Na antropologia e sociologia, o privilégio social – ou simplesmente privilégio – é uma vantagem ou direito especial que beneficia indivíduos pertencentes a certos grupos, muitas vezes em detrimento de outros. Grupos privilegiados podem ser favorecidos com base em classe social, riqueza, categoria étnica ou racial, educação, casta, idade, aptidão física, nacionalidade, localização geográfica, diferenças culturais, gênero, identidade de gênero, neurodiversidade, orientação sexual, religião e outros fatores de diferenciação. Indivíduos podem ser privilegiados em uma área, como educação, e não privilegiados em outra, como saúde. A quantidade de privilégio que um indivíduo possui pode mudar ao longo do tempo, como quando uma pessoa se enquadra em necessidades especiais, ou quando uma criança se torna um jovem adulto.
O conceito de privilégio é geralmente considerado um conceito teórico usado em diversas disciplinas e frequentemente associado à desigualdade social. O privilégio também está ligado a formas sociais e culturais de poder. Ele começou como um conceito acadêmico, mas desde então tem sido utilizado de forma mais ampla, fora da academia. Esse tema baseia-se nas interações entre diferentes formas de privilégio em determinadas situações. Pode ser entendido como o inverso da desigualdade social, na medida em que foca em como as estruturas de poder na sociedade beneficiam pessoas privilegiadas socialmente, em vez de focar apenas em como essas estruturas oprimem outras pessoas.
Visão geral Historicamente, o estudo acadêmico da desigualdade social focava principalmente as formas pelas quais os grupos minoritários eram discriminados, deixando os privilégios concedidos aos grupos sociais dominantes em segundo plano. Isso começou a mudar no final da década de 1980, quando pesquisadores passaram a estudar o conceito de privilégio.
O privilégio, conforme entendido e descrito por pesquisadores, é uma função de múltiplas variáveis de importância variável, como etnia, idade, gênero, orientação sexual, identidade de gênero, neurotipicidade, cidadania, religião, habilidade física, saúde, nível de escolaridade, entre outras. Algumas variáveis, como cor e gênero, são relativamente estáveis, enquanto outras, como idade, classe social, religião e habilidades físicas, podem mudar com o tempo. Alguns atributos do privilégio podem ser determinados — ao menos em parte — pelo indivíduo, como o nível de escolaridade; enquanto outros, como cor ou origem de classe, são totalmente involuntários.
O sociólogo americano Michael Kimmel usa a metáfora do vento para explicar o conceito. Ele afirma que, quando você caminha contra o vento, precisa se esforçar a cada passo. Quando caminha a favor do vento, você nem sente o vento, mas ainda assim se move mais rápido do que normalmente se moveria. O vento representa o privilégio social: se ele sopra a seu favor, simplesmente te impulsiona para frente com pouco esforço próprio. miniaturadaimagem|Pessoas privilegiadas são consideradas “a norma” e, portanto, tendem a ocupar mais cargos de autoridade - Cerimônia da abertura da COP29, em Bacu, Azerbaijão. No contexto da teoria, pessoas privilegiadas são consideradas “a norma” e, como tal, adquirem algumas facilidades sociais, enquanto os outros são vistos como variantes inferiores. Pessoas privilegiadas se veem refletidas em toda a sociedade — tanto na mídia de massa quanto nas interações pessoais com professores, chefes no trabalho e outras figuras de autoridade —, o que, segundo os pesquisadores, leva a um sentimento de direito (ou merecimento) e à suposição de que a pessoa privilegiada terá sucesso na vida. Além disso, isso protege a pessoa privilegiada da preocupação de que possa enfrentar discriminação por parte de autoridades.
Elaboração do conceito miniaturadaimagem|W. E. B. Du Bois, autor de As Almas da Gente Negra Um dos primeiros teóricos a pensar o conceito de privilégio foi o sociólogo e historiador americano W. E. B. Du Bois, em seu livro de 1903, As Almas da Gente Negra. Nele, Du Bois argumenta que, embora os afro-americanos fossem atentos aos americanos brancos e conscientes da discriminação racial, os americanos brancos pouco pensavam sobre os afro-americanos ou sobre os efeitos da discriminação racial. Em 1935, Du Bois escreveu sobre o que chamou de “salários da branquitude” (“wages of whiteness”) usufruídos pelos americanos brancos. Ele escreveu que esses incluíam cortesia e deferência, entrada irrestrita em todos os eventos públicos, tratamento brando nos tribunais e acesso às melhores escolas.
No Brasil, ainda na década de 1930, Sérgio Buarque de Holanda tocou na ideia de patrimonialismo e no uso privado do público, uma forma de privilégio histórico das elites. Em 1964, em seu livro A integração do negro na sociedade de classes, Florestan Fernandes analisa como, mesmo após a abolição da escravidão, os negros não alcançaram uma real integração econômica, social e política, permanecendo em posições de desvantagem. Além disso, discute o mito da “democracia racial” e evidencia o contraste entre a ideia de que não há discriminação racial e a realidade de que privilégios brancos ainda persistem. Já na década de 1980, nomes como Abdias do Nascimento e Lélia Gonzalez se destacam nos estudos sobre a relação entre raça, desigualdades sociais e privilégios.
Em 1988, a feminista e ativista antirracismo estadunidense Peggy McIntosh publicou o artigo "Privilégio Branco e Privilégio Masculino: Um Relato Pessoal de Como Passei a Ver Correspondências através do Trabalho em Estudos de Mulheres”. Nesse texto, McIntosh documentou quarenta e seis privilégios que ela, como pessoa branca, experimentava nos Estados Unidos. Por exemplo: “Posso ter certeza de que, se eu precisar de ajuda jurídica ou médica, minha raça não jogará contra mim” e “Não preciso educar meus filhos para que estejam atentos ao racismo sistêmico para garantir sua proteção física diária”.
No Brasil, por exemplo, esse tipo de vantagem médica pode ser percebida no pré-natal e no parto de mulheres brancas. Elas tendem a receber mais atenção e mais anestesia do que as mulheres negras, que por um desconhecimento biológico (e até mesmo racista) são consideradas mais resistentes a dor.
McIntosh descreveu o privilégio branco como um “pacote invisível de benefícios não conquistados” que as pessoas brancas não querem reconhecer, e que as leva a se sentirem confiantes, confortáveis e alheias às questões raciais, enquanto as pessoas não brancas se tornam inseguras, desconfortáveis e alienadas. O ensaio de McIntosh é creditado por ter estimulado o interesse acadêmico no tema do privilégio, que tem sido amplamente estudado nas décadas seguintes.
Ainda a respeito desse acordo não verbalizado de autopreservação, que perpetua o poder de pessoas brancas, recentemente, no Brasil, a psicóloga e a ativista Cida Bento, publicou o livro O Pacto da Branquitude.
Consciência de privilégio Alguns acadêmicos destacam um padrão em que aqueles que se beneficiam de um tipo de privilégio se mostram relutantes em reconhecê-lo. O argumento que se segue é que essa negação constitui uma injustiça adicional contra aqueles que não se beneficiam da mesma forma de privilégio. Derald Wing Sue se refere a essa negação como uma forma de “microagressão” ou “microinvalidação”, que nega as experiências das pessoas que não possuem privilégio e minimiza os obstáculos que enfrentam.
McIntosh escreve que a maioria das pessoas é relutante em reconhecer seu privilégio, preferindo buscar justificativas ou minimizar seus efeitos, afirmando que o privilégio foi completamente merecido. Essas pessoas costumam reconhecer ações individuais de dominação imerecida, mas negam que o privilégio seja institucionalizado e esteja enraizado em toda a sociedade. Ela também explica que, mesmo aqueles que acreditam que o privilégio é sistêmico podem negar ter se beneficiado pessoalmente dele — e, por isso, podem se opor a esforços para desmontá-lo.
Segundo a literatura corrente, indivíduos privilegiados tendem a resistir em reconhecer seus privilégios porque isso exigiria admitir que o sucesso que alcançaram não foi resultado apenas de seus próprios esforços, mas também de um sistema que foi desenvolvido para favorecê-los. O conceito de privilégio questiona a ideia de que a sociedade funciona como uma meritocracia — crença que é particularmente desconfortável para os estadunidenses, para os quais a noção de viver em uma meritocracia é um valor cultural profundamente arraigado, e que os pesquisadores frequentemente caracterizam como um mito.
Em The Gendered Society (A Sociedade de Gênero), Michael Kimmel escreveu que, quando pessoas de todos os níveis de privilégio não se sentem pessoalmente poderosas, os argumentos de que se beneficiaram de vantagens imerecidas parecem pouco convincentes.
Catherine D’Ignazio e Lauren Klein, em seu livro Data Feminism (Feminismo de Dados), utilizaram o termo “risco do privilégio” (“privilege hazard”) para se referir ao fenômeno em que indivíduos em posições privilegiadas permanecem inconscientes de suas vantagens inerentes. Essa falta de consciência perpetua as desigualdades sociais e dificulta os esforços para defender grupos marginalizados. Confiar exclusivamente em dados pode reforçar dinâmicas de poder já existentes. Desenvolvedores de software e dados que carregam esse risco podem interpretar mal dados oriundos de contextos que não compreendem. As consequências podem aprofundar ainda mais a marginalização de comunidades desfavorecidas. Para combater isso, D’Ignazio e Klein defendem uma abordagem inclusiva das práticas de dados, centrada nas vozes marginalizadas, com o objetivo de construir um ecossistema de dados mais justo e equitativo.
O conceito de “risco do privilégio” é citado por outros autores como uma forma de reconhecer sua posição social e identitária e o risco de interpretar erroneamente as experiências de outras pessoas. A análise sobre as várias formas de riscos de privilégio, incluindo privilégio branco, masculino e de classe, lança luz sobre como esse tema se manifesta em diferentes esferas da sociedade e suas implicações para comunidades marginalizadas.
A presença contínua do “risco do privilégio” é evidente no conceito de dominação de grupo, em que um grupo social detém vantagens significativas sobre os outros, levando à concentração de poder e recursos. A pesquisa de Felicia Pratto e Andrew Stewart enfatiza que grupos dominantes frequentemente não têm consciência de suas identidades privilegiadas, enxergando-as como “normais” e não como privilégios. Kaidi Wu e David Dunning exploram o conceito de “hipocognição” dentro do privilégio de dominação de grupo, destacando como indivíduos desses grupos podem ter dificuldade em compreender os desafios enfrentados por minorias devido à falta de exposição a essas experiências.
Exemplos
Privilégio de classe Privilégio de classe se refere aos benefícios que os indivíduos desfrutam com base em seu status social ou econômico. Estudo revela que, quando confrontados com seus privilégios, os indivíduos tendem a se defender, atribuindo o sucesso a esforços pessoais em vez de reconhecer vantagens sistêmicas. Essa resposta defensiva impede os indivíduos de aceitar suas vantagens imerecidas, representando uma forma de risco de privilégio.
Privilégio masculino Privilégio masculino é um privilégio social dos homens puramente baseados em seu sexo. Os homens são condicionados a não reconhecer seus privilégios, levando ao esquecimento e à perpetuação do risco de privilégio. Exemplos da vida real, como a distribuição desigual das tarefas domésticas, ilustram como o privilégio masculino permanece invisível para os homens devido às normas sociais. Tal Peretz expande o conceito de McIntosh, questionando se os homens tendem a ignorar ou examinar criticamente seus privilégios.
Privilégio branco