Os insetos da ordem dos tisanópteros (Thysanoptera; do grego thysanos = franja, pteron = asa) são popularmente conhecidos como tripes (do grego thripos), que significa “verme da madeira”, uma vez que diversas espécies vivem em madeira morta e alimentam-se de fungos. No Brasil, algumas espécies são também conhecidas como “lacerdinhas”, “amintinhas”, “azucrinóis”ou “barbudinhos”. Algumas das que danificam plantas são chamadas de “piolho da cultura em questão” ou “tripes do sintoma causado”. Eles estão distribuídos pelos 5 continentes e atualmente são conhecidas pouco mais de 6160 espécies de tripes, sendo que no Brasil foram identificados cerca de 600, correspondendo a quase 10% da espécies conhecidas.

Os adultos apresentam corpo alongado e delgado, com o tamanho variando de 0,5 a 15mm e a coloração de esbranquiçada a negra.Possuem arólios na região mais distal das pernas que auxiliam na adesão ao substrato; podem apresentar 2 pares de asas com franjas de cerdas, mas também ha indivíduos ápteros; e um aparelho bucal único entre os insetos do tipo picador-sugador assimétrico, utilizado para raspar e picar o alimento. O ovipositor é a principal característica na diferenciação das duas subordens: em Terebrantia é cônico, penetrante e saliente; e em Tubulifera é tubular, interno e não penetrante.

São conhecidos principalmente por serem fitófagos devido aos danos que causam às agriculturas (indução de galhas; necrose e queda de folhas, frutos e flores; formação de cecídeas; transmissão de vírus), mas mais de 50% alimentam-se de fungos e existem espécies predadoras de pequenos artrópodes (principalmente de ácaros, coccídeos e mesmo outros tripes fitófagos), mas muitas espécies também são muito importantes para a polinização de algumas plantas.

A maioria possui reprodução sexuada, mas também ocorre reprodução por partenogênese nas espécies em que não ha machos ou estes são raros. O desenvolvimento pós-embrionário é intermediário entre hemimetábolo e holometábolo, sendo conhecido como remetabolia.

Morfologia esquerda|miniaturadaimagem|Thrips tabaci - sub-ordem Terebrantia.|364x364px Os insetos dessa ordem variam de 0,5 a 15 mm de comprimento, sem considerar as antenas, que variam de 1 a 3 mm. Possuem corpo alongado e achatado dorso-ventralmente e coloração variando de esbranquiçada a negra.

A cabeça apresenta uma forma retangular simétrica quando vista dorsalmente, mas assimétrica em visão ventral devido ao seu aparelho bucal único do tipo picador-sugador e que apresenta apenas uma mandíbula do lado esquerdo. No mesmo tagma está presente um par de antenas, localizadas entre os olhos, moniliforme ou filiforme, com 4 a 9 artículos e  cerdas, que podem ser  comuns ou sensilos (cerdas com sensores) e possuem características variadas, sendo utilizados na identificação de famílias, gêneros e espécies. Os olhos são compostos, mas com pouco omatídios (menos de 10), e entre eles localizam-se 3 ocelos funcionais, porém apenas nas espécies aladas.

miniaturadaimagem|Thysanoptera da sub-ordem Tubulifera.|260x260px

O protórax é livre com pronoto (esclerito dorsal do protórax) bem visível  e padrão de cerdas, utilizados para identificação. O meso e metatórax são unidos, com um par de espiráculos em cada e podem apresentar cerdas, esculturações e sensilos nos escleritos dorsais (meso e metanoto, respectivamente), estes são usados na classificação. Asas podem estar presentes ou não. As pernas são do tipo ambulatoriais, às vezes com as posteriores saltatórias e as anteriores raptoriais. Os tarsos mais distais de cada perna apresentam um arólio (bolha, vesícula ou bexiga) eversível e grande, que são cobertos por secreções liberadas por glândulas localizadas nas tíbias, auxiliando na aderência do inseto ao substrato.

Abdômen com 11 segmentos,sendo apenas 10 visíveis e o último vestigial ou muito reduzido com 2 pequenos escleritos; apresenta cerdas sigmóides (curvadas) em quantidades variáveis que prendem as asas. Nas fêmeas de Terebrantia o segmento abdominal X é cônico, incompleto ventralmente e invaginado, como parte da bainha do ovipositor; e nos machos da mesma subordem e em Tubulifera (ambos os sexos)  o segmento X é tubuliforme. A genitália dos machos é semelhante nas duas subordens: simétrica, oculta, tubular e com a abertura entre os esternitos IX e X. Cercos são ausentes e o ovipositor varia entre as duas subordens. Aparelho bucal As peças bucais apresentam orientação hipognata e são do tipo picador-sugador assimétrico, uma vez que a mandíbula direita é reduzida ou atrofiada e a esquerda é presente, sendo estiliforme, simples e reforçada. O cone bucal é composto por labro, lábio, duas estipes maxilares, um par de palpos labiais e um maxilar (maior que o anterior).

O aparato alimentar é composto por 3 estiletes: um mandibular esquerdo e dois maxilares, cada um contido em uma bolsa; quando acoplados, os estiletes maxilares formam um tubo com abertura subterminal, com o qual injetam saliva nos tecidos e sugam o conteúdo celular, uma de cada vez. Em espécies que se alimentam de esporos de fungo, o canal alimentar e os estiletes maxilares são mais largos, permitindo a ingestão de poros inteiros.

Em Terebrantia os palpos maxilares apresentam 2 ou 3 artículos e os estiletes estão comumente pouco retraídos dentro do cone bucal, quando em repouso. E em Tubulifera existem 2 artículos no palpos maxilares e geralmente, quando em repouso, os estiletes encontram-se, no interior do cone bucal, muito retraídos.

Asas miniaturadaimagem|283x283px|Tripes micrótero Possuem dois pares de asas, entretanto algumas espécies apresentam polimorfismo quanto ao tamanho das mesmas em ambos ou em um dos sexos (geralmente machos), podendo ser ápteros, micrópteros ou macrópteros. São finas, lanceoladas, membranosas, podendo ser claras ou não e alguns indivíduos apresentam a asa anterior mais larga. Apresentam franja de cerdas (de onde vem o nome da ordem) ou cílios finos e longos em ambas ou apenas uma margem, que resulta no aumento da área funcional, podendo chegar a 80% da mesma. A asa anterior possui álula com um par de cerdas terminais, que se acoplam às cerdas costais da asa posterior.

Em Terebrantia as asas apresentam duas veias longitudinais cobertas por minúsculas cerdas, a membrana é coberta por microtríquias (microvilosidades especializadas que aumentam a superfície de contato)  e em repouso, ficam paralelas sobre o abdômen. E em Tubulifera as asas não apresentam venação, a membrana não apresentam pilosidade microscópica e repousam sobrepostas uma a outra no abdômen.

Ovipositor Em Terebrantia estão presentes 4 valvas serradas salientes localizadas ventralmente entre os esternitos VIII e IX em uma fenda longitudinal formando um ovipositor penetrante ou terebra. Este pode ser curvado na direção do corpo ou contrário ao mesmo (dependendo da família) e é usado para inserir os ovos dentro do tecido vegetal.

Em Tubulifera não ha terebra. O ovipositor é não penetrante e localiza-se internamente, sendo eversível e flexível; a vulva localiza-se entre os esternitos VIII e IX.

thumb|Esquema de Terebrantia e Tubulifera, baseado em Insetos do Brasil - diversidade e taxonomia|centro|701x701px

Biologia esquerda|miniaturadaimagem|266x266px|Thysanoptera (provavelmente Frankliniella occidentalis - sub-ordem Terebrantia) alimentando-se dos grãos de pólen de uma Euphorbia albomarginata

Alimentação miniaturadaimagem|295x295px|Tripes da família Phlaeothripidae (Tubulifera) alimentando-se de fungos Os tripes podem ser  fitofagos, alimentando-se das  folhas e flores; micófagos ou fungívoros os quais se alimentam dos esporos dos fungos; predadores atacando ácaros, aleirodídeos, afídios, coccídeos, outros tripes e/ou seus ovos e nematoides; e também há duas espécies de ectoparasitas. A predação facultativa ou fitozoofagia é recorrente.

São portadores de um aparelho bucal  do tipo picador-sugador com três estiletes, oriundos de peças bucais modificadas (maxilares e mandíbula esquerda) e atrofiada (mandíbula direita). Os tripes que se alimentam dos fluidos das plantas o fazem introduzindo o estilete mandibular na lamina foliar, abrindo um orifício em uma única célula, em seguida introduzem os dois estiletes maxilares, os quais formam um tubo, e suga todo o fluido celular. O mesmo procedimento também é utilizado para extrair o conteúdo do grão de pólen. Metade de todas as espécies de tripes são fungívoras e consomem as hifas ou  os esporos destes organismos. Os esporos são consumidos inteiros, pois estas espécies de tripes possuem o canal alimentar e o tubo maxilar mais largo. Acredita-se que os  primeiros Thysanoptera alimentavam-se de hifas de fungos e tecidos em decomposição.

Os danos diretos na planta vão desde a descoloração da parte afetada, no caso de folhas, até murchamento e morte. Há ainda os danos indiretos como a injeção de toxinas presentes na saliva ou a transmissão de alguns vírus como o tospovírus. Todavia, somente 14 das 6000 espécies de tripes são reconhecidamente transmissoras de viroses. Ocasionalmente tripes fitófagos perfuram a pele humana causando reações variáveis.

Habitat miniaturadaimagem|214x214px|Tripes em pétala de margarida Encontram-se em locais diversos, devido à diversidade de hábitos alimentares, que pode ser na parte aérea de plantas (folha, caule, flores e frutos), na serrapilheira e sob casca de galho e troncos mortos, exceto pelas espécies totalmente aquáticas.

Geralmente encontram-se em abrigos, que podem ser encontrados, induzidos (galhas) ou construídos (podem tecer um estrutura semelhante a uma tenda ou formar cecídeas); e são essenciais para a diminuição da perda de água pela transpiração.

Ciclo de vida miniaturadaimagem|Adulto (escuro e com asas) e ninfa (claro e sem asas) de Thysanoptera.|esquerda|274x274px Thysanoptera apresenta desenvolvimento intermediário entre a simples e a completa, chamado remetabolia, este inclui dois ou três estágios pupal quiescente, no qual, semelhante às pupas de holometábolos, o inseto permanece totalmente imóvel durante um período prolongado (embora seja capaz de andar se incomodada), sem se alimentar e ocorrem mudanças estruturais (apesar da semelhança morfológica). No primeiro e segundo instares aparecem como adultos pequenos, mas não possuem aparelho reprodutor desenvolvido, ocelos e nem asas (somente "brotos" alares), geralmente são chamados de "larvas"; estas alimentam-se intensamente até empupamento, que geralmente ocorre próximo ao local de de alimentação. Os instares 3 a 4 (Terebrantia) ou 3 a 5 (Tubulifera) são instares de repouso, ou pupa, no qual ocorre a reconstrução dos tecidos com o desenvolvimento das asas e da genitália.

miniaturadaimagem|217x217px|Ninfa de um Terebrantia

A maioria das espécies de tripes é bissexual com predomínio de fêmeas. Em muitas espécies a presença de machos é rara ou inexistente e a reprodução é parcial ou totalmente partenogenética. As fêmeas de tripes são diplóides, enquanto os machos são haploides, produzidos por ovos não fertilizados, processo conhecido como partenogênese. A partenogênese nesses insetos pode ser  arrenótoca, a qual só origina indivíduos machos ou deuterótoca, a qual origina machos e fêmeas, embora na geralmente as fêmeas sejam geradas por reprodução bissexual. Não há registro de partenogênese telítoca, na qual os ovos não fecundados geram somente fêmeas.