Fonte ou A Fonte (; ) é uma obra ready-made datada de 1917 e realizada pelo artista dadaísta Marcel Duchamp. Trata-se de um urinol branco de porcelana exibido em ângulo invertido e marcado lateralmente com uma assinatura em tinta preta, "R. Mutt". Surgiu em abril de 1917, como uma peça de encanamento comum escolhida por Duchamp e enviada para a exposição inaugural da , realizada no Grand Central Palace em Nova Iorque.
Duchamp explicou que seu propósito com esse trabalho era mostrar que "objetos cotidianos [podem ser] elevados à dignidade de uma obra de arte pelo ato de escolha do artista". As regras da exposição para a qual ele submeteu a peça declaravam que todas as obras seriam aceitas, porém o mictório não foi colocado na área de exibição. A peça original está perdida, mas foi documentada pelo fotógrafo Alfred Stieglitz, o que impulsionou a popularidade dela e a estabeleceu como uma das obras mais representativas do movimento dadaísta. Historiadores de arte e teóricos da vanguarda consideram-na um marco importante na arte do século XX.
Fonte foi interpretada de inúmeras maneiras, inclusive como uma representação sexualmente sugestiva. Entre 1950 e 1964, Duchamp produziu ou autorizou a criação de 16 réplicas, das quais 15 se encontram em museus e coleções particulares na Europa, América do Norte e Ásia. Alguns pesquisadores sugeriram que a vanguardista Elsa von Freytag-Loringhoven seria a verdadeira autora da obra, a qual ela teria encaminhado a Duchamp como demonstração de amizade; historiadores de arte, entretanto, afirmam que a autoria é realmente de Duchamp por não haver evidências documentais do envolvimento da artista na submissão da obra à exposição. Fonte sofreu intervenções e foi vandalizada em algumas ocasiões. Em 2006 seu valor era estimado em cerca de três milhões de euros.
Descrição do objeto
A obra Fonte, produzida em 1917 e atrelada ao artista vanguardista franco-americano Marcel Duchamp, é considerada uma peça seminal do movimento dadaísta. É descrita como um exemplo de ready-made (), uma técnica criada pelo próprio Duchamp e que pode ser definida como o ato de selecionar objetos comuns do cotidiano e declará-los como obras de arte. Nesse caso, o item escolhido consistia em um urinol ou mictório branco manufaturado que foi virado ao contrário e nivelado horizontalmente sobre seu fundo plano, com a finalidade de ser exibido numa exposição artística. O objeto foi girado 90 graus em relação ao seu eixo, o que o deixou invertido à posição na qual seria visto caso fosse usado numa instalação sanitária comum, isto é, na vertical.; ; ; Na borda inferior esquerda, foi assinado com um pseudônimo — "R. Mutt" — e a data "1917", em letras maiúsculas grossas pintadas com tinta preta. Posteriormente, o mictório foi colocado sobre um pedestal escuro.: "turned 90° on its back and isolated on a black pedestal".
A obra foi perdida ainda por volta de 1917, restando apenas algumas reproduções autorizadas mantidas em museus e galerias de arte ao redor do mundo. Em razão disso, as dimensões do mictório original não foram registradas.; O historiador de arte William Camfield, em seu livro dedicado à obra, comenta que ela é convencionalmente referida como um urinol de "porcelana esmaltada", embora ele considere que "louça sanitária fina" seria uma descrição mais precisa para caracterizar o material utilizado na fabricação da peça. O urinol era do padrão "Bedfordshire", o qual, segundo o estudioso de arte Glyn Thompson, "era o mais básico, simples e barato dos mictórios de faiança" comercializados nos Estados Unidos no início do século XX; o nome alude ao condado inglês porque esse modelo de mictório foi introduzido na América em 1783 como cópia de importações da Inglaterra. O exemplar em particular foi produzido pela Trenton Potteries Company, uma fabricante de produtos de cerâmica situada em Trenton, Nova Jersey. Em 2016, Thompson relatou que um raro, e possivelmente único, exemplar remanescente de um urinol desse modelo foi encontrado na The Magic Chef Mansion, uma mansão histórica localizada em St. Louis, Missouri.
História Contexto e origem miniatura|165px|Duchamp (à esquerda), Francis Picabia e Beatrice Wood na cidade de Nova Iorque, em 1917. Desde 1912, Duchamp ambicionava inventar um novo meio de expressão que contrariasse o cubismo ou o que ele chamava de "arte retiniana", isto é, aquela que é voltada apenas para o deleite visual. Em 1913, Duchamp criou seu primeiro ready-made, intitulado Roda de Bicicleta, fixando uma roda de bicicleta a uma banqueta. O artista definiu esse trabalho como um "ready-made assistido", pois o fez juntando dois objetos em vez de usar um só. Mais tarde, em um movimento mais ousado, ele transicionou para os "ready-mades puros", tais como um porta-garrafas, uma pá de neve e um cabideiro. Assim, em vez de criar formas novas, ele selecionava um objeto banal e funcional, removia-o de seu contexto utilitário pretendido e o apresentava como obra de arte, subvertendo as normas e convenções artísticas da época.
Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial na Europa, Duchamp migrou de Paris para os Estados Unidos em 1915, após ser dispensado do serviço militar. Sua chegada em Nova Iorque agitou a imprensa e o público devido à fama que ele obteve após a controversa exibição de sua pintura Nu Descendo uma Escada, nº 2 no Armory Show em 1913. Logo, ele se envolveu com Francis Picabia, Man Ray, Beatrice Wood, Jean Crotti, Elsa von Freytag-Loringhoven e outros artistas da cena de vanguarda novaiorquina na criação de um movimento cultural antirracional, antiarte e protodadaísta na cidade.; ; Em reação às políticas restritivas da Academia Nacional de Desenho, Duchamp e vários outros modernistas formaram em 1916 a Sociedade dos Artistas Independentes de Nova Iorque, nos moldes da Société des Artistes Indépendants parisiense, que não admitia júri nem premiações. Qualquer artista que pagasse a taxa admissional de um dólar e uma anuidade de cinco dólares poderia se tornar membro da associação e ter direito de mostrar duas de suas obras nas exposições realizadas por ela.
miniatura|esquerda|Design de um mictório modelo Bedfordshire, datado de 1918, semelhante ao usado por Duchamp. No início de 1917, a Sociedade dos Artistas Independentes anunciou sua primeira exposição anual, a ser realizada no Grand Central Palace, na Avenida Lexington, e que ficaria marcada como a maior mostra de arte moderna já realizada nos Estados Unidos. Com a imprensa curiosa para saber o que Duchamp planejava exibir no evento, espalhou-se o rumor de que ele enviaria uma tela cubista intitulada Tulip Hysteria Co-ordinating. Quando essa pintura não apareceu, aqueles que esperavam vê-la ficaram decepcionados. É provável, porém, que ela sequer tenha existido, pois não há menção a obras desse tipo no catálogo da exposição ou nos documentos da época relacionados a Duchamp e seus amigos. O pesquisador Francis M. Naumann sugere que essa história foi um boato intencional para enganar o público. Embora nenhuma obra de Duchamp tenha sido listada no catálogo, ele foi responsável pelo que se tornaria o artefato mais notório da exposição: um urinol.
De acordo com uma lembrança de Duchamp compartilhada décadas depois, a ideia para a criação de Fonte surgiu uma ou duas semanas antes da mostra dos Independentes, durante uma animada conversa de almoço entre ele, o pintor Joseph Stella e o colecionador de arte Walter Arensberg. Na ocasião, Duchamp propôs sua ideia vanguardista e "eles imediatamente foram comprar o item". Os três se dirigiram a uma fornecedora de equipamentos de encanamento situada na Quinta Avenida, J. L. Mott Iron Works, onde o artista francês comprou um urinol de porcelana modelo padrão "Bedfordshire". Ele levou o objeto para seu estúdio, inverteu-o da sua posição normal de uso, assinou-o e datou-o com o pseudônimo "R. Mutt 1917". Fonte foi o primeiro ready-made a ser destinado a uma grande exposição de arte moderna e a ganhar repercussão midiática, uma vez que os anteriores simplesmente permaneciam no estúdio de Duchamp. Dois deles chegaram a ser expostos em 1916 na Galeria Bourgeois em Nova Iorque, no entanto, teriam passado praticamente despercebidos.; Portanto, em 1917, o conceito de ready-made ainda não era conhecido nem pelo público nem pelos membros da sociedade novaiorquina de artistas independentes.: "For the Fountain was the only readymade that [...] designed to be an anonymous épatement to all the smug liberal art organizers mounting the Society of Independent Artists that April"; : "a work that the public never saw".
Exibição recusada e controvérsia Não, não foi rejeitada. Uma obra não pode ser rejeitada pelos Independentes. Ela foi simplesmente suprimida. [...] A Fonte foi simplesmente colocada atrás de uma divisória e, no decorrer da exposição, eu não sabia onde ela estava. Eu não poderia dizer que havia enviado a coisa, mas acho que os organizadores sabiam por meio de fofocas. Ninguém ousava mencionar isso. Tive um desentendimento com eles e saí da organização. Depois da exposição, encontramos a Fonte novamente, atrás de uma divisória, e eu a recuperei!— Duchamp, em entrevista de 1971, falando sobre a exposição de Fonte. Dois dias antes da exposição dos Independentes, o urinol foi entregue ao Grand Central Palace, junto com a fictícia taxa de ingresso de seis dólares do "Sr. Mutt" e o título original da obra, Fountain. Duchamp usou um pseudônimo porque fazia parte do conselho administrativo da associação e não queria se indispor com os demais diretores. Beatrice Wood relatou que os membros do conselho travaram "discussões furiosas" sobre o objeto ter ou não valor artístico. Alguns o defendiam, tendo em vista o princípio da sociedade de não haver júri para decidir sobre os méritos das obras, enquanto outros sustentavam que o item era indecente. citando Segundo um artigo no New York Herald, a questão só foi resolvida poucas horas antes da exposição, quando os diretores se reuniram e "os defensores do Sr. Mutt foram rejeitados com uma pequena margem". citando O mictório não foi retirado do salão, mas permaneceu escondido do público durante a mostra. O presidente da sociedade, William Glackens, declarou à imprensa: "A Fonte pode ser um objeto muito útil em seu lugar, mas seu lugar não é numa exposição de arte e ela não é, de maneira nenhuma, uma obra de arte".; Em protesto, Duchamp renunciou ao conselho e também teria "retirado" a suposta tela Tulip Hysteria Co-ordinating do evento.
Apesar do interesse da imprensa de Nova Iorque pelo caso, o público continuava a saber pouco sobre a obra em si. A controvérsia só começou após a publicação, em maio de 1917, da segunda edição de The Blind Man, uma pequena revista editada por Henri-Pierre Roché, Wood e pelo próprio Duchamp.; Em defesa de R. Mutt, cuja verdadeira identidade permanecia irrevelada, o periódico incluiu um artigo intitulado "The Richard Mutt Case", possivelmente escrito por Wood. De acordo com o texto, Fonte foi recusada por ter sido considerada "imoral, vulgar" e também um plágio, já que se tratava de uma "simples peça de encanamento". O artigo argumentava que a obra não era imoral, pois acessórios semelhantes podiam ser vistos todos os dias expostos em lojas de encanamento. Sobre a questão de ser plágio, a seguinte afirmação foi feita:
miniatura|180px|The Richard Mutt Case, The Blind Man, No. 2, New York, 1917.jpg|A controvérsia acerca da obra foi desencadeada por este editorial, publicado em 1917 na revista The Blind Man.