miniaturadaimagem|325x325px|Alfange veneziano, de influência árabe, c. 1490 O alfange ou alfanje ( do árabe hispânico al-khanjar ou al-khanjal,https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/alfange que significa «o punhal») trata-se dum tipo de arma branca corto-perfurante de folha larga e curva, com gume só de um lado (o contragume, se o houver, poderá estar no último terço da lâmina), que se encontra a meio termo entre a espada de bordo europeia e o sabres asiáticos do próximo oriente, como os kilij turcos, e que, durante a Idade Média e até ao Renascimento, foi usada na Península Ibérica, boa parte do Mediterrâneo e primacialmente em Itália. Apesar do nome de origem árabe, a origem da arma é europeia, sendo usada já desde o século XI.

Disquisição: sabre ou espada O busílis por de trás da palavra "alfange" está em definir concretamente a que tipo de arma corto-perfurante se referiria realmente, à época. Para começar, a definição mais antiga reporta-se a um tipo de sabre curto de origem muçulmano-oriental, que foi adoptado e modificado, tanto na Península Ibérica, como noutras partes da orla cristã do Mediterrâneo, onde foi introduzida. Esta palavra também tende a ser usada para abarcar todas as armas de folha curva e gume único, desde o bracamarte, à messer alemã, ao fauchar francês, à storta italiana, aos kilij turcos. No português antigo também se terá usado para referir a chanfalhos e outros tipos de espadas curvas de folha larga.

Na sua acepção principal, consiste numa evolução dos sabres asiáticos, presentes nos mais díspares territórios da China e Mongólia à Turquia, à qual se acrescentou a folha de lâmina larga de estilo medieval europeu. miniaturadaimagem|Soldado de alfange em punho Por conseguinte o alfange não é exactamente como uma espada centro-europeia, nem muito menos tal qual um sabre moiro típico do Próximo Oriente, mas conjuga características dos dois. É mais curto e mais pesado do que os sabres orientais, com um contragume típico que parece herdado da espada e com um guarda-mão em S, que também faz lembrar os chanfalhos tardios e os bracamartes. Este tipo de alfange tornou-se moda nas grandes cidades-estado italianas, como Veneza, e daí exportaram-se por todo o Mediterrâneo.

Na obra de Juan Montalvo «Os capítulos de que se Esqueceu Cervantes» há uma passagem que menciona o alfange. Quando os vários cavaleiros europeus defrontam D. Quixote, cada qual porfiando pelo direito de chamar à sua dama a mais bela de todas, Late Ximénes do Porto, o cavaleiro andante lusitano, depois de dizer que iria trazer à luz da verdade o reconhecimento de que a sua dama, Rosinha, era a mais bela, é retrucado com o seguinte trecho:

História A percursora dos alfanges, pelo menos no Ocidente, será a sax ou seax, um facão de um só gume, feito de aço fajuto e de empunhadura simples, utilizada pelos povos germânicos e escandinavos, por torno do de 450 d.C a 800 d.C.

O alfange propriamente dito, surge na Idade Média, por volta do século XI, resultado de influências trazidas pelos sabres do próximo Oriente, tendo sofrido inúmeras permutações ao longo dos tempos e desdobrando-se numa infinidade de subtipos de armas.

Alfange-cutelo miniaturadaimagem|287x287px|Alfange-cutelo Até ao século XIV, um dos tipos mais populares de alfange usados foi o chamado alfange-cutelo (cleaver falchion em inglês), caracterizado por uma lâmina pesada, amiúde de um só gume, mais larga na ponta do que na empunhadura. O grande mérito da configuração deste alfange é que permitia uma concentração maior do peso no gume da ponta da lâmina, conferindo-lhe assim uma força perfurativa concentrada na ponta da lâmina equiparável à de uma machada, quando aplicada a armaduras de cota de malha.

No entanto, o grande defeito deste alfange prendia-se exactamente nesta distribuição peculiar do peso da lâmina na ponta, que tornava o manejo muitas vezes maljeitoso e lento, quando comparado a armas mais leves e lestas, como machetes e adagas.

O alfange-cutelo tradicional teria cerca de 75 a 85 centímetros, in totum, pesando entre um quilo e meio a um quilo e oitocentos gramas, grosso modo.Blair, Claude and Tarassuk, Leonid, eds. (1982). The Complete Encyclopedia of Arms and Weapons. p.17. Simon & Schuster. .

De perfil, a lâmina seria bastante fina com cerca de 1,2 milímetros de dorso.James G. Elmslie

Alfange de ponta Do século XIII ao século XVI também esteve bastante em voga o alfange de ponta (cusped falchion em inglês), por sinal mais ligeiro e afilado, de gume pouco curvo e ponta afiada, estava vocacionado para a estocada, embora também pudesse servir para corte. Teria pouco mais de 90 centímetros, dos quais os derradeiros 80 centímetros seriam a lâmina, geralmente recta, que remataria numa curva acentuada. Pesaria à volta de um quilo.

Aparenta-se à kilij turca, sendo objecto de discussão se não terá surgido por influência dos sabres turco-mongóis surgidos na Europa por volta do século XIII, se bem que nessa altura esses sabres ainda não possuíam um remate da lâmina com uma curva tão acentuada.

Neste alfange, o ponto de contacto situa-se ao meio da lâmina e o centro de gravidade fica a um terço do comprimento da arma a contar do punho.Oakeshott (1980), p.152miniaturadaimagem|left|Narceja de 1550, com guarda-mão em S e com punho de cabeça de leão Narceja

Também chamado o sabre suíço (Schweizersäbel em alemão), surge no século XVI, era uma espada curva com guarda-mão em S, teria cerca de 115 centímetros de comprimento total, dos quais, dos quais 95 centímetros comporiam a lâmina. A lâmina, além de curva e fina, pauta-se por ser bigume no último terço da lâmina. Pesaria cerca de quilo e meio. Recebeu a alcunha de "narceja", em alemão Schnepf ou Schnäpf, por virtude da semelhança do feitio da lâmina com o bico da ave com esse nome.

Terçado

miniaturadaimagem|307x307px|Terçado alemãoEmbora já existisse desde o século XVI, tornou-se especialmente popular nos séculos XVII a XIX, às mãos da infantaria ligeira e artilharia. Este alfange, também alcunhado de chifarote (fascine knife em inglês, braquemard em francês, storta em italiano e Malchus em alemão), era dotado de uma lâmina larga e curta e de ponta afiada, podendo ser tanto recta como curva, com um gume ou dois, podendo inclusive ter o contragume serrilhado.Peter-Michel, Wolfgang: Faschinenmesser. Preußen, Sachsen, Bayern, Württemberg. 2013, p. 9-11 http://www.wpm-koeln.de Não tinha copos no guarda-mão. Teriam 75 centímetros de comprimento, dos quais a lâmina teria cerca de 50, pesando por volta de 1,35 a 2,25 quilos. É possível que tenha sido inspirada na espada baselarda, uma espada curta usada pelos mercenários suíços, nos finais da Idade Média.*Nuremberg : man hat verboten [...] daz dhein burger weder in der stat noch auzwendig niht sol tragen dhein silberin gürteln [...] dhein welhisch messer noch dheinen basler (Satzungsbücher und Satzungen der Reichsstadt Nürnberg aus dem 14. Jahrhundert ed. Werner Schultheiß, 1965, p. 217) Mainzer Friedgebot (1300), 101: wel man zu Meinze inne woninde ist, der rutinge dregit odir swert odir beseler, der sal uz Meinze varin ein vierteil iaris (ed. Rudolf Steffens), in: Mainzer Zeitschrift 98 (2003), 1-10; beseler glossed as "two-edged knives" in F. J. Mone, Der Friedensbruch der Stadt Mainz, um 1430 (1856). A 1427 law code of Tegernsee lists paslär as one of a number of illegal weapons (verpotne wer), setting a fine for carrying them in the street: Gustav Winter, Osterreichische Weistümer, vol. 8 (1896), p. 970. mhdwb-online.de Tanto podia ser usada como arma pessoal ou como instrumento utilitário, para cortar feixes, bardas e almiaras no campo de batalha, por esse motivo lhe chamaram fascine knife ("faca de defesa") em inglês; fascine (do latim fascis e relacionada a feixe, faixa e fascista) designa também bardas ou feixes de ramos, dispostos de feição a formar vedações ou barreiras, a atulhar valas e fossos, ou simplesmente para auxiliar no fabrico de construções temporárias de apoio militar .

O nome chifarote, diminutivo jocoso de chifra ou chanfra (implemento de ferro, semelhante a faca, usado por encadernadores e outros artífices, para adelgaçar o coiro, ao raspá-lo, o que conhece-se como fazer o chanfro), tem origens árabes, do moçárabe xifrâ (cutelo).

Quanto ao nome “terçado”, cunhou-se por ser um alfange com um terço do tamanho de uma espada comum.

O nome alemão Malchus adveio do nome do sacerdote hebraico Caifás, cujo servo Malco (em latim: Malchus, do grego Μάλχος Málkhos), segundo o Evangelho de João, teria tido a orelha cortada pelo apóstolo Pedro quando este tentava defender Jesus.George Cameron Stone, Donald J. LaRocca: A Glossary of the Construction, Decoration and Use of Arms and Armor. In All Countries and in All Times. Verlag Courier Dover Publications, 1999, ISBN 978-0-486-40726-5, S. 224.

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