thumb|upright=1.5|Colônias romanas ao redor do Império durante o século II. Romanização, conceito criado por Theodor Mommsen no século XIX, indica a propagação da cultura romana através da aculturação e assimilação cultural de seus atributos, por parte das populações anexadas durante o período de expansão da República Romana, do Império Romano ou Principado, dentro da perspectiva civilizatória de Roma.Mendes, Norma Musco. "Romanização e as questões de identidade e alteridade". Tal processo variou de acordo com as especificidades dos diferentes locais em que ocorreu.Bancalari, 2007

Segundo Martin Millett, a romanização teria começado de cima para baixo, com as classes superiores adotando a cultura romana em primeiro lugar e, de modo mais lento, essa assimilação teria se espalhado para as regiões mais internas e periféricas entre os camponeses.Millett, 1990, apud Hingley, 2010. Outras perspectivas, no entanto, ressaltam a participação dos nativos nesse processo de mudanças dentro do Império Romano, resultando na adaptação de práticas e conceitos utilizados em Roma, de modo a satisfazer os interesses locais.Hanson, 1994 apud Hingley, 2010

A título de exemplificação dos mecanismos desse processo de romanização, podemos destacar a construção de cidades,Mendes, 2001 locais em que se manifestava e se exercia o ideal de cidadão romano, reforçando a ideia do ser romano entre os nativos.

Cabe ressaltar que o termo romanização variou ao longo de sua existência, sendo, ainda hoje, alvo de discussão entre especialistas. No século XX, com os processos de descolonização, houve uma mudança ideológica, na qual a necessidade de um novo discurso e de uma nova perspectiva da história se fez presente.Milazzo, Bernardo. "BRITÂNIA ROMANA – AS CIDADES COMO CENTROS DO PODER NA FRONTEIRA DE UM IMPÉRIO: A COLONIA DE CAMULODUNUM" 2007, Niterói.

Histórico do termo Conceito de Romanização por Mommsen Theodor Mommsen foi agraciado com o Prémio Nobel de Literatura de 1902, pela sua obra "História de Roma" onde pela primeira vez se leu o termo "Romanização" na descrição das ações de pensar, colonizar, controlar terras distantes e possuídas por outros povos "na formação do Império Romano".

Há estudos que explicam melhor a base de estudos de Mommsen e Haverfield, que são estudos baseados na teoria de Darwin. Através desses estudos tenta-se explicar a transformação de diversas culturas (a exemplo britânico) em uma cultura "romanizada". ARQUEOLOGIA, COLONIALISMO E DARWINISMO SOCIAL: A APLICAÇÃO DAS TEORIAS BIOLÓGICAS NOS ESTUDOS DAS SOCIEDADES HUMANAS E SUA REPERCUSSÃO NAS PESQUISAS EM ARQUEOLOGIA ROMANA (SÉCULOS XIX-XX)Rafael de Abreu e Souza (Bolsista PIBIC/CNPq) e Prof. Dr. Pedro Paulo Abreu Funari (Orientador),Núcleo de Estudos Estratégicos – NEE e Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - IFCH,UNICAMP

thumb|Theodor Mommsen, retratado por Louis Jacobi, 1863

Escola Britânica - Haverfield Arqueólogo, em seu trabalho "A romanização da Bretanha Romana" - publicado, pela primeira vez, em 1906 - Haverfield estabeleceu um modelo para o processo de mudança progressiva, "romanização", que tem muito em comum com os conceitos de "progresso" e de "desenvolvimento" próprios do século XIX e do início do XX, período em que o Império Britânico se estabelecia e necessitava de fundamentos positivistas encontrados na história do Império Romano para justificar suas práticas imperialistas na África e na Ásia.

Haverfield sugere que Roma manteve seu império de duas maneiras: organizando as defesas das fronteiras e intervindo no crescimento das "civilizações internas". O autor denomina de romanização a maneira de não-romanos receberem uma nova língua, cultura, arte, estilo de vida urbana e religião. Suas duas conclusões sobre o processo foram: primeiramente, romanização, no geral, visa extinguir a distinção entre romanos e provinciais, em relação à cultura material, política e língua; como outra conclusão, é afirmado que o processo não foi igual em todo lugar e não destruiu, de uma vez só, todos os traços tribais e sentimentos "nacionalistas" dos conquistados.

O pós-colonialismo e os Nativistas Nas décadas de 1970 e 1980, a contra-resposta dos nativistas surgiu para descentralizar as visões e teorias sobre o termo, adicionando a noção de resistência para as culturas não-romanas. Para esse grupo, que apontou a lenta incorporação do latim, a rápida urbanização das cidades e o aparente reviver dos povos que compartilhavam uma cultura celtas no final do Império, a romanização foi um pouco mais do que uma "pincelada", onde a cultura céltica sobreviveu. Para os nativistas britânicos, o modo romano de viver não foi nem "abraçado" nem rejeitado, mas ignorado, formando uma "resistência passiva".

Abordagem de Millett A partir da conceituação de Haverfield sobre romanização, Martin Millett, não querendo reacender as tensões com os nativistas, mas tentar uma coexistência das duas teorias, conciliando a conclusão de Haverfield em relação ao "recebimento" de uma nova cultura com a teoria nativista britânica da participação ativa de toda a população conquistada. Ele o fez aceitando a hipótese de Haverfield em que a romanização foi um processo espontâneo, mas afirmando que o motor para a adoção dos símbolos da Romanitas esteve, inteiramente, nas mãos das elites nativas. Segundo a abordagem de Millett, as elites teriam aceitado a ocupação romana e as futuras modificações geradas e adotariam os modelos considerados pelos romanos como menos "bárbaros" para manter a sua soberania na região.

Teoria de Hingley Para Richard Hingley não é possível afirmar um conceito de romano ou de cultura material romana sem recorrer a visões e opiniões modernas ou contemporâneas, ou seja, sem utilizar termos que não pertecem à época. Segundo o autor, obviamente a conquista romana das províncias deixou marcas profundas, tanto físicas (modificações dos edifícios, templos, construção de estradas) quanto psicológicas (pois a conquista e as mudanças foram através de uma guerra). Desse modo, tentar perceber como os habitantes locais das províncias se relacionavam intimamente com a presença romana é complicado e difícil de ser analisado.

Características da romanização Pode-se medir os mecanismos da romanização através de alguns elementos chave da cultura material e da tradição literária antiga. O ponto de partida principal é a cidade, pois é o local onde se manifesta a "humanitas" romana, ou seja, o conjunto de atitudes ideais do modo de vida romano. É também nas cidades romanas construídas nas províncias que se construíam os símbolos urbanísticos romanos clássicos, como o fórum, o teatro, as basílicas, os templos, as estátuas etc. Isso tudo reforçava entre a população nativa a ideia do que é "ser romano".

Definição do "modo de vida romano" Em termos técnicos e jurídicos, pode-se definir um romano pelo fato dele ter cidadania romana. Porém, vários outros aspectos da cultura romana poderiam também ser incluídos, como o culto aos deuses romanos e depois ao imperador. Mas por causa das diferenças sociais e territoriais entre os habitantes do império, o que identifica um romano passava por assimilar atributos culturais que fariam alguém se tornar romano, “parecer romano”. A criação dessa identidade parte da utilização do latim, do culto imperial, da participação no exército, da promoção do modelo de urbanização típico do mundo romano nas províncias, e principalmente da defesa do ideal de virtus. A virtus é o conjunto das virtudes ideais do homem romano, o vir, ou seja, o modo como um romano típico deveria agir. Originalmente, a “uirtus” descrevia especificamente a coragem guerreira, porém seu sentido foi ampliado e passou a designar também as virtudes romanas no seu conjunto. As virtudes eram divididas em diferentes qualidades, incluindo a prudentia (prudência), a justitia (justiça), a temperantia (autocontrole), a fortitudo (coragem), a gravitas (postura que denota seriedade), a pietas (o culto correto aos deuses), a fides (boa-fé) e a auctoritas (autoridade, poder). Um homem que agisse virtuosamente seria então um homem que agiria com humanitas - traduzindo vulgarmente, alguém civilizado, que possui uma conduta moralmente superior.

Diferenças regionais A expansão do Império Romano, durante os séculos III e II a.C., não ocorreu de maneira uniforme em todas as regiões conquistadas. Cada povo apresentou reações diferentes, seja através da resistência ou da conciliação de interesses entre os grupos dirigentes e os invasores romanos, seja devido à variedade de povos ou às suas respectivas formas de organização econômico-social.

thumb|upright=1.5|Villa rustica, fazenda romana com casa de banhos, século III d.C. - Nördlingen, Alemanha

A Germânia, por exemplo, como ressalta Otto C. Barreto Neto, NETO, Otto C. Barreto. COLÔNIA ARA CLAUDIA AGRIPPINENSI: INTERAÇÕES NA GERMÂNIA INFERIOR. In: CANDIDO. M. R. (org.) ROMA E AS SOCIEDADES DA ANTIGUIDADE. Política, Cultura e Economia. Rio de Janeiro: NEA/UERJ, 2008, 74-76]. era um território desconhecido pelo Império Romano, o que fez com que, em um primeiro momento, a região recebesse poucos investimentos e o seu desenvolvimento não fosse efetivo. Os germanos viviam em aldeias e eram um povo semi-nômade. Ao perceberem a presença dos romanos, fugiam para as florestas e optavam pela guerrilha como forma de resistência, o que dificultava a dominação por parte do império. A principal presença de romanos na Germânia eram nos acampamentos militares na fronteira, o limes, sendo através deles desenvolvidas as práticas comerciais e as representações culturais romanas. Além das legiões, passavam também pelo território comerciantes, prostitutas, aventureiros e políticos, alguns deles "cidadãos romanos".

A invasão romana da península Ibérica ocorreu pela primeira vez em Conhecida como Lusitânia e atualmente como Portugal, durante o processo de expansão, a região serviu muitas vezes de abrigo para os romanos, antecipando, assim, uma forma de contato entre lusitanos e romanos. A entrada dos romanos deu-se de maneira diferenciada nessa região, sendo caracterizada por alguns conflitos e, em algumas áreas de menor resistência, principalmente pelo interesse dos grupos dirigentes e das classes mais ricas em integrar o Império. Lima, Vanessa Vieira de. ESCOLAS DE ROMANIDADE: A EXPERIÊNCIA SERTORIANA In: CANDIDO. M. R. (org.) ROMA E AS SOCIEDADES DA ANTIGUIDADE. Política, Cultura e Economia. Rio de Janeiro: NEA/UERJ, 2008, 104-107.] De modo geral, o Império Romano obteve domínio sobre a Lusitânia gerando uma miscigenação significativa entre estes, marcando a região com características importantes de cultura e costumes, formando as raízes do que hoje é Portugal. Lupi, João. Resenha - Os Lusitanos. Rodrigues, Adriano Vasco. Os Lusitano. Mito e Realidade. Lisboa, Academia Internacional da Cultura Portuguesa, 1998, 353p. Revista Brathair, vol. 2, n°1, p. 64-68, 2002.

No caso da Britânia, os motivos de sua invasão geram debate entre historiadores, principalmente por acreditarem num forte potencial comercial daquela região. A assimilação cultural entre os dois povos e outros dominados por Roma, levou até mesmo a propagação do cristianismo, posteriormente, por todo o império. Carlan, Cláudio Umpierre. O Império Romano no século IV e os conflitos religiosos. Revista Jesus Histórico, vol. 2, n°2, p. 2-17, 2009. Resquícios materiais, por exemplo, como a Muralha de Adriano influíram na divisão atual das Ilhas Britânicas. De acordo com Bernardo Milazzo, Milazzo, Bernardo Luiz Martins. A Construção da fronteira étnica no processo de Romanização na Britânia Romana: Os casos de resistência da revolta de Carataco e Boudica durante o século I d.C. Niterói, 2009 a conquista romana da Britânia criou elementos como a "fronteira étnica" entre os dominados e os dominadores, devido ao aspecto de resistência dos bretões.