A Mita (termo que provém da palavra que em quéchua significa turno) era um sistema de trabalho tributário pré-hispânico destinado ao Estado, ao sapainca ou a outros chefes, como o kuraka (chefe da ayllu). O trabalho era planificado, organizado e fiscalizado pelo próprio Estado através de seus administradores. Os trabalhadores desse regime eram denominados mitayo, homens adultos e casados (somente se era considerado integrantes autônomos da ayllu após o casamento, momento em que o Estado cedia um lote de terra aos casados), geralmente com idades entre 18 e 50 anos, que eram retirados de seu ayllu para a realização de um exercício laboral nas terras de seu kuraka ou em outros lotes do reino.
O trabalho era realizado em mita (turnos) que duravam cerca de 3 meses a 1 ano. As atividades incluíam cultivar terras do Estado, cuidar de rebanhos, explorar minas, fabricar armas, tecidos e objetos artesanais, construir estradas, pontes e cidades, além de servir no exército. Os mitayo eram alojados em residências estatais e recebiam vestimentas e alimentação em abundância durante o período. O Estado recompensava, em certas ocasiões, alguns mitayo, que poderiam retornar com alguma quantidade de lã, comida, vestes, coca, entre outros.
Apesar do regime mita ser uma forma de exploração, pois o excedente do trabalho ficava com os integrantes da direção do Estado, culturalmente era muito apreciado por aqueles que participavam do sistema. O mita era visto como uma constante efetivação da ordem cósmica e da relação com o Inca, filho do sol. Além disso, o período de trabalho era caracterizado pela relativa fartura para os trabalhadores.
Mita como ferramenta de exploração colonial espanhola A mita foi um sistema de trabalho cooptado durante a conquista do Império Espanhol na América do Sul, tendo sido aplicada na América Andina especialmente na região do Cerro Rico de Potosí (montanha rica de Potosí, em português atual Bolívia). Sua aplicação data do ano de 1573, sob o governo do Vice-Rei Francisco Toledo (1569-1581), tendo sido aplicado como um regime de trabalho assalariado forçado.
Apesar da existência desta forma de trabalho, outras práticas laborais também foram executadas na região, podendo ser menos coercitivas e mais voluntárias. A mita, entretanto, possuía um caráter oficial e estava sob o comando da administração dos funcionários da realeza e de autoridades indígenas conhecidas como "capitães de mita".
Esta prática implicava, entre outras questões, a concentração de indígenas em determinados locais, mas privados da dispersão da área rural, bem como a aplicação da concepção da ordem social e de governabilidade, neste caso, sob a coroa espanhola.
Império incaico e o domínio espanhol
O continente Americano produziu, durante o período colonial, mais prata que ouro, sendo que o Vice-Reino da Nova Espanha foi o maior produtor deste minérios durante todo o período. No decorrer da era colonial, dois períodos são reconhecidos como o auge da produção mineira, sendo eles o os anos entre 1570 e 1630, no qual o Vice-reino do Peru foi o maior produtor e, em seguida, o período correspondente aos anos de 1770 e 1800, no qual a extração de minérios no México superou as áreas sul-americanas.
No que se refere a extração de prata em Potosí, pode-se dividir o período em quatro etapas, sendo eles o rápido crescimento da produção usando a técnica de mineração incaica (1545-1550), o declínio da produção em razão do esgotamento mineral (1551-1570), a era do ouro guiada pela introdução da amálgama com o mercúrio e o sistema de mita (1571-1614) e a era do declínio crônico (1615 até o início do século XVIII).
A mita potosina se firmou como prática em 1578, possuindo um número máximo de mitayos fixado em 13.382, apesar de seu início ter se dado cinco anos mais cedo. A região de Charcas, próximo ao Potosí, passou a ter maior peso demográfico em razão desta prática, pois muitos dos quais sustentavam suas famílias com os ganhos desta forma trabalho, viviam nesta região ainda que no período pré-hispânico a migração para esta área fosse constante. miniaturadaimagem|287x287px|Potosí à época do Vice-Reino do Peru (século XVII).|esquerda Efeitos da conquista de Potosí A descoberta de Potosí em 1545 reorganizou a estrutura colonial espanhola. Em meados de 1570 o Cerro Rico foi fundamental para a dinâmica da lógica mercantil existente à época, pois a prata que brotava de Potosí marcou um novo estágio na era capitalista. O Novo Mundo foi responsável pela produção de 74% de toda a prata produzida no mundo durante o século XVI e, com isso, Potosí nascia como a maior cidade do mundo, ultrapassando cidades como Amsterdã, Londres, Sevilha e Veneza.
No que se refere ao mundo do trabalho mitayo, faz-se vital apontar que não existia apenas um tipo de mita em todo o Novo Mundo. No entanto, a mita potosina, aqui analisada, possuiu uma totalidade imensa de tributários, oriundos de 16 províncias, para atuar nas minas e engenhos de moagem de metais. Os mitayos eram, majoritariamente, responsáveis pela realização da retirada do mineral das minas e acabavam por carregar a sua produção em bolsas de couro em suas costas, podendo, também, realizavar a atividade de incorporar o metal selecionado para moer nos engenhos. Os responsáveis por essas atividades eram conhecidos como apiris.
Mita: do período pré-hispânico ao governo de Francisco Toledo Antecedentes miniaturadaimagem|Máxima extensão do império incaico ao finalizar o governo do inca Huayna Capac. O sistema de trabalho aplicado por Toledo remete às medidas tomadas por Huayna Capac, na região de Cochabamba, na busca da mobilização de um contingente de trabalhadores masculinos em proporções equivalentes àquelas existentes durante o século XVI. Outra forma utilizada por Toledo que nos remete ao passado pré-hispânico é o da huayra, prática pré-hispânica que remete ao processo de fundição do mineral de ótima qualidade. Retornando ao período da década de quarenta do século XVI, temos as ações dos encomenderos, os quais enviavam contingentes de trabalhadores autóctones para o trabalho em Potosí, realizando atividades variadas, assim como no sistema da mita colonial. Tem-se em vista que um dos principais agentes na estruturação do sistema de trabalho mitayo foi Polo Ondegardo, jurista, encomendero, mineiro e conselheiro do Vice-Rei Toledo durante a vista deste aos Andes na década de 1570. No entanto, o trabalho de mineração subterrânea remete ao período romano, tendo sido esta forma aplicada nas minas de mercúrio em Almandén, Espanha, não se tratando de uma inovação da prática espanhola.
Francisco Toledo e a reestruturação do sistema Polo Ondegardo, em 1562, realizou uma visita às minas de Huamanga (atual Ayacucho), ditando ordens direcionadas ao funcionamento das minas de ouro e prata de Atunsulla e ao depósito de mercúrio de Huancavelica, dando início ao sistema de recrutamento rotativo semanal nas minas de Atunsulla. No decorrer do década de 1570, Toledo observou o funcionamento do sistema adaptado por Ondergado em Huamanga e se pautou neste modelo para instituir a organização do sistema mitayo toledano.
Niccolò Benino, natural de Florença, foi o primeiro a planificar e realizar a perfuração de um buraco em Potosí, obra que iniciou seis anos após sua chegada na região, em 1556, e onze anos após a descoberta do local para exploração. Tendo falecido em decorrência de um acidente na mina, Toledo ordenou que fossem tomadas algumas medidas de segurança, sendo elas a proibição de trabalho em poço aberto, em razão dos perigos de desabamento, e ordenou que as pontes de rocha natural fossem deixadas apenas para as obras subterrâneas bem como as escadas, as quais deveriam ser fortes o bastante. A escavação terminou 29 anos mais tarde.
A questão da mão de obra esquerda|miniaturadaimagem|322x322px|Francisco Álvarez de Toledo. No ano de 1551, houve a permissão de utilização da mão de obra indígena voluntária sob o esquema de jornais. O Acordo de Hacienda, assinado em 1570, fez do encomendero de Huamanga, Garci Diez de San Miguel, o grande ator no processo de convencimento dos indígenas a aderirem ao trabalho nas minas. No entanto, os caciques de Huamanga se negaram a ceder a mão de obra indígena para o trabalho mineiro e, em decorrência deste ato, a Junta de Notables , estabelecida no mesmo ano, aprovou o trabalho indígena em minas nos seguintes termos:Ou seja, a organização socioeconômica da região se apresentava, em conjunto com as ordens política e institucional, sob o parâmetro religioso. Nesse sentido, a partir deste ano, Toledo iniciou sua caminhada pela região que culminaria na instauração da mita.
Trabalho indígena miniaturadaimagem|Mining in Potosí, an engraving from Theodor de Bry in Historia Americae sive Novi Orbis, 1596|300x300px A utilização da mão de obra indígena no Cerro Rico de Potosí está intimamente ligada ao processo de recrutamento de índios minga, ou seja, indígenas alugados que cobravam de acordo com a atividade realizada. Dessa forma, muitos indígenas sobre o regime da mita optavam por trabalhar como mingas, pois com o salário que recebiam poderiam pagar sua substituição na mita, tendo em vista que outros assentamentos possuíam maiores vantagens aos indígenas.
Mineração O trabalho de mineração em Potosí dependeu fortemente da força de trabalho indígena. Se compararmos com os trabalhos de negros – escravos ou libertos – veremos que a participação deste é muito inferior à dos povos autóctones durante a mineração de prata. No período correspondente ao início da exploração colonial em Potosí (1545), a organização dos meios e da produção estiveram sob controle indígena durante o período conhecido como huayra. Com a queda da qualidade da prata existente em Potosí e, consequentemente, a queda na produção do minério, Toledo decide manter a prática da huayra em casos pontuais, além de incentivar o desenvolvimento da prática de amálgama entre o mercúrio e prata (azogue). Com isso, Toledo prescreveu que o pagamento dos mitayos deveria ser feito em minério, não sendo capaz de perceber que a demanda técnica não poderia ser suprida pelos indígenas. Potosí, nesse sentido, passa a ser construída a partir de moinhos movidos por energia humana, que foram rapidamente substituídos por máquinas de tração animal e, finalmente, por um maquinário movido por energia hidráulica. Durante os primeiros decênios da exploração das minas de Potosí, os métodos utilizados eram os mesmos da era pré-hispânica e, com isso, os primeiros trabalhadores eram oriundos das regiões mais antigas do Porco. No entanto, até o último terço do século XVII, a introdução de equipamentos de bronze ou cobre e a escavação no formato de galerias horizontais permitia a extração, drenagem e ventilação. miniaturadaimagem|Ferramentas necessárias para a fundição de prata.|285x285px|esquerdaA partir da segunda metade de 1540, os encomenderos da região de Charcas e outras passaram a enviar contingentes de índios tributários para Potosí, os quais possuíam prazos e tarefas variáveis. A partir de 1570, houve a consolidação do sistema de trabalho mitayo. Para entender como se deu a estruturação do sistema de mita, é necessário pontuar que a coroa espanhola se encontrava endividada, que a obtenção de metais preciosos era uma prioridade e que, durante os anos anteriores, a qualidade do minério retirado de Potosí havia decaído, como apontado acima. Havia, ainda, a disputa entre o poder do encomendero e o poder real, sendo que solução para esta disputa ocorreu em favor do poder real, com a fragmentação da organização do poder colonial.
Migração forçada e trabalho mitayo