Denomina-se França Equinocial aos esforços franceses de colonização da América do Sul em torno da linha do Equador (antigamente denominada de linha Equinocial), no . O mais significativo legado desse empreendimento colonial é a cidade de São Luís, atual capital do estado brasileiro do Maranhão, originalmente uma feitoria francesa.

História O império colonial Francês

thumb|294x294px|Ilustração da obra de Claude d'Abbeville, "Histoire de la mission..." (Paris, 1614): levantamento da cruz na colônia francesa.

O Império colonial Francês no Novo Mundo também incluía a Nova França na América do Norte, particularmente no que é hoje a província do Québec, no Canadá, e a França Antártica, na atual cidade do Rio de Janeiro, no Brasil. As nações ibéricas consideravam que esses assentamentos violavam não apenas a bula papal de 1493, como o Tratado de Tordesilhas (1494), documentos que dividiam o globo igualmente entre ambas, excluindo as demais nações dessa partilha.

Feitoria francesa e preparativos (1594-1612)

Em 1594, o corsário francês Jacques Riffault partiu para os territórios reivindicados pela União Ibérica na América do Sul, tendo em vista conquistar terras em nome da França. Ele se aliou a grupos indígenas do Brasil, mas sua campanha foi interrompida por divergências entre os franceses e pelo naufrágio do seu navio principal, no litoral do Maranhão. Como a embarcação que restou não comportava todos os franceses, boa parte deles tiveram que ficar em terra. Os que permaneceram, liderados por Charles des Vaux, estabeleceram uma feitoria, conquistaram a amizade dos indígenas e passaram a viver entre eles, aprendendo sua língua e guerreando contra as tribos inimigas. Observando a abundância de recursos naturais da terra, Vaux persuadiu os indígenas a futuramente se converterem ao cristianismo e a se submeterem à autoridade francesa.ABBEVILLE, 2008, p. 35-42

Vaux conseguiu voltar à França, e relatou suas experiências ao rei Henrique IV. O rei o enviou novamente à região, junto a Daniel de la Touche, senhor de la Ravardière, numa viagem de reconhecimento para avaliar a possibilidade de estabelecer de uma colônia. Não obstante aquele soberano ter sido assassinado nesse meio-tempo, Ravardière, entusiasmado com a terra, obteve da rainha Maria de Médicis, regente na menoridade de Luís XIII de França, a concessão para estabelecer uma colônia ao sul do Equador, 50 léguas para cada lado do forte a ser construído. Esse nobre era um marinheiro experiente e já havia explorado o litoral das Guianas em 1604, acompanhando o navegador Jean Mocquet.

A empresa marítima despertou o interesse de particulares calvinistas, como o banqueiro Nicolas de Harlay (barão de Sancy), e François de Razilly, os quais, junto a Ravardière, proporcionaram os recursos para o empreendimento, cada um com um terço da participação. A rainha regente nomeou esses três nobres tenentes-generais do rei nas Índias Ocidentais. O estabelecimento da chamada França Equinocial iniciou-se em março de 1612, quando uma expedição francesa partiu do porto de Cancale, na Bretanha, com destino à costa do atual estado brasileiro do Maranhão. A expedição contava com cerca de quinhentos colonos a bordo de três navios - Régente, Charlote e Saint-Anne - comandados, respectivamente, por Ravardière, Sancy e Razilly.

Fundação de São Luís e exploração das regiões vizinhas (1612) Os franceses, após passarem pelo arquipélago de Fernando de Noronha, desembarcaram, em julho de 1612, na ilha de Upaon-Mirim, transferindo-se para Upaon-Açu. Para facilitar a defesa, os colonos fundaram um forte batizado de Saint Louis, em homenagem ao soberano, Luís XIII de França (1610-1643). No dia 8 de Setembro de 1612, frades capuchinhos rezaram a primeira missa, sendo iniciada a construção do forte, localizado entre os rios Anil e Bacanga, onde atualmente se localiza o Palácio dos Leões. Para construir o forte, Ravardière e Razilly "(...) escolheram uma bela praça, muito indicada para esse fim por se achar numa alta montanha e na ponta de um rochedo inacessível e mais elevado do que todos os outros e donde se descortina o terreno a perder de vista".ABBEVILLE, 2008, p.83 A construção foi feita com amplo apoio da mão-de-obra indígena, oriunda tanto da Ilha quanto de Tapuitapera (atual região de Alcântara e Guimarães).ÉVREUX, 2007, p.19

Segundo relato de Claude d'Abbeville, havia de 10 a 12 mil índios na ilha, distribuídos em 27 aldeias, compostas cada uma de 4 cabanas ordenadas.ABBEVILLE, 2008, p. 187-195

miniaturadaimagem|O atual Palácio dos Leões, construído no local onde ficava o forte estabelecido pelos franceses|205x205px

Paralelamente, os franceses buscaram explorar a região. Uma expedição francesa foi enviada ao Rio Mearim em 1612 ou 1613, mas a maior parte das informações dessa viagem foram perdidas numa lacuna entre os capítulos III e VI na obra de Évreux. Uma segunda expedição explorou uma área de terra firme, distante 40 ou 50 léguas do Mearim, onde os franceses encontraram terra fértil e adequada ao cultivo de cana-de-açúcar. Esta região compreende uma "(...) vasta e comprida planície de junco e caniços, atravessando água pela cintura (...)" e "(...) A terra é cortada por muitos riachos (...)",ÉVREUX, 2007, p. 139-140 tratando-se possivelmente da Região dos Lagos da Baixada Maranhense. Um terceiro grupo, liderado por Louis de Pézieux, explorou o Uarpi (possivelmente o Rio Gurupi), com os objetivos de procurar minas de ouro e prata e fazer contato com comunidades indígenas da região.ÉVREUX, 2007, p. 149 Monsieur du Prat explorou o Rio Grajaú, onde encontrou uma nação de tapuias.

No fim de 1612, os franceses deliberaram que Razilly retornasse à França para pedir mais recursos para a colônia, uma vez que o número de colonos e de religiosos era considerado pequeno. Em 30 de novembro desse ano, Ravardière cedeu a ele sua parcela como governante da colônia, visando evitar possíveis divisões, e prometeu retornar à França quando Razilly voltasse ao Maranhão. Este partiu em 9 de dezembro de 1612 na nau Régente, acompanhado pelo padre Abbeville e por seis embaixadores indígenas, três dos quais morreram na França devido a doenças. Razilly não conseguiu o apoio que esperava da Coroa francesa, pois a rainha regente tinha interesse em firmar uma aliança com a Espanha, aproximando-se do rei Filipe III.ABBEVILLE, 2008, p. 347-350

Exploração da Amazônia e batalha contra indígenas (1613) Em 8 de julho de 1613, Daniel de la Touche partiu para uma expedição com destino ao Rio Amazonas, levando 50 franceses e 20 indígenas. O grupo passou por Tapuitapera e seguiu para Caeté (atual Bragança), de onde partiu em 17 de agosto. Em seguida, passaram pela aldeia Meron, e adentraram o Rio Pará, onde encontraram muitas aldeias habitadas. Numa dessas aldeias, os chefes suplicaram aos franceses que guerreassem contra os camarapins, um povo inimigo descrito como cruel e praticante de canibalismo, e ofereceram um grande reforço à expedição, que passou a contar com 1.200 membros. Os franceses entraram no Rio dos Pacajarés, depois no rio Parisop. Chegaram a uma grande aldeia chamada Uacuaçu, que simpatizou com a expedição e concedeu um novo reforço de combatentes. Estes conduziram o grupo à povoação dos inimigos, que moravam em palafitas construídas com grossas árvores, denominadas "iuras". Os franceses e seus aliados atacaram os nativos da área com armas de fogo, matando pelo menos 60 deles. Os camarapins resistiram de forma obstinada e se provaram muito habilidosos no uso do arco, e não se renderam, apesar da desvantagem tecnológica. Essa tribo aparentemente está extinta, mas o relato de Yves d'Évreux não deixa claro se os franceses conseguiram ou não subjuga-los naquela ocasião.ÉVREUX, 2007, p. 28-31

Atualmente, são desconhecidas as localizações exatas de Parisop, do Rio dos Pacajarés e da aldeia dos camarapins. Uma hipótese é a de que Daniel de la Touche navegou pelo Rio Tocantins, visitou a Aldeia dos Parijós, na área da atual cidade de Cametá e, em seguida, explorou o Rio Pacajá.MORENO, 2011, p. 120-123ALMEIDA, 1874, p. 262 Segundo o historiador Franz Obermeier, os camarapins seriam os habitantes das margens do Rio Camaraipi,ÉVREUX, 2014, p. 33 que banha o atual município de Portel. Segundo Monsieur de la Planque, outro nobre que participou da viagem, o Rio dos Pacajarés forma um salto de mais de 25 toesas de altura naquela região.BERGERON, 1629, p. 142-145 Sendo assim, outra hipótese afirma que os franceses navegaram apenas pelo Rio Tocantins, chegando possivelmente às corredeiras de Itaboca, submersas após a construção da Hidrelétrica de Tucuruí.

Cerca de um mês após a partida do grupo para o Amazonas, embarcações portuguesas foram avistadas nos arredores da Ilha de Upaon-Açu. Tratava-se de uma expedição comandada por Martim Soares Moreno para fazer o reconhecimento da região. Pézieux enviou franceses numa canoa para comunicar o ocorrido a Ravardière, que recebeu as notícias 3 meses depois. Ele imediatamente interrompeu a expedição ao Amazonas e voltou a São Luís, passando a trabalhar no melhoramento das defesas do forte.ÉVREUX, 2007, p. 35-36; p. 135-136 Ravardière deixou em seu lugar outro fidalgo, Monsieur de la Blanjartier (ou Blanjartière), para prosseguir com a exploração.MORENO, 2011, p. 113

Em sua extensão máxima, o território sob domínio da França Equinocial se estendia desde o litoral maranhense, até o norte do atual estado do Tocantins, dominando também quase todo o leste do Pará e boa parte do Amapá. Os franceses se estabeleceram em São Luís, explorando a região até o Rio Tocantins. Os franceses foram os primeiros europeus a chegar à foz do Rio Araguaia (região do Bico do Papagaio) em 1613.

miniaturadaimagem|269x269px|Busto de Daniel de La Touche em Cancale, França

Confronto contra os portugueses (1614)

Cientes da presença francesa na região, os portugueses reuniram tropas a partir da Capitania de Pernambuco, sob ordem de Alexandre de Moura e comando de Jerônimo de Albuquerque, para expulsar os franceses e tomar o território em nome de Portugal.

Enquanto isso, Razilly continuava na França, buscando apoio da Coroa para socorrer Ravardière. Conseguiu recrutar 300 novos colonos e 12 religiosos capuchinhos, que mandou ao Maranhão na nau Régente em 28 de março de 1614, sob comando de Monsieur du Prat.ÉVREUX, 2007, p. XLI Razilly permaneceu na França, persistindo em buscar recursos para a colônia, mas com a aproximação política entre a França e a Espanha, acabou finalmente desistindo do projeto. Dessa forma, a colônia francesa não recebeu todos os reforços de que precisava. Em 12 de junho de 1614, durante a viagem ao Maranhão, du Prat atacou o Fortim de Nossa Senhora do Rosário, erguido pelos portugueses no litoral do Ceará, mas não conseguiu tomar a fortificação.MORENO, 2011, p. 37

Em 19 de novembro de 1614, na região do Rio Munim, ocorreu a Batalha de Guaxenduba, vencida pelos portugueses, embora os franceses estivessem em vantagem numérica e de recursos.

Rendição dos franceses (1615)

Após o confronto, Ravardière e Albuquerque se comunicaram por correspondência por alguns dias, até que chegaram a um acordo de paz, assinado em 28 de novembro, dando trégua às hostilidades. O acordo estabelecia que um fidalgo português e um francês fossem à França, e igualmente um de cada país fosse à Espanha, para buscar nas duas Cortes uma saída diplomática para o conflito e decidir qual das duas nações deveria possuir a região. Quando esses fidalgos retornassem para comunicar a decisão, o grupo destinado a sair deveria deixar o Maranhão em até 3 meses, pacificamente.MORENO, 2011, p. 93-97 Gregório Fragoso de Albuquerque e Monsieur du Prat partiram para a França, e no mês seguinte, Diogo de Campos e Matieu Maillar partiram para Lisboa.MORENO, 2011, p. 119; p. 124