O Segredo de Brokeback Mountain (em inglês: Brokeback Mountain) é um filme americano de 2005, dos gêneros drama romântico e faroeste contemporâneo, dirigido por Ang Lee e produzido por Diana Ossana e James Schamus. Adaptado do conto homônimo de Annie Proulx, o roteiro foi escrito por Ossana e Larry McMurtry. Estrelado por Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Anne Hathaway e Michelle Williams, o enredo retrata o complexo relacionamento romântico entre dois caubóis, Ennis Del Mar e Jack Twist, no Oeste dos Estados Unidos entre os anos de 1963 e 1983.
Ang Lee envolveu-se no projeto em 2001, após tentativas anteriores de adaptar a história de Proulx para o cinema não terem se concretizado. Diversos atores conhecidos à época foram considerados para os papeis principais; porém, muitos rejeitaram-nos devido à tematica. Depois de um tempo em espera, o projeto voltou ao interesse dos produtores e roteiristas Diana Ossana, James Schamus e Larry McMurtry. Dessa forma, a Focus Features e a River Road Entertainment produziriam e distribuiriam o filme em conjunto, cujas filmagens começaram em vários locais de Alberta em 2004, após a escalação de Ledger, Gyllenhaal, Williams e Hathaway. O Segredo de Brokeback Mountain estreou no Festival Internacional de Cinema de Veneza de 2005, onde ganhou o Leão de Ouro, e foi lançado nos cinemas em 9 de dezembro daquele ano.
O filme recebeu ampla aclamação da crítica, com elogios às atuações de Ledger, Gyllenhaal e Williams. Emergiu como um sucesso comercial de bilheteria, arrecadando mais de 178 milhões de dólares em todo o mundo, ante um orçamento de 14 milhões, e recebeu diversos prêmios. Na 78.ª edição do Oscar, O Segredo de Brokeback Mountain foi indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator (Ledger), Melhor Ator Coadjuvante (Gyllenhaal) e Melhor Atriz Coadjuvante (Williams) e venceu Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Trilha Sonora Original. Recebeu sete indicações na 63.ª edição do Globo de Ouro, vencendo Melhor Filme — Drama, Melhor Diretor, Melhor Roteiro e Melhor Canção Original. Na 59.ª edição do British Academy Film Awards, recebeu nove indicações, vencendo os prêmios de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante (Gyllenhaal), bem como foi o filme que mais encabeçou as listas de melhores ano.
O Segredo de Brokeback Mountain foi alvo de controvérsias; sua derrota para Crash (2004) no Oscar 2006 na categoria de Melhor Filme —que não era o favorito da temporada, nem havia ganhado os principais prêmios do cinema à época—, a subsequente censura e as críticas da mídia conservadora receberam atenção significativa. A sexualidade dos personagens principais tem sido alvo de debate. O filme também é considerado um ponto de virada para o avanço do cinema queer para o grande público. Em 2018, o filme foi selecionado para preservação no Registro Nacional de Filmes dos Estados Unidos pela Biblioteca do Congresso por ser "culturalmente, historicamente ou esteticamente significativo" e entrou na lista dos 400 melhores filmes americanos, segundo o Instituto Americano do Cinema. Desde então, tem sido classificado por diversas publicações, críticos cinematográficos e estudiosos como um dos melhores filmes da década de 2000, do século 21 e de todos os tempos.
Enredo No estado de Wyoming, em 1963, os caubóis Ennis Del Mar e Jack Twist são contratados pelo fazendeiro Joe Aguirre para cuidar de seu rebanho de ovelhas durante o verão nos pastos de Brokeback Mountain. Após uma noite de bebedeira, Jack dá uma investida em Ennis. A princípio relutante, Ennis corresponde, e os dois têm relações sexuais na tenda. Embora Ennis diga a Jack que aquilo foi um episódio isolado, eles acabam desenvolvendo uma relação tanto sexual quanto emocional. Perto do fim do contrato de trabalho, ambos, sem querer, machucam-se durante uma brincadeira. Antes de se despedirem, Ennis comenta, sem dar muita importância, que deixou uma de suas camisas na montanha.
Ennis se casa com sua noiva de longa data, Alma Beers, e o casal tem duas filhas: Alma Jr. e Jenny. Jack retorna no verão seguinte em busca de trabalho, mas Aguirre, que havia percebido a relação entre ele e Ennis, recusa-se a contratá-lo, dizendo que não tem serviço para "quem colhe a rosa". Jack muda-se para o Texas, onde conhece Lureen Newsome, uma competidora de rodeio e filha de um rico fabricante de máquinas agrícolas. Eles se casam e têm um filho. Depois de quatro anos sem se verem, Jack visita Ennis. Ao se reencontrarem, eles se beijam apaixonadamente, o que Alma vê por acaso, surpresa. Em um quarto de motel, Jack sugere que vivam juntos, mas Ennis recusa, sem querer abandonar sua família, além de ser assombrado por uma lembrança de infância: seu pai lhe mostrando o corpo de um homem que ele possivelmente havia torturado e matado por suspeita de homossexualidade.
Ennis e Jack passam a se encontrar ocasionalmente para viagens privadas de pesca, enquanto seus casamentos entram em crise. Lureen abandona os rodeios e passa a trabalhar com o pai, com Jack atuando na área de vendas, e cujo sogro o despreza e frequentemente o humilha. Em 1975, Alma e Ennis se divorciam. Ao saber disso, Jack dirige até Wyoming e propõe novamente que morem juntos, mas Ennis recusa, por não querer se afastar das filhas. Alma fica com a guarda de Alma Jr. e Jenny, e se casa com Monroe, gerente do mercado onde trabalha. Ennis é convidado para o jantar de Ação de Graças. Sozinha com ele na cozinha, Alma o confronta sobre Jack. Os dois discutem, e Ennis sai furioso, rompendo o contato com ela.
Ennis tem um breve relacionamento com Cassie, uma garçonete. Jack e Lureen tornam-se amigos de Randall e Lashawn Malone, e há a insinuação de que Jack e Randall tenham um caso. Ao final de um encontro disfarçado de viagem de pesca, Ennis diz a Jack que não poderá vê-lo por meses devido ao trabalho. Eles discutem, até que este consola aquele, que chora.
Um cartão-postal que Ennis enviara a Jack é devolvido com o carimbo "Falecido". Ennis liga para o número que era de seu amor. Lureen atende e conta que Jack morreu quando o pneu de um carro explodiu em seu rosto. Enquanto ouve a história, Ennis imagina homens espancando-o até a morte com uma chave de roda. Ela conclui que seu falecido marido havia pedido que suas cinzas fossem espalhadas em Brokeback Mountain. Ennis visita os pais de Jack, esperando atender ao pedido. O pai dele, com atitudes e olhares homofóbicos, afirma que as cinzas serão enterradas no jazigo da família. A mãe, por outro lado, com olhar compreensivo, permite-lhe que visite o antigo quarto do filho. Lá, Ennis encontra a camisa que havia deixado na montanha, guardada por Jack dentro de uma das suas próprias camisas. Ennis abraça as camisas e chora em silêncio. A mãe de Jack permite que ele as leve consigo.
Anos depois, Ennis, envelhecido, vive sozinho e isolado em um trailer. Sua filha Alma Jr., já adulta, vai visitá-lo para anunciar seu noivado com Kurt, que trabalha no setor petrolífero. Ela pede a bênção do pai e o convida para o casamento. Ennis hesita, devido a compromissos de trabalho, mas acaba concordando em comparecer. Quando Alma Jr. vai embora, esquece sua jaqueta, e Ennis a guarda no armário onde estão penduradas as duas camisas — agora com a de Jack dentro da de Ennis. Ao lado, fixado na porta do armário, há um cartão-postal de Brokeback Mountain. Com os olhos marejados, ele olha para as lembranças e diz: "Jack, eu juro...".
Elenco Heath Ledger como Ennis Del Mar Jake Gyllenhaal como Jack Twist Anne Hathaway como Lureen Newsome Michelle Williams como Alma Beers Del Mar Anna Faris como Lashawn Malone Linda Cardellini como Cassie Cartwright Randy Quaid como Joe Aguirre Kate Mara como Alma Jr. (aos 19)
Produção
Concepção e desenvolvimento miniaturadaimagem|O cinesta Ang Lee, inicialmente relutante, sentiu-se cativado pela história e concordou em dirigir o filme O conceito do filme surgiu em 1997, depois de a roteirista Diana Ossana ter lido o conto Brokeback Mountain, da autora Annie Proulx, publicado na revista The New Yorker. Ossana interessou-se e emocionou-se tanto pela história que a leu à noite e novamente na manhã seguinte e, logo após, contatou o também roteirista Larry McMurtry — que, no entanto, serviu-se apenas de corroterista para o filme — para que pudessem adaptar a narrativa; todavia, ele não estava interessado em histórias curtas. Porém, em seguida, depois de ter reconsiderado e lido a narração, McMurtry igualmente achou-a interessante, uma vez que, em suas palavras, "[a homossexualidade] está no Ocidente há mais de cem anos, esperando para ser escrita. Eu sabia disso, e todo mundo que estava familiarizado com a vida de caubói sabia disso". Ambos roteiristas escreveram a Proulx uma carta de fãs e perguntaram-lhe qual era sua opinião acerca de este conto ter sido o escolhido, e ela respondeu: "Não vejo um filme aqui, mas faça-o mesmo assim".
O passo seguinte foi a elaboração do roteiro, o qual levou três meses para ser concluído e, depois disso, foi posto à mostra. Cerca de cinco dias depois, Gus Van Sant viajou ao Texas, onde Ossana e McMurtry estavam, com intuito de dirigir o filme. A esperança dele era que Matt Damon, com quem já trabalhara em Good Will Hunting (1997), estrelasse como Ennis del Mar, e Joaquin Phoenix, como Jack Twist. Damon, no entanto, disse ao diretor: "Gus, eu fiz um filme gay (The Talented Mr. Ripley), depois um filme de caubói (All the Pretty Horses). Eu não posso aparecer em um filme faroeste gay!". O cineasta não conseguiu convencer outros atores, dentre os quais: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Ryan Phillippe, a interpretar Ennis — isso fez com que o projeto estagnasse e Van Sant se desligasse dele. McMurtry acreditava que os agentes dos atores estavam dissuadindo-os de fazer o papel, dado que eles chamaram de "suicídio de carreira" para um ator heterossexual interpretar uma pessoa homossexual.
Em 2001, o produtor cinematográfico James Schamus pegou o projeto e, ao lado de Ossana, tentou convencer alguns cineastas, como Edward Norton e Joel Schumacher, para dirigi-lo. Embora as pessoas para as quais o roteiro era mostrado adoravam-no, ninguém se comprometia em adaptá-lo. Outro cineasta que esteve em negociações foi Pedro Almodóvar, que recusou a chance de dirigir Brokeback Mountain por ter tido dúvidas sobre trabalhar dentro das restrições de um estúdio de Hollywood. Além disso, afirmou que "seu filme" teria sido drasticamente diferente da versão de Ang Lee, uma vez que sua produção teria sido muito mais física e sexual do que a original. Ainda complementou que ele queria ir além de os personagens dormindo juntos uma vez, e, mesmo que o estúdio lhe tivesse prometido "total liberdade artística e a versão final", Almodóvar estava certo de que, se tivesse prosseguido com essa ideia, não o teriam deixado produzir da maneira que imaginou; entretanto, ele admitiu que ainda gostava muito da versão de Lee: "o cineasta foi o mais longe que pôde".