatos líticos e ósseos.

Na Lapa do Santo foi descoberto o caso de decapitação mais antigo das Américas bem como uma ampla diversidade de práticas funerárias com ênfase na manipulação perimortem do cadáver através de descarnamento, amputação, queima, pintura, fraturamento ósseo e, possivelmente, canibalismo. Os estudos dos crânios encontrados na Lapa do Santo indicam uma morfologia Paleoamericana semelhante à de Luzia e aos demais esqueletos encontrados na região cárstica de Lagoa Santa e distinta das populações nativas americanas atuais. Estudos pioneiros do DNA antigo extraído dos esqueletos humanos da Lapa do Santo foram realizados com sucesso. Na Lapa do Santo também foi encontrado o grafismo rupestre mais antigo das Américas, um antropomorfo filiforme com um falo ereto. O sítio também impressiona pelo acúmulo de sedimento antropogênico, gerado pela queima repetida de material vegetal em fogueiras que, ao longo de milhares de anos, gerou um depósito com mais de quatro metros de profundidade.

O sítio arqueológico da Lapa do Santo está localizado na cidade de Matozinhos em Minas Gerais e faz parte da Área de Proteção Ambiental Carste de Lagoa Santa (área de proteção ambiental do relevo cárstico) que aflora na região de Lagoa Santa e proximidades, abrigando inúmeras cavernas e sítios arqueológicos.

miniaturadaimagem|Vista interna da Lapa do Santo.

miniaturadaimagem|Vista aérea da Lapa do Santo

Histórico das pesquisas A região de Lagoa Santa no estado de Minas Gerais é conhecida entre arqueólogos e paleontólogos desde o século XIX. Os primeiros esqueletos humanos na região foram encontrados pelo naturalista dinamarquês Peter Lund entre 1835 e 1844. Lund propôs uma possível coexistência entre humanos e megafauna extinta, hipótese que faria com que Lagoa Santa se tornasse o foco de muitos estudiosos ainda no século XIX. Durante o século XX, diferentes equipes de pesquisa foram à região em busca de provas que pudessem confirmar a hipótese da coexistência entre humanos e megafauna. Após mais de 170 anos, essa questão segue sem uma resposta definitiva mas, como resultado dessas diversas escavações, formou-se uma grande coleção de esqueletos humanos datados do Holoceno Inicial. A documentação relativa a essas escavações é bastante limitada e de forma geral o acervo arqueológico oriundo de Lagoa Santa carece de contexto. Coordenado por Walter Alves Neves e financiado pela FAPESP, o projeto "Origens e microevolução do homem na América: uma abordagem paleoantropológica" teve como um de seus objetivos sanar essa deficiência e identificar sítios arqueológicos em Lagoa Santa que pudessem ser escavados de acordo com técnicas modernas de documentação. Foi como parte desses esforços que em 2001 decidiu-se iniciar as escavações no sítio arqueológico da Lapa do Santo, que se estenderiam até 2009 sob a coordenação de Renato Kipnis, Astolfo Araujo e Danilo Bernardo. Nas etapas iniciais de escavação, sondagens foram feitas ao longo de praticamente toda a extensão da área abrigada no intuito de avaliar o potencial do sítio. Durante esse processo ficou bem caracterizado que a região sul do abrigo apresentava um pacote potencialmente intacto com idades que remetiam ao Holoceno Inicial. A partir de então, essa parte do sítio tornou-se a área principal de escavação e uma superfície ampla passou a ser escavada através da decapagé de níveis naturais. Foram realizadas etapas de escavação nos anos de 2001, 2003, 2005, 2008 e 2009. Do ponto de vista da arqueologia das práticas mortuárias, a escolha dessa área do sítio mostrou-se muito fortuita já que nela foram encontrados 26 sepultamentos em ótimo estão de conservação. Em 2011, como parte do projeto de pesquisa “As Práticas Mortuárias dos Primeiros Americanos”, coordenado por André Strauss e por Rodrigo Elias de Oliveira, uma nova área de escavação foi estabelecida e segue ativa. Escavações em 2018 levaram à descoberta de 39 esqueletos humanos com idades entre 8 mil e 11 mil anos. Os ossos revelam que os povos que viviam no local na altura eram complexos e tinham práticas funerárias elaboradas. De acordo com Strauss, todos os esqueletos tinham sinais de rituais mortuários — "alguns estavam queimados, outros pintados de vermelho e alguns combinavam crânios de crianças com corpos de adultos, ou dentes de uma pessoa com a arcada de outra". Os sinais mortuários variavam dependendo da idade arqueológica dos ossos, possivelmente indicando que a forma de tratar os corpos dos mortos foi mudando ao longo do tempo. De acordo com Strauss, isto é uma descoberta inédita na arqueologia brasileira.

Educação e divulgação esquerda|miniaturadaimagem|Maquete táctil da Lapa do Santo. miniaturadaimagem|Impressão 3D em escala reduzida de crânio para exposição. A Lapa do Santo foi retratada por renomados fotógrafos brasileiros como Maurício de Paiva, João Marcos Rosa e Adriano Gambarini. No Museu de Arqueologia e Etnologia da USP maquetes táteis da Lapa do Santo estão disponíveis na forma de kits educativos para educadores. Uma exposição sobre a Lapa do Santo está sendo montada no Centro de Arqueologia Annette Laming-Emperaire, coordenado pela arqueóloga Rosângela Albano, no município de Lagoa Santa em Minas Gerais. A exposição destaca-se por ser feita a partir da impressão de protótipos tri-dimensionais dos esqueletos do sítio e por contar com maquetes táteis.

Processos de formação e cronologia miniaturadaimagem|Video da micro-tomografia do sedimento da Lapa do Santo. O depósito arqueológico da Lapa do Santo pode chegar a até cinco metros de espessura. Análises geoarqueológicas indicam que aproximadamente metade deste material é composto por um sedimento fino de coloração acinzentada que lembra talco. Ao microscópio determinou-se que esse sedimento fino é formado por pseudo-morfos de oxalatos de cálcio, substância tipicamente gerada a partir da combustão da madeira e folhas. Portanto, uma porção significativa (aproximadamente a metade) da acumulação dos sedimentos da Lapa do Santo resulta da repetida atividade de acender fogueiras durante milênios. A outra metade dos sedimentos é composta por agregados centimétricos de argila que apresentam coloração avermelhada, amarronzada, alaranjada e amarelada. Análises de amostras utilizando o método de infravermelho por transformada de Fourier – IVTF (em inglês, Fourier-transform infrared spectroscopy – FTIR), mostram que alguns desses agregados de argila foram expostos a calor intenso. A origem dos agregados de argila é incerta. Alguns pesquisadores sugerem uma fonte natural, possivelmente do solo que encontra-se acima do abrigo rochoso, enquanto outros sugerem que foram trazidos pela ação humana, intencional ou não.thumb|Planta baixa do local.|alt=|esquerda alt=|esquerda|miniaturadaimagem|Lâmina de micro-morfologia mostrando sedimentos do sítio. Note-se a lente cinza resultante da acumulação de cinzas de fogueira.

A cronologia de ocupação humana na Lapa do Santo foi estabelecida através de 53 datações radiocarbônicas em amostra de carvão, 17 datações radiocarbônicas em amostras de osso humano e 21 datações por luminescência opticamente estimulada feita em amostras de sedimento. O resultados indicam três períodos de ocupação considerando-se um intervalo de incerteza de 95.4% (idades calibradas):

Período de ocupação da Lapa do Santo 1 - Começa entre anos antes do presente e termina entre anos antes do presente. Período de ocupação da Lapa do Santo 2 - Começa entre anos antes do presente e termina entre anos antes do presente Período de ocupação da Lapa do Santo 3 - Começa entre e 831 anos antes do presente e termina entre 953 e 0 anos antes do presente.

Os pacotes de sedimento correspondente aos três períodos de ocupação da Lapa do Santo apresentam-se em ordem estratigráfica (i.e. o mais antigo está mais abaixo). Por outro lado, dentro de cada pacote existe expressiva inversão estratigráfica resultando num erro na estimativa cronológica com base na posição vertical dos artefatos de aproximadamente ±500 anos, num intervalo de confiança de 95,4%.

Grafismos rupestres da Lapa do Santo esquerda|miniaturadaimagem|Foto do momento exato em que o grafismo mais antigo da América foi descoberta na Lapa do Santo em 2009.|alt= Em comparação com outros sítios da região de Lagoa Santa a Lapa do Santo apresenta baixa incidência de pinturas rupestres. Ocorrem de forma isolada dentro do conduto lateral elevado que se projeto desde a extremidade sul da área abrigada. Foram observados veados e motivos geométricos em cor avermelhada.

Num piso que aflora a leste da área abrigada há um conjunto de grafismos picoteados que incluem motivos geométricos (e.g. círculos concentricos) e representações filiformes de antropomórfos e zoomorfos. Essas representações são típicas na região de Lagoa Santa e foram tradicionalmente associadas à expressões estilísticas tardias (i.e. pós Holoceno médio). Entretanto, a Lapa do Santo apresenta um caso excepcional de datação segura de grafismos rupestres indicando que esse estilo já estava presente na região há pelo menos 10.000 anos trás. Trata-se de uma representação antropomorfa filiforme, extremidades tridigidatas e cabeça em forma de "C", com dimensões aproximadas de 40 x 20 centímetros. Devido a presença de um falo ereto, a figura foi apelidada de "taradinho" pelo professor Walter Neves.

Dieta, saúde e mobilidade O estudo do registro arqueológico da Lapa do Santo resultou numa das mais ricas caracterizações da dieta dos grupos humanos que habitavam o Brasil central durante o Holoceno inicial. Análises de isótopos estáveis de carbono e nitrogênio indicam um consumo de proteínas de origem predominantemente vegetal. A análise zooarqueológica identificou consumo de mamíferos de médio e pequeno porte tais como cervídeos, porcos do mato, tatus e pequenos roedores ou marsupiais. A análise da saúde bucal indica uma alta freqüência de caries entre as mulheres sugerindo o consumo elevado de carboidratos ou alimento cariogenico. Isótopos de estrôncio são indicadores de mobilidade. Análise dos esqueletos da Lapa do Santo indicam para um predominio de indivíduos que nasceram, cresceram e foram sepultados na própria região de Lagoa Santa. Tecnologia lítica e esqueletal esquerda|miniaturadaimagem|Indústria óssea do Holoceno Inicial miniaturadaimagem|Ponta de projétil da Lapa do Santo (10 000 anos); esquerda|miniaturadaimagem|Anzóis mais antigos do Brasil miniaturadaimagem|Ponta encontrada a alguns quilômetros da Lapa do Santo esquerda|miniaturadaimagem|Modelo 3D de anzol da Lapa do Santo. A Lapa do Santo apresenta um abundante registro da tecnologia lítica utilizada pelos grupos humanos que habitavam o Brasil central durante o Holoceno Inicial e Média. Em sua grande maioria esse tecnologia lírica se baseava no lascamento de cristais prismáticos de quartzo hialino de tamanho pequeno a médio. O resultado são milhares de lascas e núcleos com dimensão media de 3x2x1cm. Além do quartzo hialino também foram utilizadas, ainda que de forma marginal, outras materias primas tais como silexito e arenito silicificado. A função exata dessa tecnologia ainda é tema de debate mas imagina-se que as lascas eram utilizadas para processar materia vegetal tais como madeira ou tubérculos. Também foi sugerido que as pequenas lascas eram encabadas em instrumentos compostos.