thumb|direita|290px|Ruínas da Capela de São Sebastião do Barro Branco. A Capela de São Sebastião do Barro Branco foi um templo religioso construído no final do século XIX, localizado na esquina entre as avenidas Nova Cantareira e Água Fria no bairro do Jardim França, São Paulo, SP. Acredita-se que tenha sido implantada no mesmo local onde um dia foi o Pouso de Água Fria, local onde tropeiros repousavam. No início do século XX, ficou conhecida como "capela dos militares" por ficar próxima à Invernada da Força Pública de São Paulo e ser a capela pessoal do comandante da tropa, Coronel Joviniano Brandão, figura importante no combate à Coluna Prestes, na década de 1920, e que se opôs à Revolução de 1930 e ao governo de Getúlio Vargas, tendo liderado um levante em 28 de abril de 1931, que resultou na sua reforma da Força Pública.
Em posse do filho do coronel, Major Washington Luís Brandão, após a morte do pai em 1944, a capela se tornou local de devoção muito frequentado pelos crentes da Zona Norte de São Paulo. Acidentes com velas de promessas dentro da igrejinha, porém, resultaram em dois incêndios que destruíram o altar principal. Este teve que ser substituído por uma réplica. Em meados da década de 1950, por desentendimentos familiares, a capela foi definitivamente fechada e entrou em estado de abandono completo. Já na década de 1970, o teto da construção cedeu e caiu. A partir de então, com o risco de as paredes também desabarem, o proprietário e o arquiteto Édison Ivanov, juntamente com outras entidades, como a AMAR (Associação dos Moradores e Amigos da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo), presidida pelo historiador Malcolm Forest, começaram uma movimentação pelo tombamento da capela como patrimônio histórico de São Paulo. O processo começou no Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico de São Paulo, o CONDEPHAAT, e, depois de arquivado, foi aberto um novo no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo, o CONPRESP. A capela foi parcialmente demolida em 15 de julho de 2001 e totalmente em 17 de agosto do mesmo ano. Seis dias depois, o CONPRESP abriu o processo de tombamento do local, que foi encerrado em 2003. As ruínas das fundações, a escadaria e o piso da nave principal e do altar-mor estão tombados pelo Conselho.
História
Do pouso "Água Fria" à construção da capela O surgimento da Capela de São Sebastião do Barro Branco remete ao começo do crescimento de São Paulo, principalmente no que se refere à sua localização. Durante o período colonial, a vila não tinha tanta projeção econômica e servia mais como um entreposto comercial. Os produtos tinham como destino centros com função exportadora, como era o caso do Rio de Janeiro, e eram levados por tropas de burros, que era o único meio existente para se atravessar a serra pelas estradas precárias da época. Como São Paulo se encontrava entre o ponto de partida e o ponto de chegada das mercadorias, a vila se tornou um ponto de repouso para os tropeiros. Com a decadência da era do ouro em Minas Gerais, já no final do século XVIII, São Paulo deixou de ser apenas um ponto de descanso e passou a desenvolver outras atividades econômicas, como a plantação de açúcar. Essas fazendas, porém, acabavam se instalando nos arredores da cidade, que nessa época já tinha gerado investimentos públicos na urbanização por concentrar toda a burocracia provincial. Com o aumento cada vez maior da população da cidade, que chegou a subir 43% entre os anos de 1836 e 1872, o centro urbano passou a se expandir para Leste e Sul. Enquanto isso, a Zona Norte continuou com características rurais e fazia parte de um tipo de "cinturão" de chácaras residenciais e de pousos e alojamentos de tropeiros. Um dos principais pousos que existiam na direção Norte da cidade e que ficava no caminho para a cidade de Bragança Paulista era o de "Água Fria", onde se acredita ter sido construída a Capela de São Sebastião do Barro Branco mais tarde.
O caminho de Água Fria teve grande importância no século XIX por ser a ligação entre Santana e o caminho para Juquery, que levaria então ao sul de Minas Gerais. A urbanização da região só foi se consolidar no Ciclo do Café, que teve justamente grande protagonismo de São Paulo. No início do ciclo do café, as antigas rotas de tropeiros se tornaram essenciais, justamente por serem locais de passagem e possuírem pontos de repouso para os transportadores. Algum tempo depois, porém, com o advento do transporte ferroviário, a urbanização desses aglomerados não se fez mais tão necessária, afinal os trilhos eram colocados preferencialmente em terrenos mais planos, encontrados próximos às várzeas e terraços fluviais de rios próximos, enquanto as rotas antigas estavam localizadas em terrenos sinuosos. Esse fenômeno aconteceu na rota de Juquery, o que fez com que os bairros de Água Fria e Tremembé ficassem à margem do núcleo econômico e, portanto, em um cenário de abandono. É nessa época que se tem os primeiros registros de uma capela construída no local, em data anterior 1895. A hipótese mais aceita é de que a capela original foi erguida nos últimos 25 anos do século XIX, entre a época de decadência da rota de Água Fria e a data de desmembramento da paróquia de Santana, no ano de 1895, para atrair um maior afluxo à região através da religião, já que era um dos poucos pontos onde os católicos poderiam praticar suas crenças. Nessa época, a capela de São Sebastião era agregada à Capela de Santa Cruz do Alto de Santana, matriz provisória da paróquia de Santana.
A capela "dos militares" e a Coluna Prestes O pequeno templo religioso estava localizado ainda no antigo pouso de Água Fria, que era agora uma propriedade privada. Antes de 1910, o terreno era de posse de Juvêncio Antônio Augusto, antigo morador da região. Depois dessa data, a propriedade foi comprada e passou para o nome do coronel do Exército Joviniano Brandão, que era comandante do 1º Batalhão da Força Pública. Por isso, a capela passou a ser também de propriedade do coronel. O templo passou a ser conhecido como capela "dos Militares", já que ficava em frente à Invernada da Força Pública, que no futuro viria a se tornar a Academia da Polícia Militar do Barro Branco.
A Capela de São Sebastião continuou a ser o principal ponto de práticas religiosas da região até a criação da paróquia do Menino Jesus de Tucuruvi, em 1926. Acredita-se que o templo tenha sido um ponto de encontro para parte da população local, principalmente a população pobre e negra. Ao longo dos anos de formação da paróquia, a capela e seus objetos religiosos foram alvo de disputa. Em 1921, alguns frequentadores da capela solicitavam que as imagens e objetos sagrados do templo fossem transferidas para a Capela do Tucuruvi, que tinha sido criada recentemente. O pedido foi feito oficialmente ao Vigário Geral D. Emílio Teixeira, que expediu uma provisão autorizando a transferência. O antigo zelador da capela de São Sebastião, Juvenal Felippe Amador, se recusou a entregar as chaves do templo para a realização do traslado. Na época, o zelador foi acusado de não permitir a transferência pois fazia "usufruto das esmolas e leilões e profanações da religião com sambas e libações alcoólicas". O caso acabou em conciliação entre as duas partes.
Nessa época, estava em alta o movimento tenentista, em que tenentes (oficiais de baixa e média patente do Exército) passaram a se rebelar contra a política vigente, a alternância de poder entre as oligarquias de Minas Gerais e São Paulo, na que ficou conhecida como "Política do Café-com-Leite". Em 1924, a Coluna Prestes era o mais forte e influente movimento tenentista. Nesse ano, o Cel. Joviniano Brandão e sua tropa atuou em uma expedição de perseguição e combate à Coluna, agindo em favor dos interesses oligárquicos da época. A tropa do Cel. Brandão, porém, estava sofrendo com doenças, o que acabou dizimando parte da equipe. De acordo com o filho do coronel, Major Washington Luis Brandão, Joviniano teria prometido ao próprio São Sebastião que faria uma reforma na capela em sua chácara e a manteria em devoção ao santo caso seus homens fossem poupados. Ao fim da expedição, as tropas conseguiram derrotar os tenentistas na cidade de Uruguaiana. Por esse motivo, foi erguida na cidade uma estátua em homenagem ao Cel. Joviniano, que foi nomeado comandante da Força Pública estadual em 1928, no lugar do Cel. Pedro Dias de Campos. Depois de retornar a São Paulo, o coronel realizou a reforma prometida na capela em 1926.
O "Movimento Abrilista" de 1931 e o futuro da capela Joviniano Brandão continuaria a defender os interesses do poder vigente durante a Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, que visava derrubar o então presidente da República Washington Luís, representante da oligarquia paulista. O lado vitorioso, porém, foi o movimento golpista. Com isso, Vargas passou a homenagear oficiais que participaram da Coluna Prestes com a promoção deles para cargos de comando militar, como foi o caso de Miguel Costa, que foi nomeado para a Secretaria de Segurança Pública. Com a derrota, a tropa do Coronel Brandão acabou emitindo um comunicado à população paulista em outubro do mesmo ano, afirmando que obedeceriam a vontade do povo de depor o presidente Washington Luís. Foi por volta dessa época que foi construída uma casa ao lado da Capela de São Sebastião, onde moraria a filha do coronel, Cleobe Brandão, a partir de 1944.
Nos meses seguintes ao golpe de 1930, porém, as tropas e os quartéis paulistas passaram a se dividir entre apoiadores do novo governo e contrários a ele. Isso porque Getúlio não assumiu vários compromissos que fez durante o movimento golpista. Com isso, os membros da Força Pública de São Paulo se dividiram entre os Miguelistas, favoráveis ao governo e representado por Miguel Costa, e os legalistas, contrários a Costa e Getúlio. Com isso, começou a ser articulado um levante dentro da Força Pública com o objetivo de depor o interventor de São Paulo, tenente João Alberto Lins, e Miguel Costa do poder. Os mentores da insurgência acreditavam que, com a prisão dos dois nomes que comandavam a polícia no estado, Vargas atenderia às suas reivindicações. O Cel. Joviniano passa a ser o principal líder do movimento e, através de conversas com outros chefes militares, consegue o apoio do comandante da 2ª Região Militar, general Izidoro Dias Lopes, cotado para assumir o comando da Força Pública no governo provisório, assim como o apoio da Guarda Civil e dos estudantes. O levante resultou na prisão de vários oficiais Miguelistas no dia 28 de abril, no que ficou conhecido como "Movimento Abrilista". Em meio à insurgência, porém, Joviniano ordenou às tropas que suspendessem as hostilidades, afirmando que tinha chegado a uma solução pacífica e honrosa ao conflito. Com isso, o coronel anuncia, de forma solene, a transferência do comando da equipe ao próprio Gel. Miguel Costa. Como resultado, os oficiais legalistas envolvidos na ação são presos e alguns foram enviados para o Instituto Correcional de Taubaté, outros foram confinados na "Hospedaria dos Imigrantes" do Brás, que foi convertida em um presídio político, e um terceiro grupo foi expulso. O Cel. Joviniano, por sua vez acabou sendo reformado após esse ocorrido, apesar de haver uma contradição com relação à data da reforma do militar, que foi registrada no dia 27, e não no dia 28, em que ocorreu o levante. O "movimento abrilista" é considerado ainda, por muitos autores, como o princípio do que viria a ser a Revolução Constitucionalista de 1932.