A Bíblia do Pontifício Instituto Bíblico é uma edição brasileira das Sagradas Escrituras cristãs publicada pela Edições Paulinas em 1967, sendo uma versão em português da edição original em italiano La Sacra Bibbia tradotta dai testi originali con note, a cura del Pontificio Istituto Biblico di Roma traduzida diretamente dos originais grego, aramaico e hebraico, pelo padre Alberto Vaccari. https://books.google.com.br/books?id=UDl0sjys4LEC&pg=PA66&lpg=PA66&dq=B%C3%ADblia+vers%C3%A3o+pontif%C3%ADcio+Instituto+b%C3%ADblico&source=bl&ots=b7zSBLG-Dp&sig=ACfU3U1RBgoVTqpSRfux6NhHTQeTUlUsdA&hl=pt-BR&sa=X&ved=2ahUKEwjg34C614npAhUzC9QKHTZcB1cQ6AEwCHoECAoQAQ#v=onepage&q=B%C3%ADblia%20vers%C3%A3o%20pontif%C3%ADcio%20Instituto%20b%C3%ADblico&f=false | Metodologia do Novo Testamento, de Wilhelm Egger

Antecedentes históricos A partir de meados do século XIX e ao longo do século XX, a intensidade das controvérsias entre os católicos, sobre as relações da Igreja com as liberdades modernas alcançou o auge. A ênfase dessas discussões transitou desde temas políticos e sociais a teológicos e filosóficos; seu eixo se situaria no complexo equilíbrio entre o respeito à ortodoxia da doutrina cristã sob depósito da Igreja Romana e o consequente respeito ao magistério da Igreja e a uma alegada necessidade de diálogo e integração na sociedade em constante mudança a partir da Revolução Industrial.http://teologicalatinoamericana.com/?p=1375

No início, a crise centrava-se nas novas propostas políticas e nas relações entre a Igreja e o Estado. De um lado os apoiantes do antigo regime e do outro aqueles que aderiram à, depois denominada, "autonomia do temporal"; ambas posições manifestaram suas fraquezas quando se tornaram extremas (AUBERT, 1977, p.45).

Este episódio motivou a primeira manifestação do chamado "catolicismo de conciliação" – um retorno às fontes cristãs da Patrística e com vontade de ajustar-se aos tempos da democracia política, do liberalismo econômico e da liberdade cultural.

Do lado reacionário estava o "catolicismo de rejeição", com os ultramontanos, que rejeitavam um diálogo com a modernidade e lançava anátemas a tudo que ia de encontro à moral e ao dogma católico. Esse setor poderoso da Igreja tinha firmes posições defensivas da tradição, mesmo de total fechamento (MALLIMACI, 2004, p.27-28). Dois autores símbolos dessa corrente ortodoxa dentro da Igreja católica são Jean-Joseph Gaume, autor do clássico e insuperável Catecismo da Perseverança, em dez volumes, disponível gratuitamente em língua portuguesa pelo site Obras católicas https://obrascatolicas.com/editorarealeza/elementor-2829/ e Henri Delassus, autor da obra-denúncia Conjuração anti-Cristã, em três volumes, disponível gratuitamente em língua portuguesa pelo site Alexandria católicahttps://alexandriacatolica.blogspot.com/2016/01/monsenhor-henri-delassus.html.

No auge de toda essa peleia, o papa Pio IX promulgou o Sílabo dos erros, condenando todas as proposições erradas da época, proposições essas que foram prosaica e paradoxalmente tanto aprovadas como promovidas pelo Vaticano II, como afirmou o Prefeito do Santo Ofício Bento XVI quando Cardeal:

Na condição de eminentíssimo Cardeal e Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o então Joseph Ratzinger apontou graves rupturas nos documentos pastorais do Vaticano II. Suas acusação mais grave diz respeito ao documento Gaudium et Spes, classificado por ele de Anti-Syllabus. Vejamos no texto a seguir: “Se se deseja emitir um diagnóstico global sobre este texto [da Gaudium et Spes] poder-se-ia dizer que significa (junto com os textos sobre a liberdade religiosa e sobre as religiões mundiais) uma revisão do Syllabus de Pio IX, uma espécie de Antisyllabus” (Cardeal Joseph Ratzinger. Teoria dos Princípios Teológicos. Barcelona: Editorial Herder, 1985, pág. 457. Negrito nosso). E o Cardeal disse ainda: “Contentemo-nos aqui com a comprovação de que o documento desempenha o papel de um Anti Syllabus, e, em conseqüência, expressa a intenção de uma reconciliação oficial da Igreja coma nova época estabelecida a partir do ano de 1789" (Cardeal Ratzinger. Teoria dos Princípios Teológicos. Barcelona: Editorial Herder, 1985, p. 458).http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/mais-provas-de-que-o-vaticano-ii-e-discutivel-e-criticavel/

No entanto, os que estavam na vanguarda do Modernismo católico não se deram por vencidos. Associados em uma "conjuração anti-Cristã", conforme denunciava Monsenhor H. Delassus, esses hereges "cloacas de impureza" nos dizeres de Nossa Senhora de La Salette persistiram no seu intento de destruir a fé católica nos seus alicerces mais sagrados: a Bíblia, a Tradição e o Magistério católico que compõe a Revelação cristã.

Seus protagonistas queriam transformar a fé, a mentalidade e a cultura católica, modelando-a conforme o espírito da época, sob influência das modernas correntes do pensamento filosófico no campo científico, histórico e crítico como vitalismo, imanentismo, cientificismo e historicismo). Distorcendo a ideia defendida por São João Henrique Newman do Desenvolvimento da doutrina, esses intelectuais católicos alardeavam a evolução do dogma cujo auge foi a controvérsia modernista, durante o pontificado de São Pio X.

A "evolução dos dogmas" acabou por ser condenada e considerada herética na encíclica Pascendi Dominici Gregis (1907), escrita pelo Papa Pio X. Embora os intelectuais modernistas, tais como George Tyrrell e Alfred Loisy, defendiam algumas vezes a influência das ideias de Newman sobre o seu pensamento, o seu objetivo principal não era compreender as antigas raízes da doutrina católica nem estudar a compatibilidade de todas as declarações doutrinais (quer as do passado quer as do presente), mas sim era fazer evoluir a doutrina católica de acordo com as suas próprias ideias mutáveis, conforme o espírito liberal e relativista dos tempos. Por isso, o modernismo foi considerado pelo Papa Pio X como a "síntese de todas as heresias".

Nem todo modernista escancarou-se publicamente. Esses foram os mais perigosos inimigos da fé cristã, pois souberam usar de astúcia, agindo sorrateiramente a partir dos estudos promovidos sob uma terminologia dúbia, dissimulando e diluindo a verdade e o erro, principalmente na École Biblique que depois do Vaticano II editou a Bíblia de Jerusalém.

As tentativas de relacionar fé e história, de aprofundar e comparar os ensinamentos de Jesus de Nazaré e os ensinamentos da Igreja, conciliar a inerrância bíblica com as teorias de Julius Wellhausen ou com a Crítica histórico-literária da Bíblia dos modernistas sofreram um duro golpe por parte do Papa São Pio X, mas as ideias da Escola de Jerusalém seguiam serpeando o meio católico.

Em 1907 São Pio X condenou os trabalhos da falsa exegese bíblica como iniciativas anticatólicas e definiu os "modernistas" como "inimigos internos". Buscando promover a verdadeira exegese do Texto Sagrado, e sabendo que os dominicanos em Jerusalém na École Biblique estavam inclinados a heresia modernista, não acatando as ordens de Roma para estudar a Bíblia com o devido respeito, São Pio X fechou essa escola e fundou o Pontifício Instituto Bíblico, sob o cuidado dos jesuítas, para levar os estudos bíblicos a um patamar jamais visto na história da Igreja.

As consequências da decisão de São Pio X foram complexas: por um lado, consolidou-se a corrente fundamentalista, que passou a resistir à modernização da sociedade e a confrontar as possíveis mudanças dentro da própria Igreja, através inclusive de iniciativa como a La Sapinière; por outro lado, deu-se um desenvolvimento constante dos modernistas mitigados que, galgando postos estratégicos nas escolas, universidades e na Cúria Romana, restaram vencedores quando do Concílio Vaticano II, triunfando com sua Nouvelle théologie (Nova Teologia).http://www.ihu.unisinos.br/images/stories/cadernos/teopublica/016cadernosteologiapublica.pdf

Conforme o especialista doutor Émile Poulat "(...) em um século, nós passamos de um modernismo restrito a um modernismo generalizado (...) Nesse sentido, nós todos somos modernistas. Que aqueles que duvidam disso, ou o contestem, releiam os documentos pontifícios, o decreto Lamentabili e a encíclia Pascendi (1907). O fato é que o longo juramento antimodernista instituído por São Pio X, em 1910, foi abolido por Paulo VI um pouco mais de meio século depois" (Émile Poulat, Histoire, Dogme et Critique dans la Crise Moderniste, Albin Michel, Paris, 1962, Avant Propos da 3a edição, em 1995 p. VII e XVII)

O papa Pio X havia confiado aos mais proeminentes professores jesuítas no PIB uma versão autorizada da Bíblia em italiano. Mas foi o Papa Pio XI que finalmente encontrou no eminente teólogo jesuíta e professor do Instituto Bíblico de Roma padre Alberto Vaccari o promotor da tradução da Bíblia para o italiano a partir dos textos originais. Monsenhor Vaccari com sua equipe do PIB trabalharam por quase 40 anos nessa tradução, desde 1923 encerrando em 1958. O objetivo, além do primor do texto, era ser uma versão católica com introduções, comentários e notas que refutassem o modernismo, defendesse a fé e ao mesmo tempo fomentasse a piedade e a virtude da religião nos fiéis.

A partir do final da década de 1940, reapareceu com vigor o "catolicismo de conciliação", uma nova roupagem modernista, com base nas renovadoras obras teológicas desenvolvidas pelos dominicanos em Le Saulchoir e pelos jesuítas em Fourvière. Esta Nouvelle Théologie se opôs ao intelectualismo escolástico, deturpou ou abandonou Santo Tomás de Aquino, aprofundou o estudo dos Padres da Igreja e questionou a distância entre a teologia e a cultura moderna.

Se, devido aos erros modernos, o Papa Leão XIII, através da Encíclica Aeterni, no ano de 1879, conclamava “Ide a Tomás”, iniciando a Neoescolástica, e São Pio X recomendava às universidades católicas que adotassem a Suma Teológica para combater o modernismo na Igreja, pois Santo Tomás fora sempre proposto pela Igreja católica como mestre de pensamento e modelo quanto ao reto modo de fazer Teologia, e com seu carisma de filósofo e teólogo, oferecera um válido modelo de harmonia entre razão e fé, com a Nouvelle Théologie Santo Tomás foi declarado ultrapassado.

Por isso as censuras promovidas pela encíclica Humani Generis, do Papa Pio XII, em 1950, e os expurgos de Fourvière e Le Saulchoir logo depois. Menos de quinze anos mais tarde, vários daqueles teólogos neomodernistas censurados atuariam como peritos no Concílio Vaticano II; Jean Daniélou, Yves Congar e Henri de Lubac seriam nomeados cardeais.

Por sua vez, o Padre Monsenhor Vaccari, em 1958 com 83 anos, consegue, com sua equipe do PIB, concluir a incumbência que lhe dera o Papa Pio XI, em 1923, e anuncia finalmente a Bíblia Sagrada do Pontifício Instituto Bíblico, fruto de 35 anos de intensos estudos e pesquisas, símbolo da ortodoxia da fé católica.

A versão italiana A iniciativa de tradução de Monsenhor Vaccari foi desencadeada por um pedido de São Pio X ao Pontifício Instituto Bíblico, mas só foi concluída no final da década de 1950, com a ajuda de outros colaboradores. A obra foi publicada em nove volumes (mais um índice) em Florença, na editora Salani, entre 1943 e 1958, com o título A Bíblia Sagrada traduzida dos textos originais com notas do Pontifício Instituto Bíblico de Roma.

Vaccari não foi apenas o diretor e editor-chefe, mas também editou pessoalmente as versões dos livros de Gênesis, Levítico, alguns livros históricos, livros poéticos, profetas maiores, nove profetas menores, Evangelho segundo Lucas, Carta aos Hebreus, Cartas Católicas e Apocalipse. Com sua escrupulosa atenção filológica aos textos originais e antigas traduções da Bíblia, inaugurou um novo estilo e método de estudo, que o Padre Giovanni Rinaldi (1966) define com uma feliz expressão "humanismo eclesiástico-exegético"https://www.treccani.it/enciclopedia/alberto-vaccari_%28Dizionario-Biografico%29/