Angkor Wat (ou Angkor Vat) é um templo situado 5,5 km a norte da cidade de Siem Reap, na província homônima do Camboja. É o maior e mais bem preservado templo dos que integram o assentamento de Angkor. É também o único que restou com significado religioso importante — inicialmente hindu, e depois budista — desde a sua fundação. O templo é o ponto máximo do estilo clássico da arquitetura Khmer. É considerado como a maior estrutura religiosa já construída em termos de área (162,6 hectares), e um dos tesouros arqueológicos mais importantes do mundo. Tornou-se símbolo do Camboja, aparecendo em sua bandeira e sendo sua principal atração turística. Em 14 de dezembro de 1992 foi declarado pela UNESCO Patrimônio da Humanidade.
thumb|right|280x|Localização Angkor Wat faz parte do complexo de templos construídos na zona de Angkor, a antiga capital do Império khmer, durante a sua época de esplendor, entre os séculos IX e XV. Angkor abrange uma extensão em torno de 200 km², embora recentes pesquisas estimem uma extensão de 3000 km² e uma população de até meio milhão de habitantes, o que o tornaria o maior assentamento pré-industrial da humanidade.
Foi construído pelo rei Suryavarman II, no começo do século XII, como o seu templo central e capital do seu reino. Desde a sua construção, e até o translado da sede real ao próximo Bayon, no final do mesmo século, Angkor Wat foi o centro político e religioso do império. O recinto — cujos muros se calcula que viviam 20 000 pessoasAlbanese, "The Treasures of Angkor", p.150— cumpria as funções de templo principal e também abrigava o palácio real. Dedicado inicialmente ao deus Vixnu, o templo combina a tipologia hinduísta do templo-monte — representando o Monte Meru, morada dos deuses — com a tipologia de galerias própria de períodos posteriores. O templo consta de três recintos retangulares concêntricos de altura crescente, rodeados por um lago perimetral de 3,6 km de comprimento e de uma largura de 200 m. No recinto interior erguem-se cinco torres em forma de loto, atingindo a torre central uma altura de 42 m sobre o santuário,Freeman, "Ancient Angkor", p.52 e 65 m sobre o nível do solo.
A palavra Angkor vem do cambojano នគរ Nokor, e pela sua vez da voz sânscrito नगर Nagara que significa "capital", enquanto Wat é de origem khmer e traduz-se como "templo". O nome de Angkor Wat é, em todo caso, posterior à sua criação, pois originalmente recebeu o nome de Preah Pisnulok; nome póstumo do seu fundador Suryavarman II.
História thumb|Angkor Wat na bandeira do Camboja. Angkor Wat é o expoente máximo da arquitetura do Império khmer, cujos primeiros templos remontam ao século VI. O promotor deste gigantesco monte-templo foi Suryavarman II, que reinou de 1113 até 1150 d.C. Suryavarman II alcançou o poder após assassinar o então rei Dharanindravarman, saltando sobre ele enquanto o monarca passeava no seu elefante, pelo qual alguns historiadores opinam que as colossais dimensões deste templo estão motivadas em parte pelo desejo de contra-arrestar a aparente ilegitimidade do seu reinado.
Segundo conta a lenda, o rei quis situar o templo num local do agrado dos deuses, pelo qual soltou um boi na planície e resolveu construir o templo onde o animal tombasse. Seja certa a lenda ou não, Suryavarman II estabeleceu o templo junto à antiga cidade de YashodharapuraAlbanese, "The treasures of Angkor", p.151 (que em sânscrito significa "cidade sagra"),Behnke, "Angkor Wat (Unearthing Ancient Worlds)", p.20 situada a escassos quilômetros da atual cidade de Siem Reap, e assim como os seus predecessores, dispôs o palácio dentro do recinto murado do complexo. Os trabalhos no templo foram interrompidos pela morte do rei e não foram continuados, de modo que a construção do complexo durou unicamente 37 anos.
Em 1177 Angkor foi saqueada pelo Cham, nativos do atual Vietnã e inimigos tradicionais dos Khmer. Poucos anos depois, com o advento do rei Jayavarman VII os invasores foram expulsos e as fronteiras do império ampliadas. Este rei importante, cujo reinado se estendeu de 1181 à 1220 d.C.,Freeman, "Ancient Angkor", p.12 abandonou o hinduísmo e converteu-se ao budismo do ramo Mahāyāna, estabelecendo a nova capital no vizinho Angkor Thom, com Bayon como novo templo.
No fim do século XIII, o rei Jayavarman VIII retornou às crenças hinduístas, destruindo parte do legado de Jayavarman VII e melhorando alguns templos hinduístas, incluído Angkor Wat.Freeman, "Ancient Angkor", p.13 A Jayavarman VIII foi sucedido por Srindravarman em 1295: este novo rei, que nos anos anteriores fora ordenado monge budista em Sri Lanka, mudou novamente a religião do império para o budismo, embora adotando desta vez as crenças do ramo Teravada.Freeman, "Ancient Angkor", pp. 8-13 Entre os séculos XIV e XV, o Império khmer viu chegar do Sri Lanka os primeiros monges budistas Teravadas, que transformariam os templos para a nova religião. O templo de Angkor Wat foi então remodelado para se adaptar ao culto Teravada, fatos que aconteceram pouco antes do abandono final de Angkor.
left|thumb|Os monges de Angkor Wat foram os únicos que permaneceram durante os séculos do abandono.
Apesar da decadência do império e do abandono dos templos durante os séculos seguintes, os monges budistas permaneceram em Angkor Wat até ser redescoberto pelos franceses. Nas galerias do Preah Poan — uma galeria cruciforme que serve de entrada para o terceiro recinto do templo— encontraram-se estátuas de Buda de madeira, pedra e metal. Algumas destas esculturas foram datadas entre os séculos XVI e XVIII, o qual confirma que o templo de Angkor, ao contrário de outros na região, nunca foi abandonado. A aparição de inscrições em idiomas como o birmano ou japonês permitem inferir a repercussão do templo para além das fronteiras cambojanas.
Não se conhecem com certeza as razões pelas quais Angkor foi abandonada: uma das mais prováveis foi a decadência do Império khmer, nomeadamente por causa das incursões mongóis (1283) e siamesas (entre 1369 e 1431), que evidenciaram a excessiva cercania da capital a respeito dos invasores, pelo qual os governantes puderam determinar a procura de um sítio mais seguro ao sul do lago Tonlé Sap, nas zonas próximas às atuais cidades de Phnom Penh e Udong. Além disso, a localização destes novos locais ao delta e ao Mar da China dotava-os de uma melhor situação estratégica para o comércio e o intercâmbio marítimo, tão importante numa região em que o transporte por terra praticamente ficava interrompido à época das monções. Argumenta-se também a possibilidade de epidemias ou fome (motivadas talvez pela pequena Idade do Gelo experimentada na Idade Média), terem obrigado a monarquia a mudar o seu trono para o sul. De qualquer maneira, Angkor foi abandonada em 1432 e a nova capital foi estabelecida em Lovek, perto da atual Phnom Penh.
No entanto, Angkor foi novamente habitada na segunda metade do século XVI: em 1550, o rei Ang Chan (1516–1566) deslocou-se para Angkor Thom, embora mantivesse a capital em Lovek, e em 1576, o rei Satha transladou novamente a côrte para Angkor. Como consequência, diversas tarefas de restauração foram realizadas em Angkor Wat, as quais são constadas numa inscrição de 1577. Contudo, esta nova ocupação de Angkor durou pouco, visto que, em 1594, os siameses conquistaram o débil império cambojano, e Angkor foi abandonada definitivamente.
Descobrimento no ocidente thumb|Fotografia de Angkor, tomada em 1866 por Emile Gsell. Após o seu abandono no final do século XVI, Angkor foi tomada pela selva, com a única exceção do templo de Angkor Wat, que permaneceu habitado por monges budistas.
Ainda persiste a lenda de que Angkor Wat caiu no esquecimento até ser redescoberto pelo naturalista francês Henri Mouhot no final do século XIX, encontrando o templo acidentalmente enquanto caçava borboletas. Esta história é um mito, pois Mouhot não foi o primeiro ocidental a visitar o templo, e este nunca foi completamente abandonado, permanecendo na memória coletiva do povo khmer e até mesmo transcendendo as fronteiras do seu império. A primeira visita documentada de um ocidental a Angkor Wat aconteceu em 1586 e foi realizada pelo frei capuchinho português António da Madalena. As impressões do frei foram recolhidas por um historiador e funcionário público chamado Diogo do Couto,Albanese, "The treasures of Angkor", p.70 que deixou-as por escrito:Higham, The Civilization of Angkor pp. 1-2.
thumb|O plano mais antigo conservado de Angkor Wat (século XVII). Após esta visita, outros pioneiros europeus, especialmente espanhóis e portugueses, continuaram visitando as ruínas, embora sem repercussão pública.Freeman, "Ancient Angkor", p.40 Também se tem registro de uma carta de 1668 mencionando o local por um frei francês chamado Chevreul. O templo também recebeu visitas da Ásia: o mapa mais antigo de Angkor Wat, datado entre 1623 e 1636, foi obra de um peregrino japonês chamado Kenryo Shimano.Behnke, "Angkor Wat (Unearthing Ancient Worlds)", p.12
Em 1857, o missionário francês Charles Emile Bouillevaux foi o primeiro a deixar constância "moderna" da visita de um ocidental a Angkor Wat, ao publicar no seu livro Viagem à Indochina 1848–1856, os Annam e Camboja, uma breve resenha sobre a visita realizada ao templo em 1850. Mas não seria até 1860, que um compatriota seu, o naturalista e explorador Henri Mouhot, conseguiu por fim atrair a atenção popular para Angkor. Após uma viagem financiada pela Royal Geographical Society e a Zoological Society of London, os desenhos e a apaixonada descrição do templo registrados nos cadernos da viagem deste naturalista foram publicados póstumamente em Paris em 1868, com o nome de "Voyage dans les royaumes de Siam, de Cambodge de Laos" (Viagem aos reinos do Sião, do Camboja e do Laos). Nas suas observações, o francês exaltava a beleza e magnificência do templo:
Em 1863, entre a visita de Mouhot e a publicação dos seus cadernos de viagem, Camboja tornou-se protetorado francês, e vários grupos de exploradores chegaram a Angkor: um dos primeiros foi o fotógrafo escocês John Thomson, que trabalhou também para a Royal Geographical Society, e que após ler as crônicas de Mouhot decidiu visitar Angkor. Em 1866 realizou uma série de cinquenta fotografias, especialmente de Angkor Wat, publicadas um ano depois.Behnke, "Angkor Wat (Unearthing Ancient Worlds)" p.13 Estas fotos, com o Livro de Mouhot, lançaram definitivamente à fama o templo de Angkor Wat, enquanto o número de viajantes e exploradores que chegavam em Angkor seguiu em aumento.
Restauração thumb|Vista aérea do complexo atualmente. Em 1898 foi fundada a École Française d'Extrême-Orient visando estudar o patrimônio artístico da Indochina sob domínio francês. Em 1907 o Sião (a atual Tailândia) cedeu vários territórios ao Camboja, entre os quais se encontra a zona de Angkor. A partir deste fato a conservação dos monumentos passou a ser responsabilidade da École, a qual, um ano depois, iniciou os trabalhos de conservação. A tarefa foi encomendada a um militar e administrativo francês chamado Jean Commaille, que entre 1908 e 1910 decidiu concentrar os esforços em Angkor Wat. Após o assassinato de Commaille em 1916, este foi sucedido pelo arquiteto Henri Marchal, já um verdadeiro técnico, que levou a Angkor o método da anastilose, aprendido dos holandeses durante uma viagem a Java na década de 1930. Marchal foi sucedido por Maurice Glaize em 1937 e por outros mais tarde,Freeman, "Ancient Angkor", p.41 até os trabalhos de restauração da École serem interrompidos na década de 1970 pela devastadora revolução dos Khmer Vermelho.