A biologia especulativa é um gênero de ficção especulativa e um movimento artístico focado em cenários hipotéticos na evolução da vida, além de uma forma significativa de biologia ficcional. É também conhecida como evolução especulativa e referida como zoologia especulativa em relação a animais hipotéticos. Trabalhos que incorporam evolução especulativa podem ter espécies inteiramente conceituais que evoluam em um planeta que não seja a Terra, ou podem ser uma história alternativa focada em uma evolução alternativa da vida terrestre. A evolução especulativa é frequentemente considerada com ficção científica hard por causa de sua forte conexão e base na ciência, particularmente na biologia.
A biologia especulativa esteve relacionada, por muito tempo, com a ficção científica. O romance "A Máquina do Tempo" de H. G. Wells, de 1895, é geralmente reconhecido como o começo da evolução especulativa, pois apresentava várias criaturas imaginárias futuras. Embora faunas especulativas em pequena escala tenham sido uma marca registrada da ficção científica ao longo do século XX, as ideias raramente foram bem desenvolvidas, com algumas exceções como Barsoom, uma versão fictícia de Marte e seu ecossistema criados por Edgar Rice Burroughs publicados em romances de 1912 a 1941, e Rhinogradentia, uma ordem fictícia de mamíferos criada em 1957 criada por Gerolf Steiner.
Geralmente, concorda-se que o moderno movimento evolutivo especulativo tenha começado com a publicação do livro "After Man" de Dougal Dixon, em 1981, que explorava uma futura Terra plenamente realizada, com vários ecossistemas e mais de cem animais hipotéticos. O trabalho de Dixon, como a maioria dos trabalhos semelhantes que vieram depois deles, foi criado com princípios biológicos reais em mente e visava explorar processos da vida real, como evolução e mudança climática, através do uso de exemplos ficcionais.
O possível uso da biologia especulativa como ferramenta educacional e científica foi observado e discutido ao longo das décadas que se seguiram à publicação de "After Man". A biologia especulativa pode ser útil na exploração e apresentação de padrões presentes no presente e no passado. Extrapolando as tendências passadas para o futuro, os cientistas podem pesquisar e prever os cenários mais prováveis de como certos organismos e linhagens podem responder a mudanças ecológicas. Em alguns casos, as criaturas foram primeiramente idealizadas pela biologia especulativa para depois serem descobertas, como um anomalocaridídeos imaginário que se alimentaria pela filtragem da água, ilustrado pelo artista John Meszaros no livro All Yesterdays de 2012 de John Conway, CM Kosemen e Darren Naish, sendo comprovado que realmente existiu por meio de fosseis, esse anomalocaridídeo pertence ao gênero tamisiocaris e foi descoberto em 2014.
História
Trabalhos iniciais Explorar mundos hipotéticos com formas de vida alienígenas, alternativas ou do futuro são um elemento recorrente nos trabalhos de ficção científica. Um dos primeiros livros geralmente tratados como um representante da biologia especulativa é o romance de ficção científica de H. G. Wells, A Máquina do Tempo, publicado em 1895. A Máquina do Tempo, situada a mais de oitocentos mil anos no futuro, mostra os descendentes dos humanos na forma dos eloi, fracos e inteligentes, e dos morlocks, brutais e com hábitos subterrâneos. Mais adiante, o protagonista do livro encontra monstros-caranguejos grandes e borboletas enormes. Outros autores, após Wells, de ficção científica frequentemente usavam criaturas fictícias na mesma veia, mas a maioria dessas faunas imaginárias eram pouco desenvolvidas.
Edgar Rice Burroughs, que escreveu no início do século XX, pode se considerado um autor inicial de biologia especulativa do mesmo modo que Wells. Embora seus ecossistemas fictícios fossem muito pequenos, eles eram os cenários de seus romances e, por causa disso, bastante desenvolvidos. Em particular, Barsoom de Burroughs, uma versão fictícia do planeta Marte que apareceu em dez romances publicados de 1912 a 1941,mostrava um ecossistema marciano repleto de seres alienígenas e muitos grupos étnicos e culturas marcianos distintos. A "Planetary series" de Stanley Weinbaum também inclui vida alienígena significativamente conceituada e desenvolvida.McGuirk, Carol (2008). "Science Fiction's Renegade Becomings". Science Fiction Studies. 35 (2): 281–307. ISSN 0091-7729. JSTOR 25475144.Suvin, Darko (Summer 2011). "Stanley Weinbaum: we've met the aliens and they are us". Extrapolation. 52 (2): 227–245. doi:10.3828/extr.2011.52.2.6.Frederik Pohl escreveu que antes de Weinbaum, os alienígenas da ficção científica "podiam ser homens-gato, homens-lagarto, homens-formiga, homens-plantas ou homens-rochas; mas eles eram, sempre incuravelmente, homens. Weinbaum mudou isso... foi a diferença de orientação - em impulsos, objetivos e processos de pensamento – que tornaram o alienígena do tipo Weinbaum tão novo e gratificante na ficção científica em meados dos anos trinta.""In the Balance", If, July 1959, p.95
Em 1930, Olaf Stapledon publicou uma "história futura", Last and First Men: A Story of the Near and Far Future, descrevendo a história da humanidade a partir do presente, ao longo de dois bilhões de anos e dezoito espécies humanas, das quais o Homo sapiens é o primeiro. O livro antecipa a ciência da engenharia genética e é um dos primeiros exemplos da ideia fictícia da mente grupal."Last and first man of vision". Times Higher Education. 23 January 1995. Archived from the original on 6 October 2014. Retrieved 5 November 2018. Publicado em 1957, o livro do zoólogo alemão Gerolf Steiner, Bau und Leben der Rhinogradentia (traduzido para o inglês como The Snouters: The Form and Life of the Rhinogrades.) descreveu a evolução fictícia, a biologia e o comportamento de uma ordem imaginária de mamíferos, os Rhinogradentia ou "rinogrados". Os Rinógrados são caracterizados por uma característica semelhante a um nariz chamada "nasório", cuja forma e função variam significativamente entre as espécies, semelhante aos tentilhões de Darwin e à especialização do bico. Este grupo diversificado de animais fictícios habita uma série de ilhas nas quais evoluíram gradualmente, irradiando-se para a maioria dos nichos ecológicos. Artigos satíricos foram publicados dando continuidade ao mundo imaginado de Steiner.Kashkina, M. I. (2004). "Dendronasussp. -- a New Member of the Order Nose-Walkers (Rhinogradentia)". Russian Journal of Marine Biology. 30 (2): 148–150. Bibcode:2004RuJMB..30..148K. doi:10.1023/b:rumb.0000025994.99593.a7. S2CID 42790315. Embora o trabalho apresente todo um ecossistema especulativo, o seu impacto é ofuscado pelos trabalhos posteriores devido ao seu âmbito limitado, explorando apenas a vida de um arquipélago insular.
Em 1976, o autor e ilustrador italiano Leo Lionni publicou Parallel Botany, um "guia de campo para plantas imaginárias", apresentado com menções em estilo acadêmico de pessoas e lugares genuínos. A Botânica Paralela foi comparada ao livro Cidades Invisíveis de 1972, de Italo Calvino, no qual Marco Polo, em diálogo com Kublai Khan, descreve 55 cidades, que, como as plantas "paralelas" de Lionni, são "tão reais quanto a capacidade da mente de conceituá-las".Alioto, Daisy (29 January 2018). "'Parallel Botany' in the Age of Alternative Facts". The Millions. Archived from the original on 7 November 2018. Retrieved 6 November 2018.
Movimento Uma das principais obras "fundadoras" da biologia especulativa é After Man, de Dougal Dixon, publicada em 1981. Até hoje, After Man é reconhecido como o primeiro projeto de evolução especulativa em grande escala envolvendo um mundo inteiro e uma vasta gama de espécies. Algo que aumenta sua importância é o fato de o livro se ter tornado muito acessível ao ser publicado por editoras convencionais e ser totalmente ilustrado com imagens coloridas. De tal modo, After Man é frequentemente visto como tendo criado a base para a ideia de criar mundos especulativos completos. Ao longo das décadas que se seguiram à publicação de After Man, Dixon permaneceu um dos únicos autores da evolução especulativa, publicando mais dois livros na mesma linha de After Man; The New Dinossaurs em 1988 e Man After Man em 1990. Dixon considera The Time Machine como sua principal inspiração, desconhecendo o trabalho de Steiner, e concebeu After Man como um livro de nível popular sobre os processos de evolução que, em vez de usar o passado para contar a história, projetou os processos no futuro. Uma ideia basilar do After Man, além de uma onda de extinção que se segue aos humanos, é a evolução convergente.
Ao projetar os vários animais do livro, Dixon olhou para os diferentes tipos de biomas do planeta e quais adaptações os animais que lá vivem possuem, projetando novos animais descendentes dos modernos com o mesmo conjunto de adaptações.Potenza, Alessandra (9 June 2018). "This book imagines what animals might look like if humans went extinct". The Verge. Archived from the original on 11 June 2018. Retrieved 12 June 2018. O sucesso de After Man inspirou Dixon a continuar escrevendo livros que explicavam processos científicos factuais por meio de exemplos fictícios. Os Novos Dinossauros era essencialmente um livro sobre zoogeografia, algo com o qual o público em geral não estaria familiarizado, usando um mundo em que os dinossauros não-aviários não haviam sido extintos. Man After Man, explorou as mudanças climáticas ao longo dos próximos milhões de anos, mostrando seus efeitos através dos olhos dos futuros descendentes humanos.
Hoje, muitos artistas e escritores trabalham em projetos de evolução especulativa online, muitas vezes na mesma linha dos trabalhos de Dixon. A evolução especulativa continua a ter uma presença um tanto dominante por meio de filmes e programas de TV apresentando criaturas hipotéticas e imaginárias, como The Future is Wild (2002), Primeval (2007–2011), Avatar (2009), Terra Nova (2011), e Alien Worlds (2020)"The Netflix Series Alien Worlds". Tetrapod Zoology. 16 January 2021. Retrieved 2022-05-18.. A explosão moderna da evolução especulativa foi denominada pelo paleontólogo britânico Darren Naish como "Movimento de Evolução Especulativa".
Como ferramenta científica e de aprendizagem
Embora caracterizada principalmente como entretenimento, a evolução especulativa pode ser usada como ferramenta educacional para explicar e ilustrar processos naturais reais através do uso de exemplos fictícios e imaginários. Os mundos criados são muitas vezes construídos com base em princípios ecológicos e biológicos inferidos da história evolutiva real da vida na Terra e os leitores podem aprender com eles como tal. Por exemplo, todos os trabalhos especulativos de Dixon visam explorar processos reais, com After Man explorando a evolução, a zoogeografia de The New Dinosaurs e Man After Man e Greenworld (2010) explorando as alterações climáticas, oferecendo uma mensagem ambiental.
Em alguns casos, os artistas da evolução especulativa previram com sucesso a existência de organismos que mais tarde foram descobertos como semelhantes a algo real. Muitos dos animais apresentados em After Man de Dixon ainda são considerados ideias plausíveis, com alguns deles (como roedores especializados e primatas semiaquáticos) sendo reforçados com estudos recentes de biologia. Uma criatura apelidada de "Ceticaris", concebida pelo artista John Meszaros como um anomalocarídeo filtrador, foi publicada no livro de 2013, All Your Yesterdays, e em 2014, descobriu-se que o verdadeiro anomalocarídeo cambriano Tamisiocaris era um filtrador. Em homenagem à previsão de Meszaros, Tamisiocaris foi incluído em um novo clado denominado Cetiocaridae, que depois foi renomeado para Tamisiocarididae seguindo as regras de nomenclatura do Código Internacional de Nomenclatura Zoológica."(Prehistoric) Life Imitating Art | U-M LSA U-M College of LSA". lsa.umich.edu. Consultado em 2022-05-14.