Dodi Tavares Borges Leal (São Paulo, 24 de julho de 1984) é uma performer, curadora, crítica, iluminadora teatral, pesquisadora e professora de Artes Cênicas brasileira. Dodi tem colaborado em processos artísticos no país e escreve trabalhos acadêmicos em veículos editoriais do território nacional e outros países sobre performance, recepção teatral, transgeneridades, pedagogia das artes cênicas e visualidades da cena. É criadora do conceito teatra, que indica a transição de gênero da área teatral do masculino para o feminino, assim como também criou o conceito luzvesti, aproximando os estudos de iluminação cênica aos estudos de gênero. Desde 2018 Dodi é professora da UFSB, Universidade Federal do Sul da Bahia.
Biografia
Nascida em São Paulo no ano de 1984, no bairro do Ipiranga, onde morou até 2 anos de idade, Dodi passou a infância e adolescência na periferia da Zona Leste. Antes de habitar o bairro do Aricanduva, ela morou até os 9 anos de idade na COHAB II de Itaquera. Aos 18 anos ingressou no vestibular da USP e mudou-se para o Butantã. Seu pai, Valdevino Borges Leal, de matriz étnica indígena, é nascido na cidade de Simplício Mendes, no sul do Piauí, em 1961, e migrou para São Paulo em 1979. Sua mãe, Maria Tavares Garcia, de matriz étnica branca, é nascida na cidade de São Paulo em 1947. A família materna de Dodi é proveniente de processos migratórios europeus no início do século XX. Sua avó materna, é nascida em Montilla, província de Córdoba, comunidade autônoma de Andalucía, sul da Espanha. Seu bisavô materno, é nascido em São João da Pesqueira, no distrito de Viseu, norte de Portugal. Na adolescência, entre os anos de 1997 a 1999, Dodi teve sua primeira experiência como produtora cultural: foi presidente do fã-clube Chiqui-Sede, da novela Chiquititas (versão brasileira), atuando em sua recepção; buscava aproximar o público com o elenco da novela e com materiais artísticos da obra e derivados dela, articulando caravanas para os programas de TV do SBT nos quais o elenco participava, como Domingo Legal, Programa Livre, Hebe, etc. Durante o ensino médio, na Escola Estadual Ascendino Reis, localizada no bairro do Tatuapé, Dodi teve suas primeiras experiências teatrais, atuando nas montagens Sexo, Drogas e Rock and Roll (de Edson Simões) em 2001, 1500, a grande viagem (de Edson Simões) em 2000 e A Disputa (de Marivaux) em 1999, tendo ganhado esta última o prêmio de melhor peça teatral do Festival Cultura e Esporte realizado pela marca de produtos de higiene Cepacol. Entre 2003 e 2018 realizou os seus estudos universitários na USP; de 2013 a 2016 foi artista-educadora de teatro e coordenadora de pesquisa-ação do PIÁ - Programa de Iniciação Artística, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, tendo atuado no Centro Cultural da Penha, Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes, CEU Três Pontes (no Jardim Romano) e CEU Tiquatira. Atualmente Dodi reside e trabalha em Porto Seguro, na Bahia.
Formação
Dodi tem duas graduações: Licenciatura em Artes Cênicas pela ECA-USP (2012) e Bacharelado em Ciências Contábeis pela FEA-USP (2006). No mestrado em Controladoria e Contabilidade na FEA-USP, concentração em Educação e Pesquisa, fez um estudo sobre Teatro do Oprimido (TO) nas assembleias de Orçamento Participativo (OP) da cidade de Santo André - São Paulo (2010). Estudou TO com Augusto Boal e o CTO-Rio, no Rio de Janeiro, de 2005 a 2009. Fez intercâmbio em cinema na Université du Québec à Chicoutimi - UQAC, Québec / Canadá (2010-2011). Ela é Doutora em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo com estágio doutoral no Doutoramento em Estudos Artísticos, concentração em Estudos Teatrais e Performativos na Universidade de Coimbra, em Portugal.
Ativismo, atuação artística e acadêmica
thumb|Dodi Leal em cena do filme 'tenho receio de teorias que não dançam' Ao lado de outras pensadoras trans como Jaqueline Gomes de Jesus, Neon Cunha, Amara Moira, Jota Mombaça, Laerte Coutinho, Erika Hilton e viviane vergueiro, de pensadores trans como Paul B. Preciado e Khalil Piloto; e de outras artistas trans como Pêdra Costa, Linn da Quebrada, Liniker, Renata Carvalho, Vulcanica Pokaropa, Danna Lisboa, Luh Maza, Jup do Bairro e Ave Terrena Alves; e dos artista trans Daniel Veiga e Leo Moreira Sá, Dodi tem atuado como artivista, ou seja, tem encontrado em sua arte um canal para o ativismo em torno dos direitos de pessoas transgêneras. Além das criações artísticas e dos livros e artigos publicados, Dodi tem dado aulas e palestras pelo país, assim como em outros países como Estados Unidos, Áustria, México. Em 2019 palestrou no Museu de Arte de São Paulo - MASP, no projeto de mediação MASP Professores, e o tema Mulheres nas Artes: corpo, voz e criação. Em 2018 tomou posse como a primeira professora trans da Universidade Federal do Sul da Bahia, sendo ainda atualmente a única pessoa trans professora efetiva de ensino superior público na área de artes do país e do mundo. No primeiro semestre de 2023, Dodi é professora convidada da Universidade de São Paulo onde ministra o curso 'Fabulações travestis sobre o fim' no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da ECA-USP. Em 2020 se tornou a primeira professora trans a ser orientadora de pesquisa na FAPESB - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia Em 2019 e 2020 atuou como crítica teatral da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), tendo assinado na 7a. edição a curadoria da Encontra de Pedagogias da Teatra, com coordenação de Maria Fernanda Vomero e direção artística de Antonio Araújo. Como destaque de sua atuação acadêmica está o projeto de pesquisa e extensão ILUMILUTAS da UFSB, do qual é coordenadora, e o Grupo de Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq PEDAGOGIA DA PERFORMANCE: visualidades da cena e tecnologias críticas do corpo, do qual é líder. Desde 2021 a obra performativa Tetagrafias e o livro De trans pra frente, de Dodi, integram o acervo permanente do MUTHA - Museu Transgênero de História e Arte, o primeiro museu trans do Brasil. De 2021 a 2023, Dodi compõe a Comissão Ampliada da Diretoria da Associação Brasileira de Estudos da Trans-Homocultura - ABETH, com a presidência de Jaqueline Gomes de Jesus.
Publicações Livros "Performatividade transgênera: equações poéticas de reconhecimento recíproco na recepção teatral". série TEATRA. São Paulo/SP: Hucitec, 2021. "Teatra da Oprimida: últimas fronteiras cênicas da pré-transição de gênero". Porto Seguro/BA: UFSB, 2019. "Gênero expandido: performances e contrassexualidades". São Paulo/SP: Annablume, 2018. "LUZVESTI: iluminação cênica, corpomídia e desobediências de gênero". Salvador/BA: Devires, 2018. "DE TRANS PRA FRENTE". São Paulo/SP: Patuá, 2017. "Pedagogia e Estética do Teatro do Oprimido: marcas da arte teatral na gestão pública". São Paulo/SP: Hucitec, 2015.
Artigos "Gender in Danger: Transdanger People in Performing Arts in Brazil". Theatre Research International / Cambridge University Press, v. 46, n.3, p. 398-406, 2021. Dodi Leal e Lucia Romano - "Dossier – Fighting Back: Contemporary Theatre in Brazil: Introduction". Theatre Research International / Cambridge University Press, v. 46, n.3, p. 371-373, 2021. "Drama Methods Applied to Socio-Educational Interventions of Democratic Management and Accounting / 戏剧方法在民主管理和会计的社会教育干预中的应用(英文).". 艺术管理(中英文) / Shanghai Theatre Academy - China. Journal of Arts Management, v. 2, p. 96-110, 2021. "Fabulações travestis sobre o fim". Conceição/Conception - Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena do Instituto de Artes da UNICAMP, v. 10, n.1, p. 1-22, 2021. Castiel Vitorino Brasileiro e Dodi Leal - "Crítica, cura e curadoria". Urdimento - Revista de Estudos em Artes Cênicas / UDESC, v. 1, n.40, p. 1-33, 2021. "Editorial - Em trabalho de cura". Urdimento - Revista de Estudos em Artes Cênicas / UDESC, v. 1, n.40, p. 1-21, 2021. "Espacialidade travesti: habitat de gênero e práticas topográficas de corpos trans nas artes da cena brasileira". Urdimento - Revista de Estudos em Artes Cênicas / UDESC, v. 2, n.38, p. 116-135, 2020. "Transgenderities in Performance: gender disobedience and anticoloniality in the performing arts". Brazilian Journal on Presence Studies, v.10, n.3, pp. 1–29, 2020. — "Transgeneridades em Performance: desobediências de gênero e anticolonialidades das artes cênicas". Revista Brasileira de Estudos da Presença / UFRGS, v.10, n.3, pp. 1–29, 2020. "A arte travesti é a única estética pós-apocalíptica possível? Pedagogias antiCIStêmicas da pandemia". Coleção Pandemia Crítica, editora n-1, 2020. "ILUMILUTAS: tecnopolíticas da iluminação cênica, pedagogia crítica da luz e visualidades de corpos não-hegemônicos". Urdimento - Revista de Estudos em Artes Cênicas / UDESC, v. 1, p. 116-135, 2020. "Encontra de Pedagogias da Teatra: afetividades do saber riscar e arriscar.". cartografias.MITsp - Revista de Artes Cênicas, v. 7, p. 22-23, 2020. "A teatra contra a tutela: pedagogias indisciplinares da arte ou la esperanza es la más grande de las puras.". cartografias.MITsp - Revista de Artes Cênicas, v. 7, p. 306-309, 2020. "Pedagogic interventions in public budgeting and contributions of theatrical poetics / 公共预算中的教育干预和戏剧诗学的贡献(英文).". 艺术管理(中英文) / Shanghai Theatre Academy - China. Journal of Arts Management, v. 3, p. 108-121, 2019. "A liminaridade das práticas pedagógicas da cena: dispositivos visuais da arte da performance e a defesa da educação democrática.". Sala Preta / USP, v. 19, p. 179-196, 2019. "CORPO EM VISUALIDADES DIASPÓRICAS: Dimensões políticas e estéticas da luz cênica.". Revista Rascunhos - Caminhos da Pesquisa em Artes Cênicas / UFU, v. 6, p. 36-48, 2019. "Historiografia política da textualidade teatral da figura travesti: processos de arquivo sobre extrativismos ficcionais de corpos perigosos.". Revista Aspas - Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo / USP, v. 9, p. 36-48, 2019. "Tochas e coralidades na experiência visual de gênero em cena: dispositivos pedagógicos da luz na recepção teatral.". Urdimento - Revista de Estudos em Artes Cênicas / UDESC, v. 1, p. 256-265, 2019. "Iluminação cênica e desobediências de gênero.". Revista Aspas - Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo / USP, v. 8, p. 24-40, 2018. "Teatro do Oprimido: síntese histórica do Arena ou narrativa de resistência do encontro de Augusto Boal com a pedagogia do teatro?". Sala Preta / USP, v. 15, p. 191-202, 2015.
Obras artísticas Principais trabalhos em Artes Cênicas + Tabela dos principais trabalhos em Artes Cênicas de Dodi Leal Ano Título Linguagem artística Função desempenhada Cidade/Local de apresentação Co-autores/as 2022 cartaZERO Teatral IluminadoraSão Paulo - SP / Teatro Cacilda Becker Carolina Viana; Guilherme Ciccotelli; Thais Telles; Andreya Sá; Bruna Assis; Diogo Cintra; Bárbara Arakaki; Guilherme Carrasco; Kinda Maria; Antonio Rogério Toscano; Eleonora Fabião; Tarina Quelho 2022 TRANS/parentes Instalação, foto-performance e desenho digital ModeloBelo Horizonte - MG / Parque Municipal - Virada Cultural de BH Efe Godoy; Vina Jaguatirica; Juhlia Santos 2021 TRAVED: palestra-performance em realidade virtual Teatral e Realidade Virtual Dramaturga, intérprete, iluminadora e figurinistaSão Paulo - SP / Centro Cultural da Diversidade, SESC Pompeia (Virada Cultural de São Paulo - 2022; SENTEACENA - gira de biotecnologias da cena - 2023); Oficina Cultural Oswald de Andrade e Itaú Cultural; Florianópolis - SC / Universidade do Estado de Santa Catarina Sorocaba - SP / SESC Sorocaba