miniatura|Mercado de escravos árabe no Iémen (gravura do )
A escravatura no mundo muçulmano desenvolveu-se a partir das práticas escravagistas da Arábia pré-islâmica, e foi por vezes radicalmente diferente, dependendo de factores sócio-políticos, tais como o comércio árabe de escravos.
Ao longo da história islâmica, os escravos desempenharam vários papéis sociais e económicos, desde poderosos emires a trabalhadores manuais duramente tratados. No início da história muçulmana foram utilizados na agricultura, mas este modo foi abandonado após o tratamento cruel levar a revoltas destrutivas de escravos, sendo a mais notável a Rebelião Zanje de 869-883.
Os escravos eram amplamente empregados na irrigação, mineração e criação de animais, mas os usos mais comuns eram como soldados, guardas, trabalhadores domésticos, e concubinas. Muitos governadores dependiam de escravos militares, frequentemente em enormes exércitos permanentes, e escravos na administração a tal ponto que os escravos se encontravam por vezes em posição de tomar o poder.
Várias estimativas do número de escravos detidos ao longo de doze séculos no mundo muçulmano são 12,8 milhões 11 milhões ou 14 milhões; outras estimativas indicam um número entre 12 e 15 milhões de escravos antes do - estes números referindo-se apenas a escravos africanos, que constituíam a maior parte do comércio, no qual participavam também activamente líderes africanos.
O Alcorão recomenda, embora não obrigue, a libertação dos escravos como forma de expiar os pecados ou simples acto de humanidade, embora o conselho não fosse muito seguido. Bernard Lewis sustenta que, em tempos mais recentes, parece que embora os escravos sofressem frequentemente terríveis privações desde a captura até à sua chegada ao seu destino final, uma vez colocados numa família eram razoavelmente bem tratados e aceitos, em certo grau, como membros do grupo familiar. Piores condições aguardavam aqueles empregues nas minas, drenagem de pântanos e outros trabalhos esgotantes; nas minas de sal do Saara nenhum escravo teria uma esperança de vida de mais de cinco anos, e viviam e morriam na miséria.
O comércio árabe de escravos foi mais activo na Ásia Ocidental, Norte de África, e Sudeste de África. No início do (após a Primeira Guerra Mundial), a escravatura foi gradualmente banida e suprimida em terras muçulmanas, em grande parte devido à pressão exercida por nações ocidentais como a Grã-Bretanha e a França.
Entre os últimos Estados a abolir oficialmente a escravatura encontram-se a Arábia Saudita e o Iémen, que aboliram a escravatura em 1962 sob pressão da Grã-Bretanha; Omã em 1970; e a Mauritânia em 1905, 1981, e de novo em Agosto de 2007. Contudo, a escravatura que reivindica a aprovação do Islão está actualmente documentada nos países predominantemente islâmicos do Sahel e é também praticada em territórios controlados pelos grupos jiadistas islâmicos e em países como a Líbia e a Mauritânia, apesar de ser proibida. O tratamento actual dos trabalhadores estrangeiros na Arábia Saudita é extremamente próximo da escravidão; a própria condição das mulheres sauditas é comparada á escravatura.
Escravidão na Arábia pré-islâmica
A escravatura era amplamente praticada na Arábia pré-islâmica, bem como no resto do mundo seu contemporâneo.
Os escravos eram principalmente negros de origem etíope, como Bilal ibne Rabá, e uma minoria eram escravos europeus e caucasianos, provavelmente trazidos por caravanas árabes (ou produto de capturas beduínas) que remontavam aos tempos bíblicos. Também existiam escravos árabes nativos, como Zaíde ibne Harita, que mais tarde se tornou o filho adoptivo de Maomé. No entanto, os escravos árabes, geralmente obtidos como cativos, eram usualmente resgatados entre as tribos nómadas. A população de escravos aumentou devido ao costume do abandono de crianças, ou rapto, ou, ocasionalmente, pela venda de crianças pequenas. Se a escravatura por dívidas ou a venda de crianças pelas suas famílias era comum é contestadaː R. Brunschvig argumenta que era raro. As pessoas livres poderiam vender os seus descendentes, ou mesmo eles próprios, em escravatura. A escravidão também era possível como consequência de cometer certas ofensas contra a lei, como no Império Romano.
Existiam duas classes de escravos: o comprado, e o escravo nascido na casa do seu amo. Sobre este último, o senhor tinha direitos completos de propriedade, embora fosse pouco provável que estes escravos fossem vendidos ou alienados pelo dono. As escravas eram por vezes obrigadas a prostituir-se em benefício dos seus senhores, de acordo com os costumes do Próximo Oriente.
Escravidão na Arábia islâmica Montgomery Watt opina que a expansão da "pax islamica" de Maomé na península Arábica, ao reduzir a guerra e os ataques reduziu as oportunidades de escravização dos homens livres. De acordo com o Islão, tornou-se proibido a um muçulmano escravizar outro muçulmano. A partir daí, os escravos tiveram de ser procurados fora das fronteiras do império, por captura, compra ou tributo.
Segundo o historiador Bernard Lewis, o crescimento da população escrava interna através do seu aumento natural era insuficiente para manter os seus números. Ele aponta vários motivos. A libertação pelos homens livres dos seus próprios descendentes nascidos de mães escravas foi uma das razões. A libertação dos escravos como um acto de devoção, foi outro factor.
Uma grande proporção de escravos masculinos importados eram eunucos. Reuben Levy afirma que, de acordo com o Alcorão e as tradições islâmicas, tal emasculação era censurável. Alguns juristas como Albaidaui consideraram a castração como sendo mutilação, estipulando a aplicação da lei para a impedir. Contudo, na prática, a castração era frequente. O processo, feito em crianças e adolescentes, e que incluía habitualmente remoção do pénis, provocava um elevado número de mortos devido a infeções.
Os escravos militares que ascendiam a posições de poder eram geralmente libertados em alguma fase das suas carreiras; a sua descendência era já de indivíduos livres.
Em geral, apenas as ordens inferiores de escravos - trabalhadores domésticos e manuais - permaneciam na condição de servidão e transmitiram essa condição aos seus descendentes, que não eram muitos - o sexo casual não era permitido e o os casamentos não eram encorajados.
Havia um elevado número de mortos entre todas as classes de escravos, desde os grandes comandantes militares aos domésticos. Os escravos vinham principalmente de lugares remotos, e, sem imunidade natural, morreram em grande número de doenças endémicas bem como epidémicas.
Desenvolvimento do tráfico
Bernard Lewis comenta ser um dos tristes paradoxos da história humana que as reformas humanitárias trazidas pelo Islão resultassem num enorme desenvolvimento do comércio de escravos no interior, e ainda mais no exterior, do império islâmico. As injunções islâmicas contra a escravidão dos muçulmanos levaram à importação maciça de escravos do exterior.
miniatura|upright=1.25|Principais redes de tráfico árabe de escravos em África na Idade Média
O comércio de escravos "árabe" é por vezes chamado comércio de escravos "islâmico". Lewis afirma que os politeístas e idólatras eram vistos principalmente como fontes de escravos, a serem importados para o mundo islâmico e moldados de maneira islâmica, e uma vez que não possuíam religião própria considerada digna dessa menção, como recrutas naturais para o Islão.
Na prática, os muçulmanos em África tinham uma atitude cautelosa em relação a conversões, pois elas poderiam reduzir o número de potenciais escravos.
O comércio de escravos árabes ou islâmicos durou muito mais tempo do que o comércio atlântico de escravos ou europeu: começou em meados do e sobrevive hoje na Mauritânia e no Sudão. Com o comércio de escravos islâmico, falamos de 14 séculos e não de quatro. Além disso, "enquanto a proporção de géneros de escravos no comércio atlântico era de dois machos para cada fêmea, no comércio islâmico, eram duas fêmeas para cada macho", segundo Ronald Segal. Um número muito elevado de escravos era utilizado para fins domésticos. O concubinato era para aqueles que podiam pagá-lo e não havia descrédito em ter mulheres como objectos sexuais.
No , a África foi dominada pelos árabes berberes no norte: o Islão avançou para sul ao longo do rio Nilo e dos trilhos do deserto. Uma fonte de escravos era a Dinastia Salomónica da Etiópia, que exportava frequentemente escravos nilotas das suas províncias fronteiriças ocidentais, ou de províncias muçulmanas recém-conquistadas ou reconquistadas. Os sultanatos etíopes muçulmanos também exportavam escravos, tais como o Sultanato de Adal.
Durante muito tempo, até ao início do , o Canato da Crimeia manteve um comércio maciço de escravos com o Império Otomano e o Médio Oriente. Entre 1530 e 1780 houve possivelmente 1 milhão ou 1,25 milhões de cristãos europeus brancos escravizados pelos muçulmanos da Costa Berbere no Norte de África (ver: Escravidão branca).
Os papéis dos escravos
miniatura|esquerda|Mercado de escravos em Zanzibar no segundo terço do . Aí funcionou um dos últimos mercados árabes de escravos, até ser fechado pelos britânicos em 1873.
Um sistema de trabalho em plantações, muito semelhante ao que surgiria nas Américas, desenvolveu-se cedo, mas com tais consequências - como a rebelião Janz - que a partir daí tal opção foi relativamente rara. Além disso, a necessidade de mão-de-obra agrícola, num mundo islâmico já com grandes populações camponesas, não era tão premente como nas Américas. Os escravos no Islão iam principalmente para o sector dos serviços - eram concubinas e cozinheiros, carregadores e soldados - com a escravatura em si mesma principalmente uma forma de consumo e não um factor de produção. A prova mais reveladora disto é encontrada na relação dos génerosː entre os escravos negros comercializados no império islâmico ao longo dos séculos, havia aproximadamente duas fêmeas para cada macho, e quase todas estas escravas tinham ocupações domésticas. Para algumas, isto também incluía relações sexuais com os seus senhores. Este era um motivo legal para a sua compra, e o mais comum.
O serviço militar era também um papel comum para os escravos. Os bárbaros para além das fronteiras eram amplamente recrutados para os exércitos imperiais. Estes recrutas frequentemente progrediam nos exércitos do império, obtendo por vezes altos postos.
Os escravos que revelassem algum talento recebiam educação musical, literária e artística. Na Idade Média, a maioria dos cantores, bailarinos e músicos eram escravos ou de origem escrava.
miniatura|Operação de castração total (gravura muçulmana de cerca de 1466). Se realizada em adultos, a mortalidade poderia atingir 75 a 80%. Nas crianças, 30 a 40% não sobreviviam.
A partir de cerca de 661, no Califado Omíada, escravos eunucos guardavam os haréns, que se tornaram cada vez mais numerosos e povoados de concubinas, além das esposas legítimas. Segundo várias fontes, incluindo Reuben Levy, o Islão proíbe a castração, não existindo no Alcorão uma proibição específica, parecendo ter existido antes uma espécie de consenso tácito contra - portanto eram adquiridos escravos já castrados no exterior do império por membros de outras religiões, como as judaica e cristã. A mortalidade após esse processo, devido a hemorragias e infeções subsequentes, era enorme, o que fazia com que os preços de tais escravos fossem os mais altos. Os eunucos negros, que, ao contrário dos brancos, sofriam habitualmente a amputação total - testículos e pénis - eram os guardiões dos haréns. A guarda dos haréns - que não foram uma inovação islâmica, pois já existiam em culturas anteriores - foi, depois do véu e da reclusão, a fase seguinte duma cada vez maior segregação e degradação das mulheres.