A Capitania da Baía de Todos os Santos, também chamada de Capitania da Bahia, foi uma das subdivisões administrativas do território brasileiro no período colonial da América Portuguesa (1500-1815), criada em 1534 junto com mais treze capitanias hereditárias (1534–1548), entregues pelo rei de Portugal, Dom João III, a donatários em regime de hereditariedade.

Pernambuco e São Vicente foram as únicas capitanias que prosperaram no período colonial.

A Capitania da Bahia de Todos os Santos daria origem à Província da Bahia em 1822, a qual, com a Proclamação da República (1889), se tornou o estado da Bahia.

A noção de colônia na historiografia Embora frequentemente descrita como parte do Brasil Colônia, as capitanias não eram compreendidas por seus contemporâneos como integrante de uma entidade político-administrativa denominada "colônia". Durante o século XVIII, os documentos oficiais da Coroa Portuguesa referiam-se aos territórios ultramarinos americanos como partes do Império Português, subordinadas ao Estado do Brasil ou diretamente à administração régia.

Na historiografia contemporânea, o termo colônia é utilizado como uma categoria analítica destinada a descrever as relações políticas, econômicas e administrativas estabelecidas entre as monarquias europeias e seus domínios ultramarinos. Nesse sentido, a expressão Brasil Colônia constitui uma construção historiográfica posterior, empregada para designar o período em que os territórios americanos sob domínio português encontravam-se subordinados à Coroa e integrados ao sistema imperial luso.

Antecedentes Em 22 de abril de 1500, Pedro Álvares Cabral desembarcou no atual litoral sul da Bahia, na atual Porto Seguro.

Apesar deste contato inicial, a Coroa portuguesa concentrou seus esforços no lucrativo comércio com a Ásia, enquanto a América Portuguesa permaneceu em segundo plano, sendo sua exploração inicial arrendada a particulares, interessados principalmente na extração do pau-brasil, madeira tintorial abundante no litoral, especialmente em trechos como a costa de Pernambuco e as cercanias de Cabo Frio e do Rio de Janeiro. Feitorias foram estabelecidas em pontos estratégicos para facilitar o escambo com os indígenas, que trocavam a madeira por ferramentas, tecidos e quinquilharias. Esta fase, porém, logo se depararia com um sério obstáculo: a presença de concorrentes europeus.

A vastidão do litoral e a falta de ocupação efetiva atraíram rapidamente outros navegadores, em especial os franceses. Desde o início do século XVI, normandos e bretões passaram a frequentar a costa brasileira, estabelecendo relações amistosas com os indígenas, particularmente com os tupinambás, que se tornaram seus aliados contra os portugueses. Este comércio ilegal prejudicava os interesses da Coroa, que via seu monopólio ameaçado e seus súditos preteridos no litoral. A situação agravou-se a ponto de, na Bahia, a presença francesa ser tão marcante que uma ilha na foz do rio Paraguaçu recebeu o nome de ilha dos Franceses, e um porto nas proximidades era conhecido como Porto dos Franceses.

Para combater a presença dos entrelopos e afirmar a soberania portuguesa, o rei do país europeu, D. João III, enviou ao Brasil, em 1527, uma armada de guarda-costas comandada por Cristóvão Jacques, que já conhecia a terra de uma expedição anterior ao Rio da Prata. Atuando com rigor, Jacques percorreu o litoral de Pernambuco à Bahia, aprisionando navios franceses e, segundo relatos, entregando os prisioneiros aos indígenas, seus aliados, o que lhe valeu uma reputação de crueldade. Esta ação, embora violenta, demonstrava a determinação portuguesa em defender seus domínios e a necessidade premente de uma ocupação mais efetiva para garantir a posse da terra, pois as expedições punitivas, por si só, mostravam-se paliativas diante da constância da ameaça francesa.

Nesse contexto, um importante episódio ocorreu para a colonização da Bahia: o naufrágio do português Diogo Álvares, natural de Viana, por volta de 1510, nos recifes da atual costa baiana. Foi acolhido pelos tupinambás, que lhe apelidaram de “Caramuru” (moreia no idioma indígena) e, integrando-se à tribo, casou-se com a indígena Paraguaçu, posteriormente batizada de Catarina, com quem teve muitos filhos, cujos descendentes deram origem a algumas das mais importantes famílias da Bahia. Suas filhas casaram-se com outros portugueses que aportaram na Bahia, formando uma rede de parentesco que seria crucial para o futuro povoamento. O Caramuru exerceu a função de intermediário, salvando náufragos e facilitando o contato entre europeus e indígenas, fosse com franceses ou portugueses, o que por vezes o colocou sob suspeita, mas foi essencial para a sobrevivência dos primeiros colonizadores.

A Capitania e sua evolução territorial e administrativa A Capitania da Baía de Todos-os-Santos foi doada pelo rei Dom João III a Francisco Pereira Coutinho, fidalgo português da alta nobreza com serviços prestados na Índia, em 5 de abril de 1534, com seu foral sendo expedido em 26 de agosto do mesmo ano. Os limites iniciais da capitania estendiam-se da foz do rio São Francisco até o desemboque do rio Jaguaripe, confrontando ao sul com a Capitania de Ilhéus. Teoricamente, seus domínios avançavam para o interior até a linha do Tratado de Tordesilhas, mas, na prática, representava uma enorme extensão de terras a serem conquistadas.

Pereira Coutinho chegou à Bahia em novembro de 1536, sendo recebido pelos brancos e caboclos que ali viviam, chefiados pelo já lendário Caramuru. O donatário estabeleceu-se num ponto elevado à direita de quem entra na baía, no atual Porto da Barra, local que ficou conhecido como Vila do Pereira e, posteriormente, Vila Velha, onde iniciou a construção de uma torre para a sua defesa e algumas casas para os colonos, além de proceder às primeiras doações de sesmarias, contemplando, entre outros, o próprio Caramuru, a quem concedeu terras nas cabeceiras do caminho do conselho, onde hoje se situa o bairro soteropolitano da Graça.

Apesar destes primeiros esforços, a falta de recursos e o temperamento conflituoso do donatário Pereira Coutinho geraram desavenças com os colonos e, sobretudo, com as tribos tupinambás, culminando em um levante indígena que destruiu seus engenhos e o forçou a se refugiar em Ilhéus e, posteriormente, em Porto Seguro. Ao tentar retornar, naufragou e foi morto pelos ameríndios, deixando a capitania em estado de abandono e à mercê de invasores franceses e indígenas hostis.

O fracasso da Capitania da Baía de Todos-os-Santos levou a Coroa a intervir para assegurar a posse daquele ponto estratégico do litoral. Assim, em 1548, a capitania foi incorporada aos domínios reais, e D. João III nomeou o fidalgo Tomé de Sousa para o cargo de governador-geral do Brasil, com a missão de fundar uma cidade fortificada que servisse de sede à administração colonial. A escolha recaiu sobre a Bahia por sua posição central no litoral, seu excelente ancoradouro e pela existência do núcleo populacional deixado por Caramuru, que poderia servir de apoio aos recém-chegados. esquerda|miniaturadaimagem|Chegada de Tomé de Sousa à Bahia em 1549, em gravura do início do século XIX. A chegada do fidalgo português resultou na fundação da cidade de Salvador para ser sede do Estado do Brasil. Tomé de Sousa desembarcou na Bahia em 29 de março de 1549, com uma expedição composta por soldados, funcionários, jesuítas e degredados. Em vez de se fixar na antiga povoação de Pereira Coutinho, considerada por demais acidentada e exposta, o governador subiu a encosta e escolheu um espigão, com água abundante e defesa natural mais cômoda, para ali levantar os muros da nova cidade. Iniciaram-se imediatamente as obras de fortificação com taipa de pilão e a construção dos primeiros edifícios públicos: a igreja (provisoriamente coberta de palha), a casa de câmara e cadeia, os armazéns e a alfândega na chamada Ribeira de Góes. Nascia assim a cidade de Salvador, que, em 1551, seria elevada a sede do primeiro bispado do Brasil.

A conquista do atual estado de Sergipe se iniciou em 1589, sendo liderada pelo governador interino da Capitania da Bahia, Cristóvão de Barros. Comandando uma força de centenas de homens, incluindo brancos, caboclos e índios aliados, Barros empreendeu uma campanha militar decisiva contra a resistência indígena chefiada pelo chefe Baepeba. Após sangrentos combates, com a morte de cerca de 1,6 mil guerreiros e a captura de centenas de outros, os portugueses saíram vitoriosos, assegurando o domínio sobre a região e fundaram, em 1590, sob a liderança de Barros, o arraial de São Cristóvão, núcleo da nova capitania real de Sergipe d’El Rei, que logo foi dividida em extensas sesmarias destinadas a recompensar os chefes militares e estimular a ocupação com a pecuária. A conquista não apenas eliminou a presença francesa na área, mas também criou um importante polo de criação de gado que abasteceria os engenhos de açúcar da Bahia e de Pernambuco, ligando definitivamente aquele território à órbita econômica baiana.

A expansão da territorial Capitania da Bahia para o norte e nordeste de Salvador foi, em grande medida, obra da pecuária, que encontrou no interior semiárido do atual estado da Bahia o ambiente ideal para prosperar, tornando-se o principal agente de interiorização e alargamento do território colonial. A pecuária não apenas ocupou o território, mas também consolidou uma estrutura de poder senhorial e clientelista que moldaria a sociedade sertaneja.

Em maio de 1624, como resultado da restrição da União Ibérica ao comércio com os Países Baixos, os neerlandeses atacaram e tomaram a cidade de Salvador, encontrando pouca resistência da população local, que se refugiou no interior. A reação, no entanto, não tardou. O bispo Marcos Teixeira organizou a resistência a partir do arraial de Abrantes, enquanto senhores de engenho e potentados locais, como a família da Casa da Torre, mobilizaram suas próprias tropas para fustigar os invasores com uma guerra de guerrilhas. A situação dos neerlandeses se tornou insustentável e, em março de 1625, a população soteropolitana, junto com uma frota luso-espanhola, retomou a cidade.

Diferentemente da Capitania da Bahia de Todos-os-Santos, que prosperou com o governo-geral, as capitanias de Ilhéus e Porto Seguro não tiveram o mesmo destino, permanecendo pouco povoadas. Em Ilhéus, a resistência dos aimorés e as disputas judiciais emperraram o desenvolvimento, enquanto em Porto Seguro, a situação era semelhante, com a capitania vegetando à margem do progresso econômico da colônia. Com isso, em 1754, a Capitania de Ilhéus foi comprada pela Coroa e incorporada à da Bahia e a Capitania de Porto Seguro foi incorporada à Bahia em 1759.

Em 1757, a vila de Minas Novas, até então território baiano, foi transferida para a Capitania de Minas Gerais, após anos de disputas entre as duas capitanias. O seu território, na época, englobava vários dos atuais municípios do Vale do Jequitinhonha e alguns do Norte de Minas Gerais.

Em 1763, a Capitania de Sergipe d’El Rei foi incorporada à da Bahia de Todos os Santos. Após anos de luta dos sergipanos, a capitania foi restaurada em 1820.

Também em 1763, a capital da colônia foi transferida de Salvador para o Rio de Janeiro, como consequência da transferência do eixo econômico colonial do Nordeste para o Sudeste do Brasil.

Aspectos socioeconômicos

O ciclo do açúcar