Máfia russa (, transliterado russkaya mafiya), é a denominação generalizada dada a quaisquer dos grupos criminosos altamente organizados que surgiram na União Soviética, principalmente na Rússia, no final dos anos 1980.
Outras denominações genéricas para estes grupos são Bratva (: "A Irmandade",), de contexto informal, Organizatsiya (: "A Organização"), uma denominação coletiva mais formal e Vory v Zakone (Bandidos dentro da Lei), eufemismo utilizado principalmente para se referir a um grupo restrito de indivíduos pertencentes a esses grupos, normalmente os mais bem sucedidos dentro a hierarquia criminal.
A grande maioria destes grupos estão atualmente extintos, após um período de grande influência na década de 1990. Entre as organizações mafiosas russas mais conhecidas estão a Tambovskaia, de São Petersburgo, as gangues de Balashikhinski, Orekhov e Solntsevo, todas de Moscou, a Uralmash, de Ecaterimburgo, e a Chetchenskaia, da Chechênia. No plano internacional, os mais conhecidos grupos criminosos de origem russa são o Círculo dos Irmãos, com atividades no Oriente Médio, África e América Latina, o Nevski, com atividades nos Estados Unidos, e o Obtshak-Ühiskassa, aliado à máfia da Finlândia.
Segundo o livro Thieves' World: The Threat of the New Global Network of Organized Crime ("O mundo dos ladrões: a ameaça da nova rede global do crime organizado"), da jornalista Claire Sterling, desde 1993 a máfia russa conseguiu unificar sob seu comando todas as máfias do mundo.
História
Origens A criminalidade na Rússia remonta ao período imperial do país, que começou na década de 1720 com o surgimento do banditismo e do roubo. Nessa época, a maior parte da população era composta por camponeses que viviam na pobreza, e os criminosos que roubavam de entidades governamentais e compartilhavam os lucros entre o povo eram vistos de forma semelhante a Robin Hood, sendo considerados protetores dos pobres e se tornando heróis populares. Com o tempo, o Vorovskoy Mir (Mundo dos Ladrões) emergiu quando esses criminosos se agruparam e desenvolveram seu próprio código de conduta, baseado em estrita lealdade mútua e oposição ao governo. Quando a Revolução Bolchevique ocorreu em 1917, o Mundo dos Ladrões ainda estava ativo. Vladimir Lenin tentou eliminá-los, mas falhou, e os criminosos sobreviveram até o reinado de Joseph Stalin.
Há nitidamente uma relação entre a opressão estatal e a criminalidade na Rússia. A relação entre a criminalidade na história russa e a opressão do governo ao povo é complexa e multifacetada. A pobreza generalizada entre os camponeses russos durante o período imperial criou um terreno fértil para o surgimento da criminalidade. A falta de oportunidades econômicas e a desigualdade social levaram alguns indivíduos a recorrer ao crime como meio de subsistência. Muitos dos criminosos russos eram vistos como heróis populares porque roubavam de entidades governamentais, percebidas como opressoras, e compartilhavam os lucros com os pobres. Isso reflete uma reação ao governo e à sua exploração do povo. Stephen L. Mallory. Understanding Organized Crime. 2007.
O surgimento do Vorovskoy Mir, ou Mundo dos Ladrões, foi uma resposta à opressão e à falta de confiança no sistema governamental. Os criminosos se uniram em um código de conduta que incluía a oposição ao governo e a lealdade mútua, em parte como uma forma de resistência à autoridade estabelecida. Os esforços do governo para eliminar a criminalidade, desde os dias do Império até o período soviético, muitas vezes falharam. Isso pode ser atribuído à falta de confiança do povo no governo e à persistência das condições socioeconômicas que alimentavam o crime.
Gulags
Com a consolidação do regime soviético na Rússia, as autoridades fundaram campos de trabalho forçado de segurança máxima, com o objetivo de punir quem fosse considerado inimigo de Estado em maior grau. Estes campos ficaram conhecidos como Gulags, onde se formou uma elite criminal, dando origem à máfia russa moderna. Em 1941, com a invasão de Hitler à União Soviética, o governo necessitava de cada vez mais recrutas, e foi compensar a falta de reservistas com a convocação de prisioneiros, em troca da liberdade. Ao mesmo tempo que aspiravam pelo fim do cárcere, os prisioneiros também se viam no dilema de se aliar ao governo, o que seria um grave crime de traição dentro da organização criminal. Muitos dos prisioneiros optaram pela liberdade, e foram aos campos de batalha defender a bandeira da URSS. As autoridades, contudo, não cumpriram o estabelecido, e enviaram os criminosos novamente para as prisões. Os heróis de guerra foram então confrontados pelos detentos que não participaram da guerra, e foram apelidados "suki" (cadelas, em russo). Os suki, por outro lado, passaram a se organizar com o apoio dos oficiais, que além de privilegiarem os heróis de guerra, também viam na segregação entre os dois grupos um modo de limpar a prisão e diminuir o número de detentos. A rixa entre as duas facções de detentos levou à Guerra das Cadelas, que tirou a vida de milhares de detentos, sendo um dos principais argumentos na crítica ao sistema de Gulags. Em 1953, com a morte de Joseph Stalin, o novo líder soviético, Nikita Khrushchov, dissolveu os Gulags e enviou os prisioneiros mais perigosos a prisões comuns, encerrando a guerra interna, que todavia continuaria nas prisões, conhecidas como "colônias".
A Máfia Vermelha
A grande estruturação da máfia russa remete à União Soviética dos anos 1950, quando o serviço secreto do país, o KGB, infiltrava informantes dentro de grupos mafiosos estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos e do Reino Unido, com o objetivo de freiar as sabotagens e a colaboração entre os criminosos e o governo, como ocorrido em Cuba, em 1958, quando os serviços de inteligência americanos entraram em acordo com as máfias de Nova Iorque e principalmente Miami, que detinham muito poder na ilha onde Fidel Castro tentava instaurar a revolução. Com o passar do tempo, a máfia soviética, a chamada Piramida-1, composta pelos "siloviki", os agentes da polícia, que aproveitando-se do poder, se aliaram à ordem criminal já existente, baseada nas reminiscências dos Gulags colônias, criou uma filial no próprio território soviético, onde centralizavam suas operações, que envolviam o contrabando, o controle de grandes negócios privados estrangeiros, grandes assaltos, envolvimentos no tráfico de armas, pedras preciosas, participações em cassinos, uso de contra-inteligência à favor da organização, execuções de influentes criminosos, políticos, banqueiros e opositores, sabotagem e outros trabalhos sujos. Ao mesmo tempo que pode-se atribuir à Piramida a falência e limpeza de muitas organizações criminosas, também pode-se considerar o grande volume de sangue derramado por essa organização. Galina Brejneva, a filha do excêntrico presidente soviético Leonid Brejnev, participava da máfia Piramida, sendo presa por contrabando de diamantes e prostituição.
thumb|right|Por anos, a cidade de São Petersburgo foi o grande quartel da máfia russa.
Os bandidos dentro da Lei
Em meio à incerteza política e econômica que se passou na União Soviética em seus anos finais, o crime organizado, que até então era limitado a prisioneiros e às forças policiais, se expandiu e se desenvolveu, mais formalmente no ano de 1988, quando o governo realizava políticas de aberturas em várias esferas, principalmente na econômica, com as privatizações de diversos setores estratégicos para a economia da nação. Em 1993, o governo fez uma distribuição de cheques no valor de mil rublos para que a população em geral comprasse ações de companhias estatais, com o objetivo de incentivar a iniciativa privada. Contudo, os cidadãos comuns e pouco acostumados com o sistema capitalista, não sabiam onde e como aplicar os cheques, e em meio à ânsia de obter qualquer valor monetário que fosse para se livrar da pobreza, os vendiam para compradores a um preço muito menor do que os das ações. Isso resultou na falência do plano de cheques e na consequente compra de ações por parte de uma camada privilegiada da população, enquanto a grande maioria do povo empobrecia. Estes indivíduos privilegiados ficaram conhecidos como oligarcas russos.
A máfia russa ficou conhecida pelas operações e transações obscuras, pelo seu forte poder bélico e por sua facilidade em driblar os sistemas de leis do país. Inclusive, os chefes da Máfia costumavam, em seu ápice, nos anos 1990, ter assombrosa influência na legislação do país, contestando as leis que fossem contra seus negócios, fazendo jus ao apelido de "Vory v Zakone" — Bandidos dentro da Lei. A corrupção gerada pelas organizações era tanta que os criminosos chegavam até mesmo a manipular e empregar o próprio presidente russo, Boris Ieltsin, para obter benefícios, em troca de favores e apoio ao cargo. As organizações criminosas russas tinham tanto poder no país neste tempo que não era raro encontrar pessoas comuns e de baixa renda que realizassem serviços para elas. Com a chegada do presidente Vladimir Putin, em 2000, e sua consolidação no cargo, a máfia russa viveu uma crise sem precedentes, já que esse presidente, que contava com o cego apoio dos criminosos, sem nenhum tipo de advertência, tornou possíveis diversas estatizações de setores que estavam nas mãos da máfia russa, e ainda manteve, em tornou de si mesmo, uma força que reprimia até mesmo o poder judiciário, conseguindo assim conter a poderosa máfia russa, às vezes pelos meios que a própria utilizava. Com a acusação e eliminação de diversos oligarcas e agentes corruptos da polícia, a máfia russa perdeu muitos de seus contatos internos, como Roman Abramovich, Boris Berezovsky, Alexander Litvinenko, Mikhail Khodorkovski, Mikhail Prokhorov, entre outros, assim transferindo seu centro de atividades para o estrangeiro, agindo principalmente na Grã-Bretanha.
Com as falências, compelidas ou não, de muitas de suas associações na Federação Russa, as principais lideranças da máfia russa migraram para outros grupos de atividades similares, enquanto as ditas associações migraram para atividades lícitas ou para a própria prisão. Devido a esse "fenômeno", o ano de 2007 é considerado, inclusive por antigos membros, como o ano da ruína da Máfia Russa. Há, porém, muitos que crêem que, apesar da quebra da máfia judaica, a Rússia ainda é assombrada por organizações mafiosas, originárias, ironicamente, do combate aos antigos grupos, devido ao poder que se conquistou durante aquele período. Para estes, esta máfia é dirigida pelo mais importante político russo da atualidade, Vladimir Putin.WikiLeaks cables condemn Russia as 'mafia state', Guardian.co.uk WikiLeaks cables condemn Russia as 'mafia state'
2001 – presente No início do século 21, a máfia russa permaneceu após a morte de Aslan Usoyan. Novos chefes da máfia surgiram, enquanto os presos foram libertados. Entre os libertados estavam Marat Balagula e Vyacheslav Ivankov, ambos em 2004. Este último foi extraditado para a Rússia, mas foi preso mais uma vez por seus supostos assassinatos de dois turcos em um restaurante de Moscou em 1992; ele foi inocentado de todas as acusações e libertado em 2005. Quatro anos depois, ele foi assassinado com um tiro de atirador no estômago. Entretanto, Monya Elson e Leonid Roytman foram presos em Março de 2006 por um plano de assassinato mal sucedido contra dois empresários baseados em Kiev.
Em 2009, agentes do FBI em Moscovo visaram dois supostos líderes da máfia e dois outros empresários corruptos. Um dos líderes é Yevgeny Dvoskin, um criminoso que esteve na prisão com Ivankov em 1995 e foi deportado em 2001 por violar as regras de imigração; o outro é Konstantin "Gizya" Ginzburg, que teria sido o atual "chefão" do crime organizado russo na América antes de seu suposto assassinato em 2009, suspeitando-se que Ivankov lhe entregou o controle.