Telurocracia (do latim tellus, “terra”, e do grego krátos ou κράτος, “poder”) é um conceito utilizado na geopolítica, na geografia política e na história das relações internacionais para designar formas de poder estatal baseadas predominantemente no controlo de grandes massas territoriais contínuas, na expansão para o interior continental e na primazia das forças terrestres.
O termo é geralmente empregado em oposição analítica à talassocracia, que se refere a potências cuja projeção de poder se funda no domínio das rotas marítimas e na supremacia naval. Na prática histórica, porém, a maioria dos Estados apresenta combinações variáveis de características telurocráticas e talassocráticas.
Na interpretação geopolítica clássica, as telurocracias tendem a desenvolver estruturas políticas centralizadas, grandes exércitos terrestres e economias baseadas na exploração de recursos continentais, enquanto as potências marítimas se caracterizam por redes comerciais, poder naval e expansão ultramarina.
Definição e uso do conceito
O uso moderno do conceito está ligado ao desenvolvimento da geopolítica no final do século XIX e início do século XX. Na formulação de Halford Mackinder, a oposição entre potências continentais e marítimas constituía um elemento estruturante da política mundial, sendo o controlo da massa continental euro-asiática — o Heartland — a base do poder terrestre.
No plano teórico, Carl Schmitt interpretou a história moderna como marcada pela tensão entre potências da terra e do mar, associando as primeiras à territorialidade, à ordem jurídica continental e à guerra terrestre, e as segundas à mobilidade, ao comércio e à guerra naval.
Em sentido descritivo, o termo é também utilizado para caracterizar Estados cuja formação histórica se baseou na expansão territorial contínua e na integração de regiões interiores.
Características gerais
Entre as características frequentemente associadas às formações telurocráticas destacam-se:
a continuidade territorial e a expansão continental; a primazia do poder militar terrestre; a centralização administrativa; a integração económica de espaços interiores; a menor dependência das rotas marítimas.
Esses elementos, contudo, não se apresentam de forma pura em nenhuma experiência histórica, sendo o conceito utilizado sobretudo como instrumento analítico comparativo.
Exemplos históricos
Na Antiguidade, a República Romana e o posterior Império Romano são frequentemente apresentados como exemplos de expansão baseada na integração territorial, em contraste com potências marítimas como Cartago.
Na Idade Moderna e Contemporânea, são geralmente citados como casos de potências predominantemente continentais:
o Império Russo e a União Soviética, pela expansão contínua através da Eurásia; o Império Alemão e o Império Austro-Húngaro, no contexto da rivalidade com o Império Britânico; a França napoleónica, cuja estratégia se baseava na hegemonia continental europeia.
Mesmo nesses casos, houve tentativas de desenvolvimento de poder naval, o que demonstra a natureza híbrida das grandes potências.
Telurocracia na geopolítica contemporânea
O conceito continua a ser utilizado na análise geopolítica para descrever a oposição entre potências continentais e marítimas, especialmente em estudos sobre a Eurásia e as relações entre grandes potências.
Na teoria eurasianista de Aleksandr Dugin, a telurocracia é associada às civilizações continentais e à oposição ao chamado “atlantismo”. Essa interpretação, contudo, constitui uma apropriação ideológica contemporânea de categorias geopolíticas anteriores e não corresponde ao uso clássico do conceito na historiografia e na geopolítica académica.
Ver também Talassocracia Geopolítica Heartland
Bibliografia
Categoria:Geopolítica Categoria:Formas de governo Categoria:História das relações internacionais