Jornal da Tarde, ou apenas JT, foi um jornal diário da cidade de São Paulo, Brasil. O periódico circulou de forma impressa por quase 50 anos. Sua primeira edição circulou em 4 de janeiro de 1966. A última edição da versão impressa, foi em 31 de outubro de 2012. Inicialmente vespertino, passou a ser matutino em 1988, em função da piora no trânsito da cidade, que atrasava a distribuição no começo da tarde. O JT foi um dos jornais que apostaram na escola do new journalism americano, de Gay Talese e Truman Capote.
História Edição de Esportes Surgida em 14 de setembro de 1964, a Edição de Esportes era publicada pelo Grupo Estado nos domingos à noite, como forma de compensar o fato de o jornal O Estado de S. Paulo não circular às segundas-feiras, para cobrir os acontecimentos esportivos do domingo. O jornal apresentou grandes mudanças, como inovação gráfica, uso de máquinas de telefoto e textos diferenciados. Nos textos foram quebrados tabus como a utilização da palavra "gol" (costumava-se escrever "ponto") e marcas de carros que concorriam em Interlagos, o que era até então considerado publicidade. A Edição de Esportes conquistou um Prêmio Esso, em 1965, por uma reportagem sobre o futebol no interior de São Paulo, de autoria de Hamilton de Almeida e Tão Gomes Pinto. Mino Carta, que comandou tanto a Edição de Esportes como o início do JT, disse em 1991 que "era natural que um dia a Edição de Esportes fosse absorvida pelo Jornal da Tarde, o que não ocorreu de imediato". Apesar de ambas as publicações terem convivido por alguns anos, a Edição de Esportes é considerada um "laboratório" para a criação do JT.
Concepção e lançamento O JT foi concebido e idealizado por Mino Carta, com o auxílio de Murilo Felisberto. Eles foram incumbidos pela família Mesquita, de O Estado de S. Paulo, para criar um novo modelo de jornal no Brasil, diferente do tradicional, buscando inspiração no intenso movimento cultural e nas mudanças de comportamento que ocorriam na segunda metade da década de 1960. Sua primeira manchete, por exemplo, passou longe da política e da economia, assuntos que quase invariavelmente marcavam as manchetes dos outros jornais: "Pelé casa (sic) no Carnaval". Essa manchete representou ainda a primeira vez que um veículo de comunicação publicou o nome da noiva, Rosemere dos Reis Cholbi, até então mantido em segredo pelo jogador, embora a foto mostrada na capa fosse da irmã da noiva, o que só se descobriria no dia seguinte. A política também tinha o seu espaço, mas com um enfoque mais informal que o do Estado, como na manchete publicada em 1966 para "comemorar" a saída de Ademar de Barros do governo do estado: "É um prazer ver este senhor pelas costas".
Apesar do "generoso" orçamento inicial, a empresa previa que o jornal fosse deficitário em seus primeiros anos. O jornal só alcançou sua emancipação econômico-financeira no final de seu décimo-primeiro ano, quando já era o maior vespertino paulista. Essa emancipação permitiu que fosse eliminada a tabela de anúncios conjugados com O Estado de S. Paulo, embora tal tabela acabasse sendo retomada anos mais tarde.
Os jornalistas da redação, em sua maioria muito mais jovens que a média de outras redações, começaram a publicar edições experimentais conhecidas como "número zero" já em dezembro de 1965, um mês antes do lançamento, embora a Edição de Esportes tenha servido como laboratório. A cada edição gerada seguia-se um debate, com correção diária de rumo e de visão, em busca do que seria o produto final, que inicialmente seria baseado no vespertino francês France Soir, mas que progressivamente foi abandonado como modelo. A preocupação, de acordo com o diretor Ruy Mesquita, era "fazer alguma coisa que seria um misto entre um jornal diário e uma revista semanal". O primeiro editorial definiu a nova publicação como de "estilo vibrante, irreverente, de um vespertino moderno que visa a atingir um público diferente daquele que, normalmente, lê apenas os matutinos".
Com nova linguagem gráfica, claramente contrastando com o visual quase padronizado dos jornais da época, muitas vezes eram os próprios editores que cuidavam do desenho das páginas, ao contrário de outros jornais em que essas tarefas eram exclusivas dos diagramadores e diretores de arte. Os repórteres não só tinham permissão, como eram encorajados a escrever textos mais próximos do estilo literário, inclusive na reportagem policial, com narração semelhante a um romance policial.
A juventude da redação do JT era evidenciada pela diferença em relação à redação do Estado, que ficava do outro lado de um corredor no quinto andar do prédio onde ficava à época o Grupo Estado, na Rua Major Quedinho, no centro de São Paulo. Enquanto a primeira era muito barulhenta, com todos vestindo jeans e alguns até calçando sandálias, na segunda imperava o silêncio e todos, mais velhos ou mais jovens, usavam gravatas. O corredor que dividia as redações era conhecido como "túnel do tempo", e a redação do JT era conhecida do outro lado do corredor como "os meninos do Ruy", em referência ao diretor do jornal, Ruy Mesquita.
A fase inicial, considerada por Ruy Mesquita como "a mais brilhante" da história do jornal, encerrou-se em meados dos anos 1970, quando o jornal teve de restringir seus gastos, não pôde mais investir apenas em poucos assuntos importantes e planejar grandes reportagens e perdeu o jeito de revista.
Censura A primeira briga com o governo veio já no primeiro ano de vida do jornal, que culminou em uma manchete que escancarava uma ameaça de censura, em 23 de dezembro de 1966: "Ditador quer calar a Imprensa". Dois anos depois o governo quis impedir o jornal de publicar matéria sobre a crise no Congresso Nacional que resultaria no AI-5, o que foi rechaçado por telefone pelo diretor Ruy Mesquita, gerando reação da Polícia Federal, que bloqueou a saída do jornal pela Rua Major Quedinho. O jornal seguia sendo impresso, mas os agentes diziam: "Pode rodar, mas distribuir não vai." Pouco depois eles descobriram que o jornal estava nas bancas, e o próprio general Sílvio Corrêa de Andrade, chefe da DPF, saiu para recolher nas bancas os exemplares, que estavam saindo pela Rua Martins Fontes, oposta à Major Quedinho, por outra esteira.
Na década seguinte o jornal sofreu, assim como seus concorrentes, censura na redação, por causa da ditadura militar então em vigor no Brasil. Por iniciativa de Ruy Mesquita, notícias censuradas passaram a ser substituídas por receitas que não funcionavam (não apenas como maneira de protesto, mas também porque nem sempre a receita cabia no espaço deixado pela censura) ou com títulos irônicos (por exemplo, "Aves à passarinho", em referência ao então senador Jarbas Passarinho). O título que fez mais sucesso foi "Lauto Pastel", crítica ao então governador paulista Laudo Natel.
Em junho de 2008 o jornal classificou como censura uma decisão judicial que o impediu por alguns dias de publicar matéria com supostas irregularidades no Conselho Regional de Medicina de São Paulo. Em julho do ano seguinte nova decisão judicial, pedida pelo empresário Fernando Sarney e dada pelo desembargador Dávio Vieira, impediu o Estado de publicar reportagens sobre a Operação Faktor, da Polícia Federal, mais conhecida como "Operação Boi Barrica", o que também foi classificado como censura pelo jornal. A decisão só seria revogada nove anos depois, em novembro de 2018.
Inovações e suplementos Por decisão de Murilo Felisberto, que substituiu Mino Carta na direção do jornal, o JT foi o primeiro jornal brasileiro a possuir oficialmente um editor de fotografia, Milton Ferraz. Foi ainda o primeiro jornal latino-americano a adotar a ecologia como causa, feito reconhecido pela Comissão das Nações Unidas para o Meio-Ambiente e Desenvolvimento.
Além disso, o jornal criou primeiras páginas consideradas históricas. Numa delas o ex-presidente da República Jânio Quadros aparece numa foto de página inteira visivelmente embriagado e noutra um garoto é mostrado entre lágrimas, também em página inteira, por conta da eliminação da seleção brasileira pela Itália na Copa do Mundo de 1982. Sem usar fotos, mas com caricaturas do político Paulo Maluf, o jornal fez uma série de capas em 1983, em que o nariz de Maluf crescia a cada edição, por causa dos prejuízos da Paulipetro. O jornal ainda publicou capas conceituais, com uma grande imagem sem manchete ou uma em que quatro assuntos eram apresentados com o mesmo destaque e a manchete pedia "ajuda" ao leitor: "Escolha aqui a sua grande manchete". Por esse conceito inovador, o JT passou a ser, segundo o diretor Sandro Vaia, "objeto do desejo dos jornalistas". Suas capas históricas já foram expostas no Masp.
"Seu Bolso" No início o jornal abordava assuntos econômicos geralmente apenas quando se tratavam de aumentos de preços e salários, mas o "Milagre Econômico", a primeira crise do petróleo e a censura então em vigor — que impedia que diversas notícias sobre política fossem publicadas e mutilava outras tantas — foram os principais motivos para a criação de uma seção de Economia, em 1974, chefiada por Celso Ming. Com ele, reportagens especiais sobre temas específicos mereceram destaque, como um encarte especial sobre compra de imóveis, publicado em agosto de 1976. A seção deu um Prêmio Esso ao jornal, com uma matéria de Ming mostrando a falência da Previdência Social.
Em junho de 1981, período de grande instabilidade econômica no País, foi lançada a seção "Seu Dinheiro", sobre finanças pessoais, inicialmente chamada de "Entenda Economia" e publicada em uma página. A seção fora idealizada quando da criação da editoria de Economia, sete anos antes, e mais tarde projetada por Luis Nassif. A arte da primeira página foi idealizada pelo então redator-chefe Fernando Mitre, que definiu a seção como "um divirtão trágico", em oposição à seção "Divirta-se".
A seção circularia às segundas-feiras com orientações financeiras populares, escritas com um didatismo que Ming compararia mais tarde a "ensinar a pescar, em vez de entregar o peixe limpo e enfarinhado". Apesar de conter textos mais longos, a seção só ganharia uma segunda página a partir de fevereiro de 1983 e tornar-se-ia diária a partir de abril de 1987. As principais coberturas deram-se entre 1986 e 1990, com seguidas trocas de moeda no Brasil, e, a partir da última delas, o Plano Collor, em março de 1990, "Seu Dinheiro" tornou-se um suplemento, o que só não ocorreu antes por causa das limitações ao consumo de papel impostas justamente pelas crises econômicas. Não demorou para diversos jornais passarem a ter colunas ou seções similares. O suplemento, que entre os anos 1990 e 2000 foi publicado às terças-feiras em formato tabloide, tornou-se um caderno diário, agora chamado "Seu Bolso", em 2008.
"Divirta-se" e "Caderno de Sábado" Outro suplemento que marcou a história do jornal é o "Divirta-se", publicado como página diária já no primeiro número, com a proposta de descobrir alternativas culturais "para o leitor driblar a rotina". Em 20 de agosto de 1970 a seção passou a ter duas páginas diárias e, mais tarde, passaria a ter mais espaço aos fins de semana, até virar um suplemento semanal, publicado às sextas-feiras, em 7 de junho de 1985, com indicações para o fim de semana. A seção de Variedades, que por períodos na história do jornal foi substituída às sextas-feiras pelo "Divirta-se", foi pioneira em colocar informações sobre filmes exibidos na televisão e sobre o mercado de vídeo. O "Divirta-se" continuou saindo em formato pequeno e grampeado, às sextas-feiras, de 21 de maio de 2004 até o fim do jornal, com ocasionais edições especiais quando de grandes eventos na cidade. O Estadão passou a usar o mesmo nome em seu guia semanal a partir de 19 de março de 2010.