miniaturadaimagem|Guy Pratt, baixista da banda Pink Floyd e de David Gilmour A perda auditiva em profissionais da música ou riscos auditivos em músicos está relacionada à exposição a níveis de pressão sonora elevados, que estão presentes tanto nos ensaios individuais e coletivos quanto nas apresentações. Podem acarretar prejuízos ocupacionais e, devido à exposição prolongada à música com níveis de pressão sonora elevados, problemas auditivos e não auditivos como dores de cabeça, surdez temporária e fadiga auditiva, impactando a qualidade de vida do músico.
A música é a organização de sons com a intenção de ser ouvida, sendo dividida em melodia, ritmo e harmonia. A música também possui propriedades importantes como duração, intensidade, altura e timbre para defini-la. Ela é responsável por estimular diversas áreas do cérebro, estando fortemente associada como parte importante da expressão das emoções e pensamentos do ser humano. Ela está presente no dia a dia das pessoas; é importante no aspecto cultural e da preservação da herança, além do aspecto cognitivo que permite explorar a expressão e a imaginação. Por isso, recomenda-se a estimulação musical em todos os níveis de educação. Por ser reconhecida como um som agradável, que remete a fatos e/ou acontecimentos importantes e proporciona diversos benefícios à saúde e bem-estar, geralmente não é reconhecida como uma ameaça à saúde auditiva.ISLEB, Maria Helena Mendes et al. A perda auditiva induzida pela música e a busca da promoção da saúde auditiva. In: MORATA, Thais C.. Saúde auditiva: avaliação de riscos e prevenção. São Paulo: Plexus, 2010. p. 37-61. Além disso, ouvir e produzir música é uma experiência perceptual que envolve as vias auditivas periféricas e centrais, que se ocupam da percepção dos elementos da música, por meio da análise melódica e temporal do repertório para alcançar a percepção musical.
A fisiologia da execução musical envolve os movimentos do corpo e a técnica de execução de um determinado instrumento. Ao mesmo tempo as informações são captadas sensorialmente por receptores táteis, visuais, auditivos e proprioceptivos, que são analisados. A percepção auditiva é influenciada por fatores afetivos e culturais e é determinada para regular a afinação individual em relação ao envolvimento com o restante do grupo. Também auxilia estabelecendo trajetórias sonoras que são memorizadas e que informam a reentrada em um compasso.OTUBO, K. A.; LOPES, A. C.; LAURIS, J. R. P. Uma análise do perfil audiológico de estudantes de música. Per Musi, Belo Horizonte, n.27, 2013, p.141-151. No entanto, a exposição sistemática a elevados níveis de pressão sonora (mesmo sendo a música) podem ocasionar danos auditivos como a Perda Auditiva Induzida por Ruído (PAIR).
Fisiologia da audição Um estímulo acústico é transmitido de uma fonte sonora e é localizado e captado pelo pavilhão auricular, conduzido pelo meato acústico externo, chegando até a membrana timpânica (tímpano) fazendo com que ela vibre. A partir dessa vibração toda a cadeia ossicular se movimenta. Os ossículos da orelha média (martelo, bigorna e estribo) transferem a energia mecânica para a cóclea por meio da movimentação do estribo contra a janela oval (na cóclea). Esta movimentação desloca os fluidos perilinfa e endolinfa (presentes dentro da cóclea) causando o movimento das células ciliadas (sensoriais) e enviando um sinal elétrico do nervo auditivo (VIII par craniano - vestibulococlear) para o sistema auditivo central. É nessa parte que o som é analisado e interpretado.BONALDI, Laís Vieira. Estrutura e função do sistema auditivo periférico. In: BOÉCHAT, Edilene Marchini et al (org.). Tratado de Audiologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015. p. 32-49.
A membrana timpânica é extremamente sensível, respondendo a qualquer variação de pressão nas ondas sonoras. Diferentes grupos de células ciliadas respondem a diferentes frequências. As células na base da cóclea estão relacionadas aos sons de alta frequência, enquanto as células no ápice da cóclea, estão relacionadas aos sons de baixa frequência.
Efeitos na audição: auditivos e não auditivos O tempo de exposição e a intensidade são dois fatores relacionados com a perda auditiva e sintomas não auditivos. A exposição à música amplificada (elevados níveis de pressão sonora) gera diversos sintomas.
Sintomas auditivosAMORIM, Raquel Beltrão et al. Alterações Auditivas da Exposição Ocupacional em Músicos. Arq. Int. Otorrinolaringol., São Paulo, v. 12, n. 3, p. 377-383, 2008. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/237318033_Alteracoes_Auditivas_da_Exposicao_Ocupacional_em_Musicos_Auditory_Alterations_for_Occupational_Exposition_in_Musicians. Acesso em: 22 jun. 2020.
Fadiga auditiva; Mudança temporária do limiar auditivo; Alterações na percepção do som; Redução da seletividade de frequência sonora; Zumbido; Hiperacusia; Distorção ou diplacusia; Sensação de ouvido tapado e/ou plenitude auricular; Perda auditiva induzida por ruído.
Sintomas não auditivos
Estresse; Cefaleia; Irritação; Tontura; Perturbação do sono; Redução da capacidade de concentração; Distúrbios gástricos; Distúrbios musculares; Alterações no aparelho cardiológico; Mudança de humor.
Conforme ocorre a evolução da perda auditiva, o indivíduo começa a presenciar dificuldades no seu dia a dia. Para exemplificar, segue abaixo uma correlação entre o grau da perda auditiva e dificuldades apresentadas:Basic ear and hearing care resource. Geneva: World Health Organization; 2020. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO. Perda auditivaDificuldadesLeveAs dificuldades aparecem em situações onde há presença de ruído. O volume da televisão é um pouco mais elevado e apresenta problemas para falar ao telefone.ModeradaA dificuldade aparece em mais situações do dia a dia. O volume da televisão é mais elevado, apresenta bastante dificuldade para entender o que é falado ao telefone e em conversas, mesmo em locais silenciosos.SeveraA dificuldade é evidente. O volume da televisão é muito elevado e ainda assim não se entende o que é falado. Precisa que a outra pessoa grite para que entenda o que é falado no telefone e em conversas.ProfundaA dificuldade é evidente. Em geral, não é possível escutar a televisão, ouvir sons ambientais, falar ao telefone e conversar sem o apoio visual. A perda auditiva induzida por ruído ou por música ocorre devido a exposição prolongada a elevados níveis de pressão sonora que lesionam as células ciliadas ou causam danos à mielinização ou regiões sinápticas do nervo auditivo. Esses são dois mecanismos biológicos conhecidos de PAIR. Contudo, curtas exposições, como por exemplo, em concertos de rock, também podem causar alterações auditivas e não auditivas.Maia JRF, Russo ICP. Estudo da audição de músicos de rock and roll. Pró-Fono Revista de Atualização Científica. 2008 jan-mar;20(1):49-54.NAMUUR, Flávia A. B. M. et al. Avaliação Auditiva em Músicos da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, São Paulo, p. 390-395, 1999. A principal queixa referida entre os músicos após apresentações é o zumbido, podendo estar relacionado a um quadro de alteração temporária do limiar auditivo, mesmo que por curtos períodos de exposição à música amplificada.
Perda auditiva induzida por ruído (PAIR) A PAIR é tida como uma lesão irreversível e de progressão gradual (conforme as condições de exposição e não prevenção) inicialmente das células ciliadas externas presentes na membrana basilar do órgão de corti. Apresenta como característica principal um entalhe no gráfico da audiometria, indicando o início de comprometimento nas frequências agudas (3.000 Hz a 6.000 Hz). Dependendo do tipo, grau e configuração dessa perda auditiva os sintomas/dificuldades irão afetar a vida profissional e pessoal do músico. Indiferente do grau da perda auditiva, mesmo em casos leves (onde ocorre pouco comprometimento na comunicação), podem dificultar o reconhecimento de timbres e atrapalhar a afinação dos instrumentos. Assim como, têm como principais sintomas nos casos moderados à severos, desconforto auditivo (recrutamento) para sons fortes e dificuldade em detectar sons fracos, o que pode tornar o exercício da profissão músico uma experiência desconfortável auditivamente e dificultada.
Os músicos precisam especialmente de boas condições auditivas para não dificultar e/ou impedir o uso íntegro das habilidades auditivas. As alterações auditivas e não auditivas prejudicam não só o exercício profissional, mas também a qualidade de vida.
Zumbido Dentre as principais queixas auditivas observa-se que aproximadamente 55% dos músicos apresentam a prevalência de zumbido, sendo este um dos principais efeitos da exposição excessiva à música em intensidade elevada.
Num estudo de Laitinen, o zumbido temporário foi a queixa mais comum, relatada por 37% dos indivíduos, e o zumbido permanente foi relatado por 15% das mulheres e 18% dos homens.
Observa-se também que essa queixa audiológica tem prevalência em músicos de pop-rock e em músicos clássicos, por conta do tempo de exposição à intensidade sonora é muito elevada.
Legislação No Brasil ainda não existe uma legislação específica voltada para os músicos, que determine o controle do nível de intensidade permissível ou seu controle, tanto em atividades de lazer quanto voltadas para as apresentações musicais. É essencial a classificação em normas de segurança, o número de dias, horas de trabalho e níveis de pressão sonora permitidos, para protegê-los dos prejuízos gerados pela exposição a música em forte intensidade.
Para o meio industrial, o Ministério do Trabalho do Brasil, por meio da Norma Reguladora (NR 15) de 1978, estabelece os valores correspondentes ao limite diário de exposição ocupacional máximo que um indivíduo pode permanecer exposto. Segue abaixo alguns dos valoresBRASIL. Ministério do Trabalho. Portaria n.3.214 de 08 de Junho de 1978. Aprova as Normas Regulamentadoras - NR - do Capítulo V, Título II, da Consolidação das Leis do Trabalho, relativas a Segurança e Medicina do Trabalho. Diário Oficial da República Federativa do Brasil: Brasília, 1978. Disponível em: <http://trabalho.gov.br/participacao-social-mtps/participacao-social-do-trabalho/legislacao-seguranca-e-saude-no-trabalho/item/3679-portaria-3-214-1978>. Acesso em: 18 jun. 2020.:
85 dB - 8 horas; 90 dB - 4 horas; 95 dB - 2 horas; 100 dB - 1 horas; 105 dB - 30 minutos; 110 dB - 15 minutos.
Essa legislação, porém, não se aplica para categorias profissionais como músicos, militares, dentistas, profissionais de educação física, entre outros, que apresentam em suas atividades, riscos para o desenvolvimento de alterações auditivas.
Para garantir uma execução instrumental adequada os músicos precisam fazer várias horas de estudo/ensaio individual e/ou coletivo. As alterações auditivas acontecem devido a exposição a intensidade sonora elevada por longos períodos. Diversos fatores tornam a prática profissional dos músicos um risco à saúde auditiva, como a duração da exposição, a intensidade da música, a acústica do espaço onde ocorrem os ensaios, a localização do músico em relação às fontes sonoras, o instrumento musical que utiliza, a escolha do repertório e a repetição de passagens musicais. Outros fatores são considerados prejudiciais à saúde auditiva e, consequentemente, a qualidade de vida, como o ambiente de ensaio, o ambiente de apresentações e a frequência em que são realizadas.
Níveis de pressão sonora em diferentes estilos musicais