A arquitetura de São Carlos, cidade do interior de São Paulo, é caracterizada por diversas tipologias de edifícios e estilos. Em sua história, o binômio café-ferrovia teve importante papel modernizador.BORTOLUCCI, 1991. Atualmente, o patrimônio histórico de São Carlos possui um importante conjunto de edifícios, alguns tombados, além de uma política municipal de preservação.ZAMAI, 2008.
História
Café, ferrovia e modernização thumb|direita|Mapa da cidade no início do , mostrando o centro (1857) e os bairros Vila Nery (1889), Vila Izabel (1891), Vila Pureza (1891), Vila Prado (1893) e Vila Marcelino (1920).
Assim como em outras cidades do estado, a implantação da ferrovia por cafeicultores, em 1884, ligando a cidade ao trecho Jundiaí–São Paulo–Santos, teve importante papel, não só econômico, para o escoamento da produção de café, mas também na modernização arquitetônica da cidade. A integração com a capital tornou tal processo mais dinâmico e acelerado.BORTOLUCCI, 1991, p. 73-74.
Fazendas No século XIX, as fazendas implantadas na região de São Carlos tinham inicialmente, como atividade econômica, a criação de gado e o plantio de cana, apresentando instalações para a produção de cachaça e açúcar (engenhos) e, usualmente, capelas. Mais tarde, com o cultivo de café, foram necessárias adaptações, como a construção de tulha, terreiros para secagem do café, casa de máquinas, além de, provavelmente, senzalas maiores para os escravosBENINCASA, V. Aspectos arquitetônicos da Fazenda Pinhal. Casa do Pinhal, s.d. link. e casas para os colonos.PICCINI, 1996.
As primeiras sedes foram construídas com plantas, em geral, em "L". Eram usadas as técnicas de taipa de pau-a-pique (ou de mão), taipa de pilão, alvenaria de pedra (um regionalismo, devido à abundância do materialBENINCASA, V. As casas de fazendas paulistas. Com Ciência, 10/10/2010. link.) e, mais tarde, de tijolos. Os estilos eram vinculados à arquitetura rural paulista e mineira.BENINCASA, 2003; 2008.
Edifícios públicos e religiosos Na área urbana, o aspecto da cidade no período anterior à ferrovia era acanhado e modesto. As atividades públicas, como o ensino, as funções legislativas e jurídicas, eram exercidas, inicialmente em residências adaptadas ou emprestadas, de estrutura inadequada.BORTOLUCCI, 1991, p. 74-75.
Também os espetáculos teatrais ocorriam em instalações improvisadas, como residências de famílias, desde 1862. O primeiro estabelecimento projetado devidamente para tal finalidade foi o teatro Ypiranga, construído apenas em 1892.BORTOLUCCI, 1991, p. 75.
Com a ferrovia em 1884 e uma crescente complexidade das relações urbanas, passou-se a prezar-se pelo adequação do planejamento das edificações aos diversos novos usos: lojas, repartições públicas, armazéns, fábricas, escolas, bancos, restaurantes, hotéis, etc. Surgiram, assim, no final do , os principais edifícios públicos da cidade, sendo a antiga Câmara Municipal, de 1884, o primeiro deles. No mesmo ano, foi também inaugurada a Estação Ferroviária, reformada em 1908, pelos irmãos Abel, Séttimo e Bruno Giongo (pai).BORTOLUCCI, 1991, p. 76.
Em 1886, foi inaugurado o antigo Matadouro Municipal que, em parte, se mantém até hoje, tendo sido incorporado pelo câmpus da USP. Em 1888, foi construído o Lazareto dos VariolososReferido por outros autores como "Hospital de Variolosos", "Hospital de Isolamento", "Lazareto Municipal". e, em 1907, próximo a ele, mais ao norte, o Hospital dos Lázaros da Vila Hansen.Referido por outros autores como "colônia" ou "asilo da Villa Hansen".BORTOLUCCI, 1991, p. 77-78.SANTOS, A. P. O isolamento da Villa Hansen. Kappa, ed. 79, p. 52-53, 2013. link.MAURICIO, F.; MOURA, J. As primeiras ruas de São Carlos . Kappa, ed. 94, p. 34-36, 2014. link. O prédio de Lazareto serviu de sede inicial para a Escola de Educação Física (EEFSC), em 1949.NEVES, s.d., p. 96. [Cf. fotos: Escola de Educação Física de São Carlos/archive.org, São Carlos Clube.]O Cadastro imobiliário (SÃO CARLOS, 1940, p. 107) refere-se ao prédio como "Aprendizado Agrícola". Já a Vila Hansen deixou de ser utilizada nos anos 1930.MAURANO, Flávio. História da Lepra em São Paulo. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 1939. [Excertos: "Em S. Carlos havia a Associação Protetora dos Lázaros "Vila Hansen", fundada em 7 de Julho de 1907, pelos srs. Tiago Masagão, Aureliano de Arruda e Dr. Macedo Costa. Mantinha um asilo denominado "Villa Hansen", fundado em 1908. Era uma instituição particular, subvencionado pelo Estado e Prefeitura, e possuía seus estatutos registrados. Sua primeira diretoria era composta dos snrs. José Novaes, Horácio Pires de Castro e outro cujo nome não pôde ser lembrado. Findo o exercício destes senhores, ficou como diretor, durante 25 anos, ininterruptamente, o Sr. Luiz Brandão (p. 111-112)"; "Tinha a seu serviço 5 pessoas, das quais 2 remuneradas (...) Segundo informação ultimamente recebida, o Asilo, nos últimos tempos, compunha-se de 12 casas ladrilhadas caiadas, sem forro (p. 113)"; "Removidos os doentes para o Asilo-Colonia de Aimorés, em Bauru, em Setembro de 1933, o asilo foi incendiado por ordem do Dr. Alvaro Camera, Delegado de Saúde. Seu terreno está atualmente em poder da Liga São Carlos, em completo abandono (p. 114)"; "(...) eis o exemplo da A Liga S. Carlos, fundada em 1931, que muito auxiliou as autoridades para a remoção dos habitantes da antiga Vila Hansen daquela cidade e continua a auxiliar os internados do A. C Aimorés e suas famílias (p. 188)".] Quase nada mais resta do Lazareto e da Vila, localizados em áreas atualmente do São Carlos Clube e da USP, respectivamente.BORTOLUCCI, 1991, p. 77-78. Segundo mapas antigos, o Lazareto ficaria próximo às piscinas do atual São Carlos Clube, e a Vila Hansen, na região do Restaurante da USP. [Cf. COSTA, 2015, p. 155-156; o mapa da p. 55 contém imprecisões nos itens 3 e 6.].
O primeiro pavilhão da Santa Casa foi inaugurado em 1899, embora futuras reformas tenham modificado profundamente os prédios mais antigos. O Fórum e a Cadeia inicialmente ocupavam o mesmo prédio da antiga Câmara. A partir de 1900, foi construído um prédio próprio, localizado na mesma praça, utilizado como Câmara a partir de 1951.BORTOLUCCI, 1991, p. 78.
Entre 1903 e 1907, foram construídos os dois pavilhões do Mercado Municipal, numa área de várzea, aterrada, à margem esquerda do córrego do Gregório.BORTOLUCCI, 1991, p. 79. O edifício era inspirado no Les Halles.MURILHA; SALGADO, 2011. link. Nos anos 1960, seria construído o atual mercado, na margem direita do rio, onde antes era a praça Santo Dumont.
Em 1905, foi inaugurado o Posto Zootécnico Regional, um dos cinco do interior, estando Carlos Botelho à frente da Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado. O Posto realizava exposições de animais, e incentivava o envolvimento dos fazendeiros locais com a pecuária. Com a ocupação da área original pela EESC em 1958, o Posto foi transferido para perto do Matadouro, recebendo sucessivas reformas e usos, até ser desativado.
Quanto aos estabelecimentos de ensino, até o início do , no meio urbano, existiam apenas escolas isoladas no município, de tamanho diminuto. O primeiro Grupo Escolar, o Paulino Carlos, reunindo diversas salas, foi inaugurado em 1904. Em 1919, seria inaugurado o o segundo, o Grupo Escolar Eugênio Franco.
Em 1913, foi inaugurada a sede do Colégio São Carlos, em "estilo lombardo, calcado à arte moderna". Em 1916, foi inaugurado o novo prédio da Escola Normal, atual E. E. Álvaro Guião, um dos poucos edifícios da cidade a incorporar elementos construtivos e espaciais do art nouveau.BORTOLUCCI, 1991, p. 80.
Concebido em 1884, o Teatro Ypiranga, o primeiro da cidade, foi inaugurado apenas em 1892. Renomeado Teatro São Carlos em 1902, foi demolido nos anos 1970. Outros locais para espetáculos, que também exibiam filmes cinematográficos, foram o Teatro Polytheama (1912) e o Teatro Colombo (que teve duas sedes, no largo São Benedito, sendo que a última, dos anos 1920, foi renomeada Cine São José).BORTOLUCCI, 1991, p. 81-82.
Por muito tempo, São Carlos teve apenas um templo católico, de certa forma precário. A capela de madeira, de 1856, foi refeita no mesmo material em 1873. Em 1886, tendo sido anunciada uma segunda visita episcopal,BALESTRINI FILHO, 1957, p. 105, 119. link. e procurando evitar novamente o vexame de serem repreendidos pelo bispo de São Paulo, os católicos ricos providenciaram a construção de um novo templo para a igreja matriz, em tijolos. No entanto, este ainda seria considerado um elemento "destoante" dos elaborados casarões, e o templo, que já era sé episcopal desde 1908, seria novamente reformado em 1918. Assim, a fachada foi refeita, avançando até a avenida; construiu-se uma nova torre com relógio, coberta por uma pirâmide oitavada; e introduziram-se janelas maiores. Em 1949, a igreja foi demolida, para a construção do atual edifício.
Fora a igreja matriz, havia também algumas modestas capelas antigas, erguidas por moradores, com escassos recursos: a capela de São Benedito (erguida entre 1890 e 1897, substituída pela atual igreja nos anos 1950); a de Santa Izabel (1898);COSTA, 2015, p. 51. a de São Sebastião (); a de Santa Cruz (1877, demolida); a do cemitério Nossa Senhora do Carmo (c. 1921, cujos fundos eram também usados como necrotério, foi demolida na segunda metade do ); a capela São Vicente de Paulo, do Asilo Dona Maria Jacinta (1922).NEVES, s.d., p. 79-82, 251. e a segunda capela de São Benedito, na Vila Pureza.COSTA, 2015, p. 82.
Enfim, o aumento da complexidade das atividades urbanas estava alinhado ao espírito modernizador, propiciando condições para novos tipos de edifícios. Imitando centros maiores, buscava-se o progresso, o conforto e as novidades tecnológicas, evitando-se lembranças de um passado considerado antiquado.BORTOLUCCI, 1991, p. 85-86.
Moradias urbanas A chegada da ferrovia em 1884 teve impactos não apenas nos edifícios públicos, mas também nas moradias urbanas. O trem tornou disponível o uso de novos materiais, importados, e trouxe grandes contingentes de imigrantes europeus, em especial italianos, com novas técnicas construtivas.BORTOLUCCI, 1991, p. 86.
As novidades construtivas foram adotadas mais rapidamente pela elite cafeeira, nos entornos da Catedral, do que pelas menos abastadas e populares, que ocupavam a região entre a baixada do Mercado e a Estação Ferroviária.BORTOLUCCI, 1991, p. 89.
No período do final do Império ao início da República, a legislação sanitarista teve também uma grande influência nos modos de morar, com casas mais iluminadas e ventiladas.BORTOLUCCI, 2005.
Estilos No período, muitos fazendeiros trocaram suas residências rurais pelas urbanas. No entanto, suas velhas moradias na cidade, erguidas ainda sob a influência da arquitetura tradicional, colonial, estavam ultrapassadas, logo, vários fazendeiros do café (ex., Conde do Pinhal, Bento Carlos, Major José Inácio) resolveram construir novas moradias, que identificavam-se com o estilo do ecletismo.BORTOLUCCI, 1991, p. 87.
Dentre os vários grupos estilísticos do ecletismo,LEMOS, Carlos. Ecletismo em São Paulo. In: FABRIS, Annateresa. Ecletismo na arquitetura brasileira. São Paulo: Ed. USP/Nobel, 1987. p. 68-103. estas construções de São Carlos enquadram-se mais como manifestações neo-renascentistas do que neoclássicas.BORTOLUCCI, 1991, p. 88.
No tocante às moradias populares (também chamadas em alguns contextos de casas operárias), com a chegada dos imigrantes, proliferava-se um novo tipo chamado de "casas de italianos". Eram pequenas construções térreas, alinhadas à calçada, às vezes geminadas, sempre com entrada lateral, com duas ou três janelas na fachada e telhado arrematado com platibanda. Foram erguidas até os anos 1930 na cidade.BORTOLUCCI, 1991, p. 89-90, 93.SALMONI, A.; DEBENEDETTI, E. Arquitetura italiana em São Paulo. São Paulo: Perspectiva, 1981.