A Casa de Girlan foi uma família nobre de origem germânica radicada no antigo Principado de Trento. O sobrenome é toponímico, tendo se estabelecido em torno da vila de Girlan (Cornaiano em italiano), um distrito de Appiano, então sob a jurisdição de Trento mas hoje incluída na Província Autônoma de Bolzano, na Itália. Girlan fica numa área bilíngue e nas fontes medievais é grafada em muitas variantes italianas e alemãs, como Cornaliano, Curlan, Curnilan, Gurilano, Curinlan, Gurlano e outras. Tratando-se de uma família germânica, neste artigo foi adotada preferencialmente a forma Girlan. Devido à ausência de um verdadeiro sobrenome na família, seus membros usaram outros topônimos identificadores, principalmente de Griensberg, de Altenburg e de Appiano, onde fixaram sedes.
Surgiram nos registros do Principado de Trento no início do século XII já como nobres e cavaleiros. Adquiriram um extenso patrimônio fundiário em fazendas, feudos e alódios, e ascenderam rapidamente na hierarquia do poder regional, tornando-se no início do século XIII a mais importante família servidora dos condes de Appiano, então uma das mais poderosas famílias do Principado, de quem receberam o senhorio de Girlan e outros bens e os serviram como ministeriales, copeiros, mordomos e burgraves nos castelos de Griensberg, Altenburg e Warth, mas seu apogeu durou pouco. Dependendo do patrocínio e proteção dos condes, com a sua extinção perderam seu senhorio e seus cargos, mas diversos membros da família serviram os bispos de Trento e deles receberam benefícios. A Casa de Girlan foi a origem de várias famílias novas, destacando-se os Fuchs e os Khuen, de longa e distinguida trajetória.
História Desde suas primeiras aparições nos registros já evidenciam ser uma família germânica bem estabelecida com funções ministeriais. Enquanto que no norte da Germânia os ministeriales pertenciam à baixa nobreza, no Tirol e na Áustria eles tinham um estatuto elevado, vindo logo depois dos condes e barões.Santifaller, Leo. "Das Brixner Domkapitel in seiner persönlichen Zusammensetzung im Mittelalter". In: Schlern-Schriften; 1924/1925; XII (7) Segundo Bettotti & Landi, especificamente no Principado de Trento, desde o século XII eles já haviam sido absorvidos na classe dirigente, tornando-se indistinguíveis dos outros vassalos dos bispos.Bettotti, Marco & Landi, Walter. "Signorie rurali, coscienza nobiliare e autorappresentazione". In: Bettotti, Marco & Varanini, Gian Maria (eds.). La signoria rurale nell'Italia del tardo medioevo, vol. 6. Firenze University Press, 2023, pp. 297-329
Os mais antigos registros os mostram servindo a Cúria de Bressanone e ligados a diversos mosteiros bávaros que tinham propriedades nos principados episcopais de Bressanone e Trento, mas em seguida passam a servir os condes de Appiano e a Cúria de Trento. O mais antigo membro individualizado da família é o dominus Hermannus de Girlan (Hartmannus), cuja família há gerações tinha alódios na área de Girlan. Entre c. 1091 e 1097 era ministerialis do bispo de Bressanone, servindo como testemunha numa grande doação de terras em Kampill e outros locais na região de Bolzano que o ministerialis Meripoto e sua mulher Ricart fizeram à Igreja de Bressanone em benefício de suas almas, e no início do século XII Hermannus aparece como pai de Cunradus, Villanus e Wilhelmus.Sinnacher, Franz Anton. Beyträge zur Geschichte der bischöflichen Kirche Säben und Brixen in Tyrol, Vol. 2. Weger, 1822, pp. 650-662Voltelini (1951), pp. 196-198 A domina Willebirch (Willipurch) de Girlan e suas irmãs Oza e Gepas em torno 1130-1140 doaram 5 denários ao altar de São Ingenuino e na mesma ocasião Ingram, ministeriais do bispo de Bressanone e filho de Gepas, doou dois servos à Igreja de Bressanone em nome da mãe.Redlich, Oswald. Die Traditionsbücher des Hochstifts Brixen: vom zehnten bis in das vierzehnte Jahrhundert. Acta Tirolensia, vol. 1. Wagner, 1886, p. 158 Em 1175 o filho de Ingram, Hecelo de Sarentin, serviu de testemunha quando o conde Henricus de Appiano confirmou uma doação que anteriormente seus ministeriales Hartmannus e Cunradus haviam feito ao Mosteiro de Schäftlarn na Baviera.Huter, Franz. Tiroler Urkundenbuch, 1. Band bis zum Jahre 1200. Landesmuseum Ferdinandeum, 1937, pp. 171-172 A domina Willebirch no fim da vida, desejando renunciar ao século, em torno de 1170-1180 dividiu as terras agrícolas e viníferas que possuía em Russan, Harena e Kampill na região de Bolzano, doando metade para o filho Adelpretus de Girlan e metade para o Mosteiro Novo de Freising na Baviera. Após a morte de Adelpretus seu legado também reverteria para o Mosteiro.Huter (1937), p. 192-193 Adelpretus já havia aparecido antes. Em torno de 1140 foi testemunha na libertação de duas servas do bispo de Bressanone e na doação de bens à Igreja,Redlich, pp. 156-157 antes de 1165 foi testemunha em um acordo entre os condes de Appiano-Ultimo a respeito de direitos sobre vinhedos em Appiano, e antes de 1166 apareceu com seus irmãos Gotpoldus e Hainricus como ministeriales testemunhando a sujeição do mosteiro beneditino de Rott em Wasserburg am Inn, na Baviera, à jurisdição do bispo de Trento.Huter (1937), p. 105 Mahlknecht, Bruno. Eppan - Geschichte und Gegenwart. Gemeinde Eppan, 1990, pp. 257-290
A seguir aparece o dominus Odolricus I de Appiano ou de Girlan (Ulricus), cavaleiro, vassalo e ministerialis dos condes de Appiano e primeiro senhor conhecido de Girlan, atestado entre 1169 e 1195 como testemunha em vários atos dos condes. Foi o chefe da família em sua geração e provavelmente foi ele quem construiu em Girlan em torno de 1170 o castelo que se tornou a sede da família: o Castelo Griensberg. A partir do nome deste castelo alguns membros da família usaram o topônimo de Griensberg.Bosl, Karl. “Die Bedeutung der deutschen und italienischen Landesgeschichte für die moderne Gesellschaftsgeschichte (nicht Sozialgeschichte) Europas und des Westens”. In: Annali dell'Istituto storico italo-germanico in Trento, 1981 (7): 51-103Landi, Walter. "L'incastellamento di fronte al diritto feudale. Il caso dell’episcopato di Trento fra XII e XIII secolo". In: Obermair, Hannes (ed.). Geschichte und Region/Storia e regione, 2015, 1 – XXIV (1)
Nesta época o Principado de Trento estava em seu período formativo, suas fronteiras ainda eram mal estabelecidas e o poder temporal dos bispos era frágil, sendo contestado pela nobreza local, sempre ambiciosa e violenta. O Principado havia sido estabelecido pelos sacro imperadores com o objetivo de controlar uma região estratégica que fazia a ligação entre a Germânia e a Itália, sendo colocado um governante não hereditário, um bispo, a fim de que não se formasse ali uma dinastia que pudesse vir a se rebelar contra o Império e ganhar independência. Pelo mesmo motivo havia sido criado o principado episcopal vizinho de Bressanone.Landi, Walter. Re nazionali senza nazione. Il Regnum Italiae e la marca di Trento fra la fine del IX e i primi anni dell'XI secolo. Bolzano, 2015, pp. 79-81 É um exemplo desse contexto de agitação política e insegurança institucional a prisão do bispo Adelpreto II em 1158 pelo conde de Appiano e seu assassinato em torno de 1177 pelo senhor de Castelbarco.Cetto, Adolfo. "Adalpreto". Inː Dizionario biografico degli italiani, vol. 1. Istituto dell'Enciclopedia Italiana, 1960 Assim, numa tentativa de sujeitar a nobreza, os bispos de Trento estavam empenhados em um processo de feudalização de todos os bens alodiais dos nobres, criando uma rede de obrigações formais entre eles e a Cúria, que não obstante frequentemente eram desrespeitadas. O Castelo Griensberg havia sido construído sem a permissão episcopal, e em 1185 o bispo Alberto Madruzzo ordenou sua destruição se sua situação não fosse regularizada. No mesmo ano os condes de Appiano intermediaram um acordo com o bispo, o castelo foi sujeito à jurisdição episcopal, e Odolricus I retratou-se junto ao bispo pelas ofensas e agravos que cometera, jurando-lhe fidelidade e obediência.Hormayr, Joseph von. Geschichte der gefürsteten Grafschaft Tirol, vol. 2. Cotta, 1808 Depois disso o castelo não é mais mencionado diretamente nas fontes medievais, mas o topônimo do castelo permaneceu em uso até meados do século seguinte, e isso provavelmente indica que a fortaleza ainda existia nesta época. Seja como for, dele só restam vestígios das bases.
Em torno de 1175 Odolricus I e seu irmão Swikkerus eram copeiros do conde de Appiano e dele receberam dois vinhedos em Missian. A partir de 1185 até seus últimos registros Odolricus I serviu como burgrave do Castelo Altenburg, a principal sede dos condes de Appiano.Hormayr, Joseph von. Taschenbuch für die vaterländische Geschichte, Volume 8. Reimer, 1837, p. 510 Testemunhou em Bolzano um importante intercâmbio de bens e feudos entre os condes e o bispo em 1189,Curzel, Emanuele & Varanini, Gian Maria. "Codex Wangianus. I cartulari della Chiesa trentina (secoli XIII-XIV)". In: Annali dell'Istituto storico italo-germanico in Trento, 2007; 5 (I) e em 1194 comprou junto com seus irmãos dois feudos em Camerag e Tescha, na área de Appiano. No mesmo ano testemunhou a entrega do Castelo Altenburg para o bispo, que o devolveu aos condes de Appiano como feudo, com a condição de que em caso de guerra ele seria franqueado para as tropas do bispo. Ao que parece Odolricus I revelou-se rebelde à autoridade episcopal outras vezes, pois em seu último registro, de 1195, junto com o filho Odolricus II e seu parente o castelão Eticho prometeu ao bispo apresentar-se diante dele num prazo de três meses se ele ou seus homens cometessem novas hostilidades contra o bispo ou seus servidores em Altenburg, renovando seu juramento de fidelidade.Huter (1937), p. 278
Enquanto isso, os senhores de Girlan se tornavam uma família populosa, lançando ramos em vários outros locais nas redondezas, especialmente Appiano, Altenburg, Tramin, Bolzano e Warth, adquiriam um expressivo patrimônio fundiário em feudos, fazendas e alódios e desempenhavam múltiplas funções para os condes de Appiano e os bispos de Trento. Na geração seguinte atingiriam seu apogeu como os principais servidores dos condes de Appiano, uma da quatro mais poderosas famílias do Trentino no século XIII. A família de Odolricus I permaneceria controlando Altenburg até a extinção dos condes, comandando uma grande equipe de ministeriales e cavaleiros.Wissmann, Hermann von. Die Geschichte von Saba, Volumes 402-403. Österreichische Akademie der Wissenschaften, 1982
Odolricus I sem dúvida foi visto pela família como uma figura fundadora, pois seu nome se repetiria numerosas vezes nas gerações seguintes. Seu filho o dominus Odolricus II de Griensberg foi atestado pela primeira vez em 1195, quando era um dos castelãos de Altenburg e junto com o pai jurou fidelidade ao bispo de Trento. Sucedeu o pai como senhor de Girlan e do Castelo Griensberg, mantendo essas posses pelo menos até 1231, em 1208 testemunhou um acordo entre o bispo de Trento e o conde do Tirol sobre os direitos de cada um sobre Bolzano, em 1210 testemunhou a cessão ao bispo de Trento dos diretos do conde de Ultimo sobre o Castelo de Tenno em troca da sua investidura de um feudo em Foiana, jurando fidelidade ao bispo e prometendo ajudar o conde a cumprir seus compromissos; em 1216 testemunhou o compromisso de vários nobres ao bispo de Trento jurando não reforçar suas torres e castelos sem permissão, e em 1222 testemunhou em Altenburg a posse do Mosteiro de Irsee pelos condes.Curzel, Emanuele & Varanini, Gian Maria. "La documentazione dei vescovi di Trento (XI secolo - 1218)". In: Annali dell’Istituto storico italo-germanico in Trento, 2011 (11) Em 1224 era copeiro do Mosteiro de S. Georgenberg em Intal e recebeu um alódio isento de impostos em Zinta do conde de Ulricus de Appiano-Ultimo, que o chamou de dilectus fidelis noster.Stolz, Otto. Die Ausbreitung des Deutschtums in Südtirol im Lichte der Urkunden, Volume 2. Oldenbourg, 1928, p. 28