A Santa de Vilar ou Santa Gregória (Porto, 28 de novembro de 1799 – Vilar de Andorinho, 14 de setembro de 1818) foi uma "santa em carne" portuguesa, não reconhecida pela Igreja Católica, considerada como santa pela devoção popular. O seu centro de devoção foi a igreja paroquial de Vilar de Andorinho, em Vila Nova de Gaia, no distrito do Porto.

Descoberta do corpo

Em 28 de Dezembro de 1869, no interior da igreja paroquial de Vilar de Andorinho, “quando se tractava de remover para uma sepultura da egreja matriz uma grande quantidade d’ossos que obstruíam o vão onde trabalham os pesos do relógio”, foi descoberto um corpo mumificado, de uma jovem mulher, ainda com dentes, cabelo, mortalha e vestidos em bom estado de conservação. O insólito causou alvoroço na população local e atraiu à freguesia inúmeros curiosos provenientes de todo o concelho de Vila Nova de Gaia e também da cidade do Porto.PINHO LEAL, Augusto Soares de Azevedo Barbosa de, "Portugal Antigo e Moderno", Livraria Editora de Mattos Moreira, 1873, XI Volume, pp. 1196-1197.

A junta de paróquia de Vilar de Andorinho, que zelava pelos bens da igreja, decidiu colocar o corpo numa urna envidraçada, e expô-lo na igreja, para que todos o pudessem contemplar. O corpo permaneceu exposto naquele local durante 12 anos.COSTA GOMES, Joaquim, "Monografia de Vilar de Andorinho", Edição da Junta de Freguesia, 1993, pp. 56-60.

Devoção thumb|left|Sepultura da Santa de Vilar (2022). Com a descoberta do corpo incorrupto e com a sua preservação e exposição permanente na igreja local surgiu a devoção popular. Não tardaram os relatos de milagres e curas milagrosas. Com isso cresceram também os rendimentos da igreja, fruto das esmolas, e, consequentemente, o aproveitamento do fenómeno para fins lucrativos.

Em 1882, o presidente da junta de paróquia, Francisco Araújo, em colaboração com o administrador do concelho, Bacharel António Joaquim dos Reis Castro Portugal, e com o consentimento do abade da freguesia, tomou a decisão de pôr termo ao fenómeno, ordenando o reenterramento do corpo.

Para o efeito, foi aberta uma sepultura no lado norte da igreja, junto à porta travessa, onde, em 7 de Outubro de 1882, pelas 16 horas, se depositou o corpo, sob uma lápide com a seguinte inscrição: “Aqui jaz o cadáver de uma mulher que no dia 28 de Dezembro de 1869 foi encontrado em bom estado de conservação”.

Nesse ano de 1882 ainda existia na igreja uma caixa destinada às esmolas da “santa”, colocada num compartimento denominado “Casa dos Milagres”, fechado com portas de ferro, e um outro cofre, debaixo da tribuna. O rendimento era relativamente avultado, ao ponto de a junta de paróquia ordenar ao zelador, José António Júnior, a entrega das chaves das caixas das esmolas, por ser aquele organismo o zelador dos bens da igreja, nos termos do Código Administrativo, e, por isso, o responsável pela colecta das esmolas da “santa”.COSTA, Francisco Barbosa da, e COSTA, Paulo Jorge Sousa e, "São Salvador de Vilar de Andorinho – Notas Monográficas", Edição da Junta de Freguesia de Vilar de Andorinho, 2013, pp. 335-337.

O zelador recusou-se a fazê-lo, motivo que levou a junta de freguesia a apresentar uma queixa junto do administrador do concelho. Este intimou o zelador a entregar não só as chaves das caixas das esmolas, mas também todo o dinheiro que se encontrava na sua posse — 284.520 réis.

Em Junho de 1908, a junta de paróquia deliberou a transladação do corpo para o cemitério, em virtude de “haver energúmenos que urinavam sobre a sepultura”, o que, além de salitrar as paredes da igreja, punha em causa a dignidade do local, que era considerado sagrado pelo povo da freguesia. Contudo, não há registo de qualquer transladação do corpo para o cemitério da freguesia.

A partir de então, o culto pela “santa” foi diminuindo lentamente até à década de 20 do século XX.

Tumultos e esquecimento do culto

Uma sexagenária da vizinha freguesia de Oliveira do Douro, conhecida como Rita Corcunda, que havia permanecido devota da “Santa de Vilar”, aconselhou a família de uma criança que sofria de moléstia grave nos olhos a ir junto do local que servia de sepultura à “santa”. A criança ficou curada e a sexagenária passou a ir todas as tardes colocar no local uma lamparina. Dizia que a “santa” lhe aparecera em sonhos e que viu nos mesmos o seu segundo enterramento.

A partir de então recomeçaram as romagens ao local e, naturalmente, as oferendas. Foi colocado sobre a sepultura uma espécie de baldaquino, composto por duas colunas encimadas por uma laje com cornija, tudo lavrado em granito.

Em Fevereiro de 1926, um grupo de mulheres munidas de pás, enxadas e picaretas, deslocou-se ao local, a fim de desenterrar o corpo e devolvê-lo à luz do dia. Entretanto, a guarda havia sido informada e prontamente interveio, pondo fim à desordem. Algumas das mulheres foram detidas e houve feridos no desacato.

No dia seguinte, teimosamente, um novo grupo de mulheres voltou ao local, à socapa, mas, para espanto de todos, o corpo não foi encontrado, propalando-se, então, que o mesmo tinha sido roubado às escondidas.

O jornal “O Comércio do Porto”, nas edições de 19, 20 e 22 de Fevereiro de 1926 deu ênfase a estes acontecimentos.

A notícia chegou também ao Brasil. O jornal “Correio da Manhã”, do Rio de Janeiro, na edição de 24 de Março de 1926, noticia o caso da seguinte forma:

Pese embora a história desta santa em carne se tenha mantido viva até aos dias de hoje, o culto, esse, foi decaindo nas décadas seguintes.

Redescoberta do corpo Em Fevereiro de 2007, no decurso de obras realizadas no adro da igreja, foi descoberto o caixão da “Santa Gregória” e reposto na sepultura criada em 1882, o que comprova que o corpo, afinal, permaneceu sepultado no adro da igreja.Informação constante da placa existente no local.

Independentemente de estarmos em presença de um fenómeno de crendice ou superstição popular, ou de um fenómeno de fé, o certo é que este episódio é um dos mais marcantes da história recente da freguesia de Vilar de Andorinho.

Biografia thumb|200px|Exemplo de roda dos expostos ou enjeitados. Crê-se que o corpo mumificado encontrado em 28 de Dezembro de 1869, na igreja de Vilar de Andorinho, então identificado como sendo de um mulher chamada Gregória, seja, de facto, o corpo de uma enjeitada da Santa Casa da Misericórdia do Porto, de nome Gregória, falecida na mesma freguesia, onde havia sido criada, em 14 de Setembro de 1818.

O respectivo assento de óbito reza o seguinte: “Gregoria, exposta pela Santa caza da Mizericordia e criada por Antonio Joze Ferreira do lugar de Baiza desta freguesia de Sam Salvadôr de Villar d’Andorinho, faleceo com todos os Sacramentos no dia quatorze do mez de Septembro do anno de mil oitocentos e dezoito, e foi sepultada no dia seguinte na Igreja desta freguesia, fazendo de idade dezanove annos”.Arquivo Distrital do Porto, Registos Paroquiais, Vilar de Andorinho, Óbitos, 1811-11-08/1841-09-28, fl. 203v.

Atendendo à idade que tinha quando faleceu, é muito provável que se trate da mesma Gregória, recém-nascida exposta na Roda dos Enjeitados da cidade do Porto na manhã de 28 de Novembro de 1799, pelas 11 horas, “com camisa fexada com colarinhos, e na gola folho d’algodão, na cabeça hum lenço quadrado de talagaje muito velho, três cueiros de baeta preta com remendos da mesma que mostrão forão de mantilha, faxa da mesma, no braço esquerdo hua medida azul velha”Arquivo Distrital do Porto, Casa da Roda do Porto, Assistência a Expostos, Livro 51, Entradas 1798 e 1799, fls. 519 e 519v..

Diz-nos Costa Gomes: “Quem sabe se esta jovem que nunca conheceu um sorriso de mãe, possivelmente também nunca um afago de ternura, não fosse uma daquelas figuras frágeis que se viram para Deus em busca dos lenitivos nunca recolhidos na Terra e voam ao seu encontro em idade de pureza? Sabe-se pelo registo da sua morte, que recebeu todos os sacramentos da Igreja. Para os que têm fé, os mistérios do Além são insondáveis e por isso nunca se pode de ânimo leve dizer que aquele corpo escapou à gula da terra apenas por força de certas leis da Física”.

Ver também Corpo incorrupto Santa Maria Adelaide

Bibliografia Piedade popular em Portugal: Noroeste, Letouzey et Ané, 1998.

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