O SS Edmund Fitzgerald foi um navio graneleiro estadunidense que naufragou em uma tempestade no lago Superior em 10 de novembro de 1975, com a perda total da tripulação de 29 pessoas. Quatro dias depois do naufrágio, ele foi localizado em águas profundas por uma aeronave da Marinha dos Estados Unidos, detectando anomalias magnéticas, e logo depois foi encontrado dividido em duas grandes partes. Quando lançado em 7 de junho de 1958, ele era o maior navio dos Grandes Lagos e continua sendo o maior a ter naufragado naquela região.

Por mais de 17 anos, o Edmund Fitzgerald transportou minério de ferro de taconite de minas perto de Duluth, Minnesota, para obras em Detroit, Toledo e outros portos dos Grandes Lagos. Como um "burro de carga", ele estabeleceu seis recordes de transportes sazonais, muitas vezes quebrando suas próprias marcas anteriores. O capitão do navio, Peter Pulcer, era conhecido por tocar música de dia ou de noite pelo intercomunicador do navio, quando passava pelos rios Sainte Clair e Detroit (entre os lagos Huron e Erie), e entretinha os espectadores em Soo Locks (entre os lagos Superior e Huron) com uma descrição comentada sobre o navio. O tamanho do Fitzgerald e o seu desempenho em quebrar recordes, como também a presença de um "capitão DJ", tornaram-no popular entre os observadores de barcos.

Abastecido com uma carga completa de pelotas de minério, e com o capitão Ernest M. McSorley no comando, o navio iniciou sua malsucedida viagem na tarde de 9 de novembro de 1975, em Superior, Wisconsin, na região de Duluth. A caminho de uma siderúrgica perto de Detroit, o Edmund Fitzgerald juntou-se a um segundo cargueiro, o . No dia seguinte os dois navios foram apanhados em uma forte tempestade no lago Superior, com ventos próximos à força de um furacão e com ondas de até 11 m de altura. Pouco depois das 19h10, o Edmund Fitzgerald naufragou subitamente em águas canadenses (Ontário) com 160 m de profundidade, a cerca de 27 km da Baía Whitefish, perto das cidades gêmeas de Sault Sainte Marie, Michigan e Sault Sainte Marie, Ontário – uma distância que o Edmund Fitzgerald poderia ter percorrido em pouco mais de uma hora estando em sua velocidade máxima. Embora o Fitzgerald tenha relatado mais cedo estar com dificuldades, nenhum sinal de socorro foi enviado antes de seu naufrágio; a última mensagem do capitão McSorley para o Arthur M. Anderson dizia: "Estamos nos segurando". Sua tripulação de 29 pessoas pereceu, e nenhum corpo foi recuperado. A causa exata do naufrágio permanece desconhecida, embora numerosos livros, estudos e expedições tenham examinado a questão e proposto teorias. O Edmund Fitzgerald pode ter sido inundado, ter sofrido falhas estruturais ou danos na parte superior, ter colidido com um banco de areia ou sofrido uma combinação destes.

O desastre é um dos mais conhecidos da história dos navios e navegações dos Grandes Lagos. O músico Gordon Lightfoot transformou-o no tema de seu sucesso "The Wreck of the Edmund Fitzgerald", de 1976, depois de ler um artigo, "The Cruelest Month", na edição de 24 de novembro de 1975 da Newsweek. O naufrágio levou a mudanças nas regulamentações e práticas de transporte dos Grandes Lagos, que incluíram roupas de sobrevivência obrigatórias, detectores de profundidade, sistemas de posicionamento, uma maior borda livre e uma inspeção mais frequente das embarcações.

História

Design e construção thumb|esquerda|SS Edmund Fitzgerald, de saída e cheio de água de lastro. A Northwestern Mutual Life Insurance Company de Milwaukee, Wisconsin, investiu em grande escala nas indústrias de ferro e minerais, incluindo na construção do Edmund Fitzgerald, que representou o primeiro investimento da história de uma companhia de seguros de vida estadunidense em algo do tipo. Em 1957 eles contrataram a Great Lakes Engineering Works (GLEW), de River Rouge, Michigan, para projetar e construir o navio "com um pé a menos do que o comprimento máximo permitido para passagem no futuro Canal de São Lourenço." O valor do navio na época era de sete milhões de dólares americanos (equivalente a 48,8 milhões em 2018). O Edmund Fitzgerald foi o primeiro lake freighter a ser construído com o tamanho máximo do padrão seawaymax, com 222,5 m de comprimento, 22,9 m de largura e um calado de 7,6 m. Seu pontal (a altura vertical do casco) tinha 12 m. O pontal interno (em inglês, depth of hold — a altura interna do local de transporte de carga) era de 10,16 m. Em 7 de agosto do mesmo ano, a GLEW instalou o primeiro prato de quilha no navio em construção.

Com uma capacidade de porte bruto de 26 mil toneladas de deslocamento ( toneladas curtas; 2 toneladas) e com um casco de 222 metros, o Edmund Fitzgerald era o navio mais longo dos Grandes Lagos, o que lhe valeu o título de "Queen of the Lakes" até 17 de setembro de 1959, quando foi lançado o , também com 222,5 m. Os três compartimentos centrais de transporte de carga do Edmund Fitzgerald eram carregados através de 21 escotilhas estanques, cada uma com 3,4 por 14,6 m de espessura e 7,9 mm de aço. Originalmente utilizadas para queimar carvão, suas caldeiras foram convertidas para queimar óleo durante o inverno de 1971-72. Em 1969 a manobrabilidade do navio foi melhorada, com a instalação de um propulsor de proa movido a diesel.

Para os padrões dos navios de carga de minério, o interior do Edmund Fitzgerald era luxuoso. Seus móveis, projetados pela companhia J.L. Hudson, incluíam carpetes felpudos, banheiros azulejados, cortinas sobre as vigias e cadeiras giratórias de couro no salão dos hóspedes. Tinha dois quartos de hóspedes, para os passageiros. O ar-condicionado estendia-se aos alojamentos da tripulação, que apresentavam mais amenidades do que o habitual. Uma grande cozinha e despensa totalmente equipadas forneciam refeições para duas salas de jantar. A ponte de comando do Edmund Fitzgerald foi aparelhada com "equipamentos náuticos de última geração e uma bela sala de mapas".

Nome e lançamento

A Northwestern Mutual batizou o navio com o nome de seu presidente e chefe do seu conselho de administração, Edmund Fitzgerald. O avô de Fitzgerald tinha sido um capitão de lago e seu pai era dono da Milwaukee Drydock Company, que construía e consertava navios. Mais de quinze mil pessoas assistiram à cerimônia de batismo e lançamento do Edmund Fitzgerald, em 7 de junho de 1958. Mas o evento foi marcado por infortúnios: quando Elizabeth Fitzgerald, esposa de Edmund Fitzgerald, tentou batizar o navio quebrando uma garrafa de champanhe sobre a proa, careceu de três tentativas até conseguir quebrá-la. Um atraso de 36 minutos seguiu-se, enquanto a equipe do estaleiro se esforçava para soltar os pratos de quilha. Após o lançamento lateral o navio criou uma grande onda que "encharcou" os espectadores, e depois colidiu com um píer, antes de se endireitar. Um homem que assistia ao lançamento teve um ataque cardíaco e depois morreu. Outras testemunhas disseram mais tarde que juraram que o navio estava "tentando sair da água". Em 22 de setembro de 1958, o Edmund Fitzgerald completou nove dias de testes no mar.

Carreira 300px|thumb|direita|SS Edmund Fitzgerald em andamento. A prática normal da Northwestern Mutual era de comprar navios para serem operados por outras empresas. No caso do Edmund Fitzgerald, eles assinaram um contrato de 25 anos com a Oglebay Norton Corporation para que ela operasse o navio. A Oglebay Norton imediatamente designou o Edmund Fitzgerald como o navio-almirante de sua frota da Columbia Transportation.

O Edmund Fitzgerald foi um "burro de carga" que estabeleceu diversos recordes, muitas vezes quebrando suas próprias marcas anteriores. A carga recorde da embarcação para uma única viagem foi de toneladas de deslocamento ( toneladas curtas; toneladas), em 1969. Por 17 anos o Edmund Fitzgerald transportou minério de ferro de taconite, de minas perto de Duluth, Minnesota, para obras em Detroit, Toledo e para outros portos dos Grandes Lagos. Ele estabeleceu seis recordes de transportes sazonais. Seus apelidos incluíam "Fitz", "Pride of the American Side", "Mighty Fitz", "Toledo Express", "Big Fitz", e "Titanic of the Great Lakes". O carregamento do Edmund Fitzgerald com pelotas de taconite demorava cerca de quatro horas e meia, enquanto o descarregamento durava cerca de 14 horas. Uma viagem de ida e volta, entre Superior e Detroit, costumava levar cinco dias, e ele fazia em média 47 viagens semelhantes a cada temporada. A rota usual da embarcação era entre Superior e Toledo, Ohio, embora seu porto de destino pudesse variar. Em novembro de 1975 o histórico Edmund Fitzgerald registrava uma estimativa de 748 viagens de ida e volta nos Grandes Lagos, e mais de um milhão de milhas percorridas, "uma distância equivalente a aproximadamente 44 viagens ao redor do mundo".

Até algumas semanas antes de sua perda, passageiros viajaram a bordo como convidados da empresa. Frederick Stonehouse escreveu:

Por causa de seu tamanho, aparência, sequência de recordes e um "capitão DJ", o Edmund Fitzgerald tornou-se um favorito dos observadores de barco ao longo de sua carreira. Embora o capitão Peter Pulcer estivesse no comando do Edmund Fitzgerald nas viagens em que os recordes de carga eram realizados, "ele é mais lembrado [...] por tocar música de dia ou de noite, pelo sistema de intercomunicação do navio", ao passar pelos rios Sainte Clair e Detroit. Enquanto navegava pelas Soo Locks, ele frequentemente saía da ponte de comando e usava um megafone para entreter os turistas com um comentário sobre detalhes acerca do Edmund Fitzgerald.

Em 1969 o Edmund Fitzgerald recebeu um prêmio de segurança, por oito anos de operação sem qualquer registro de lesão que afastasse um trabalhador de seu serviço. O navio encalhou em 1969, e colidiu com a em 1970. Mais tarde nesse mesmo ano ele atingiu a parede de uma eclusa, um acidente repetido em 1973 e 1974. Durante 1974 ele perdeu sua âncora de proa original no rio Detroit. Entretanto, nenhum desses contratempos foi considerado grave ou incomum. Navios de água doce foram construídos para durar mais de meio século, e o Edmund Fitzgerald ainda deveria ter uma longa carreira à sua frente quando naufragou.

Viagem final e naufrágio thumb|esquerda|280px|O mapa do National Transportation Safety Board do curso provável do Edmund Fitzgerald e Arthur M. Anderson. O Edmund Fitzgerald saiu de Superior, Wisconsin, às 14h15, na tarde de 9 de novembro de 1975, sob o comando do capitão Ernest M. McSorley. Ele estava a caminho da usina siderúrgica de Zug Island, perto de Detroit, carregado com toneladas de deslocamento ( toneladas curtas; toneladas) de pelotas de minério de taconite, e logo alcançou sua velocidade máxima de 26,2 km/h. Por volta das 17h, em Two Harbors, Minnesota, o Edmund Fitzgerald juntou-se a um segundo cargueiro, o , sob o comando do capitão Jesse B. "Bernie" Cooper, destinado a Gary, Indiana. A previsão do tempo não era incomum para novembro e o Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos (NWS) previu que uma tempestade passaria ao sul do lago Superior às 7h de 10 de novembro.