O quasa (ou kwazá) é uma língua indígena falada no sudeste do estado brasileiro de Rondônia, que se encontra em situação de quase desaparecimento. Em 2013, os falantes do kwazá configuravam uma população de oitenta pessoas, inseridas entre a Terra Indígena Kwazá do Rio São Pedro e a de Tubarão-Latundê. Os demais falantes do kwazá se localizam aos redores de Pimenta Bueno, Vilhena, Chupinguaia, Porto Velho, Costa Marques e Guajará-Mirim. Devido à falta de uso da língua pelos falantes, a sua transmissão para as próximas gerações está em risco. O kwazá é geralmente classificado como uma língua isolada, pois não tem afiliação reconhecida com outras famílias linguísticas; contudo, pondera-se que se dê preferência ao termo língua não classificada, devido à carência de informações sobre ela.

Distribuição Localização geográfica e linguística No oeste do estado de Rondônia há uma fronteira nacional com a Bolívia, definida pelo rio Guaporé. A sua beira leste faz fronteiras com o estado brasileiro do Mato Grosso, próximo de onde banha o rio Pimenta Bueno. Mais à jusante, o rio Guaporé é chamado de Mamoré e o rio Pimenta Bueno de Jí-Paraná ou Machado. Ambos os sistemas de rios, os quais abrangem a maior parte de Rondônia, desaguam no rio Madeira, o qual novamente deságua no rio Amazonas. esquerda|miniaturadaimagem|Território de Rondônia Rondônia pertence às planícies amazônicas, desfrutando de rios e florestas tropicais, e representa uma das regiões linguisticamente mais diversas da América do Sul. Atualmente, a região do Guaporé abriga mais de quarenta línguas indígenas, isso potencializa a possibilidade de esse local ter sido um dos pontos da origem dos povos sul-americanos. Os kwazá estão inseridos aos redores do rio São Pedro afluente do rio Pimenta Bueno que está associada a uma fronteira étnica, cultural e linguística que dividia o povo tupi e do povo nambikwara.

História

Autodenominação A sociedade indígena kwazá é falante da língua homônima. Apesar de que determinadas literaturas e os demais povos vizinhos referirem-se aos kwazá por meio das denominações 'koaiá, koaya, coaiá ou quaia', eles não as reconhecem e as consideram errados. Assim, definem que o nome correto a ser utilizado é kwazá, mesmo que não haja atribuição de sentido a esse termo. Por exemplo, os salamãi os chamavam antigamente de koaiá. O povo aikanã os chamava de kwazá, sendo assim acredita-se que o nome 'kwazá' não seja a autodenominação original do povo, pois o som presente na fala dessa palavra não está presente no inventário de sons kwazá. O nome 'Arara' foi utilizado no passado por funcionários da FUNAI, porém essa denominação não é apreciada pelos indígenas e não foi amplamente difundida, já que ela poderia causar confusão com outros povos de Rondônia chamados 'Arara'. Há outras autodenominações de valor descritivo, mas que não são muito usadas. Os nomes Tsãrã txinuténaheré 'aqueles da terra grande', Tsãrã txuhuinaheré 'aqueles da terra pequena' faziam alusão aos dois grupos de kwazá que moravam em lugares distintos no sul de Rondônia até o final do século passado. Além disso, o povo kanoé chamava os kwazá de Tainakãw. A sua adaptação para a língua portuguesa é quasa. É perceptível que existe uma variada gama de denominações desse povo, que também representam o nome da língua falada por ele, kwazá.

Variação linguística e seu contexto A língua portuguesa possui maior prestígio social e proporciona a comunicação geral entre as pessoas, principalmente por conta dos casamentos interétnicos entre o povo kwazá, os aikanãs e os não indígenas. O português falado é oriundo dos imigrantes nordestinos, chamados de “soldados da borracha” no contexto da época. Migrantes das regiões sul, sudeste e centro oeste do país também ocuparam a área, depois o declínio da borracha, assim acabando por influenciar a fala do português pelos kwazá do rio São Pedro. Tal variação demonstra a condição de seringueiro, ocupada pelos kwazá por um longo período. miniaturadaimagem|Extração da borracha. A depopulação indígena assolou os povos durante a década de 1930. Assim, diversos povos juntaram-se no mesmo espaço geográfico, a fim de trabalharem nos seringais. Os sobreviventes do povo kwazá, nesse contexto, aos poucos deixaram de usar a sua língua materna, devido também à violência verbal e física existente contra aos falantes da língua nativa. A política de boa vizinhança proporcionou um método de resistência adquirida pelos kwazá do rio São Pedro. Assim, misturaram-se aos seringueiros e adotaram o hábito de vida deles e utilizando o português como primeira língua. Nos útimos anos, uma família kwazá, que vivia na Terra Indígena Tubarão Latundê, passou a viver na aldeia São Pedro, assim ampliou-se o uso do kwazá nesse local, havendo possibilidade de que a língua seja revitalizada. miniaturadaimagem|Situação em que indígenas se encontravam na extração de borracha na Amazônia É importante destacar que os falantes da língua kwazá pertencem a duas diferentes famílias. A Família I está inserida entre falantes de aikanã e com falantes de língua portuguesa. Nesse núcleo familiar, é comum o trilinguismo (nesse caso, composto pelas línguas kwazá, aikanã e o português). Já os membros da Família II situam-se em localidades isoladas, de forma que kwazá é falado quase que exclusivamente. Alguns membros dessa família são monoglotas, bilíngues ou trilíngues, assim como ocorre na Família I. Há certas variações fonéticas entre a fala de ambas as famílias.

Fonologia O inventário de fonemas indígenas kwazá compreende oito vogais orais, sete vogais nasais e dezenove consoantes. A língua kwazá tem vários glides ou semivogais, que podem ser nasalizados. Essas semivogais ocorrem em posições não silábicas após uma vogal completa. Eles são mais bem atribuídos aos fonemas vocálicos aos quais estão foneticamente mais relacionados. Os glides pré-vocálicos são tratados como fonemas consonantais aproximantes separados.

Vogais O sistema vocálico kwazá compreende oito fonemas vocálicos orais e sete fonemas vocálicos nasais. Na tabela a seguir, todos os fonemas vocálicos orais do kwazá estão listados:. +Fonemas vocálicos da língua kwazá - Vogais oraisAnteriorCentralPosteriorFechadaSemifechadaMédiaSemiabertaAberta Na tabela a seguir, todos os fonemas vocálicos nasais do kwazá estão listados: +Fonemas vocálicos da língua kwazá - Vogais nasaisAnteriorCentralPosteriorFechadaSemifechadaMédiaSemiabertaAberta

Consoantes Na tabela a seguir, todos os fonemas consonantais kwazá estão listados: + Fonemas consonantais da língua kwazáLabialLamino-alveolarApico-alveolarPalatalVelarGlotalPlosivaImplosivaAfricadatxFricativaNasalñVibranteLateralAproximante

Fonotática A estrutura silábica do kwazá é predominantemente: (Consoante) → Vogal

Quando a sílaba contem um ou mais glides, então a estrutura é mais complexa: (Consoante) → (Glide) → Vogal → (Glide)

A língua não tem encontros consonantais que não sejam uma combinação consoante-glide. É possível que o palatal africado /tx/ se originou de uma combinação do apico-alveolar plosivo /c/ e do lamino-alveolar fricativo /s/. Um recurso especial do sistema de consoantes é que parece ser uma oposição entre as consonantes plosivas e implosivas, em vez de entre consoantes vozeadas e desvozeadas.

Ortografia A ortografia prática da língua kwazá para uso de seus falantes foi desenvolvida em uma cooperação dos próprios Kwazá. A ortografia prática e o seu equivalente fonêmico é apresentado abaixo:

+ Ortografia prática do kwazá e equivalentes fonêmicosOrtografiaFonemaAproximação com o Pt-Bra/a/pá [ˈpa]ã/ã/lã [ˈlɐ̃]b/b/bule [ˈbuli]d/d/data [ˈdatɐ]e/e/cesta [ˈsɛʃtɐ]ee/ɛ/mel [ˈmɛw]ẽẽ/ɛ̃/Não há no Pt-Br (equivalente a main ['mɛ̃] (em francês))h/h/rato [r̄′atu]'/ʔ/como a pausa em ã-ã [ˈɐ̃ɐ̃] (negação)i/i/ilha [ˈiʎɐ]ĩ/ĩ/sinto [ˈsĩtu]y/j/iôiô [iˈojo]ɨ/y/Não há no Pt-Br (equivalente a chute [ʃyt] (em francês))ɨ̃/ỹ/Não há no Pt-Brk/k/coroa [koˈɾoɐ]l/l/livro [ˈlivɾu]m/m/mão [ˈmɐ̃w̃]n/n/não [ˈnɐ̃w̃]ny/ñ/unha [ˈuɲɐ]o/o/pó [ˈpɔ]õ/õ/conto [ˈkõtu]ö/œ/Não há no Pt-Br (equivalente a 月 [ɥœ˥˩] (em mandarim))p/p/pato [ˈpatu]r/r/touro [ˈtoɾu]s/s/salto [ˈsawtu]x/x/arrasto [aˈʁaʃtu]t/t/tatu [taˈtu]ty/c/Não há no Pt-Br (equivalente a qui [ci] (em francês))ts/ts/tsunami [tsunɐˈmi]tx/tx/tchau [ˈtʃaw]u/u/suco [ˈsuku]ũ/ũ/unto [ˈũtu]w/w/pão [ˈpɐ̃w̃]

Gramática Nomes Os nomes são definidos pelos pronomes pessoais e pelo pronome interrogativo. No kwazá não há artigos, adjetivos, marca de gênero ou de número. Há, no entanto, uma marca possesiva, que é utilizada apenas para a terceira pessoa: tjate (dele(a)). + Exemplo do uso da marca possessiva no kwazáMarca possessivaExemploSignificadotjate (dele(a))kanwã-tjatecanoa dele Também há vários sufixos que indicam as funções sintáticas ou os papéis semânticos: + Funções e exemplos do uso de sufixos no kwazáSufixoFunção sintática ou papel semânticoExemploTradução Pt-Br-wãmarca do objeto animadoaha-'wã ãwỹi-'raVá ver o seu pai!-koinstrumentalprego-'ko'twe-kiO prego passou pela porta.-nalocativoa'xy-naNa casa.-dubeneficiáriodilɛ-'du-xa-rePara quem você está fazendo isso?-dynỹcomitativosam'weu onɛ-'ki zjwãu-dy'nỹSamuel está vindo e João também.-lesó, somentetxi-tay-tɛ-'le wanɛ-tsy-'tseTraga apenas o frasco grande!-rataprimeirokawa'pɛ-rata 'a-(ĩʔĩ-'hỹ)-kiA barata existiu primeiro. Existem duas subclasses de nomes: os independentes (morfemas livres), e os dependentes (morfemas presos) que referem-se principalmente a partes do corpo humano e a orientadores espaciais (direcionais). Os nomes dependentes podem ser alomorfes de algum nome independente. Ambos os nomes -tuku 'língua de alguém' (dependente) e tjuku 'língua' (independente) são alomorfes de apenas um morfema em distribuição complementar. Os nomes dependentes tem a possibilidade de tornar-se independentes com a autófora independentizador. Nesse caso, -kai 'perna de' (dependente), que configura-se para e-kai 'perna'. A partir de uma perspectiva morfológica, os nomes dependentes afixam-se ao nome da frase, assim como em Pédro-dɨ-kai 'perna de Pedro' (com -kai perna de, -di possessão de). Ou, se existe um verbo, o nome dependente torna-se parte dele, demarcando a posição das marcas pessoais intraverbais que referenciam a concordância com o sujeito (verbo intransitivo) ou com o objeto (verbo transitivo). No aspecto semântico, os nomes dependentes sempre demarcam uma relação ontológica ou de dependência com outro nome, assim como em -mãi n.dep. 'dente de (alguém)' e -jãhã n.dep. 'caminho de (alguém)'. Existem mais de cem nomes dependentes com a capacidade de expressar esse sentido ontológico.

Pronomes pessoais A língua kwazá tem seis pronomes pessoais. Os pronomes pessoais não são claramente marcados para número. No entanto, dois dos pronomes citados, si e xyi, também aparecem como raiz de palavras derivadas, formadas pela afixação do elemento -tsɛ. Eles se referem a pessoas plurais: tsitsɛ ‘nós (exclusivo)' e xyitsɛ 'vocês (plural)'. Observe que tsitsɛ e txana às vezes são também realizado como [sitsɛ] e [tana] ou [tjana] respectivamente.

O elemento -tsɛ poderia ser interpretado superficialmente como um marcador de plural, mas ele só pode ser combinado com pronomes de primeira e segunda pessoa, e não ocorre com a terceira pessoa. Portanto, parece mais provável que ele marque a “associação” de uma terceira pessoa. Nessa análise, a diferença entre o “eu” e “nós” e entre “você (singular)” e “vocês (plural)” é expresso de forma eficaz, nomeadamente através da associação semântica de uma pessoa a uma pessoa diferente. Como já existe um pronome de primeira pessoa inclusivo, txana, este sistema permite ao mesmo tempo uma distinção entre inclusivo e primeira pessoa exclusiva “plural”. Do ponto de vista morfológico, este sistema é parcialmente supletivo.

+ Pronomes pessoais do kwazáPessoaAssociaçãoFormaSignificado1sieu2xyivocê12txa’nanós (inclusivo)13tsi'tsɛnós (exclusivo)23xyi'tsɛvocês3ĩele, ela, eles, elas

Pronome interrogativo