As expedições no rio Manduvirá foram as últimas operações realizadas pela Marinha Imperial Brasileira na Guerra do Paraguai. A frota imperial tinha como missão explorar o rio e seus arroios com o objetivo de capturar ou destruir os navios remanescentes da armada paraguaia, que haviam se refugiado na região. A esquadra brasileira era composta por dezoito embarcações, entre ironclads, monitores, canhoneiras e lanchas a vapor, enquanto a frota paraguaia contava com cerca de uma dezena de vapores. No total, foram realizadas três expedições, que se mostraram extremamente perigosas para os navios brasileiros devido à sinuosidade do rio e aos bloqueios estrategicamente criados pelos paraguaios.
Diversas vezes, os navios enfrentaram obstruções formadas por troncos de madeira, cascos de embarcações afundadas, grandes árvores empilhadas, canoas, correntes de ferro e carretas carregadas de pedras, criadas para atrasar a perseguição. Devido à estreiteza do rio, em algumas ocasiões, as embarcações precisaram recuar de popa, pois era impossível realizar curvas ou seguir de proa. Na segunda expedição, considerada a mais violenta, a armada brasileira enfrentou uma guarnição de 1 100 homens no Passo Guarayo, um local fortemente fortificado. As expedições, iniciadas em janeiro de 1869 e encerradas em agosto do mesmo ano, resultaram no aniquilamento da marinha paraguaia. Na década de 1970, foi criado um museu na região, onde estão preservados alguns dos navios recuperados do rio Manduvirá.
Contexto A marinha paraguaia teve uma participação relevante em diversos eventos durante a guerra. Com o avanço da armada brasileira pelo rio Paraguai, a esquadra paraguaia desempenhou um papel importante no transporte de pessoas e materiais. Entre suas atividades destacaram-se a retirada da fortaleza de Humaitá, a construção das baterias de Fortín no rio Tebicuary e do forte de Angostura, além do abastecimento dessas posições com recursos provenientes do Paraguai e da província de Mato Grosso, que havia sido ocupada. No entanto, assim como o exército, a marinha comandada por Francisco Solano López enfrentou um progressivo retraimento de suas forças devido às grandes perdas sofridas ao longo dos cinco anos de conflito.
Com os combates concentrados no interior, na região das cordilheiras, López decidiu, em 28 de novembro de 1868, desarmar seus vapores, mantendo apenas um número suficiente para acomodar uma pequena guarnição destinada a navegar no rio Manduvirá. Essa guarnição foi organizada para desembarcar a artilharia dos navios desarmados, transportá-las em carretas e formar um batalhão composto por 300 praças. A armada imperial brasileira destacou algumas embarcações para a região e, em três expedições, conseguiu capturar ou destruir os remanescentes da armada paraguaia.
Primeira expedição esquerda|miniaturadaimagem|Ironclad Bahia por volta de 1870.Em 28 de novembro de 1868, a armada brasileira realizou um último bombardeio sobre a capital paraguaia, Assunção, que resultou na destruição de um dos torreões do palácio presidencial e em danos significativos a vários edifícios públicos, incluindo o estaleiro. A operação foi conduzida pelos ironclads Bahia e Tamandaré e pelos monitores Alagoas e Rio Grande do Sul. Aproveitando-se do período de cheia, o alto comando naval organizou uma flotilha composta pelos navios que participaram do bombardeio e outras embarcações. Sob o comando de Delfim Carlos de Carvalho, Barão da Passagem, a força era liderada pelo couraçado Bahia como navio capitânia e incluía os monitores Alagoas, Ceará, Pará, Piauí, Santa Catarina e as canhoneiras Ivaí e Mearim. A missão consistia em capturar ou destruir a frota paraguaia remanescente, que, diante da desproporção de forças, havia buscado refúgio no rio Manduvirá. A expedição teve início na madrugada do dia 5 de janeiro de 1869, com o auxílio de um prático paraguaio, um oficial de marinha cujo nome não foi registrado. Às 16h30, a flotilha fundeou na foz do rio Manduvirá, marcando o início da operação. Após um rápido reconhecimento da área, ficou decidido que o Bahia, o Ivaí e o Mearim deveriam permanecer na foz do rio Manduvirá para bloquear qualquer tentativa de saída da frota paraguaia. Essa decisão foi tomada devido às condições do rio, considerado extremamente tortuoso, o que impossibilitava a navegação segura dessas embarcações maiores.
Logo no início da operação, a frota imperial enfrentou inúmeras dificuldades. Após a troca da capitânia, do Bahia para o Santa Catarina, os navios começaram a subir o rio Manduvirá no dia 6 de janeiro. O curso d'água, extremamente tortuoso, dificultava as manobras dos monitores, que frequentemente colidiam com árvores e barrancos ao longo do trajeto. Durante a perseguição, os paraguaios empregaram várias estratégias para atrasar o avanço da frota imperial, incluindo o afundamento deliberado de seus próprios navios para bloquear a passagem. O primeiro avistamento de embarcações inimigas ocorreu às 14h00, quando a frota brasileira avistou o vapor Piravevé, que atuava como sentinela. O Piravevé fazia parte de uma flotilha de oito navios paraguaios, tripulada por cerca de 180 homens sob o comando de Aniceto López, conforme relatado na edição de 19 de fevereiro de 1869 do Diário de Belém. Diante do contato inicial, o comandante Delfim Carlos de Carvalho ordenou que sua frota avançasse com força total. No entanto, apenas às 18h00 os navios brasileiros conseguiram alcançar as embarcações paraguaias. A situação da flotilha paraguaia era de extrema desvantagem, pois suas embarcações não estavam artilhadas e, mesmo que estivessem, não poderiam competir com os monitores ironclads brasileiros. Por essa razão, não houve resistência. Um dos primeiros encontros foi com um escaler contendo seis tripulantes que, exibindo uma bandeira branca, se renderam à frota imperial. Eles relataram que, por ordem de López, estavam afundando navios desde a manhã daquele dia para impedir o avanço brasileiro. Após essa rendição, a frota retomou a perseguição às embarcações inimigas. Às 19h00, no entanto, o Barão da Passagem ordenou que os monitores interrompessem a marcha, pois os navios paraguaios haviam adentrado um arroio ainda mais estreito do Manduvirá, chamado Iaguí, dificultando a navegação das embarcações brasileiras.
No dia seguinte, o Barão da Passagem decidiu avançar pelo arroio Iaguí, apesar das dificuldades impostas pela estreiteza e sinuosidade do curso d'água. O arroio revelou-se ainda mais desafiador para navegação, agravado pelos obstáculos criados pelos marinheiros paraguaios, que derrubaram grandes árvores no leito e utilizaram madeiros de navios afundados para bloquear a passagem. Após três horas de marcha, durante as quais percorreram cerca de 19 quilômetros, a frota imperial encontrou o vapor Paraguari afundado, bloqueando completamente o curso do arroio. Essa barreira representou o fim da perseguição, já que o obstáculo foi considerado intransponível. Além disso, a estreiteza do arroio impossibilitava qualquer tentativa de manobra, até mesmo para os pequenos monitores de 36 metros de comprimento. Diante disso, a frota foi obrigada a iniciar o retorno navegando de popa, pois não havia espaço suficiente para virar e seguir de proa. Durante a retirada, os brasileiros encontraram o vapor Cotitey submerso. Apesar dos esforços consideráveis dos monitores Ceará e Piauí para rebocá-lo, a operação enfrentou inúmeras dificuldades. O Ceará chegou a encalhar duas vezes durante a tentativa de desencalhe do vapor. Após avaliarem a situação e considerarem os riscos envolvidos, decidiram abandonar o Cotitey e continuar o retorno. A flotilha imperial conseguiu alcançar as embarcações que bloqueavam a foz do Manduvirá apenas às 17h30 do dia 8 de janeiro, encerrando assim a expedição no arroio. Após a conclusão das operações no arroio Iaguí, toda a frota iniciou o retorno para Assunção. Durante as manobras, o monitor Pará sofreu um acidente ao colidir a popa contra um madeiro submerso, resultando na quebra de seu leme. Inicialmente, o Pará precisou ser rebocado pelo monitor Alagoas, mas as dificuldades enfrentadas nessa tarefa tornaram inviável continuar dessa forma. Diante disso, o Pará desceu o rio por seus próprios meios até alcançar o rio Paraguai, onde as condições de navegação eram mais favoráveis. Nesse ponto, foi possível ser rebocado com segurança pela canhoneira Ivaí até o arsenal de Assunção para os reparos necessários. No dia 9 de janeiro, às 10h30, todos os navios que participaram da primeira expedição estavam devidamente estacionados na capital paraguaia.
Segunda expedição miniaturadaimagem|Elisiário Antônio dos Santos substituiu o Visconde de Inhaúma como comandante das forças navais no Paraguai. Houve mudanças na forma como seriam conduzidos os combates futuros após a troca no comando das forças navais. O Chefe de Esquadra Elisiário Antônio dos Santos substituiu Joaquim José Inácio, Visconde de Inhaúma. Em um documento datado de 16 de abril de 1869, lavrado pelo príncipe Gastão, Conde d’Eu, foi oficializada a retomada da perseguição aos navios que estavam no rio Manduvirá. O reinício das operações foi favorecido pelas melhores condições climáticas, como o aumento do volume dos rios devido às chuvas constantes. Desde a última expedição, o Manduvirá permanecia bloqueado pelo couraçado Colombo e pela corveta Belmonte. Para a segunda expedição, o comando da operação foi confiado ao comandante da primeira divisão Victório José Barbosa de Lomba; o comando da flotilha foi dado ao comandante do Colombo, Capitão de Fragata Jerônimo Francisco Gonçalves. A nova frota era composta pelos seguintes navios: monitores Santa Catarina, Piauí e Ceará, comandados pelos primeiros-tenentes Antônio Severiano Nunes, Carlos Balthazar da Silveira e Antônio Machado Dutra respectivamente; lanchas a vapor Couto, João das Botas e Jansen Müller com as duas últimas comandadas pelo primeiro-tenente Gregário Ferreira de Paiva e segundo-tenente Affonso Augusto Rodrigues de Vasconcellos respectivamente. A frota tinha como práticos Bernadino Gustavino, Thomaz Almuri e Araújo e um médico, o doutor Oliveira Coutinho.