A Crise geral do século XVII, ou simplesmente "Crise geral", é um termo criado para se referir ao período do século XVII em que a Europa enfrentou diversos problemas e mudanças de natureza econômica, social e política, tais como a fome, doenças, rebeliões e guerras.
Definição O termo foi cunhado por Eric Hobsbawn num par de artigos de 1954 denominados "As Crises do Século Dezessete", publicados pelo jornal acadêmico Past & Present. Segundo o historiador, a crise teve início por volta de 1620, atingindo sua fase aguda entre 1640 e 1670. Considerando seu alcance por toda a Europa, foi designada como um fenômeno "geral".
Ainda existem discussões ativas sobre a sua causa, duração, intensidade e alcance, não havendo consenso entre o meio acadêmico, principalmente por a Holanda gozar de uma expansão econômica no momento da crise.STEENSGAARD, Niels. The Seventeenth-Century Crisis. In: PARKER, Geoffrey; SMITH, Lesley. The General Crisis of the Seventeeth Century. Londo: Routledge, 1978.
Embora a expressão “crise geral do século XVII” tenha se consolidado na historiografia e seja amplamente utilizada, não existe consenso sobre suas causas e seu alcance. Em seus estudos, Eric Hobsbawm defende que essa crise foi resultado da combinação de transformações econômicas, tensões sociais e conflitos políticos que atingiram grande parte da Europa entre 1620 e 1670. Para o autor, essas mudanças estiveram relacionadas às transformações estruturais que marcaram as formas econômicas e políticas características da modernidade.
Interpretações mais recentes questionam essa visão de uma crise homogênea em toda a Europa. Geoffrey Parker argumenta que, embora guerras, revoltas e dificuldades econômicas tenham atingido diversas regiões, seus impactos variam de acordo com as condições de cada lugar. O autor destaca a influência dos fatores climáticos associados à Pequena Idade Glacial, que contribuíram para o agravamento de crises agrícolas, fome, epidemias e conflitos. Portanto, parte da historiografia contemporânea entende a crise do século XVII como um conjunto de processos interligados, mas que ocorreram de formas e intensidades diferentes.
Causas
Econômica Segundo Hobsbawm, a crise é gerada, substancialmente, por uma crise de produção. O comércio se expandia cada vez mais com as novas rotas marítimas, utilizadas a partir da expansão marítima, tornando-se global. Mas, com o início do século XVII, as maiores zonas comerciais da época (localizadas na região dos mares Mediterrâneo e Báltico) entraram em declínio, resultando na baixa do comércio de alimentos e na produção têxtil em toda a Europa. Como a sociedade era organizada aos moldes do feudalismo, ou seja, vinculada à terra, a oferta não conseguia suprir a demanda, resultando numa crise de produção geral. Por mais que existissem mercadores durante o período, não havia investimento no mercado. Isso se deu porque os burgueses enriqueciam para se tornarem nobres, e não por uma lógica capitalista. Há outros agravantes para a crise, como a diminuição de metais preciosos da América e revoltas políticas, como a Guerra dos Trinta Anos e a Revolução Inglesa.HOBSBAWM, Eric. A crise geral da economia européia no século XVII. In: SANTIAGO, Theo Araújo (Org.). Capitalismo: Transição. Rio de Janeiro, Eldorado. 1975.
Para Niels Steensgaard, a crise econômica não foi um retrocesso universal, mas atingiu vários setores em momentos e dimensões diferentes. Dessa forma, não é possível precisar um período em que tanto o comércio quanto a indústria europeus foram acometidos pela depressão. Também não se trata de uma crise de produção, mas uma crise de distribuição dos produtos. Além disso, a concretização do Absolutismo afeta diretamente a economia, agravando a crise.
Outras hipóteses sugerem que a ausência de uma massa de trabalhadores assalariados e de uma separação entre os produtores diretos e os meios de produção, tornou impossível o desenvolvimento de um modo de produção mais sofisticado. O resultado teria sido um crescimento nos quadros de uma sociedade feudal, produzindo no médio prazo a estagnação econômica e os rendimentos decrescentes na agricultura que caracterizaram a crise.
Política miniaturadaimagem|A morte do Rei Gustavus II, durante a Guerra dos 30 Anos, na batalha de Lützen, por Carl Wahlbom.Por todo o século XVII, a Europa é marcada por uma série de revoltas e guerras, como a Guerra dos Trinta Anos, a Revolução Inglesa, as Frondas francesas, a Revolta Holandesa, a Sublevação da Catalunha, a Revolta de Portugal, a Revolta da Andaluzia e a Revolta de Masaniello. As movimentações de tropas, a destruição de colheitas e o aumento da pressão fiscal teriam produzido fome e epidemias que, por conseguinte, estariam na base das causas de crises demográficas, que também marcaram o período.
Nesse sentido, o historiador Hugh Trevor-Roper explica que todos esses acontecimentos eram frutos de uma crise política geral na Europa. A expansão econômica do século XVI, resultante da expansão marítima e da extração de metais da América, levou à constituição do Estado Renascentista, uma estrutura burocrática marcada pelo direito escrito e pela criação e venda de cargos especializados. Uma economia em expansão podia suportar os salários dos funcionários e os altos custos do governo que eram gerados pela "burocracia parasitária", como diz o historiador. Mas a partir de 1590, surgem as primeiras rachaduras nessa economia estável, causadas pelas guerras e pela diminuição da entrada de metais, bem como pela universal depressão comercial de 1620. Para pagar os salários dos vários burocratas desses Estados, a Coroa aumentou os impostos cobrados e exigências, gerando uma crescente insatisfação na sociedade. Portanto, é seguro afirmar que essa crise política nada mais é do que uma crise "nas relações entre Estado e sociedade".TREVOR-ROPER, Hugh. A crise geral do século XVII. In: SANTIAGO, Theo Araújo (Org.). Capitalismo: Transição. Rio de Janeiro, Eldorado. 1975.
Social A sociedade do século XVII é uma sociedade que está passando por um processo de mudanças sociais. Num período anterior, a Idade Média, a sociedade europeia se organizava por meio de hierarquias estipuladas desde o nascimento, ou seja, de fraquíssima mobilidade social. A partir do período de intensas transformações conhecido como Renascimento, entre os séculos XIV e XVII, a sociedade europeia começa a questionar e repensar seu valores, bem como suas posições sociais.
Esses questionamentos vão resultar em mudanças na sociedade. Portanto, a cultura renascentista passa a estimular mais a mobilidade social, na qual um rico comerciante pode se tornar nobre ao comprar um título de fidalguia ou realizando casamentos com membros da nobreza. As correntes filosóficas-científicas adotam uma nova postura com a tendência a laicização das ciências. Em outras palavras, são forças que visam mudar um ordenamento social. Para isso, essas forças de mudança se chocam com forças de conservação (as pessoas que desejam manter a antiga ordem, tal como os nobres que não querem burgueses alcançando a classe da nobreza). O resultado desse choque são as tensões sociais, que permeiam todo o século XVII e são mais intensas na Espanha.MARAVALL, José Antonio. A Cultura do Barroco: análise de uma estrutura histórica. São Paulo: Edusp, 1997.
Ambiental alt=A pintura retrata dois caçadores com seus cachorros, em uma paisagem fria, com muita neve e ao fundo lagos congelados com pessoas em cima deles.|miniaturadaimagem|A pintura Caçadores na Neve de Pieter Bruegel, o Velho, de 1565, é um exemplo de como as paisagens do fim do século XVI eram comumente retratadas a partir de um frio intenso com neve. A partir da década de 1960, com uma das principais influências sendo os estudos do historiador Emmanuel le Roy Ladurie, houve um aumento significativo nas pesquisas históricas e arqueológicas da chamada Pequena Era Glacial. Tal termo faz referência a um período que vai do século XIII ao século XIX, no qual o planeta Terra sofreu um resfriamento global, afetando as temperaturas médias de todo o mundo. As maiores baixas se concentraram de meados do século XVI ao fim do século XVII, o que fez com que muitos estudiosos relacionassem a Crise do Século XVII com as mudanças climáticas e a forma como as sociedades lidavam com elas.
Apesar da Pequena Era Glacial já ser estudada a anos por geólogos e climatologistas, Brian Fagan foi um dos pioneiros a tornar esse tema um interesse também nas ciências humanas. Ao publicar seu livro The Little Ice Age, em que juntou o conteúdo acadêmico a uma escrita facilitada para outros públicos, acabou por impulsionar o interesse de muitos no tema. Posteriormente, historiadores como Geoffrey Parker, Dagomar Degroot, Phillip Blom, Sam White, e até epidemiologistas como Anthony McMichael, adentraram seus estudos nessa área de história ambiental.
Dentre alguns dos exemplos citados pelos autores, o aumento de doenças, expansão das artes inspiradas em climas frios, congelamento de rios (incluindo do Rio Tâmisa, onde ocorreriam eventos como as frost fairs), culpabilização da mudança climática posta em hereges, bruxas e judeus, e outros, demonstram a interferência climática, seja direta ou indiretamente, na idade moderna e mais especificamente, no século XVII.
Características Caráter global miniaturadaimagem|Mapa do mundo de Frederik de Wit, publicado em 1662. Para alguns estudiosos, a crise do século XVII ocorreu também fora da Europa. Geoffrey Parker, afirma que no Oriente e nas colônias da América e África foram registrados períodos de crise, indicando queda na produção dos campos ou perda de colheitas.
Por sua vez, Ruggiero Romano questiona o caráter geral da crise do século XVII afirmando que ela teria se concentrado no Mediterrâneo. Assim, o declínio italiano seria o resultado da incapacidade da economia de superar a situação da agricultura e na produção manufatureira, resultando em uma processo de "refeudalização". Por outro lado, para o mesmo autor, na Europa teriam ocorrido exceções como o caso da Holanda e da Grã-Bretanha. Finalmente, a conjuntura econômico-social na América teria sido completamente oposta à conjuntura europeia, diante do crescimento econômico e demográfico que o continente experimentou durante o século XVII.
Espanha Segundo Pierre Vilar, foram diferentes fatores que contribuíram, a partir de 1600, para o declínio da economia espanhola. A regressão político-econômica, a queda demográfica, as guerras e a diminuição da produção agrícola assemelham-se aos problemas observados em muitos outros países europeus durante este período. Entretanto, essa crise ocorreu num contexto em que a Espanha era favorecida pela produção americana de prata, esse contraste explica-se pela perpetuação do sistema feudal, favorecendo por um intenso parasitismo social. Daí a grande inflação que caracterizaria o século XVII espanhol e o florescimento de tensões sociais que resultariam no episódio de expulsão dos mouriscos, contribuindo ainda mais para a redução demográfica e estagnação econômica espanhola.
Inglaterra miniaturadaimagem|Rei Carlos I em Três Posições (1635) por Anthonis van Dyck (pintor oficial da corte de Carlos I na Inglaterra) A Grã-Bretanha, no período, formada pela Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda, foi a região que passou pelas maiores mudanças ocasionadas pela crise. No século XVII as velhas instituições, valores e crenças foram postos à prova pela população durante a Revolução Inglesa. No final do século, com a Revolução Gloriosa, se estabeleceu a supremacia do parlamento, consolidando um Estado burguês. Ao mesmo tempo, no campo, iam avançando os cercamentos e a propriedade privada, com isto aumentavam os investimentos em benfeitorias rurais e a produtividade agrícola..