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Johannes Gensfleisch zur Laden zum GutenbergEm alemão, o nome é pronunciado [joˈhanəs ˈɡɛnsflaɪʃ tsuːɐ̯ ˈlaːdn̩ tsʊm ˈɡuːtn̩bɛʁk]. (c. 1393–1406 – 1468) foi um inventor e artesão alemão que desenvolveu a prensa tipográfica de tipos móveis. Embora já se imprimisse com tipos móveis na Ásia Oriental, Gutenberg reuniu na Europa tipos de metal, tinta e uma prensa mecânica num sistema capaz de produzir livros em grande escala.Duchesne 2006, p. 83; Man 2002, pp. 112–115; Encyclopædia Britannica, verbete "Printing", 2006; . A tecnologia se difundiu pelo mundo,Füssel 2019, p. 7. ampliou a circulação de textos pela Europa em uma escala sem precedentes e esteve entre as condições para o desenvolvimento do Renascimento, da Reforma Protestante e do humanismo renascentista.

Entre as contribuições atribuídas a Gutenberg estão um processo de produção em massa de tipos móveis, o uso de tinta à base de óleo na impressão de livros,Sivulka 1998, p. 5. moldes ajustáveis, tipos móveis de metal e uma prensa de madeira semelhante às prensas agrícolas de parafuso da época. Tradicionalmente, considera-se que seu método empregava uma liga metálica e um molde manual para fundir os tipos. A liga reunia chumbo, estanho e antimônio, fundia a uma temperatura relativamente baixa e produzia peças duráveis.Lyons 2011, p. 56. Sua obra mais conhecida, a Bíblia de Gutenberg, foi a primeira obra de grande porte impressa na Europa com tipos móveis de metal e recebeu elogios por sua qualidade técnica e estética.

Gutenberg costuma figurar entre as pessoas de maior influência na história humana e recebeu homenagens em muitos países. Em 1900, nas comemorações dos quinhentos anos de seu nascimento, foi fundado em Mogúncia o Museu Gutenberg. Em 1997, a Time Life escolheu sua invenção como a mais importante do segundo milênio.

Vida e carreira Primeiros anos esquerda|miniatura|upright=0.7|alt=Desenho de escudo heráldico com figura escura sobre fundo claro.|O brasão dos Gensfleisch, registrado em 1461, remete à origem patrícia da família de Gutenberg.Kapr 1996, p. 35.

Johannes Gutenberg nasceu em Mogúncia, cidade às margens do Reno, entre o fim do século XIV e o início do XV.Wagner 2000, p. 58; Kapr 1996, p. 25. Não se conhece o ano exato. Um documento posterior mostra que ele já tinha atingido a maioridade em 1420, e as estimativas para seu nascimento vão de 1393 a 1406.Kapr 1996, p. 29.A escassez de documentos impede determinar seu ano de nascimento. Entre os intervalos propostos estão 1394–1406 (Ing 1988, p. 27; Wagner 2000, p. 83), 1394–1404 (Kapr 1996, p. 25) e 1393–1403 (Füssel 2019, pp. 10–11). Por conveniência, costuma-se adotar o ano de 1400.Ing 1988, p. 27. Uma tradição situa seu nascimento em 24 de junho, dia do nascimento de São João Batista, pois era comum dar às crianças o nome do santo celebrado no dia em que nasciam.Füssel 2019, p. 11. Não há comprovação dessa hipótese. "Johannes" e suas variantes "Johann", "Henne", "Hengin" e "Henchen" eram nomes comuns na época.Kapr 1996, p. 29. Seu nome completo era "Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg". "Laden" e "Gutenberg" vinham dos nomes de casas da família em Mogúncia.Ing 1988, p. 27. A segunda era a Hof zum Gutenberg, uma grande residência de estilo gótico, hoje desaparecida, que seu pai herdara.Kapr 1996, p. 32. Gutenberg provavelmente passou ali seus primeiros anos, ao lado da igreja de São Cristóvão.Wagner 2000, p. 58.Uma tradição local situa seu batismo na igreja de São Cristóvão, mas não há prova documental. Man 2002, p. 29.

direita|miniatura|upright=0.7|alt=Desenho histórico de uma casa urbana com telhado inclinado e fachadas contíguas.|A Hof zum Gutenberg, residência da família em Mogúncia, numa representação de cerca de 1835; o edifício não existe mais.

Seu pai, Friele Gensfleisch zur Laden, era um patrício e comerciante, provavelmente de tecidos.Füssel 2019, p. 11. Mais tarde, participou da administração das contas da cidade e da cooperativa ligada à casa da moeda, chamada Münzerhausgenossenschaft.Kapr 1996, p. 30.Não se sabe até que ponto Friele participou das finanças municipais e do comércio de metais preciosos. Seus cargos talvez fossem sobretudo honoríficos. Kapr 1996, p. 30. Em 1386, casou-se pela segunda vez, com Else Wyrich, filha de um lojista. Johannes provavelmente foi o caçula dos três filhos do casal, depois de Friele, nascido por volta de 1387, e Else, nascida entre cerca de 1390 e 1397.Kapr 1996, pp. 29–30.Gutenberg tinha ainda uma meia-irmã, Patze, do primeiro casamento do pai com uma mulher cujo nome não é conhecido. Kapr 1996, p. 30. O casamento com Else, que não pertencia ao patriciado, pode ter dificultado o futuro de Gutenberg.Wagner 2000, p. 60. Por causa da origem social da mãe, ele não poderia suceder o pai na casa da moeda.Kapr 1996, pp. 30–31. O historiador Ferdinand Geldner propôs que esse afastamento da elite o teria levado a buscar a carreira pouco usual de inventor.Wagner 2000, pp. 60, 84.Sabina Wagner observa que muitos biógrafos concordam com Geldner, embora não todos. Andreas Venzke relaciona o episódio à determinação posterior de Gutenberg. Para Wagner, o fato de ele ser o filho mais novo talvez tenha pesado mais que a posição social. Wagner 2000, p. 60; Venzke 1993, p. 37.

Os patrícios de Mogúncia, entre eles os Gutenberg, gozavam de privilégios sociais e econômicos. A defesa desses privilégios provocava atritos frequentes com as gerações mais novas dos artesãos organizados em corporações de ofício.Kapr 1996, p. 38; Wagner 2000, pp. 50–61. Em fevereiro de 1411, uma disputa eleitoral deu origem a um conflito violento. Em agosto, pelo menos 117 patrícios haviam deixado a cidade.Füssel 2019, p. 11; Kapr 1996, pp. 38–39. Friele também partiu, provavelmente com a família, e deve ter se instalado em Eltville, onde Else herdara uma casa junto às muralhas.Füssel 2019, pp. 11–12; Kapr 1996, pp. 38–39. Após a mediação do arcebispo, a família pôde voltar a Mogúncia naquele outono.Kapr 1996, p. 39. A situação continuou instável. Em janeiro de 1413, motins provocados pela fome levaram os Gutenberg de volta a Eltville.Kapr 1996, p. 39.

Educação esquerda|miniatura|upright=0.7|alt=Fachada de edifício histórico de pedra com janelas altas e telhado íngreme.|O antigo edifício principal da Universidade de Erfurt. Um Johannes de Altavilla consta de seus registros, mas não se sabe se era Gutenberg.

Não restaram documentos sobre a infância ou a juventude de Gutenberg.Wagner 2000, p. 60. O biógrafo Albert Kapr observou que a maior parte dos livros sobre ele passa por esses anos dizendo apenas que nada se sabe a seu respeito.Kapr 1996, p. 36. Como filho de um patrício, provavelmente aprendeu a ler e a fazer contas.Kapr 1996, p. 37. É provável também que soubesse latim, exigido para ingressar na universidade, mas não se sabe se estudou numa escola paroquial de Mogúncia, em Eltville ou com um tutor particular.Wagner 2000, pp. 60–61. Talvez tenha cogitado seguir a vida religiosa, uma possibilidade comum para filhos caçulas de patrícios numa região com muitas igrejas e mosteiros.Kapr 1996, p. 37. Uma hipótese é que tenha estudado na colegiada de São Vítor, ao sul de Mogúncia, perto de Weisenau, cuja confraria viria a integrar. A escola tinha boa reputação e vínculos com sua família, mas sua frequência ali não foi comprovada.Füssel 2019, p. 11; Wagner 2000, p. 61.

Acredita-se que tenha frequentado a Universidade de Erfurt, cujos registros de 1418–1419 trazem a matrícula de um Johannes de Altavilla. Altavilla é a forma latina de Eltville am Rhein, mas não se pode comprovar que o estudante fosse Gutenberg.Wagner 2000, pp. 61–62. Após a morte do pai em 1419, Gutenberg e o irmão participaram de uma disputa sobre a herança em 1420. Um documento de 1430 também menciona seu nome; pouco mais se sabe de suas atividades nesses anos. Um registro de 14 de março de 1434 comprova sua presença em Estrasburgo, onde tinha parentes maternos. Uma lista tributária de 1444 o registra como homem apto a portar armas e associado à corporação dos ourives; isso não comprova que exercesse o ofício. Em 1437, há indícios de que ensinava um comerciante rico a polir pedras preciosas, mas não se sabe onde aprendera a técnica. Entre 1436 e 1437, seu nome apareceu num processo judicial relativo a uma promessa de casamento não cumprida com Ennelin, de Estrasburgo. Não há registro de que o casamento tenha ocorrido.

Prensa tipográfica

Artigo relacionado: Difusão global da prensa tipográfica.

O que me escreveram sobre aquele homem extraordinário que vi em Frankfurt é inteiramente verdade. Não vi Bíblias completas, apenas alguns cadernos de diferentes livros da Bíblia. A escrita é muito limpa e legível, nada difícil de acompanhar. Vocês poderiam lê-la sem esforço, até mesmo sem óculos.O futuro papa Pio II, em carta ao cardeal Juan Carvajal, março de 1455.Raven e Proot 2020, p. 137.

direita|miniatura|upright=0.85|alt=Reconstrução de prensa de madeira com estrutura vertical e mecanismo de parafuso exposta num museu.|Reconstrução de uma prensa no Museu Gutenberg: a pressão mecânica integrava o sistema de impressão desenvolvido em Mogúncia.

Por volta de 1438, Gutenberg e seus sócios planejaram produzir em série espelhos de metal que, segundo a crença dos peregrinos, captariam a bênção das relíquias expostas na catedral de Aachen, cujo acervo é tradicionalmente ligado a Carlos Magno. Contavam com uma peregrinação em 1439, mas a exibição seguinte estava marcada para 1440; o erro comprometeu o empreendimento.

Gutenberg morou em Estrasburgo pelo menos até 1444, provavelmente na paróquia de São Arbogasto. Uma praça da cidade hoje leva seu nome. Num contrato firmado em 1438, Gutenberg mencionou künste vnd afentur, expressão usada na época para atividades artesanais e comerciais. Os documentos sugerem experiências com uma prensa e com formas de metal, mas não permitem afirmar que já imprimisse com tipos móveis em Estrasburgo. Segue-se uma lacuna de quatro anos na documentação. Em 1448, estava de volta a Mogúncia e tomou um empréstimo de 150 florins, avalizado por seu parente Arnold Gelthus, possivelmente para financiar a invenção. É possível que já conhecesse a calcogravura e que tivesse trabalhado em gravuras de cobre com o artista conhecido como Mestre das Cartas de Jogar.Wagner 2000, pp. 65–66.

Por volta de 1450, a prensa já funcionava e havia produzido um poema alemão, talvez seu primeiro impresso.Wagner 2000, p. 74. Gutenberg recebeu cerca de 800 florims do financiador Johannes Fust por volta de 1449–1450. Peter Schöffer, que mais tarde se casaria com a filha de Fust, também entrou no negócio. Ele havia trabalhado como copista em Paris e possivelmente desenhou alguns dos primeiros tipos de letra.

esquerda|miniatura|upright=0.65|alt=Documento antigo em folha única com linhas de texto impresso e espaços preenchidos à mão.|Indulgência de 1455 atribuída à oficina de Gutenberg, exemplo dos impressos produzidos em série antes da Bíblia.

A oficina de Gutenberg foi instalada no Humbrechthof, propriedade de um parente distante. Não se sabe quando ele concebeu o projeto da Bíblia. Para realizá-lo, obteve mais 800 florins de Fust alguns anos depois; a impressão começou por volta de 1452. A oficina imprimia ao mesmo tempo outros textos, mais lucrativos, talvez gramáticas latinas. Há quem suponha que contava com duas prensas, uma para os textos comuns e outra para a Bíblia. Entre 1454 e 1455, imprimiu milhares de indulgências para a Igreja. Por volta de 1455, Gutenberg produziu a Bíblia de 42 linhas, hoje chamada Bíblia de Gutenberg. Estima-se que tenham sido impressos cerca de 180 exemplares; as estimativas para os feitos em pergaminho variam de aproximadamente 30 a 45, e os demais eram de papel.The Oxford Companion to German Literature 2005, verbete "Gutenberg, Johannes".

Disputa judicial