O cabardino (ādəγabzə) é uma língua do noroeste do Cáucaso, pertencente a família abcázio-adigué das línguas caucasianas. Possui uma relação de proximidade com a língua adigué e são mutualmente inteligíveis, e juntas formam o braço circassiano dessa família.

Falado historicamente na região da Grande Cabárdia, que hoje corresponde ao território da República de Cabárdia-Balcária, uma região autônoma da Federação Russa, vivem 400 mil falantes do cabardiano, onde é considerado uma de suas línguas oficiais. O número de falantes mundo afora é desconhecido, mas é estimado que quantidade considerável deles ainda vivam na Turquia, Síria e Jordânia, descendentes daqueles que emigraram após a conquista russa do Cáucaso em 1864.

Como outras línguas do noroeste do Cáucaso, o cabardiano apresenta um sistema complexo de consoantes, um sistema extremamente simples de vogais, um sistema de prefixações e a ordem sujeito-objeto-verbo para os constituintes sintáticos.

Etimologia Os povos adigués e cabardianos são frequentemente chamados de circassianos e referem-se a si mesmos como ādəγa, e a sua língua de ādəγabzə. A maioria dos circassianos e adigués consideram-se membros de uma só nação, com história, costumes e instituições sociais em comum.

O termo "circassiano" tem duas etimologias: alguns o relacionam com a palavra grega Kerkétai para um dos povos antigos da costa leste do mar Negro, e outros dizem que deriva do osseto cärgäs, originado da palavra cita čarkas, que significa nobre.

O termo ādəγa, de acordo com um ponto de vista, deriva de 'atığə, que significa "alto (em altitude)" para designar um montanhista, já que o povo circassiano vive nas montanhas e perto delas há milhares de anos.

Distribuição Com população composta por 55,3% de cabardianos étnicos, e mais de 400,000 falantes da língua cabardiana, a República da Cabárdia-Balcária concentra a maioria dos falantes do idioma no mundo. Mais de 90% dos cabardianos étnicos usam o cabardiano como língua nativa, e quase todos são bilíngues e também falam russo.

A quantidade de falantes do cabardiano mundo afora é desconhecida, mas existem comunidades falantes da língua com uma quantidade significativa de pessoas na Jordânia, Turquia e Síria, formadas por exilados do Genocídio Circassiano após a conquista russa do Cáucaso. É estimado que 400.000 cabardianos e adigués foram exilados, enquanto seus descendentes sofreram assimilação linguística parcial em seus novos países. Hoje há cerca de 200.000 cabardianos étnicos na Turquia e 30.000 na Síria, mas não se sabem quantos deles falam a língua cabardiana.

Dialetos

Baksan: é o dialeto base para o cabardiano padrão, falado na Grande Cabárdia, que hoje constitui parte significante da República de Cabárdia-Balcária (oeste do rio Terek). Mozdok: falado na Ossétia do Norte. Besleney: falado na República de Carachai-Circássia e na área de Krasnodar. Kuban: falado no território da República da Adiguésia.

Todos são mutualmente inteligíveis, mas o Besleney difere dos demais por transicionar entre o cabardiano e a língua adigué.

Fonologia O cabardiano tem um dos sistemas fonológicos mais complexos dentre todas as línguas do mundo. Nas palavras nativas há apenas duas vogais, e cerca de 50 consoantes, dependendo do dialeto. A vogal a pode ser curta ou longa. Vogais CurtaLonga Consoantes + Quadro consonantal da língua cabardiana Labial Alveolar Pós-alveolar Alveolo-palatal Velar Uvular Faríngea Glotal Central Lateral plana lab. pal. plana lab. plana lab. Nasal Plosiva ejetiva kʷʼ kʲʼ desvozeada ʔʷ vozeada ɡʲ Africada ejetiva desvozeada q͡χ q͡χʷ vozeada Fricativa ejetiva ɕʼ desvozeada vozeada Aproximante Vibrante múltipla

Fenômenos fonéticos As plosivas desvozeadas são assimiladas às plosivas e fricativas que as seguem com respeito às características da voz e glotalização:

wa b-łaġwāś > wa płaġwāś (Você viu) da d-śāś > da t'ś'āś (Nós conseguimos)

Duas vogais não podem ocorrer uma próxima da outra; quando o primeiro morfema termina, e o segundo começa com uma vogal, as duas vogais se fundem, onde a vogal baixa é mais forte (ə-a se torna a, a-ā vira ā): sə-k'wa-ā-ś > sək'wāś sə-hə-ā-ś > shāś

Apofonia Como as línguas semitas, cartevélicas e línguas indo-europeias mais antigas, as línguas da família abcázio-adigué possuem alterações morfológicas de vogais, a apofonia. Alternações de vogais no cabardiano são frequentemente usadas com verbos, especialmente para expressar a categoria de transitividade/intransitividade. As alternações de vogais mais comuns são: (a - ə): esse padrão de apofonia é usada para distinguir verbos transitivos e intransitivos, bem como números cardinais e adverbiais; dan (ver, intransitivo) / dən (ver, transitivo) - śə (três) / śa (três vezes). (ə - 0): esse padrão é usado para distinguir os prefixos pessoais de verbos intransitivos (ə) dos prefixos de verbos transitivos (0); səbdawva (Eu aro junto com você, 1a p. sing. para o verbo intransitivo) - bdəzawva (Eu aro isso com você,1a p. sing. para o verbo transitivo). (a - 0): esse padrão é meramente um tipo especial de alternância entre (a) e (ə), para distinguir verbos elativos e ilativos; yəš (tire!) - yəša (traga!). Ortografia +CírilicoPronúncia (IPA)Transliteração (TITUS)А а[aː]Ā āӘ ә[a]A aБ б[b]B bВ в[v]V vГ г[ɣ]G gГу гу[ɡʷ]Gw gwГъ гъ[ʁ]‌Ġ ġГъу гъу[ʁʷ]‌Ġw ġwД д[d]D dДж дж[d͡ʒ] ou [ɡʲ]Dž dž Дз дз[d͡z]Dz dzE e[ja/aj]‌Ay/Ya ay/yaЖ ж[ʒ]‌‌Ž žЖь жь[ʑ]Ź źЗ з[z]Z zИ и[jə/əj]Yə yəЙ й[j]Y yК к[k]K kКу ку[kʷ]Kw kwКӏ кӏ[t͡ʃʼ] ou [kʲʼ]‌Č̣ʼ č̣ʼКӏу кӏу[kʷʼ]K'w k'wКъ къ[q]Q' q'Къу къу[qʷ]Q'w q'wКхъ кхъ[q͡χ]Q qКхъу кхъу[q͡χʷ]Qw qwЛ л[ɮ] ou [l]L lЛъ лъ[ɬ]‌Ł łЛӏ лӏ[ɬʼ]‌Ł' ł'М м[m]M mН н[n]N nО о[ɜw][wa]Aw/Wa aw/waП п[p]P pПӏ пӏ[pʼ]P' p'Р р[r]R rС с[s]S sТ т[t]T tТӏ тӏ[tʼ]T' t'У у[w/əw]W wФ ф[f]F fФӏ фӏ[fʼ]F' f'Х х[x]X xХу ху[xʷ]Xw xwХь хь[ħ]H hХъ хъ[χ]‌Ꭓ ꭓХъу хъу[χʷ]‌Ꭓw ꭓwЦ ц[t͡s]C cЦӏ цӏ[t͡sʼ]C' c'Ч ч[t͡ʃ]‌Č čШ ш[ʃ]Š šЩ щ[ɕ]Ś śЩӏ щӏ[ɕʼ]Ś' ś'Ы ы[ə]‌Ə əЮ ю[ju]Ywə ywə Я я[jaː]Yā yāӀ ӏ[ʔ]ʔӀу ӏу[ʔʷ]ʔʷ

História da escrita O cabardiano era uma língua sem escrita até o começo do século XX, embora tenha havido tentativas de escrevê-lo usando uma escrita árabe adaptada. Até o século XX, o árabe clássico era a língua de alfabetização em todo o Cáucaso. Alfabetos especiais para o cabardiano, baseado no árabe e no cirílico russo, foram desenvolvidos pelo acadêmico Shora Nogma (1801-1841), que também é o autor do primeiro dicionário russo-cabardiano. Entretanto, esses alfabetos não persistiram, nem os alfabetos árabe e latinos desenvolvido pelo médico Muhamed Pčegatluxov. A escrita latina foi adaptada para o cabardiano em 1923 por M. Xuranov na Rússia Soviética, sendo usada até a sua substituição, em 1936, por um cirílico russo adaptado, que até hoje é usado como o alfabeto cabardiano. Existem hoje algumas tentativas para reintroduzir a escrita latina, especialmente com a diáspora cabardiana na Turquia, onde o alfabeto latino é usado. Entretanto essas tentativas não se concretizaram na Cabárdia.

Gramática

O cabardiano é uma língua polissintética, na qual há um número muito maior de morfemas comparado ao número de palavras em uma frase. Substantivos podem assumir uma quantidade relativamente pequena de formas, mas o complexo verbal normalmente contém um grande número de afixos para uma série de classes gramaticais. Os morfemas combinam-se dentro de uma palavra de acordo com o princípio aglutinativo: cada morfema representa somente uma categoria gramatical. A exceção é a categoria de pessoa que sempre é fundida com a categoria de número no caso de verbos e pronomes. Substantivos Os substantivos em cabardiano podem ser flexionados em definição, número e caso. De todas as línguas da família abcázio-adigué, somente o abecásio e o abaza têm a categoria de gênero; a língua cabardiana não apresenta traços dessa categoria. Número Existem dois números na língua cabardiana: singular (não marcados) e plural (geralmente marcados); o sufixo do plural é (-xa), e é opcional para vários substantivos, usado somente quando quem fala quer enfatizar que o substantivo é plural. ś'āla (homem jovem) / ś'ālaxar (homens jovens) wəna (casa) / wənaxar (casas) Todos os plurais marcados são definidos (o X), ou são indefinidos mas específicos (um certo X, conhecido pelo falante, mas não pelo ouvinte), e são marcados no caso absolutivo (-r). Ocasionalmente o sufixo do plural pode ser usado para indicar grupos sociais, como famílias, enquanto a adposição səma é usada para pluralizar nomes pessoais e indicar grupos mais específicos: Məwhamadxa yxadayž (Para os Muhammeds) Dəwdahr səma (Dudar e seu coorte, amigos) Substantivos que denotam substâncias e substantivos coletivos não possuem plural: ś'ālaġwāla (a juventude) ša (leite) Definição A definição só é claramente diferenciada nos casos principais (nominativo e ergativo): os finais (-r) e (-m) são adicionados somente quando o substantivo é definido; substantivos indefinidos não recebem marcação. pśāśam mər yaś'a (A garota sabe disso) pśāśa mər yaś'a (Uma garota sabe disso)

Em alguns substantivos, cujo significado é inerentemente definido, o sufixo é opcional:

dəγa(r) sawłāġw (Eu vi o sol)

Se um substantivo no caso instrumental é definido, a marcação do ergativo (-m) é colocado antes da terminação do instrumental (-č'a):

sa mər samč'a sawś (Eu faço isso com a faca)

Casos Diferente das outras línguas da família abcázio-adigué, o cabardiano e o adigué tem os casos marcados por sufixos nos substantivos, adjetivos e pronomes. Os casos são: nominativo (-r), ergativo (-m), instrumental (-č'a) e adverbial (-wa). Os casos principais, que expressam relações sintáticas básicas em uma sentença são o nominativo e o ergativo, e os casos periféricos são o instrumental e o adverbial.

O nominativo é o caso do predicado nominal:

mə ś'ālarś čempionər (Aquele homem jovem é o campeão)

O nominativo também é o caso do sujeito intransitivo e do objeto transitivo: ś'ālar yawdža (O garoto estuda) sa txəł'ər q'asśtāś (Eu peguei o livro)

O ergativo é, basicamente, o caso oblíquo geral usado para todas as outras funções gramaticais; como no caso do sujeito transitivo:

studentəm txəłər yadžāś (O estudante estudou o livro)

Substantivos e adjetivos no caso adverbial geralmente correspondem aos advérbios nas línguas europeias, indicando as circunstâncias em que a ação foi realizada:

žəγxar sātərwə xasāś (Eles plantaram as árvores em linhas)

O caso instrumental corresponde ao instrumental em línguas eslavas, expressando o instrumento com o qual a ação é executada, entretanto também pode indicar várias circunstâncias de uma ação, assim como o trajeto utilizando verbos de movimento:

šəmč'a māk'wa (Ele vai com o cavalo) mazč'a k'wan (Passar pela floresta)

Pronomes O cabardiano apresenta pronomes pessoais em primeira e segunda pessoa, e uma variedade de pronomes em terceira pessoa que também podem ser usados como pronomes demonstrativos; não há distinção entre "ele", "este","esse" ou "aquele". Além disso, os pronomes são declinados em quatro casos gramaticais. Pessoais e demonstrativos

+Pronomes pessoais do cabardiano Caso gramaticalSingularPlural1a PS2a PS3a PS1a PP2a PP3a PPNominativosawaār da faāxarErgativosawaābə da faābəxamInstrumentalsarč'a warč̣ʼaābəč'adarč'a farč̣ʼaābəxamč'aAdverbialsarwə warwəārwədarwə farwəāxarwə

O pronome da terceira pessoa é formado com os radicais (ā-), (mə-) e (maw-). Podem aparecer sem a marcação do nominativo (-r), que expressa a definição dos pronomes pessoais. sa ā rāsskazəm syadžāś (Eu li aquela história) O (ā-) é o pronome básico usado em anáfora (fazer referência ao que já foi mencionado no texto), enquanto (mə-) e (maw-) estão em oposição em relação ao grau de distância do falante: (mə-) refere-se a um objeto mais próximo (ou pessoa), e (maw-) a um mais distante.

Verbos