Este artigo é sobre o diplomata e escritor nascido em 1930. Para seu pai, o jurista e político nascido em 1905, consulte Afonso Arinos de Melo Franco. Para seu tio-avô, o escritor nascido em 1868, consulte Afonso Arinos.
Affonso Arinos de Mello Franco (Belo Horizonte, 11 de novembro de 1930 - Rio de Janeiro, 15 de março de 2020), também chamado de Afonso Arinos Filho, foi um diplomata, político, jornalista, professor e escritor brasileiro. Sua carreira diplomática estendeu-se de 1952 a 1994. Ingressou no serviço diplomático como cônsul de terceira classe e chegou a ministro de primeira classe em 1979. Foi embaixador do Brasil na Bolívia, na Venezuela, junto à Santa Sé e nos Países Baixos. Em seu último posto, em Haia, foi o representante brasileiro no Conselho Administrativo da Corte Permanente de Arbitragem.
Arinos foi eleito em 1960 para a assembleia constituinte do recém-criado estado da Guanabara. Representou a Guanabara na Câmara dos Deputados entre 1964 e 1966. Como deputado federal, opôs-se à pressão dos Estados Unidos para que o Brasil participasse da Guerra do Vietnã. Em 1966, filiou-se ao MDB, partido de oposição permitido pelo governo militar.
Foi correspondente do Jornal do Brasil em Roma, escreveu para jornais e revistas e trabalhou na televisão. Lecionou Civilização Contemporânea na Universidade de Brasília e publicou memórias e livros sobre diplomacia, política, literatura e integrantes de sua família. Em 1999, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, na qual se tornou o sexto ocupante da cadeira 17.
Primeiros anos e família
Affonso Arinos de Mello Franco nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 11 de novembro de 1930. Era filho de Afonso Arinos de Melo Franco e Ana Guilhermina Pereira de Mello Franco.
Entre seus familiares havia juristas, diplomatas, políticos e escritores. Seu pai foi deputado federal, senador, ministro das Relações Exteriores e membro da Academia Brasileira de Letras. Seu avô, Afrânio de Melo Franco, foi diplomata e ministro das Relações Exteriores. Seu tio-avô, Afonso Arinos, foi escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.
Os nomes semelhantes se repetiam na família, por isso publicações brasileiras costumavam chamá-lo de Afonso Arinos Filho ou Afonso Arinos, filho.
Formação
Arinos estudou na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, que passou a integrar a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Cursou o bacharelado em Ciências Jurídicas e Sociais entre 1949 e 1953.
Preparou-se para a carreira diplomática no Instituto Rio Branco entre 1951 e 1952 e estudou direito público na Faculdade Nacional de Direito entre 1954 e 1955. Concluiu o curso de aperfeiçoamento de diplomatas do Instituto Rio Branco em 1954 e frequentou o Instituto Superior de Estudos Brasileiros em 1955.
Em 1958, estudou política e direito internacional em Roma. Em 1968, fez um curso de promoção comercial no Centro de Comércio Internacional mantido pela UNCTAD e pelo GATT, em Genebra. Estudou economia teórica e aplicada na Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas em 1975 e fez cursos na Escola Superior de Guerra em 1975 e 1980.
Carreira diplomática
Primeiros postos
Arinos ingressou no serviço diplomático brasileiro em 1952, como cônsul de terceira classe. No Ministério das Relações Exteriores, no Rio de Janeiro, trabalhou primeiro no setor encarregado de organismos e conferências internacionais. Foi transferido para a Divisão Política em 1953. Naquele ano, estagiou na Divisão de Questões Jurídicas Gerais do Departamento Jurídico da Organização das Nações Unidas, em Nova York. Em 1954, foi secretário da delegação brasileira à Décima Conferência Interamericana, em Caracas.
Seu primeiro posto em embaixada foi em Roma, onde trabalhou como segundo-secretário de 1956 a 1959. Exerceu o mesmo cargo em Viena entre 1959 e 1960 e assessorou a delegação brasileira junto à Agência Internacional de Energia Atômica. Promovido a primeiro-secretário em 1961, foi lotado em Bruxelas e atuou como encarregado de negócios na Bélgica e em Luxemburgo em 1963. Transferiu-se para Haia em 1964 e dirigiu o setor de promoção comercial da embaixada.
Em 1966, Arinos integrou a delegação brasileira na 21.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas como observador parlamentar. Foi cônsul em Genebra entre 1966 e 1969. Na embaixada brasileira em Washington, foi conselheiro de 1969 a 1971 e ministro-conselheiro de 1971 a 1974. Chefiou a delegação brasileira em uma conferência diplomática de 1973 sobre a forma de um testamento internacional. Depois de trabalhar como cônsul-geral no Porto entre 1977 e 1980, foi promovido a ministro de primeira classe em 1979.
Embaixadas
Arinos foi embaixador na Bolívia de 1980 a 1982. Quatro meses depois de sua chegada a La Paz, o general Luis García Meza derrubou a presidente interina Lidia Gueiler Tejada em 17 de julho de 1980. Arinos enviou ao Itamaraty informes sobre o isolamento diplomático do novo regime e sobre a pressão dos Estados Unidos relacionada ao tráfico de cocaína. Permaneceu em La Paz enquanto governos militares se sucediam depois do golpe.
Depois do golpe, a embaixada brasileira acolheu Teresa Ormachea de Siles e María Isabel Siles Ormachea, mulher e filha de Hernán Siles Zuazo, que havia recebido o maior número de votos na eleição presidencial de junho. A chegada das duas foi mantida em segredo até a divulgação dos pedidos de salvo-conduto. Em setembro de 1980, o ex-ministro da Economia Flávio Machicado Saravia pediu asilo na residência brasileira. Arinos negociou pessoalmente com o ministro da Defesa boliviano. O governo militar concedeu o salvo-conduto a Machicado em 30 de setembro, depois de 26 dias.
Arinos transferiu-se para Caracas como embaixador na Venezuela em 1983 e permaneceu no país até 1985. Em 1983, presidiu a terceira reunião extraordinária do Conselho Latino-Americano do Sistema Econômico Latino-Americano e do Caribe. Chefiou a delegação brasileira na Conferência Regional Latino-Americana de Ação contra o apartheid, realizada em Caracas. Em 30 de novembro de 1983, assinou um acordo de cooperação entre o Brasil e a Venezuela para o uso pacífico da energia nuclear.
De 1986 a 1990, Arinos foi embaixador do Brasil junto à Santa Sé. Apresentou suas credenciais ao Papa João Paulo II em 3 de março de 1986. No mesmo período, o Brasil o credenciou separadamente junto à Ordem Soberana e Militar de Malta.
Seu último posto foi em Haia, onde atuou como embaixador nos Países Baixos de 1990 a 1994. Em agosto de 1990, o Senado Federal aprovou sua nomeação adicional como embaixador na Irlanda, com sede em Haia. Foi delegado do Brasil no Conselho Administrativo da Corte Permanente de Arbitragem.
Em uma conferência de direito de patentes da Organização Mundial da Propriedade Intelectual, realizada em junho de 1991, Arinos chefiou a delegação brasileira e foi eleito um dos dois vice-presidentes da Comissão de Credenciais. Em 1992, chefiou a delegação brasileira na comissão especial sobre adoção internacional da Conferência da Haia de Direito Internacional Privado. Retornou como chefe da delegação para a 17.ª sessão, em 1993, na qual foi adotada a Convenção Relativa à Proteção das Crianças e à Cooperação em Matéria de Adoção Internacional.
Carreira política
Quando a capital do Brasil foi transferida para Brasília em 1960, o antigo Distrito Federal tornou-se o estado da Guanabara. Arinos concorreu a uma das trinta cadeiras da nova Assembleia Constituinte e Legislativa pela União Democrática Nacional, a UDN. Foi eleito em 3 de outubro de 1960 com 14.661 votos. A assembleia redigiu a primeira constituição da Guanabara, assinada por Arinos em 27 de março de 1961. Integrou a Comissão de Constituição e Justiça em 1961 e presidiu a Comissão de Educação em 1962.
Arinos iniciou o mandato como aliado do governador Carlos Lacerda e tornou-se vice-líder da bancada governista. No fim de maio de 1961, deixou a função depois que Lacerda atacou a política externa independente conduzida pelo pai de Arinos, o ministro das Relações Exteriores Afonso Arinos de Melo Franco.
Depois da renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961, Arinos deixou a UDN e ingressou no Partido Democrata Cristão, o PDC. Rejeitou a tentativa de integrantes da UDN de impedir a posse do vice-presidente João Goulart. Escolheu o PDC por sua defesa do governo constitucional e de reformas sociais inspiradas na doutrina social católica.
Em 6 de outubro de 1964, Arinos assumiu uma cadeira na Câmara dos Deputados como suplente do PDC pela Guanabara. Exerceu o mandato até 6 de dezembro de 1966. Foi membro titular da Comissão de Relações Exteriores em 1965 e 1966.
Em junho de 1965, Arinos opôs-se ao Acordo de Garantia de Investimentos entre o Brasil e os Estados Unidos. Declarou que o acordo não oferecia ao Brasil contrapartida aceitável e rejeitou a política externa adotada depois do golpe de 1964.
O governo militar extinguiu os partidos existentes em 1965. Arinos ingressou no Movimento Democrático Brasileiro, o MDB, quando o partido foi organizado em 1966 como oposição legal ao governo. Encerrado o mandato, retomou o trabalho diplomático como cônsul do Brasil em Genebra.
Arinos voltou à política eleitoral depois de deixar o serviço diplomático em 1994. Filiou-se ao Partido Socialista Brasileiro e concorreu a deputado federal pelo Rio de Janeiro. Ficou na suplência e não retornou à Câmara.
Jornalismo e docência
Arinos começou a escrever para a revista Manchete enquanto trabalhava no Ministério das Relações Exteriores. Em 1955, o editor Otto Lara Resende convidou-o para assumir a seção internacional da revista. Seu cargo diplomático limitava o que podia publicar sobre política externa, por isso assinava os artigos como "Gil Cassio", pseudônimo que seu tio-avô Afonso Arinos já havia usado. Um dos textos criticou o governo militar do Peru e recebeu uma resposta do embaixador peruano. Arinos permaneceu na Manchete até partir para seu primeiro posto diplomático no exterior, em 1956.
Na embaixada brasileira em Roma, Arinos trabalhou como segundo-secretário de 1956 a 1959. Foi correspondente do Jornal do Brasil na cidade em 1957 e 1958. Depois de retornar ao Brasil, escreveu para a Tribuna da Imprensa em 1960 e 1961, quando começava sua carreira política eletiva na Guanabara. Escreveu artigos ou deu entrevistas a A Época, O Metropolitano, A Noite, Correio Braziliense, Revista Nacional e Revista Civilização Brasileira. Esta última publicou textos de oposição política e cultural ao governo militar entre 1965 e 1968.
Arinos retomou o trabalho em revistas e televisão em 1976, quando escreveu para Fatos e Fotos / Gente e trabalhou na TV Educativa. Participou da Enciclopédia do Brasil Ilustrada em 1977. De 1995 até o encerramento da TV Manchete, em 1999, foi comentarista de política internacional da emissora. Escreveu para o Jornal do Commercio em 2002 e 2003.
Pompeu de Sousa convidou Arinos, em outubro de 1964, para lecionar Civilização Contemporânea no Departamento de Jornalismo do Instituto Central de Letras da Universidade de Brasília. O curso de jornalismo havia começado em 1962 dentro do curso-tronco de letras da universidade. Pompeu trabalhava para transformá-lo em uma Faculdade de Comunicação de Massa quando o governo militar começou a intervir na universidade. Arinos lecionou enquanto exercia o mandato de deputado federal pela Guanabara.
Em 18 de outubro de 1965, o reitor Laerte Ramos de Carvalho demitiu Pompeu e outros catorze professores. Arinos pediu demissão da cátedra. Em carta a Carvalho, chamou o ambiente intelectual da UnB de "macarthismo" e criticou o fato de a conformidade com o poder político ter se tornado o principal requisito para a ascensão profissional. Ao todo, 223 professores e assistentes deixaram a UnB em protesto, quase 80% do corpo docente.
Obras