Catã () é uma personagem da genealogia árabe tradicional, considerada ancestral epônimo dos catanitas, o grande conjunto de povos e tribos da Arábia meridional contraposto pelos genealogistas muçulmanos aos adenanitas do norte. As fontes islâmicas geralmente fazem-no descendente de Sem, filho de Noé, e uma tradição amplamente difundida identifica-o com o Joctã da Tabela das Nações bíblica, embora outras genealogias façam Joctã seu irmão ou filho. Também foram propostas linhagens que identificavam seu pai Abir com o profeta Hude ou que faziam Catã descender de Ismael, versões relacionadas às diferentes tentativas de integrar os árabes meridionais às genealogias bíblicas e ismaelitas.
As tradições atribuem a Catã numerosos descendentes e fazem de seu filho seu sucessor no governo do Iêmem. A principal linhagem genealógica dos árabes meridionais prosseguia através de Iasjube e de seu filho Sabá (Abede Xemece), de cuja descendência eram derivados numerosos povos. Em uma das sistematizações mais difundidas, os catanitas dividiam-se em dois grandes ramos, descendentes de Himiar e , filhos de Sabá. Dessa construção genealógica derivava a posição de Catã como equivalente meridional de Adenane, ancestral dos árabes setentrionais, embora algumas tradições contrapusessem Catã antes a Maade ou Nizar.
A historicidade do Catã individual descrito pelas genealogias islâmicas não pode ser estabelecida a partir das tradições posteriores, mas o nome Catã é comprovadamente pré-islâmico. Uma inscrição sul-arábica do , do período do governante hamedanita , registra um "rei de Quinda e Catã", demonstrando que o nome já designava uma coletividade tribal na Antiguidade. Fischer e Irvine consideram ainda possível sua identificação com os catabanitas () mencionados por Ptolemeu. Os autores sugerem que a semelhança entre esse antigo nome tribal e o Joctã bíblico favoreceu sua posterior identificação pelos genealogistas, que incorporaram Catã a uma linhagem remontando a Sem e Noé e fizeram dele o ancestral comum dos povos da Arábia meridional.
Genealogia
As fontes islâmicas geralmente fazem Catã descender de Sem, filho de Noé, mas divergem quanto às gerações intermediárias. Uma genealogia amplamente difundida, baseada em tradições bíblicas, apresenta a sequência Catã ibne Abir ibne Xale ibne Arfaxade ibne Sem ibne Noé. Alguns genealogistas identificaram Catã diretamente com Joctã, personagem da Tabela das Nações bíblica e filho de Éber, cuja descendência compreende diversos povos relacionados à Arábia meridional. A correspondência foi incorporada à genealogia árabe mediante a adaptação da sequência bíblica Noé–Sem–Arfaxade–Xelá–Éber–Joctã. Outros autores, contudo, fizeram Joctã irmão ou filho de Catã, interpretação considerada uma confusão por Fischer e Irvine. Os mesmos autores julgam fonologicamente problemática a hipótese de que o nome árabe Qaḥṭān seja simplesmente uma forma arabizada do hebraico Yoqṭān.
Também houve tentativas de identificar Abir, apresentado como pai de Catã, com o profeta Hude. Essa tradição aparece, entre outros, em Alhamedani e Almaçudi. Ibne Hasme rejeitou-a com base no Alcorão, argumentando que Hude era apresentado como membro do povo de Ade, que teria sido destruído, e mostrou-se igualmente cético em relação aos pormenores genealógicos derivados da tradição bíblica, limitando-se a aceitar que Catã descendia de Sem ibne Noé. A identificação de Hude com o ancestral da linhagem também foi relacionada à rivalidade genealógica posterior entre árabes meridionais e setentrionais. Segundo Fischer e Irvine, tradições iamanitas fizeram Catã filho de Hude, por vezes identificado com Abir, como parte da elaboração de uma genealogia prestigiosa para os árabes do sul.
Uma tradição alternativa procurou integrar Catã à descendência de Ismael, fazendo assim deste o ancestral comum de todos os árabes. Alguns genealogistas adotaram uma linhagem que fazia Catã descender de Ismael, versão que também encontrou defensores entre autores iamanitas. Ibne Hasme rejeitou categoricamente essa genealogia, enquanto Jawād ʿAlī, recorrendo a passagens corânicas e tradições segundo as quais todos os árabes seriam descendentes de Ismael, considerou-a plausível. Fischer e Irvine interpretam essas genealogias como tentativas de aproximar os árabes meridionais da linhagem ismaelita dos árabes setentrionais. Relacionam ao mesmo contexto a inclusão dos antigos jurumitas entre os descendentes diretos de Catã, uma vez que estes eram tradicionalmente apresentados como parentes por casamento de Ismael.
Descendência
As tradições atribuem a Catã uma longevidade de aproximadamente duzentos anos e numerosos filhos. Segundo uma delas, teria tido 31, entre os quais Iarube, Iasjube, Luai, Tasme, Jadis, Jurume, Iêmem, Omã e Hadramaute. Seu sucessor teria sido , apresentado em algumas tradições como o primeiro homem a falar árabe. Iarube teria governado o Iêmem e distribuído diferentes territórios entre seus irmãos. A genealogia que posteriormente adquiriu maior importância para a classificação dos árabes meridionais fazia Sabá, também chamado Abede Xemece, filho de Iasjube e neto de Catã. A Sabá eram atribuídos dez filhos: Lame, Judame, , Gassane, Himiar, Azede, Madije, Quinana, Axar e Anemar. Segundo a tradição reproduzida por Fayda, os quatro primeiros estabeleceram-se na Síria, enquanto os demais permaneceram no Iêmem. Outras sistematizações fizeram dos catanitas dois grandes ramos derivados dos filhos de Sabá, Himiar e , através dos quais se organizou grande parte da genealogia tradicional dos árabes meridionais.
Historicidade
Embora a personagem Catã da tradição genealógica não possa ser reconstruída historicamente a partir das narrativas biográficas posteriores, o nome é documentado na Arábia antes do islã. Uma inscrição sul-arábica do período do segundo governante hamedanita chamado , datada do , menciona campanhas ao norte de Najrã contra um "rei de Quinda e Catã", demonstrando o emprego de Catã como nome tribal em época pré-islâmica. Fischer e Irvine consideram ainda possível que essa documentação dê apoio à identificação dos catabanitas () mencionados por Ptolemeu com Catã. Pouco se sabe sobre esse grupo pré-islâmico ou sobre sua relação histórica com os povos posteriormente reunidos pelos genealogistas sob a descendência de Catã. Fischer e Irvine sugerem que a semelhança entre o nome tribal Catã, cuja existência pré-islâmica é epigraficamente atestada, e o bíblico Joctã pode ter levado os genealogistas árabes a identificá-los. Essa associação permitia inserir os povos da Arábia meridional numa genealogia bíblica prestigiosa, de maneira comparável à incorporação dos árabes setentrionais à descendência de Ismael por intermédio de Adenane.
Bibliografia
Categoria:Catanitas