O Um ou Uno é um conceito filosófico grego que é fundamentado pela primeira vez no diálogo Parmênides por Platão e primordial em sua Teoria das Ideias. Relacionado à Mônada do pitagorismo e ao questionamento da unidade versus multiplicidade (problema do um e muitos) pelos pré-socráticos, foi desenvolvido posteriormente por outros platonistas e neopitagóricos, especialmente no neoplatonismo por Plotino e seus sucessores. Henologia refere-se ao estudo do Um.
Plotino define o "Uno" como uma entidade suprema, totalmente transcendente, além de todas as categorias do Ser e Não-ser. O primeiro princípio do qual todas as coisas existentes derivam. Ele é relacionado ao conceito de Absoluto e de Causa Primeira. A unidade transcendente é a propriedade que todo ser possui, caso contrário, não seria. O Um só pode ser o primeiro princípio se estiver "para além do Ser". O Uno não é qualquer coisa existente, nem simplesmente a soma de todas as coisas, mas "é antes de tudo existente". Essa visão, compartilhada pelos neoplatonistas, que faz do Uno um princípio ontológico primário no diálogo de pensamentos entre os gregos, é também citada por Aristóteles, para quem "o Um não é nada além que o Ser".
Este conceito de representa uma verdadeira ruptura com o modo tradicional grego de pensar, que até então identificava a unidade com o Intelecto e o Ser. Plotino, seguindo Platão, identificou o Uno com o conceito de Bem e o princípio da Beleza.Plotino, Enéadas, I.6.9 Por ser um poder imenso, contém todas essas noções e é capaz de gerar tudo, também levando o nome de Bom.
Histórico Historicamente, essa noção decolou na filosofia a partir do neoplatonismo de Plotino em meados do século III. Gramaticalmente, a palavra "um" é usada aqui como substantivo e com letras maiúsculas: Um, como Deus ou Ser. A palavra se opõe principalmente a Múltiplo (de Platão) e entra na lista de transcendentais (com Ser, Bom, Verdadeiro, Bonito ... que estão além das categorias e podem ser converter: Um = Bem = Belo).
Podemos diferenciá-lo da “Mônada (μονάς), unidade numérica”, e “a unidade numérica resulta do fato de que a matéria é Uma” (Aristóteles, Metafísica, Delta/V, 6); o ponto é indivisível, a linha é divisível apenas em um sentido, a superfície em dois, o volume em três (comprimento, largura, profundidade). Há um vínculo entre o Um-princípio e o Um-mônada uma vez que o primeiro é medida, unidade de medida, medida de números, e que o domínio dos números vale como modelo de medida (Aristóteles, Metafísica, Delta, 6; N, 1). Para os pitagóricos (Nicômaco de Gerasa) e Plutarco, "o Um é de uma só vez par e impar" e é "bissexual" (arsenothêlu).Aristóteles, Metafísica, A, 5, 986a20. Plutarco, Do 'E' de Delfos, 8. W. Burkert, Lore and Science in Ancient Pythagoreanism, 1972, , 372.
Euclides dá essas definições em seu Elementos, livro VII:Euclides, Elementos, livrp VII, definições 1 e 2.
Unidade é aquilo segundo a qual cada uma das coisas existentes é dita uma. 2. Um número é um conjunto composto de unidades.
Pode-se opor o Um-princípio, metafísico, e o Um-gênero, Unidade, noção lógica que todos aceitam. Falar do Uno é bastante idealista, enquanto buscar a unidade é simplesmente racional.
A ciência do Uno (έν) é chamada henologia, como a ciência do Ser a ontologia. Essas duas disciplinas filosóficas estão ligadas, pois um e ser são conversíveis: tudo o que tem ser tem unidade, tudo que tem unidade, tem ser. A máxima de Boécio "O um e o ser são recíprocos" (Unum et ens convertuntur) permaneceu um princípio de metafísica escolar até o século XVIII.Kurt Flasch: Eine (das), Einheit. II. In: Historisches Wörterbuch der Philosophie, Band 2, Basel 1972, Sp. 367–377; Jan A. Aertsen: Ontology and Henology in Medieval Philosophy (Thomas Aquinas, Master Eckhart and Berthold of Moosburg). In: Egbert P. Bos, Pieter A. Meijer (Hrsg.): On Proclus and his Influence in Medieval Philosophy, Leiden 1992, S. 120–140. Leibniz diz: Entre os filósofos gregos, a noção de unidade assume sua importância em Xenófanes de Cólofon, por volta de 540 a.C. Platão testemunha isso:A gente eleática, começando com Xenófanes e ainda antes, vê apenas uma unidade no que chamamos de Todo. (Sofista, 242d) Xenófanes fala que "Deus é Um, o maior dos deuses e dos homens, não é como os mortais em corpo ou em mente" (fragmento 23). Heráclito também aborda conceitos sobre o Um, como a concordância de opostos; em seu fragmento 50, afirma: "Quando você ouvir, não a mim, mas à Lei (Logos), é sábio concordar que todas as coisas são um."
Pitagorismo Entre os pitagóricos (desde Filolau, por volta de 400 a.C.), o Uno é a Mônada, a unidade original da qual derivam as séries de números, a Década ou o conjunto dos dez primeiros números inteiros. Mas o Um é ao mesmo tempo princípio e elemento, porque deriva dos dois "primeiros princípios", o Limite e o Ilimitado.Aristóteles, Metafísica, 986a19, 1080b31. Burkert, W. (1972). Lore and Science in Ancient Pythagoreanism. trad., Harvard University Press, 1972, , 36. Cosmogonicamente, os dois princípios (Limite e Ilimitado) geram o Um (que é ímpar e par), o qual gera os números (ímpares ou pares). Mais tarde, as Memórias Pitagóricas, do século II a.C., dizem: Entre os pitagóricos como Alcmeão de Crotona, o Uno não é mais o primeiro. Segundo J.-P. Dumont, é necessário estabelecer a seguinte ordem: 1) Princípios (Limite e Ilimitado); 2) Elementos: ímpar e par; 3) O Um, mistura; 4) o número (e consequentemente o Céu, que é número, bem como todos os seres que ele envolve).Jean-Paul Dumont, Éléments d'histoire de la philosophie antique, Nathan, 1993, . Segundo Aristóteles,
Platonismo Euclides de Mégara, discípulo de Sócrates, identifica, antes de Platão, o Um e o Bem.Diógenes Laércio, II, 106 ; Platão, Protágoras (329c-d) Em seu famoso poema, Parmênides, por sua vez, fala de Ser em termos que sugerem fortemente uma identificação com o Uno, tornada ainda mais plausível por causa do seguinte.
Platão, em A RepúblicaPlatão. A República VII (526a, 526e) identifica o Um e a Ideia do Bem, princípios de toda existência e todo conhecimento, cuja beleza transcende toda expressão; O Um está acima do SerA República (509b)Platão. Parmênides. No diálogo de Parmênides, o Uno é o princípio da unidade subjacente à multiplicidade de Ideias e dos fenômenos. Nele, três hipóteses primárias de Platão foram consideradas pelos neoplatonistas:. p. 308
Hipótese 1. O Um é o Um, escapa ao ser, ao conhecimento e à fala:Parmênides, 137c-142e não pode ser algo mais que Um, porque então seria múltiplo e, portanto, não seria. Esse Um absoluto, que não participa da substância das coisas, fascinou particularmente os neoplatonistas; Hipótese 2. O Um que é ou Um-ser, isto é, ele é o ser,142e-155e é, portanto, múltiplo, aceita todos os opostos, mas é conhecível e podemos dizer tudo sobre ele; Hipótese 3. O Um é e não é,155e-157b ele muda, é instantâneo.
Em seu Parmênides, em uma primeira hipótese, Platão apresenta um Um que é superior a toda distinção, a qualquer atribuição, de modo que não se pode nem dizer que existe. Numa segunda hipótese, mostra um Um que é pura multiplicidade, uma vez que é Um que é (tem ser), e que deve-se admitir que entre a Ideia de Um e a Ideia de Ser existe uma comunicação e, havendo tal comunicação parelha, ainda deve haver uma comunicação entre essa comunicação e cada uma das duas Ideias, portanto ad infinitum. Platão em seguida nega cada uma dessas duas hipóteses e propõe a ideia de uma unidade que é a unidade de multiplicidades, o que justifica sua teoria das Ideias, porque uma Ideia ou Forma é uma totalidade que engloba particularidades. Esse então é o Um-Múltiplo.
Em sua doutrina não escrita, Platão apresenta dois "primeiros princípios", dois gêneros supremos eternamente opostos: o Uno e a Díade indefinida, cuja interação gera Ideias e Números.Aristóteles, Metafísica (B, 3, 998b ; K, 1, 1059b). Marie-Dominique Richard, L'enseignement oral de Platon, Cerf, 1986, 15, 220, 238. O Um e a Díade não são números, mas fontes de números: "é a partir desse Um que o número ideal é gerado",Aristóteles, Metafísica (N, 4, 1091b3) "a Díade indefinida é a geratriz da quantidade".Aristóteles, Metafísica (M, 8, 1083a13)
Há dualismo entre os princípios, Mônade e Díade. O Um é a Ideia do Bem, está além do ser, é o Limite (a noção é positiva, entre os gregos). É o gênero supremo, a medida dos números, a condição da qual todos os seres derivam, a causa da verdade e a fonte da excelência (virtude). No outro extremo, "a Díade indefinida do Grande e do Pequeno" é alteridade, desigualdade, dissimilaridade, movimento.
Para Espeusipo, que nega as Ideias de Platão e as substitui por Números de acordo com o Pitagorismo, o Uno é o princípio primário, acima do ser, e se distingue da Mônada, o princípio dos números. Ele deriva o ponto do Um (e então, como Platão, do dois: a linha, do três: o plano, do quatro: o volume).Metafísica (M, 9, 1085a32) ; Harold Cherniss, Aristotle's Criticism of Plato and the Academy, 1944, 131
Aristotelismo Aristóteles (Metafísica, Delta/V, cap. 6), rejeita as Ideias de Platão, incluindo o Um, tão abstrato em Platão e que na realidade é dito "em vários sentidos": "A unidade não é a mesma em todos os gêneros" (na música, gramática etc.). A unidade é acidental (quando, por exemplo, fala-se "Coriscos instruído", combinando o nome "Coriscos" e "Instrução") ou essencial e por si só. Aristóteles admite quatro modos de unidade: o continuum material (por exemplo, um pacote), um mesmo substrato primordial ou último (por exemplo, a água, indivisível), um gênero comum a várias espécies (por exemplo, animal para cavalo, homem, cachorro), e finalmente uma definição essencial e invariável (por exemplo, para "superfície", porque tem "sempre comprimento e largura"). Aristóteles lista os modos de um:
Neopitagorismo Eudoro de Alexandria postula um princípio fundador, absolutamente transcendente, e depois um par de opostos que dele resultam:
A Mônada (Limite, Forma); A Díade (Ilimitada, Matéria), constituindo o segundo Um.
Enquanto a Díade é o arquétipo da matéria, a Mônada é o das idéias, que integram o Logos, cuja ação sobre a matéria realiza o universo. Desta sucessão do Um supremo, do Um composto de Mônada e Díade e do Logos como unidade de uma multiplicidade, manifestam-se três deuses ordenados segundo uma hierarquia e cujos primeiros traços são perceptíveis nas três primeiras hipóteses do Parmênides de Platão, bem como na carta II do Pseudo-Platão.L. Couloubaritsis, Aux origines de la philosophie européenne, De Boeck Université, A concepção de Eudoro de Alexandria é relatada por volta de 535 por Simplício da Cilícia em seu Comentário sobre a 'Física' de Aristóteles, 181.
Moderato de Cádis, filósofo neopitagórico e platônico ativo por volta de 90 d.C., também reporta a Plotino, porque coloca o Um acima das Formas. O primeiro Um está acima do Ser (para einai) e de toda essência (ousia). O segundo Um, o Ser verdadeiro e inteligível, são as Formas. O terceiro, ou Um psíquico, participa do [primeiro] Um e das Formas. Então, o último grau da natureza são as coisas sensíveis, que não participam do grau superior [da realidade], mas são ordenadas por sua reflexão ou manifestação. A matéria nas coisas sensíveis é uma sombra do Não-Ser, cuja forma primitiva é a Quantidade (poson).Simplício da Cilícia, Comentário sobre a 'Física' de Aristóteles, 230.
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