Adonias Aguiar Filho (Itajuípe, — Ilhéus, ) foi um integralista, jornalista, crítico literário, ensaísta e romancista brasileiro da terceira fase do Modernismo, membro da Academia Brasileira de Letras.

É usualmente considerado o “Dostoiévski brasileiro”. Cyro de Mattos denominou seu legado romancístico “uma das perpendiculares de nossa literatura”, e Almeida Fischer incluiu seus romances entre os maiores da língua portuguesa de todos os tempos. Em sua época, era ademais considerado o principal crítico literário do Brasil.

Seus romances foram traduzidos para o inglês, o alemão, o espanhol, o francês, o japonês e o eslovaco. Teve uma novela e três romances adaptados para o cinema.

Vida Nasceu em 27 de novembro de 1915, filho de Adonias Aguiar e de Rachel Bastos de Aguiar, na Fazenda São João, em Itajuípe, antigo Pirangi, vila que pertencia ao município de Ilhéus, no sul da Bahia. Passou parte da infância na fazenda do pai e, na época de frequentar a escola, mudou-se com a família para Ilhéus. Cursou o ensino primário no Ateneu Fernando Caldas. Era aluno pouco aplicado, e frequentemente trocava as aulas pelas praias. Passava as férias e os finais de semana na fazenda do pai, em contato com os trabalhadores rurais e as histórias narradas pela gente simples das plantações de cacau. Matriculou-se em 1928 no internato do Ginásio Ipiranga, em Salvador, para o curso secundário, sendo contemporâneo de Jorge Amado. Um ano depois, interrompeu os estudos e voltou à Fazenda São João. Durante esse tempo, leu Camilo Castelo Branco, Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar e estreitou suas relações com os trabalhadores da terra, enfronhando-se na vida rural.

Aos 15 anos regressou ao Ginásio Ipiranga, em Salvador. No ginásio, participou de conferências, escreveu e publicou artigos no jornalzinho do colégio, fez crônicas e contos e leu, aproveitando a biblioteca, as principais obras de Raul Pompeia, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Olavo Bilac e Cruz e Sousa, e entre os estrangeiros, Balzac e Alexandre Dumas. Concluiu o curso secundário em 1934. Em seguida, começou a escrever seu primeiro romance, Cachaça, que viria a destruir. Participou da Ação Integralista Brasileira. Viajou por toda a Bahia e por outros Estados do Brasil, ampliando muito suas leituras, até fixar-se, em 1936, no Rio de Janeiro, onde tornou-se amigo, nos círculos católicos, de expoentes literários como Tasso da Silveira, Andrade Muricy, Cornélio Penna, Lúcio Cardoso, Octavio de Faria e Rachel de Queiroz.

No Rio, retomou a carreira jornalística. Colaborou com o jornal Correio da Manhã e atuou como crítico literário no jornal A Manhã, recém-fundado por Cassiano Ricardo, em 1937. No mesmo ano, publicou o livro Renascimento do Homem, baseado na doutrina integralista. Em 1938 colabora em O Jornal, dos Diários Associados, e traduz O Pântano do Diabo, de George Sand, e A Família Bronte, de Robert de Traz. Ao mesmo tempo, trabalha na tradução de três romances de Jacob Wassermann: Galovin, Gaspar Hauser e O Processo Maurizius, em colaboração com Octavio de Faria. Começa então a escrever Os Servos do Morte, que encerraria em 1943. Entre 1939 e 1940, atua como crítico literário nos Cadernos da Hora Presente, revista integralista fundada por Tasso da Silveira. Em 1944, fundou a Editora Ocidente, que durou pouco. Lançando As Metamorfoses, de Murilo Mendes, Adonias planejava publicar outros trabalhos, incluindo as obras completas de William Faulkner. Nos anos de 1944 e 1945, em São Paulo, colaborou também com O Estado de S. Paulo e Folha da Manhã. Aceitando o convite do Coronel Leoni Machado, passou a dirigir a editora A Noite, onde permaneceria até 1949.

Casa-se com Rosa Galeano em 1945. Em 1948, nasce a filha Raquel, e dois anos depois o filho, Adonias Neto.

esquerda|miniatura|Adonias Filho (à direita) com os colegas Gabriel García Márquez (ao centro), e Jorge Amado (à esquerda). Estreia como romancista em 1946, publicando Os Servos da Morte, pela Editora José Olympio. Em 1950, candidata-se a deputado federal pela União Democrática Nacional. Sobre isso, Carlos Antônio de Azeredo Filho escreveu, no Diário da Manhã: “Quanto ao romancista Adonias Filho, não abandonou o Integralismo. [...] Há anos fora da Bahia, voltado mais para as coisas do espírito, aceitou um lugar que a UDN lhe ofereceu em sua chapa à deputação federal pelo seu Estado natal, sem prejuízo dos seus velhos compromissos com o movimento integralista, ao qual ficou ligado para sempre desde a adolescência”.Carlos Antônio de Azeredo Filho. Um "bucho" contra o Integralismo. Diário da Manhã (Recife) n° 164, 1° de novembro de 1950, p. 4. Não sendo eleito, aproveitou a estada na Bahia para concluir seu romance Memórias de Lázaro, segundo da trilogia iniciada por Os Servos da Morte, e publicado em 1952 pelas Edições O Cruzeiro, que ele consideraria o melhor dos seus livros.

Foi diretor do Serviço Nacional de Teatro de 1954 a 1956, exceto por oito meses em que dirigiu o Instituto Nacional do Livro, e diretor da Biblioteca Nacional entre 1961 e 1971. Ainda como diretor, trabalhou na Agência Nacional do Ministério da Justiça. Colaborou no Jornal de Letras (1955 a 1960) e no Diário de Notícias (1957 a 1960). Publica, em 1962, pela Editora Civilização Brasileira o terceiro romance de sua trilogia, Corpo Vivo, escrito desde 1954, sucesso de crítica, que despertou os primeiros estudos sobre sua obra. Havia escrito-o antes de Memórias de Lázaro, mas queimou os primeiros originais, achando-os muito influenciados por Os Servos da Morte.miniatura|Adonias Filho (à esquerda) com os amigos Rachel de Queiroz (ao centro), e Gilberto Freyre (à direita).Apoiou o golpe militar de 1964, no qual teve grande influência e importância.https://www.historia.uff.br/stricto/td/1857.pdf Ajudou a libertar muitos intelectuais perseguidos pela repressão nos anos de chumbo, inclusive Jorge Amado. Amigo de Golbery do Couto e Silva, foi cogitado por este para assumir um cargo no seu governo, caso ele fosse nomeado interventor na Guanabara, em 1965, o que não aconteceu. Em 14 de janeiro de 1965, foi eleito para a cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras. No mesmo ano, publica o romance O Forte. Foi agraciado com a Ordem do Mérito Militar, no grau de Comendador, no Corpo de Graduados Especiais.miniatura|Adonias Filho próximo à costa de Luanda, na África.|esquerda

No ano de 1966 foi eleito vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa, e, no ano seguinte, participou do II Congresso das Comunidades de Cultura Portuguesa, em Moçambique, na África, como convidado do governo português. Visita os Estados Unidos. É neste ano também que torna-se membro do Conselho Federal de Cultura, sendo reconduzido em 1969, 1971 e 1973. Foi presidente da Associação Brasileira de Imprensa entre 1972 e 1974 e presidente do Conselho Federal de Cultura de 1977 até 1990, ano de sua morte. Idôneo, recusava aos membros de sua família até carona no carro oficial, como, desde o início, não aceitava pedidos de cargos por parentes.

Passando do romance à novela com Léguas da Promissão, recebe o Prêmio Paula Brito, em 1968. Conquista também o Golfinho de Ouro de Literatura, prêmio patrocinado pelo Museu da Imagem e do Som da Guanabara. Com este mesmo trabalho, em 1969, é premiado pela Fundação Educacional do Paraná.

No ano de 1969, publica o livro de ensaios O Romance Brasileiro. Dois anos depois, publica Luanda Beira Bahia, primeiro romance em nossas letras com o cenário caracterizado em três latitudes.

Em 1974, após muitos anos sonhando em comandar o Governo da Bahia, foi indicado para suceder Antônio Carlos Magalhães no cargo. Entretanto, a firme oposição do então governador o impediu, tendo sido preterido por João Durval Carneiro.

Seu primeiro livro para crianças, Notas de Cem, é publicado em 1973. Desde então, nos seus últimos anos, parte importante de sua produção literária foi dedicada às crianças e jovens. Em 1975 lança As Velhas, que é considerado obra-prima pela crítica, e lhe rende o Prêmio Jabuti. Em 1976, publica o ensaio Sul da Bahia: Chão do Cacau. A Civilização Brasileira, em 1978, edita Fora da Pista, novela para o público infantil.direita|miniatura|Recebendo o título de "Doutor Honoris Causa" pela UFBA, 1983.Nesse fim de sua carreira literária, os títulos não literários e/ou de perfil híbrido predominam: Adonias vai despedindo-se da "grande literatura" para cumprir um papel de formador de opinião e produtor de obras paradidáticas. Ele realizava um projeto intervencionista na cultura nacional ao prover publicações para o grande público que evidenciam escolhas axiológicas bem claras: a defesa de um humanismo heroico-trágico, o das figuras isoladas que contribuem para todas e pouco se beneficiam dessa contribuição.

Para comemorar o Centenário de Ilhéus, em 1981, publica o Auto dos Ilhéus e O Largo da Palma, contos e novelas. Em 1983 recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia, e também publica Noite sem Madrugada, romance policial, com cenas, situações e episódios que acontecem no Rio. Em 1985, é publicado Um Coquinho de Dendê, destinado ao leitor infantil. Publica, em 1987, O Homem de Branco, biografia romanceada de Jean-Henri Dumont, o suíço fundador da Cruz Vermelha. Os Bonecos de Seu Pope (1989), literatura infantil, têm seus direitos autorais definitivamente vendidos em 1990 às Edições de Ouro, para custeio da doença da esposa Rosa Galeano, que vem a falecer.

Com a morte da esposa, em 1990, caiu em grande tristeza, vagando deprimido pela casa-sede de sua fazenda Aliança, em Inema (distrito de Ilhéus). Faleceu em 2 de agosto do mesmo ano, supostamente de amor, não conseguindo suportar a solidão da falta da companheira.

A novela juvenil O Menino e o Cedro foi publicada pela editora FTD, em 1993, em edição póstuma.

Estilo Pela concisão, ritmo sincopado, metáforas e transfiguração poética, Adonias Filho é considerado um dos escritores mais originais da literatura brasileira. A realidade da zona cacaueira da Bahia, onde nasceu e cresceu, serviu-lhe para recriar um mundo carregado de simbolismo, quase mítico, nos episódios e nos personagens, recorrendo a imagens e alegorias, apesar de um fundo de realismo no aproveitamento das conquistas da técnica literária moderna. Além de admitir uma dívida com o modernismo brasileiro, suas obras revelam influência de William Faulkner e James Joyce, bem como de Fiódor Dostoiévski, Honoré de Balzac, Julien Green, Charles Dickens, Jakob Wassermann, Georges Bernanos e Albert Camus. Teve uma curva ascensional na atividade como ficcionista, aprimorando seu estilo com a experiência de cada publicação.