Eugène Maurice Fernand Jouteux, mais conhecido como Fernand Jouteux (Chinon, 11 de janeiro de 1866 - Belo Horizonte, 16 de setembro de 1956), foi um compositor, arranjador, professor e regente francês, radicado no Brasil desde 1899.
Trajetória
1º Período francês esquerda|miniaturadaimagem|240x240px|Jules Massenet (por Eugène Pirou em 1895), professor de Fernand Jouteux no Conservatório de Paris, de c.1895 até 1892. Filho do advogado Pierre Alphonse Jouteux e de Marthe Marie Augustine Taillefer, irmão do notário Alphonse Pierre Auguste e sobrinho do Monsenhor François Baudichon, que exerceu o cargo de vigário apostólico das Ilhas Marquesas (Polinésia Francesa) entre 1844 e 1848.CARDOSO, Igor. Fernand Jouteux: o maestro de chapéu de couro e sua “bela aliança” com Garanhuns; prefácio de Dominique Dreyfus; apresentação de Marcilio Reinaux; orelha de Luzinette Laporte. Olinda: Babecco, 2015.ROHRMANN, Henrique; SILVEIRA, Willer. Resgate da obra de Fernand Jouteux em Tiradentes. Tiradentes: Sirius Cultura e Sociedade Orquestra e Banda Ramalho, 2016. Iniciou seus estudos no Ginásio de Pontlevoy (Departamento de Loir-et-Cher) e em 1884 ingressou no Conservatório de Paris, estudando inicialmente harmonia na classe de Jules Duprato (1887-1892) e posteriormente na classe de composição de Jules Massenet.
Jouteux tornou-se um dos ex-alunos de Massenet que mantiveram os ideais composicionais desse mestre nas décadas seguintes, assim como Gustave Charpentier, Reynaldo Hahn, Charles Koechlin e Eugène Caillot (1866-1938), tendo usado, até o final da vida, o fato de ter sido discípulo de Massenet como sua principal distinção.
Jouteux já compunha pelo menos desde o início da década de 1880, come menos de 20 anos de idade. Em 1891 publicou sua primeira obra pela Société des Auteurs, Compositeurs et Éditeurs de Musique (Sociedade dos Autores, Compositores e Editores de Música - SACEM): Le Retour du Marin, para soprano solo. Em 1892 estreou sua primeira obra de sucesso, Russie et France (Hino Russo e Marselhesa combinados para piano a quatro mãos).
Período entre França e Brasil esquerda|miniaturadaimagem|Conservatório de Paris, no qual Fernand Jouteux estudou de 18884 a 1892. Em 1892, Jouteux iniciou uma série de viagens ao Brasil, iniciada pela cidade de Belém do Pará, onde permaneceu por dois anos. Para o Jornal Diretrizes, do Rio de Janeiro, em 25 de setembro de 1941, o compositor declarou: “A primeira vez que vim ao Brasil foi em 1892. Vim, fiquei no Pará por dois anos, depois voltei. Voltei porque precisava resolver várias situações domésticas na França. Após resolver todas essas situações, achei-me possuidor da quantia de 100 contos de réis em dinheiro, fora alguns haveres em imóveis. Peguei, então, o dinheiro; despedi-me, mais uma vez, de minha mãe; e voltei ao Brasil. Fiquei indo e voltando. Fiz isso durante umas dez vezes.”miniaturadaimagem|Catedral de Tours, na qual foi estreado em 1897 o oratório Bellator Domini de Fernand Jouteux.Em 1894, aos 28 anos, venceu um concurso de composição no Conservatório de Paris e a banca sugeriu-o participar do Prêmio de Roma, que já havia sido conquistado por Jules Massenet e por Claude Debussy, entre outros, porém Jouteux preferiu prosseguir suas viagens ao Brasil. Em 1895 apresentou na França trechos de sua primeira ópera: Eumène. Em 1897 compôs seu maior sucesso na França: o oratório Bellator Domini (Guerreiro de Deus), para as festas do 15º centenário de morte de São Martinho de Tours, na Catedral de Tours. Para o Jornal O Imparcial, do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1920, Jouteux declarou: “O primeiro trabalho que fiz foi um oratório em duas partes, além de um prólogo e um epílogo, intitulado Bellator Domini, em 1897, executado em Tours por uma grande orquestra, sob minha regência. Foi essa minha estreia. Então a ópera Klytis ou La Chanson du Potier, também representada em Tours; a Ode a Balzac, executada em Tours para o centenário de Balzac; e a Symphonie Brésilienne em quatro partes, ainda não executada, que é o resumo de minhas impressões desde que cheguei ao Brasil, havendo eu a terminado em 1914. Seria penoso enumerar outras composições que tenho.”
A última década do século XIX e primeiros anos do século XX marcaram o período de maior sucesso composicional de Fernand Jouteux. Com cerca de 35 anos de idade, vitorioso em concursos e consagrado pelas execuções de Bellator Domini, sua carreira parecia dirigir-se para o mesmo esplendor de seus predecessores, fato que provavelmente motivou suas aventuras pelo Brasil nas décadas seguintes. Os fatos com os quais Fernand Jouteux não contava foram as revoluções no meio musical, acarretadas, em primeiro lugar, pela invenção dos sistemas de gravação e transmissão sonora (especialmente o disco e o gramofone, por Emil Berliner, em 1888, o sistema de radiodifusão, por Guglielmo Marconi em 1896 e o cinematógrafo, lançado pelos Irmãos Lumière em 1895 e sonorizado a partir de 1929) e em segundo lugar, pela música popular urbana, principalmente nos Estados Unidos, mas também no Brasil e demais países americanos. Fernand Jouteux viveu assim dois grandes dramas em sua carreira a partir dos 35 anos de idade, acarretando as dificuldades com as quais conviveu até o final da vida: 1) ingressou no século XX, sem nunca se desvencilhar dos ideais do século XIX; 2) passou a viver no Brasil mantendo os ideais da cultura francesa.
1º Período pernambucano: Bela Aliança e viagens à França e Argélia miniaturadaimagem|Colégio Santa Sofia e Matriz de Santo Antônio de Garanhuns (PE), onde Fernand Jouteux e sua esposa passaram a viver a partir de 1899. Em janeiro de 1899 (mesmo ano de sua bem sucedida Ode à Balzac, para coro e orquestra), Jouteux adquiriu do casal van der Hoeck, por um intermediário que viajou ao Brasil, a fazenda de café Bela Aliança (que posteriormente passaria a referir, em francês, Belle Aliance), distante cerca de três léguas de Garanhuns. Em abril de 1899 casou-se com sua ex-aluna Magdeleine Anne Adolphine Marie Aubry, neta do jurista Claude Aubry, sobrinha do Marechal Ferdinand Foch e filha de Florentin Marie Pierre Aubry e de Aline Adolphine Marie Picau. Com Magdeleine, Jouteux passou a viajar ao Brasil, iniciando um processo de estabelecimento no país, repleto de aventuras e dificuldades.
Em 1902 ocorreu a mais festejada apresentação do oratório Bellator Domini, na cidade de Bourdeaux. A partir de então, no auge de sua carreira, Jouteux passou a viajar mais constantemente para o Brasil e outros destinos, juntamente com sua esposa. Com Magdeleine, até cerca de 1909, Jouteux passou temporadas em Pernambuco, porém ainda exercia atividades principalmente na França: inicialmente habitaram a fazenda Bela Aliança em Garanhuns, mas entre 1905 e 1906, o casal residia no Recife, vivendo de lições de música e de língua francesa. Magdeleine atuava como modista, especializada na manufatura e conserto de chapéus. Em 1906 retornanaram a Garanhuns, mantendo o mesmo tipo de atividade.
Em 1910 Jouteux assumiu a direção da Ecole de Musique d’Oran (Escola Municipal de Música de Orã, na Argélia). Nessa escola, Jouteux dirigiu concursos e concertos, que chegaram a ser noticiados na França, e nos quais algumas de suas obras foram executadas. miniaturadaimagem|Ruinas da Capela do Bom Jesus em Canudos, após o massacre de 1897, episódio que motivou a escrita da ópera O Sertão, de Fernand Jouteux.|alt=|esquerda|273x273px Entre 1911 e 1921, exceto por um pequeno período em Maceió em 1916, o casal Jouteux residiu na fazenda Bela Aliança. Nesse período, o mais ininterruptamente extenso em Pernambuco, e no qual ocorreu a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Fernand Jouteux deixou de viajar à Europa e dividiu suas atividades compondo, dirigindo a produção agrícola de sua propriedade e ensinando música, enquanto Magdeleine mantinha a manufatura de chapéus. Essa foi uma fase em que o casal ainda possuía dinheiro recebido de suas famílias, mas que não durou até a década seguinte. O casal nunca teve filhos naturais, porém em Garanhuns adotou a menina Estelle, que infelizmente faleceria ainda na infância, na década de 1920. miniaturadaimagem|Cidade de Orã (Argélia), na qual Fernand Jouteux viveu em 1910. Em entrevista para o jornal Correio da Manhã do Rio de Janeiro, em 30 de outubro de 1938, Magdeleine Aubry relembrou desta maneira seus primeiros anos no Brasil: "Voltamos à França diversas vezes e numa dessas viagens trouxemos bastante dinheiro e compramos uma fazenda em Pernambuco. Fomos mal-sucedidos entretanto. Vendemos a fazenda, seguindo o nosso destino de caminheiros errantes e aqui estamos hoje tranquilos e por que não felizes?"UM VELHO discípulo do autor de “Manon” escreve uma ópera inspirada na grande obra de Euclides da Cunha. Correio da Manhã, Suplemento, Rio de Janeiro, 30/10/1938, p.4.
Por conta de suas opções musicais, no Brasil Jouteux atuou principalmente em igrejas, compondo, regendo, tocando e cantando. Suas obras orquestrais e camerísticas foram executada principalmente em concertos organizados por ele próprio, geralmente bastante tempo após sua composição, como foi o caso da Symphonie Brésilienne, escrita em 1914 e estreada somente em 1933, em Recife e Olinda.
No 1º Período pernambucano, Jouteux compôs a ópera em quatro atos O Sertão (inicialmente Antônio, o filho do homem, depois Canudos), sobre o livro Os Sertões de Euclides da Cunha (1902), que descreveu o massacre de Canudos em 1897. Fernand Jouteux recebeu notícias do acontecimento com relativa proximidade geográfica de Canudos (sendo notório o fato de que o ano da Guerra de Canudos é o mesmo que o da estreia de Bellator Domini, o maior sucesso composicional de sua carreira). Escrita a partir de libreto em francês do próprio compositor, O Sertão passou a ser o grande projeto de vida de Fernand Jouteux, que até os 90 anos de idade trabalhou em prol de sua encenação, tarefa cujo maior entrave foi a reunião dos fundos necessários para a montagem da ópera.
2º Período francês: em busca de financiamento para a ópera O Sertão miniaturadaimagem|Efígie de Fernand Jouteux, por autor desconhecido, provavelmente desenhada em Paris no 2º Período francês (entre 1921-1925) De acordo com Ígor Cardoso, a ópera O Sertão parece ter sido concebida entre 1899 e 1912. De acordo com Olinto Rodrigues dos Santos Filho, a composição teria se prolongado até o período de 1921 a 1925, quando o casal voltou a residir na França, com Magdeleine e Estelle. Nessa fase, tentaram, sem sucesso, obter financiamento junto ao Rei da Bélgica, para a representação da ópera. Jouteux chegou a apresentar trechos de O Sertão na Universidade Sorbonne de Paris, porém não obteve na França os recursos necessaries para o seu projeto e as dificuldades para fazer representar a ópera arrastaram-se até o início da década de 1950.
Em 1924, ainda durante a permanência do casal Jouteux na França, o oratório Bellator Domini foi novamente executado na Sallle Gaveau (Paris) com 250 executantes, pela Union dês Femmes Artistes Musiciènnes (União das Mulheres Artistas da Música).
Ígor Cardoso observa que, ao viajar para a França em 1921, Jouteux perdeu a oportunidade do Centenário da Independência em 1922, talvez porque sua ópera ainda não estivesse concluída, ou talvez porque Jouteux apostasse em uma subvenção europeia para esse projeto.
Ao Jornal do Recife, em 15 de setembro de 1925, Jouteux informava: “Trouxe, pronta para ser executada, minha ópera Antônio Conselheiro em quatro atos. Espero vê-la representada no Rio de Janeiro, tendo já uma empresa se interessado pelo caso.” Tempos depois, ao Jornal Diretrizes, do Rio de Janeiro, em 25 de setembro de 1941, Jouteux declarava: “Quando terminei minha ópera, vi logo que teria dificuldade de montá-la. Não havia dinheiro.”
Em 1925 o casal regressou a Pernambuco, passando por uma situação de risco: o navio Halgan chocou-se com os rochedos da costa do Recife, acarretando um desembarque de emergencia.