"All Things Must Pass" é uma canção do músico inglês George Harrison, lançada em novembro de 1970 como a faixa título de seu álbum triplo homônimo. Originalmente, Billy Preston havia lançado a canção – como "All Things (Must) Pass" – em seu álbum Encouraging Words (1970) pela Apple Records, depois que os Beatles rejeitaram sua inclusão no álbum Let It Be em janeiro de 1969. A composição reflete a influência do som e do estilo de composição comunitário do grupo The Band sobre Harrison, depois que ele havia passado um tempo com o grupo em Woodstock, no final de 1968, enquanto que o poema de Timothy Leary "All Things Pass", uma adaptação psicodélica do Tao Te Ching, forneceu inspiração para a letra da música.
O tema trata da natureza transitória da existência humana, e na leitura de All Things Must Pass, letra e melodia combinam-se para refletir impressões de otimismo contra o fatalismo. Na época do lançamento, junto com a capa de Barry Feinstein, comentadores viram a canção como uma declaração sobre a separação dos Beatles. Amplamente considerada uma das melhores composições de Harrison, a rejeição por sua antiga banda provocou comentário de biógrafos e resenhistas. O crítico musical Ian MacDonald descreveu "All Things Must Pass" como "a canção mais sábia nunca gravada pelos Beatles", enquanto o autor Simon Leng a considera "talvez a maior composição solo de um Beatle". A gravação foi co-produzida por Phil Spector em Londres; ela traz um arranjo orquestral de John Barham e contribuições de músicos como Ringo Starr, Pete Drake, Bobby Whitlock, Eric Clapton e Klaus Voormann.
Embora os Beatles não houvessem, formalmente, gravado a música, uma fita demo solo de 1969 gravada por Harrison aparece na compilação Anthology 3 (1996). Uma versão inicial retirada das sessões de All Things Must Pass foi lançada na compilação póstuma Early Takes: Volume 1 in 2012. Paul McCartney tocou "All Things Must Pass" no tributo Concert for George em novembro de 2002, um ano após a morte de Harrison. Jim James, the Waterboys, Sloan Wainwright e, ainda, Klaus Voormann e Yusuf Islam estão entre os outros artistas que gravaram covers da canção.
Antecedentes thumb|esquerda|The Band em Woodstock em 1969, com Levon Helm (centro) e Robbie Robertson (segundo da direita) Assim como seu amigo Eric Clapton, George Harrison foi inspirado por Music from Big Pink, o influente álbum de estreiaHarris, p. 66. do grupo the Band, a antiga banda de apoio de Bob Dylan.Clayson, p. 258.Leng, pp. 51–53. Lançado em julho de 1968, Music from Big Pink foi responsável, em parte, pelo retorno de Harrison à guitarra, seu primeito instrumento,Leng, p. 317. depois de ter passado dois anos tentando dominar o sitar.Olivia Harrison, p. 194.George Harrison, pp. 57–58. Harrison prontamente compartilhou seu entusiasmo com a imprensa musical britânica, declarando Big Pink "o novo som vindo da América", relembrou o baterista Levon Helm, ajudando, deste modo, a estabelecer o grupo internacionalmente.Helm, pp. 177–78. Como forma de agradecimento, Robbie Robertson, guitarrista do The Band, convidou Harrison a fazer uma parada em Woodstock, quando surgisse a oportunidade.Clayson, p. 242.
No final de 1968, depois de algumas sessões de produção em Los Angeles para um álbum solo de um artista contratado pela Apple Records chamado Jackie Lomax,Miles, p. 313. Harrison passou o Dia de Ação de Graças e boa parte de dezembro no norte do estado de Nova Iorque,Huntley, p. 18. onde renovou sua amizade com Bob Dylan, agora semi-aposentado, e participou de jam sessions com o The Band.MacDonald, p. 302.George Harrison, p. 164. De acordo com Helm, eles discutiram um possível álbum de "jam caseira" com Clapton e um "rock western chamado Zachariah pela Apple Films, mas nenhum destes projetos avançou além do estágio de planejamento. As imediações bucólicas se mostraram frutíferas para Harrison como compositor, produzindo sua primeira colaboração com Dylan, "I'd Have You Anytime",Leng, pp. 39, 52. e levando-o a compor "All Things Must Pass".Lavezzoli, p. 186. Posteriormente, ele descreveu esta última como uma "canção no estilo Robbie Robertson–Band",George Harrison, p. 184. e disse que sempre a imaginou cantada por Helm.Timothy White, "George Harrison: 'All Things' In Good Time", billboard.com, 8 de janeiro de 2001 (acessado em 3 de junho de 2014).
Composição Discutindo "All Things Must Pass" com o jornalista musical Timothy White em 1987, Harrison relembrou que seu "ponto de partida" para compor a música foi "The Weight" de Robertson – uma canção que tinha um "feeling religoso e country".Timothy White, "George Harrison – Reconsidered", Musician, Novembro de 1987, p. 62. Musicalmente, os versos de "All Things Must Pass" seguem uma escalada lógica no tom de Mi;MacDonald, p. 448. os refrões breves formam um desvio disso, com sua inclusão de um acorde de Si menor ao invés do maior. O autor Ian Inglis observa que a composição incorpora os mesmos modos, cadências e suspensões encontradas em canções do The Band como "The Weight" e "The Night They Drove Old Dixie Down".Inglis, p. 30.
thumb|right|As Montanhas Catskill no norte de Nova Iorque – paisagem que inspirou a música do The Band e a canção "All Things Must Pass" de Harrison Para a letra, Harrison inspirou-se em "All Things Pass", um poema de Timothy Leary publicado no livro Psychedelic Prayers after the Tao Te Ching (1960).Greene, p. 140.Allison, p. 135. Em sua autobiografia I, Me, Mine (1980), Harrison refere-se à ideia para a canção se originando de "diversos místicos e ex-místicos", incluindo Leary. Assim como composições posteriores de Harrison, tais quais "Here Comes the Sun", "So Sad" e "Blow Away", o conteúdo lírico e emocional baseia-se em metáforas envolvendo o clima e o ciclo da natureza.Leng, pp. 42, 96–97, 152, 205. Harrison afirma nas primeiras palavras do primeiro verso: "O amanhecer não dura toda a manhã / Um aguaceiro não dura o dia inteiro".George Harrison, p. 186.
De acordo com Simon Leng, biógrafo de Harrison, a letra reflete "o caráter efêmero da vida" e a natureza "transitória" do amor.Leng, p. 96. Inglis sugere que a canção é "aparentemente" sobre "o fim de uma relação amorosa". Ele e o teólogo Dale Allison observam o otimismo oferecido nas palavras de Harrison,Allison, pp. 37–38. já que, como Leng coloca, "um novo dia sempre alvorece." Embora "All Things Must Pass" evite a religiosidade, Allison escreve que sua afirmação sobre a transitoriedade "universal" das coisas no mundo material explica porque tanto do álbum All Things Must Pass "encontra esperança e sentido apenas em Deus, que não se extingue".Allison, pp. 62, 135. A mensagem principal da canção é oferecida em sua ponte:Leng, pp. 96–97.Allison, p. 62.
Em última análise, o ciclo da natureza oferece "consolação", escreve Leng, como evidenciado no terceiro verso "Agora a escuridão só fica à noite" e " A luz do dia é boa em chegar na hora certa".
A letra sofreu pequenas mudanças depois de Harrison apresentá-la aos Beatles em janeiro de 1969, quando começaram a trabalhar no Twickenham Film Studios, em Londres, para o projeto Get Back (lançado como o álbum Let It Be e o filme de mesmo nome). Inicialmente, ele havia escrito a segunda linha do segundo verso de maneira mais literal: "Um vento pode soprar aquelas nuvens para longe",George Harrison, p. 185. mas mas gravações bootleg das sessões revelam John Lennon sugerindo a palavra "mente" para introduzir um pouco de "psicodelia" na canção.Sulpy & Schweighardt, p. 49. Da mesma forma, a linha repetida "nem sempre vai ser tão cinza assim", originalmente, era "nem sempre foi tão cinza assim" no primeiro e no segundo verso.George Harrison, pp. 185–86.
Histórico de gravação pré-All Things Must Pass Ensaios para Get Back dos Beatles
Diferentemente da igualdade criativa da qual gozou com Dylan e o The Band em Woodstock,Harris, p. 68.Doggett, p. 57. Harrison voltou aos Beatles e encontrou a mesma atmosfera discordante que havia afligido as sessões do Álbum Branco em 1968.Huntley, pp. 20–22. Logo no início dos ensaios de Get Back – e, notadamente, observa o jornalista musical John Harris, antes da chegada naquele dia de Lennon e sua parceira Yoko Ono – Harrison falou com entusiasmo a Ringo Starr e Paul McCartney sobre a camaradagem e a filosofia do The Band: "Eles estão só vivendo e, por acaso, acontece de serem também uma banda."John Harris, "Into the Woods", Mojo, dezembro de 2003, p. 92.
Em 2 de janeiro, o primeiro dia da filmagem em Twickenham,Doggett, p. 58. Harrison introduziu "All Things Must Pass", e daí a banda trabalhou na canção intermitentemente durante os próximos quatro dias de filmagem.Miles, p. 327.Sulpy & Schweighardt, pp. 5, 319. Em busca de um arranjo musical apropriado, Harrison enfatizou sua preferência por um "feel" semelhante ao do The Band, uma sugestão que resultou em Lennon trocando a guitarra pelo órgão Lowrey, um teclado preferido por Garth Hudson, do The Band.Sulpy & Schweighardt, pp. 42, 44–45. Durante os ensaios em Twickenham, os Beatles também discutiram a ideia de Harrison tocar "All Things Must Pass" sozinho para inclusão no filme proposto.Sulpy & Schweighardt, pp. 120–21.
Eles voltaram brevemente à canção no fim de janeiro, depois do projeto haver se mudado para o Apple Studio, no centro de Londres – uma das condições de Harrison para voltar aos Beatles depois de sua saída temporária em 10 de janeiro.Miles, pp. 330, 331. Embora a banda tivesse dedicado uma quantidade razoável de tempo a "All Things Must Pass", no final, ela foi colocada de lado,Sulpy & Schweighardt, pp. 6, 295. assim como outras composições de Harrison, incluindo "Old Brown Shoe", "Isn't It a Pity", "Let It Down" e "I Me Mine" foram recebidas tepidamente,Leng, p. 39.The Editors of Rolling Stone, pp. 38, 187. especialmente por Lennon.Huntley, pp. 18–19, 21.Miles, p. 328. David Fricke da Rolling Stone referiu-se a este período como uma "luta" de Harrison "contra as restrições condescendentes de composição dentro e para os Beatles".The Editors of Rolling Stone, p. 180. Doug Sulpy e Ray Schweighardt, autores de Get Back: The Unauthorized Chronicle of The Beatles' Let It Be Disaster, observam que Lennon e McCartney rejeitavam constatemente as canções de Harrison, "muito embora algumas fossem muito melhores que as deles".Sulpy & Schweighardt, p. 1.
Os Beatles nunca formalmente gravaram "All Things Must Pass", e apenas versões de ensaio circulam em compilações bootleg das sessões.Sulpy & Schweighardt, p. 6. O disco bônus Fly on the Wall que acompanha o álbum Let It Be... Naked (2003) inclui um trecho dos Beatles cantando o refrão da música ao estilo do The Band.Huntley, p. 21.
Fita demo de Harrison Durante a sessão de 28 de janeiro no estúdio Apple,Sulpy & Schweighardt, pp. 292–93. Harrison conversou com Lennon e Ono sobre a possibilidade de fazer um álbum solo de suas canções que não haviam sido utilizadas, para "preservar mais isto, a parte dos Beatles".Hertsgaard, p. 283. Lennon apoiou a ideia. Embora o autor Bruce Spizer tenha sugerido que Lennon estivesse interessado em "poupar" a banda de ter de trabalhar nas canções de Harrison,Spizer, p. 220. Sulpy e Schweighardt consideraram que o entusiasmo de Lennon se dava porque um projeto solo nestes moldes permitiria que ele e Ono continuassem suas próprias atividades de gravação "sem causar atrito dentro dos Beatles".
Em 25 de fevereiro de 1969, seu aniversário de 26 anos, Harrison entrou no sozinho nos estúdios Abbey Road e gravou uma fita demo da canção, junto com outras composições recentes suas, "Old Brown Shoe" e "Something".Miles, p. 335.Leng, p. 41. Com Ken Scott servindo como engenheiro de som, ele gravou duas versões de "All Things Must Pass", adicionando uma guitarra elétrica extra na segunda.Mark Lewisohn, notas de encarte que acompanham o CD do álbum Anthology 3 (Apple Records, 1996; produzido por George Martin), p. 33. Esta versão foi eventualmente lançada em 1996 na coleção de outtakes Anthology 3.Spizer, p. 225.