Fauno (, ,HACQUARD, Georges, Guide Mythologique de la Grèce et de Rome, 1990, Hachette, Paris – (versão em português pode ser encontrada sob título Dicionário de Mitologia Greco-Romana) também Fatuus, "destino"MURRAY, Alexander. Quién es Quién en la Mitología (Who’s Who in Mythology), trad. Cristina María Borrego, M. E. Editores, Madri, 1997, ISBN 84-495-0421-X ou "profeta") é um nome exclusivo da religião de Roma Antiga (politeísta), originalmente, define um rei da região de Lácio que foi transmutado em deus, que posteriormente sofreu diversas modificações, devido sincretismo com seres da religião grega ou mesmo da própria romana, causando grande confusão entre mitos variados, ora tão mesclados ao mito original que muitos não lhes distinguem diferenças (como, por exemplo, entre as criaturas chamadas de faunos – em Roma – e os sátiros, gregos).
Inicialmente, o nome era usado para denominar três figuras distintas: Fauno, rei mítico do Lácio, deificado pelos romanos - muitas vezes confundido com Pã, com Silvano e, com Lupércio (como deus, era imortal); Faunos (no plural, embora possa ser usado no singular, quando individuado o ser) – criaturas que, tal como os sátiros gregos, possuíam um corpo meio humano, meio bode, e que seriam descendentes do rei FaunoAs 100 melhores histórias da mitologia: deuses, heróis, monstros e guerras da tradição greco-romana A. S. Franchini, Carmen Seganfredo. 9ª ed. Porto Alegre, L&PM, 2007. ISBN 85.254.1316-X (semideuses e, portanto, mortais); ou ainda, Fauno, um marinheiro que, tendo se apaixonado por Safo, obteve de Afrodite beleza e sedução a fim de que pudesse conquistar a poetisa.
Um rei, um deus thumb|Fauno. Nesta estátua não se vê a forma caprípede do deus.Casa do Fauno, em Pompeia
A primitiva imagem de Fauno na mitologia romana diz respeito ao terceiro rei da Itália (Lácio), e que segundo Virgílio, na Eneida, teria recebido o troiano Evandro, quando este se instalou no monte Palatino; Fauno seria filho de Pico, que era por sua vez filho de Saturno. Trazia, assim, a condição divina por seu antepassado avoengo.O livro de ouro da mitologia: (a idade da fábula): histórias de deuses e heróis (The age of fable) Bulfinch, Thomas ; trad. David Jardim Júnior, 26ª ed. Rio de janeiro, 2002 ISBN 85-00-00671-4. Já Hacquard diz que Fauno seria filho de Júpiter com Circe, ao passo que Murray aponta versões de que seria filho de Marte.
Segundo Murray, teria sido um rei que, em virtude dos bens feitos ao seu povo, civilizando-os e introduzindo no país a agricultura, foi alçado à divindade após sua morte, sendo adorado como representante das matas e dos campos, sob o nome de Fátuo (). Já Hacquard reputa a deificação do rei por este haver criado as leis e inventado a flauta. Para este autor, Luperco era seu outro nome, sendo um deus agrícola que garantia a fertilidade do gado e sua proteção, especialmente contra os lobos, e que tinha prazer em ficar junto às fontes e passear pelos montes e florestas.
Descendência Fauno seria o pai de Latino, que o sucedera no trono itálico e que, já velho e sem sucessor homem, foi advertido num sonho por Fauno de que a neta Lavínia deveria casar-se com um estrangeiro – e não com um dos muitos pretendentes vizinhos que a cortejavam. O estrangeiro, então, seria o herói Eneias. Hacquard confirma esta versão, mas questiona se Latino não seria, talvez, filho de Hércules, em vez de Fauno. Da união de Eneias e Lavínia, profetizara Fauno no sonho, adviria uma raça que iria dominar o mundo: os romanos. Essa versão é confirmada por Nênio, que narra a ida de Eneias para o Lácio, onde derrota Turno, um dos pretendentes de Lavínia.Nênio, História dos Britanos, Projeto Gutenberg (página obtida em novembro de 2008).
Algumas versões do mito apresentam Fauna como filha do rei, e que este a teria embriagado e, assumindo a forma de uma serpente, a violentara.
thumb|Fauno,por Caracci, na Galeria Nacional de Arte No mito de Ácis e Galateia, esta declara que ele seria filho de Fauno com uma náiade.
Representação A representação de Fauno, nas pinturas e esculturas antigas, é feita retratando-o como um homem de barbas, uma coroa de folhas sobre a cabeça e vestindo somente uma pele de cabras, segurando a cornucópia.Ovídio nos diz que tinha chifres na cabeça, e sua coroa era feita de pinus.
Já para os faunos, Dillaway diz que “Os romanos os chamavam Fauni e Ficarii. A denominação Ficarii não deriva do latim ficus que significa figo, como alguns imaginaram, mas de ficus, fici, uma espécie de tumor ou excrescência que cresce nas pálpebras e outras partes do corpo, que os faunos eram representados como possuidores.”
Tendências sincronatórias Fauno e Fauna thumb|Mosaico que parece ilustrar a cena do estupro de Fauna. A imagem, entretanto, refere-se a uma “ninfa” – algo improvável, face a ausência de caracteres satíricos na representação de Fauno. Da Casa do Fauno, em Pompeia, atualmente no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles
Fauna, além da variante que a toma por filha de Fauno, teria sido noutras versões sua esposa, de cuja união advieram os faunos,Roman Antiquities, and Ancient Mythology (For Classical Schools) (2ª ed) Charles K. Dillaway, Projeto Gutenberg (página acessada em novembro de 2008). e segundo algumas fontes esta teria se embriagado com vinho e, então, surrada pelo esposo até a morte, apesar de seus hábitos comedidos; seria, também, uma irmã de Fauno.
Fauna, por sua vez, era também associada, pelos romanos, à Boa Deusa. Assim como Fauno, ela também possuía dons oraculares, embora no seu caso voltado apenas às mulheres.
Fauno e Pã Sendo uma antiga divindade da Itália, nos tempos romanos Fauno adquiriu características que o tornaram similar ao deus Pã, grego.Mitologias – Deuses, heróis e xamãs nas tradições e lendas de todo o mundo. Roy Willis, coord., (trad. Thaís Costa e Luiz Roberto Mendes Gonçalves) Publifolha, 2006, ISBN 978-85-7402-777-7 Entretanto, os romanos não fizeram a assimilação direta de Pã a Fauno: ora suas características estão unidas, ora está relacionado ao deus Silvano.
Segundo Menard, os mitos gregos, ao se espalharem pela Itália fizeram com que se confundissem as relações entre Pã e Fauno, embora suas lendas fossem distintas.
Fauno e Silvano Para Bulfinch, Silvano e Fauno eram deuses romanos tão similares a Pã, que os considera a mesma personagem com nomes distintos. A diferença, tênue, quando existente, é indicada por Dillaway, dizendo que “os faunos eram uma espécie de semi-deuses, que quando habitando as florestas eram também chamados Silvanos.”
Fauno e/ou Lupércio Fauno, como protetor do gado, recebe o nome de Luperco (ou Lupércio: "aquele que repele os lobos) Estes nomes teriam sido aqueles com os quais Pã fora identificado, em RomaPã , página acessada em novembro de 2008 Já a associação dos nomes - Faunus Lupercus - parece comum.
Culto Segundo Bailey, os mitos como o de Fauno, associados aos seres do campo ou silvestres apresentam um caráter menos digno do que o devotado aos deuses Lares. A Fauno, bem como ao seu companheiro Ínuo (um dos di indigetes), associavam os romanos um caráter de selvageria e travessura, a refletir uma convicção animista da maldade e hostilidade como algo natural nestes espíritos.The Religion of Ancient Rome, Cyril Bailey, M. A., Projeto Gutenberg (página acessada em novembro de 2008).
O culto a Fauno dava-se em santuários, dos quais o principal era o Lupercal, localizado no monte Palatino, na gruta de Rômulo e Remo. Seus sacerdotes eram chamados Lupercos que usavam chicotes feitos com couro de cabra. Sua finalidade era atender aqueles que buscavam a fertilidade. Menard acentua que essa característica de fecundidade nos rebanhos era caráter comum a todos os primitivos deuses itálicos, donde receber Fauno as honras dos pastores.
Fauno era cultuado especialmente por seus dons oraculares. Suas previsões se davam nas matas e eram comunicadas aos que as desejavam por meio de sonhos. Para isto, era necessário o consulente dormir nos lugares sagrados ao deus, sobre peles de animais adrede sacrificados a ele.
A caverna de Fauno thumb|Altar com a representação do Lupercal, no mito de Rômulo e Remo.Museu do Louvre
A gruta mitológica em que a Loba de Marte teria alimentado os gêmeos Rômulo e Remo, chamada de Lupercal, teria o mesmo nome que o lugar de adoração a Fauno (em sua variante devocional de Faunus Lupercus); para Hacquard, por exemplo, tratava-se apenas de uma coincidência de nomes..
Em 2007, entretanto, o Ministro da Cultura italiano, Francesco Rutelli, anunciou a localização, em Roma, deste santuário. Possui adornos em suas paredes, teto em abóbada e suas dimensões são de 6,5 metros de altura e 7 metros de diâmetro. A caverna, agora lugar real e não fantástico, foi datada como sendo da Idade do Bronze.Notícia, BBC-Brasil, página acessada em novembro de 2008.
Profecias Na caverna, segundo a história, os romanos obtinham as profecias de Fauno. Gibbon narra a ascensão de Carus ao domínio de Roma, sem a aprovação do Senado. Uma écloga, então composta, lisonjeava o novo imperador: dois pastores, evitando a canícula do meio-dia, descansam na caverna de Fauno. Sob uma faia frondosa, descobrem recentes escritos; a divindade rural descrevia, em versos proféticos, a felicidade do império sob o reinado de tão grande príncipe. Fauno saudava a chegada daquele herói que, recebendo nos ombros o peso do mundo romano, vai extinguir as guerras e as facções, e mais uma vez irá restaurar a inocência e segurança da idade de ouro.History of the Decline and Fall of the Roman Empire, (A História do Declínio e Queda do Império Romano) Edward Gibbon, Projeto Gutenberg (página acessada em novembro de 2008).
Hacquard lembra, ainda, o episódio onde Numa Pompílio – um dos reis míticos de Roma – teve de acorrentar sua efígie a fim de obter seus préstimos oraculares.
Lupercais e Faunália As festas dedicadas a Fauno (Lupércio) ocorriam a 15 de fevereiro,dicionário Aurélio verbete lupercais que teria sido a data da fundação do seu templo, o Lupercal. Essa festa era essencialmente rural, uma vez que Fauno Lupércio tinha a precípua função de proteger os rebanhos (‘’Lupercius’’ seria, assim, “que repele os lobos”)Encyclopedia Mythica por Micha F. Lindemans (acessada em novembro de 2008). Eram uma forma de purificação, com fito de obter grande produtividade na agricultura e na criação. Teria sido iniciada por Evandro e persistiu até o século V quando a Igreja a incorporou, transformando-a, segundo Georges Hacquard, na festa da Purificação da Virgem.
Bailey ressalta que a notoriedade dessa festa chegou até a atualidade graças ao uso político que dela fez Marco Antônio, em .
Em 5 de dezembro outro festival se realizava, a Faunália, similar às Lupercais. Neles os sacerdotes de Fauno, chamados Lupercos, andavam pelas ruas, ministrando chibatadas nas pessoas com açoites feitos com pele de cabra.
Os faunos Divindades do campo teriam vida bastante longa, embora não fossem imortais; similares aos silvanos de Roma e aos sátiros gregos.
Também se diferem pouco dos pãs e dos egipãs, sendo pequenas divindades que desempenhariam papel análogo ao dos heróis míticos, que são intermediários entre os deuses e os homens, segundo Menard, sendo, portanto, intermediários entre os animais, de vida puramente instintiva – neste caso o bode – e as divindades. Segundo este autor, sua criação deve-se apenas à escultura, pois nada há nos filósofos referentes a eles.MENARD, René. La Mythologie dans l’Art Ancien et Moderne – Mitologia Greco-Romana, vol. 3, trad. Aldo della Nina, Opus, São Paulo, 1985.