Pecchio é uma antiga família nobre italiana, radicada em Milão, que surgiu nos registros no fim do século XII e ganhou grande proeminência entre os séculos XV e XVIII, assumindo as mais altas magistraturas cívicas e fazendo parte de um pequeno grupo de famílias que neste período monopolizou o poder.

Foram patrícios hereditários de Milão e muitos membros da família tiveram os títulos não hereditários de cavaleiro papal e imperial, cavaleiro de Santo Estêvão, de Malta ou da Coroa Italiana, e conde palatino. Numerosos membros ocuparam relevantes cargos públicos, como notários, podestàs, juízes, conselheiros, deputados, senadores, embaixadores e castelãos, além de participarem múltiplas vezes da comissão administrativa da Catedral de Milão (o Capítulo da Fábrica), colaborando na sua construção, conservação e funcionamento. Diversos membros se destacaram pelas obras beneficentes ou por funções na Igreja e nas armas, e alguns ramos foram condes hereditários. O sobrenome da família foi grafado de muitas formas, como Pecchi, Pegiis, Pezzi e outras. Lançaram ramos em várias outras cidades italianas, bem como no Brasil.

Visão geral Origens

Suas origens estão envoltas em lendas e incerteza. Um dos primeiros autores a se ocupar da família, Gaudenzio Merola, no século XVI, acreditava que descendiam de uma gens romana chamada Pectia. Eruditos do século XVII como Giovanni de Crescenzi e Salvador Vitale repetiram essa opinião,Crescenzi, Giovanni Pietro de. Anfiteatro Romano, parte prima. Malatesta, 1648, pp. 255-257Vitale, Salvador. Theatrum Triumphale Mediolanensis Urbis Magnalium, Annalistica Proportione Digestum. Malatesta, 1642, s/pp. mas não há nenhuma documentação que a sustente, sendo um típico exemplo da exagerada louvação das famílias ilustres. Segundo Carlo Godi, é quase certo que sejam um ramo da família Pecci de Siena,Godi, Carlo. Bandello: narratori e dedicatari della prima parte delle Novelle. Bulzoni, 1996, p. 80 mas não há evidências sólidas nesta direção. As duas famílias aparecem nos registros na mesma época, seus brasões não têm nada em comum, e os nomes próprios da família de Siena são todos latino-italianos, enquanto que na família de Milão muitos dos primeiros a aparecer têm nomes de origem germânica.Frantz, Ricardo André Longhi. Crônica das famílias Artico e Longhi de Caxias do Sul e sua parentela: estórias, histórias e genealogia - Volume IV - o passado na Europa. Academia.edu, 2025, pp. 42-86 O ramo de Vercelli reivindicava ser o mais antigo.De Gregori, Gaspare. Istoria della vercellese letteratura ed arti, parte 2. Chirio & Mina, 1829, pp. 171-172"Il Priggionero". La Domenica, 8 de março de 1891, pp. 10-11

A grafia do sobrenome sofreu muitas transformações, gerando uma grande quantidade de variantes: No anais do município a forma mais antiga é Petie ou Petia, logo ultrapassadas por De Pegiis, que predominou até o século XV, com várias ocorrências de De Pezzis, seguida por Pecchio, que se estabilizou como a grafia moderna a partir de meados do século XVI. Há diversas outras variantes mais raras: (de) Peggiis, Pegijs, Peghi, Pegio, Pezzi, Pezis, Pezziis, Peciis, Pighii, Petti e Pecchi. Há um consenso de que, apesar da variabilidade ortográfica, trata-se de uma mesma família.Caffi, Michele. "Bernardo da Venezia, architetto della Certosa di Pavia". In: Archivio Storico Italiano, 1869; IX (I): 189Cerioni, Lydia. La Diplomazia sforzesca nella seconda metà del Quattrocento e i suoi cifrari segreti. Il centro di ricerca, 1970Calleri, Marta & Mangini, Marta Luigina. "Il Centro studi interateneo Notariorum Itinera". In: Albini, Giuliana (ed.). Studi di Storia Medioevale e di Diplomatica, 2017; Nuova Serie I e muitos personagens foram registrados com mais de uma, a exemplo de Federico, registrado como Pezzis, Pezzi, Petiis, Peciis, Pecijs, Pegiis; Giacomo (Pegiis, Pechio, Peghi); Caterina (Pecchis, Pecchio, Pecci), ou Girolamo (Pegiis, Pecchio, Pecchius), todos com e sem a partícula "de" antes do sobrenome.

Segundo Franca Leverotti, eles faziam parte de um grupo de famílias de tradição mercantil que ganhou nobreza por serviços prestados ao soberano,Leverotti, Franca. "L'aristocrazia lombarda e la casa sforzesca". Apresentação da publicação Stemmario Trivulziano. Castelo de Jerago, 20 de outubro de 2001 mas de acordo com Felice Calvi, uma tradição mercantil não é compatível com os cargos que assumiram a partir do século XIV, que vedavam o acesso a famílias desta extração.

O erudito Bernardino Corio disse no século XVI que em 1228 os Pecchio já eram "poderosos", mas o erudito Giovanni de Crescenzi no século XVII só começa a falar deles como realmente influentes a partir do século XV. Crescenzi, p. 255 Os anais cívicos de Milão tampouco corroboram a narrativa de Corio. Em 1215 havia um notárioManaresi, Cesare. Gli atti del Comune di Milano fino all'anno MCCXVI. Capriolo & Massimino, 1919, p. xci e em 1225 havia um protonotário do Mosteiro de São Vítor,Baroni, Maria Franca. Gli atti del Comune di Milano nel seccolo XIII, vol. I: 1217-1250. Capriolo, 1976, p. 230 mas ao longo do século XIII a família é registrada principalmente como arrendatários de terras na periferia da cidade ou servindo como testemunhas em diferentes atos de pouca consequência.Baroni, Maria Franca. Gli atti del Comune di Milano nel seccolo XIII,vol. IV - Appendice: 1176-sec.XIII. Ferraris, 1977, p. 103Baroni, Maria Franca & Cipo, Roberto Perelli. Gli atti del Comune di Milano nel seccolo XIII, vol. II, parte 1: 1251-1262. Ferraris, 1982, pp. xxxii; 213-214; 223Baroni, Maria Franca. Gli atti del Comune di Milano nel seccolo XIII, vol. III: 1277-1300. Ferraris, 1992, pp. 391-397; 479

Rolando Peci é o primeiro da família a ser documentado com o estatuto de cidadão, aparecendo na lista de 1266 de todos os milaneses cidadãos que juraram fidelidade à Igreja.Ratti, M. E. “A Milano nel 1266 da inedito documento originale dell'Archivio Segr. Vaticano, ossia giuramento di obbedienza dei milanesi alla Santa Sede con duemila e più nomi di cittadini: memoria”. In: Memorie del Reale Istituto lombardo di scienze e lettere. Classe di lettere e scienze morali e politiche, 1902, Serie 3, Volume 21, Fascicolo 4, p. 224 A cidadania era um estatuto difícil de adquirir, concedia importantes privilégios e isenções, e apenas um limitado número de habitantes da cidade o conquistava. Uma das grandes vantagens da posse da cidadania era a inclusão na nobreza cívica.

No fim do século XIII se fixam principalmente no centro urbano, e no século seguinte todos os ramos já são cidadãos, possuem brasão, e começam uma rápida ascensão, adquirindo um conspícuo patrimônio fundiário na zona rural a leste da cidade, em torno do povoado de Villafranca, e pouco tempo depois concentram seus investimentos em terras no distrito de Martesana, numa área que devido à presença da família logo seria conhecida como Cascina de' Pegis.Benucci, Franco. Stemmi di scolari dello Studio patavino fuori delle sedi universitarie. Antilia, 2007, p. 35 Cascina é um tipo de estabelecimento rural composto de um grupo de edificações reunidas em torno de um grande pátio aberto, geralmente voltado para a produção de leite, queijo e manteiga."Cascina". In: Dizionario di Italiano La Repubblica. Hoepli, 2018 Ali ergueram uma igreja no século XVI dedicada a Santa Maria Assunta. Em 1870 esta área foi desmembrada de Milão e emancipada, formando o núcleo da nova municipalidade de Cassina de' Pecchi, denominação que homenageia a família. O brasão da comuna incorpora a faixa vermelha e as abelhas de uma das variantes do brasão Pecchio.Comune di Cassina de' Pecchi. Città Metropolitana di Milano. Chiesa di S. Maria Assunta (ex). Lombardia Beni Culturali.

Ao longo do século XIV a família se dividiu em três grandes ramos, que usaram brasões semelhantes: o tronco principal, o ramo que daria origem aos condes de Monte, e o que daria origem aos Pecchio Ghiringhelli; todos, segundo Giovan di Crollalanza, muito ilustres. Em 1335 aparece o primeiro membro no Conselho. A entrada no Conselho exigia ser homem livre, cidadão, e ter residência fixa na cidade há pelo menos trinta anos. No Conselho se reunia o patriciado primitivo da cidade, que era então uma classe pouco formalizada.Manaresi, p. lxxvi Em 1396 o número de conselheiros, chamados decuriões, foi fixado em 900, e seus membros, antes eleitos pela assembleia dos cidadãos, passaram a ser nomeados diretamente pelo Conselho das Provisões e escolhidos entre os cidadãos "mais sábios, ricos e úteis da cidade". Seu mandato era de um ano. Ao longo do tempo o número de decuriões variou consideravelmente: em 1408 foi reduzido para 72, sendo escolhidos 12 de cada bairro (Porta) da cidade; em 1412 os 900 foram restaurados, em 1478 passou a ser 450, e em 1512, 150.Calvi, p. 54

Apogeu Entre os séculos XIV e XVIII ocupariam as mais altas magistraturas, acumulando riqueza e uma série de títulos e honrarias.Lupi, Giovanni Battista; Bertolli, Franco; Colombo, Umberto. La peste del 1630 a Busto Arsizio: riedizione commentata della "Storia" di Giovanni Battista Lupi. Bramante, 1990Annali di storia moderna e contemporanea. Vita e Pensiero, 2004, p. 317 Foram incluídos pelos doutores Marinone e Bugatti nos seus catálogos das principais famílias de Milão, e em 1518, depois que os franceses tomaram a cidade, a família foi incluída em um longo panegírico proferido no Senado por Isidoro Isolani diante de Odet de Foix, delegado do rei da França, exaltando as famílias locais de mais antiga nobreza e de maior distinção. O governo francês reformou o antigo Conselho, passando a ser formado por apenas 60 membros, cujo mandato passou a ser vitalício.Crescenzi, pp. 66-70

Em 1583 os estatutos cívicos foram reformados e a aristocracia foi reorganizada, unificada e passou a obedecer a normas formais, fundando-se o patriciado clássico de Milão como uma classe nova, o qual se tornou a mais alta forma de nobreza cívica. O cargo de decurião se tornou hereditário e exclusivo de famílias patrícias reconhecidas formalmente. Ao mesmo tempo, os critérios de reconhecimento passaram a ser muito mais rigorosos e excludentes. Uma série de outros cargos judiciais e administrativos também passou por uma reforma. Com isso, o âmbito de influência dos decuriões se expandiu enormemente, mas o número de famílias com acesso ao Conselho era muito pequeno. O resultado das reformas foi que os patrícios, que nesta época já monopolizavam as nomeações para a cátedra arquidiocesana, o Capítulo da Catedral, o Senado, o Conselho das Provisões e os colégios dos médicos e juízes, passaram a dominar todas as posições importantes. Nesta altura os Pecchio já estavam incluídos entre as famílias decurionais perpétuasCrescenzi, p. 68 e faziam parte do reduzido grupo de famílias que constituía o núcleo mais sólido do patriciado, e com elas monopolizavam o poder.Della Peruta, Franco; Capra, Carlo; Chittolini, Giorgio (eds.). Storia illustrata di Milano: Milano moderna. Sellino, 1992-1993, p. 1048Colombo, Mauro. "Organi della pubblica amministrazione in età spagnola". In: Colussi, Paolo & Tolfo, Maria Grazia. Storia di Milano, 14 de julho de 2004