O caboclinho-de-chapéu-cinzento (nome científico: Sporophila cinnamomea) é uma espécie de ave passeriforme da família dos traupídeos (Thraupidae). É monotípico. Foi descrito por Frédéric de Lafresnaye em 1839, com localidade-tipo no Brasil. Estudos filogenéticos indicam relação próxima com o caboclinho-de-barriga-preta (Sporophila melanogaster), inserindo-se em um clado que inclui diversas espécies do gênero Sporophila, como o caboclinho-de-papo-branco (S. palustris), caboclinho-de-barriga-vermelha (S. hypoxantha), caboclinho-de-papo-escuro (S. ruficollis), caboclinho-coroado (S. pileata) e caboclinho-de-sobre-ferrugem (S. hypochroma).
O caboclinho-de-chapéu-cinzento é um pequeno passeriforme granívoro, com cerca de dez centímetros e pesos médios de 8,63 gramas (machos) e 8,76 gramas (fêmeas). Apresenta dimorfismo sexual acentuado: machos possuem cabeça cinza em forma de "capuz", dorso cinza a enegrecido, asas escuras com marcas contrastantes e cauda preta, enquanto fêmeas são mais discretas, com plumagem marrom-arenosa e variações no ventre. Jovens apresentam plumagem intermediária até atingirem o padrão adulto. Trata-se de espécie migratória, que se reproduz na primavera e verão austrais e forma ninhos em taça de gramíneas e teias de aranha, com ninhadas de um a três ovos. Alimenta-se principalmente de sementes de gramíneas, forrageando em grupos e bandos mistos, sendo mais gregária no período não reprodutivo; seu canto é melodioso, com assobios descendentes suaves e variações nasais.
A espécie reproduz-se nos Campos do Sudeste da América do Sul (Argentina, Uruguai, Paraguai e sul do Brasil) e migra após o período reprodutivo para o centro-sul do Brasil, onde ocorre de forma sazonal. No Brasil, distribui-se amplamente nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, com registros adicionais no Norte e Nordeste, geralmente associados a indivíduos em trânsito, habitando principalmente campos úmidos, pastagens altas e áreas sazonalmente encharcadas. A espécie é considerada Vulnerável (VU) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), com tendência populacional declinante e distribuição fragmentada. As principais ameaças incluem perda e degradação de habitat (conversão de campos, drenagem de áreas úmidas, silvicultura com pinheiro (Pinus) e eucalipto (Eucalyptus), agricultura intensiva), captura ilegal, uso de pesticidas, queimadas e impactos de infraestrutura como parques eólicos e mineração. Apesar de ocorrer em diversas unidades de conservação e possuir planos de ação nacionais, sua população segue em declínio associado à redução de habitat e fragmentação.
Etimologia
O nome genérico feminino Sporophila deriva do grego spóros (, "semente") e phílos (, "amante"), em referência ao hábito granívoro das espécies do gênero. O epíteto específico cinnamomea deriva do latim moderno cinnamomeus, que significa "de cor castanha".
Taxonomia
O caboclinho-de-barriga-vermelha é monotípico. Foi descrito pela primeira vez pelo ornitólogo francês Frédéric de Lafresnaye em 1839, sob o nome científico Pyrrhula cinnamomea. Sua localidade-tipo é: "Rio Grande (= rio Araguaia, Goiás), Brasil". Dados apresentados em amplos estudos filogenéticos recentes demonstraram que esta espécie é próxima do caboclinho-de-barriga-preta (Sporophila melanogaster), e o par formado por ambas é próximo de um clado composto pelo caboclinho-de-papo-branco (S. palustris), pelo caboclinho-de-barriga-vermelha (S. hypoxantha), pelo caboclinho-de-papo-escuro (S. ruficollis), pelo caboclinho-coroado (S. pileata) e pelo caboclinho-de-sobre-ferrugem (S. hypochroma).
Descrição
O peso médio dos machos é de 8,63 gramas, enquanto o das fêmeas é de 8,76 gramas. O caboclinho-de-chapéu-cinzento mede cerca de dez centímetros de comprimento, sendo um pequeno passeriforme granívoro de bico curto e cauda relativamente longa. O macho apresenta padrão diagnóstico de coloração, com cabeça cinza distinta formando um "capuz" contrastante em relação às demais regiões do corpo. As partes superiores são predominantemente cinza a enegrecidas, com cauda preta contrastante e bordas cinzentas nas retrizes. As asas são escuras, com bordas acinzentadas nas coberturas e terciárias, além de uma mancha branca perceptível na base das primárias; a região inferior das asas é azul-acinzentada, conferindo um aspecto de "ombro" acinzentado. A íris é marrom-escura, enquanto o bico e as pernas são negros. Em alguns indivíduos, as partes inferiores podem apresentar variação, com plumagem mais irregular, desde tonalidades esbranquiçadas até castanho mais intenso em diferentes regiões do ventre. A fêmea apresenta coloração geral mais quente e discreta, com dorso marrom-arenoso e face uniformemente bege, destacando-se a íris escura. As asas e a cauda são mais escuras, com bordas marrom-arenosas nas coberturas alares, podendo formar duas barras discretas em plumagens recentes. As partes inferiores variam de marrom-arenoso a esbranquiçado, especialmente na região abdominal, garganta e peito. O bico varia de cor de chifre escura a enegrecida, e as pernas são negras. Os indivíduos jovens e subadultos apresentam plumagem intermediária, com machos imaturos inicialmente semelhantes às fêmeas, tornando-se progressivamente mais escuros nas partes superiores e amarelados nas inferiores à medida que amadurecem. Em estágios mais avançados, começam a surgir penas escuras no dorso e áreas mais claras na garganta, indicando transição gradual para o padrão adulto masculino.
Distribuição e habitat
O caboclinho-de-chapéu-cinzento apresenta distribuição reprodutiva concentrada nos Campos do Sudeste da América do Sul, ocorrendo durante a primavera e o verão austrais no nordeste da Argentina, oeste e sudeste do Uruguai, extremo sudeste do Paraguai e sul do Brasil, especialmente na região dos campos naturais dessa porção do continente. Após o período reprodutivo, realiza movimentos migratórios em direção ao norte, alcançando áreas do centro-sul do Brasil, onde permanece durante o período não reprodutivo. No Brasil, a espécie ocorre amplamente nas regiões Centro-Oeste (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal, Sudeste (Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, exceto Espírito Santo) e Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná), com registros adicionais no Norte (Rondônia e Tocantins) e no Nordeste (com ocorrência pontual no Ceará). A reprodução é confirmada principalmente no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso do Sul, enquanto registros em áreas mais centrais do país são majoritariamente atribuídos a indivíduos em deslocamento migratório. O registro no Ceará é considerado possivelmente de indivíduo vagante, embora haja também observação adicional em Paraipaba, associada a bandos de caboclinho-frade (Sporophila bouvreuil). Ocorre nos biomas Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal, com ampla distribuição associada a diversas bacias hidrográficas, incluindo as sub-bacias dos rios Araguaia, Grande, Guaíba, Ibicuí, Iguaçu, Madeira, Negro, Paraguai, Paranapanema, Paranaíba, Paraná, Médio Parnaíba, Alto São Francisco, Tietê, Tocantins, Alto e Médio Uruguai e Xingu. Ocorre principalmente em habitats de pastagens altas adjacentes a brejos úmidos, pântanos arbustivos e savanas sazonalmente encharcadas. Em estudos realizados na Argentina, a espécie foi registrada predominantemente em pastagens onduladas (73,5% das observações), seguida por pântanos ou pastagens úmidas (14,7%) e moitas de cardal-caraguatal (Eryngium horridum) (11,7%).
Ecologia
Trata-se de uma espécie migratória, com reprodução ocorrendo durante a primavera e o verão austrais, seguida de deslocamentos para áreas mais ao norte após o período reprodutivo, embora os padrões migratórios ainda não estejam completamente esclarecidos. Alimenta-se principalmente de sementes de gramíneas, que obtém ao se apoiar diretamente nos colmos, dos quais remove as sementes. Forrageia em pequenos grupos ou em bandos mistos com outras espécies granívoras, formando agrupamentos maiores no período não reprodutivo, frequentemente associados a outros membros do gênero Sporophila. O canto é descrito como doce, melodioso e predominantemente composto por assobios descendentes suaves, com variações que incluem notas nasais ou levemente distorcidas, transcritas como tweew tii-tweeew tweew, peew put-tweew tuu-twii nhhhnhhh tweew…. Em geral, é considerado mais grave e nasal do que o de espécies próximas, como o caboclinho-de-papo-branco. O monitoramento reprodutivo de 98 ninhos no Brasil, realizado entre 2018 e 2020, indica que o ninho apresenta formato de taça, sendo construído com hastes e inflorescências de gramíneas nativas, além de incorporar teias de aranha como material de fixação. A ninhada varia de um a três ovos.
A espécie reproduz-se durante a primavera e o verão austrais na Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil, especialmente na região dos Campos do Sudeste da América do Sul, deslocando-se posteriormente para áreas mais ao norte após o período reprodutivo. No final de fevereiro, antes da migração, foram registrados agrupamentos monoespecíficos com dezenas de indivíduos, sugerindo comportamento de formação de bandos pré-migratórios. No Brasil, a espécie é considerada rara no Paraná, com registros predominantemente associados a indivíduos em passagem migratória. Ocorrências também são registradas em estados como Mato Grosso e em áreas centrais de São Paulo, com rotas migratórias passando por localidades como Dourados e Itirapina em direção ao sul durante a primavera. No Triângulo Mineiro, há registros em meados de setembro associados a outros migrantes sazonais, incluindo o caboclinho-de-papo-branco, o caboclinho-de-barriga-preta, o caboclinho-de-barriga-vermelha e o caboclinho-coroado. Registros fotográficos indicam presença no Brasil entre setembro e maio, abrangendo os estados de Tocantins, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A reprodução ocorre no sul do país, especialmente no Rio Grande do Sul, embora também existam evidências de atividade reprodutiva no Mato Grosso do Sul durante janeiro e fevereiro. A espécie é, portanto, considerada migratória no Brasil.
Conservação
300px|miniatura|Indivíduo avistado em 2008 no Uruguai miniatura|300px|Indivíduo avistado em 2008 em Correntes, na Argentina