Lima Barros, ex-Bellona, foi um monitor ironclad operado pela Armada Imperial Brasileira. Sua construção foi conduzida pela construtora naval britânica Laird Brothers of Birkenhead, seguindo os projetos do monitor Bahia, e foi concluída em 1866. Com medidas de 61 metros de comprimento, 11,6 metros de largura e um calado de 3,9 metros, este navio de guerra estava equipado com dois canhões de alma raiada Whitworth de 120 libras. Sua história está entrelaçada com a Guerra da Tríplice Aliança, pois originalmente foi construído para o Paraguai, mas, devido às dificuldades de pagamento decorrentes do conflito, o Império do Brasil o adquiriu.
Durante o período de operação na guerra, o monitor Lima Barros desempenhou suas atividades em diversas batalhas. Uma das intervenções foi no ataque conjunto da esquadra e das forças terrestres aliadas ao forte de Curuzú, entre os dias 1 e 3 de setembro de 1866. No dia 4 do mesmo mês, o Lima Barros participou ativamente no bombardeio do forte de Curupaiti, onde sua artilharia desempenhou um papel crucial durante um ataque de duas horas. O monitor também voltou a atacar o forte em 22 de setembro do mesmo ano, durante a chamada Batalha de Curupaiti.
Uma das várias atuações do Lima Barros ocorreu em 15 de agosto de 1867, quando ele e outros navios ironclads da Armada Imperial Brasileira forçaram a passagem do forte de Curupaití, sob fogo intenso da artilharia defensiva. Após isso, eles ficaram encurralados entre os fortes de Curupaití e Humaitá. No ano seguinte houve duas operações de transposição de Humaitá. Durante a primeira tentativa de passagem, em 19 de fevereiro, o Lima Barros forneceu fogo de supressão aos navios que avançavam. Na segunda, efetuada em 21 de julho, participou ativamente da operação, concluindo com sucesso a passagem em cerca de duas horas de avanço.
Em 1869, as embarcações de grande porte, como o Lima Barros, não eram mais necessárias no conflito e foram designadas para diferentes distritos navais ao longo da costa brasileira. O monitor foi alocado no distrito encarregado de patrulhar a fronteira brasileira do extremo sul até a província do Rio de Janeiro. Nesse período pós-guerra, o Lima Barros realizou várias missões de treinamento e teve como comandante o herói de guerra Joaquim Antônio Cordovil Maurity. Finalmente, o Lima Barros foi aposentado em 8 de maio de 1883. A embarcação teria sobrevivido até 1905, quando fora enviada para demolição.
Características O projeto do Lima Barros teve como base as características do monitor Bahia, porém era maior e tinha duas torres de artilharia. O navio media 61 metros de comprimento entre perpendiculares, boca de 11,6 metros e um calado máximo de 3,9 metros. Tinha um peso em deslocamento de 1 705 toneladas longas (1 732 toneladas) e era equipado com um arco de aríete. Sua tripulação consistia de 170 oficiais e praças. O navio possuía dois motores a vapor, cada um acionando um eixo de hélice. Os motores produziram um total de 2 100 cavalos de potência indicados (1 600 quilowatts) e davam ao Lima Barros uma velocidade máxima de 12 nós (22 quilômetros por hora). Era equipado com três mastros e um gurupés.
Lima Barros era armado com quatro canhões Whitworth de 120 libras de alma raiada carregados pela boca, montados em duas torres de canhões duplos. Tinha um cinturão na linha d'água que variava em espessura de 4,5 polegadas (114 milímetros) à meia-nau a três polegadas (76 milímetros) nas extremidades do navio. As torres de artilharia também eram protegidas por 4,5 polegadas de blindagem.
Construção Antes da Guerra da Tríplice Aliança, o governo paraguaio tinha ambições de fortalecer sua marinha adquirindo navios ironclads de estaleiros europeus. Essa busca por poder naval começou a ganhar forma em 1862, quando engenheiros britânicos desempenharam um papel crucial ao apresentar aos paraguaios as especificações técnicas de várias embarcações, além de agirem como intermediários nas negociações com diversos estaleiros renomados. Já em 1864, o Paraguai havia formalizado encomendas para a construção de vários ironclads, o que representou um marco significativo em sua busca por poder naval. Os ironclads encomendados incluíam o Minerva e o Bellona, que foram construídos pela construtora naval britânica Laird Brothers of Birkenhead. Além disso, foram encomendados dois navios do mesmo tipo, Triton e Meduza, à construtora Dudgeons Brothers. O Paraguai também contratou um estaleiro francês para construir o Nemesis.esquerda|miniaturadaimagem|252x252px|Lima BarrosA possível aquisição desses ironclads representaria uma mudança drástica no equilíbrio de poder naval na região do Rio da Prata. A presença de tais navios de guerra modernos teria potencialmente alterado a dinâmica geopolítica e estratégica na região, conferindo ao Paraguai uma capacidade militar marítima que poderia rivalizar com outras nações da área. A guerra iniciou-se no fim daquele ano e o lançamento ao mar do Belona ocorreu em 21 de dezembro de 1865, quando o Paraguai estava isolado do resto do mundo, devido ao bloqueio naval imposto após a derrota da esquadra paraguaia na Batalha Naval do Riachuelo, que efetivamente cortou qualquer possibilidade de contato com a Europa, o que fez o Paraguai ficar diante de uma situação financeira difícil e enfrentar sérias dificuldades para cumprir seus compromissos. Um desses compromissos estava relacionado à encomenda de ironclads, e por isso não conseguiu efetuar o pagamento pelo Bellona.
A construção do Bellona terminou em 3 de abril de 1866 e o governo imperial brasileiro decidiu adquirir a embarcação, classificando-a como fragata encouraçada passando por Mostra de Armamento e sendo renomeada para Lima Barros, em homenagem ao Guarda-Marinha Francisco José de Lima Barros, morto em combate a bordo da corveta Jequitinhonha durante a Batalha Naval do Riachuelo em 11 de junho de 1865. O primeiro comandante da embarcação foi o Capitão de Mar e Guerra Elisiário Antônio dos Santos, futuro Almirante, Barão de Angra. O Lima Barros chegou ao Brasil ainda em 1866, quando fundeou na Bahia.
Serviço
Guerra do Paraguai miniaturadaimagem|Monitores Bahia (mais próximo da artilharia paraguaia) e Lima Barros em bombardeio ao Forte de Curuzu no dia 1.º de setembro de 1866 (Ilustração de Trajano Augusto de Carvalho)
Ações em Curuzú
O ironclad brasileiro foi enviado às operações navais da marinha na Guerra do Paraguai em 1.º de maio de 1866, com a incorporação na esquadra imperial do front no dia 3 de julho. A primeira ação vista pelo navio ocorreu em 1.º de setembro, quando o ironclad bombardeou o Forte de Curuzú, às margens do rio Paraguai. A fortificação possuía três canhões apontados para o rio e uma trincheira de 900 metros de cumprimento que cobria toda sua posição terrestre para impedir uma eventual tentativa de desembarque.
A partir das 07h30 e em conjunto com os ironclads Bahia, Brasil, Barroso, Rio de Janeiro e Tamandaré, e diversos outros navios de madeira, em um ataque em colaboração com o exército brasileiro, o monitor Lima Barros atacou o forte, que respondeu com seus conhões de calibre 68 e 32, em uma ação que durou até a noite daquele dia com o objetivo de "amassiar" a posição antes do ataque terrestre. No dia seguinte, o forte voltou a ser atacado. Lima Barros iniciou suas atividades logo pela manhã e, na companhia do Bahia Brasil e Barroso rompeu o passo contra o forte, sob fogo de sua artilharia, e rumou para a fortaleza de Curupaití ao qual possuía uma barreira de vigas grossas e minas navais. Venceram as barreiras e como em Curuzú, houve bombardeio da esquadra contra essa posição defensiva que também respondeu com feroz fuzilaria. Foi também neste dia que a marinha perdeu seu único ironclad na guerra, o Rio de Janeiro, que foi atingido por torpedos (minas navais) e afundou com 53 tripulantes. O bombardeio naval se seguiu até o dia 3, quando as forças terrestres do general brasileiro Barão de Porto Alegre tomaram o baluarte.
Ações em Curupaiti esquerda|miniaturadaimagem|223x223px|Ilustração do ataque da esquadra brasileira sobre Curupaiti O Lima Barros bombardeou novamente o Forte de Curupaiti por duas horas no dia 4 de setembro, em companhia dos ironclads Bahia, Barroso e Brasil, além de algumas canhoneiras, bombardeiras e chatas. Nesta ação, o Lima barros sofreu impacto de quatro projéteis que feriu um mestre de marinheiros e matou um terceiro maquinista de nome José António de Oliveira.
No dia 22, o comandante das forças aliadas, Bartolomé Mitre, ordenou o assalto do exército argentino e brasileiro contra as baterias do forte, com apoio da armada imperial sob liderança do Almirante Tamandaré. A esquadra, sob a liderança do Lima Barros que era comandado pelo Capitão de Mar e Guerra Affonso Lima, e que levava a bordo o Chefe de Divisão Elisiário Antônio dos Santos, iniciou o bombardeio do forte às 07h00 daquele dia, com os ironclads Barroso, Brasil e Tamandaré e alguns navios de madeira lançando os primeiros projéteis. Uma hora e meia depois do início do ataque, Lima Barros e o Bahia avançaram sobre o forte até encontrarem a barranca sobre a qual o baluarte se sustentava, e romperam fogo contra o local. Ao meio-dia, o Lima Barros contribuiu para o sucesso do rompimento de uma barreira de estacas próximas ao forte realizado pelos três ironclads líderes do ataque. Todos os ironclads atacaram os defensores paraguaios, com o Lima Barros bombardeando a partir do lado do Chaco em relação à posição do forte. Depois disso, a bordo da corveta Beberibe, o comandante da marinha sinalizou para que as forças terrestres iniciassem o ataque. O Lima Barros acusou ter recebido 15 impactos do forte. Entretanto, o exército aliado sofreu uma terrível derrota nessa batalha que freou todas as principais operações de guerra por cerca de um ano.
Em 29 de maio de 1867, o 2º Corpo de Exército estava estabelecido seu acampamento em Curuzú. O aumento significativo do nível do rio resultou na completa inundação do local, tornando imperativa a necessidade de uma retirada ágil para Tuiutí. Nesse contexto, a presença e cooperação do Marquês de Caxias assumiram um papel fundamental, pois ele estava determinado a evitar que o inimigo explorasse a situação para dificultar a saída do exército brasileiro. Sob a coordenação do vice-almirante Joaquim José Inácio, foi concebida a estratégia de simular um ataque contra Curupaití e tentar transpor esse ponto estratégico, desde que as condições do volume das águas permitissem. Essa manobra envolveu a participação de toda a esquadra de ironclads e dois navios de madeira, Magé e Parnaíba. O vice-almirante comandava a partir do ironclad Brasil, liderando pessoalmente a ação.
A batalha que se desenrolou foi marcada pela vivacidade e durou até o anoitecer. Ambas as partes envolvidas mostraram tenacidade, com o inimigo resistindo resolutamente e recebendo reforços de Humaitá para defender Curupaití. À medida que a noite caía e as probabilidades de êxito na tentativa de forçar a fortaleza diminuíam, os navios tiveram que se retirar para o ancoradouro. Apesar bravura e determinação dos marinheiros em meio a circunstâncias adversas, a batalha não passou sem custos, deixando um saldo de 16 feridos, incluindo o Primeiro Tenente Joaquim Cardoso Pereira de Mello, imediato do navio Tamandaré. Além disso, os navios da esquadra sofreram avarias consideráveis devido à intensidade do combate. esquerda|miniaturadaimagem|Ilustração da formação em coluna da esquadra encouraçada