Segismundo de Araújo Mello (Luziânia, 24 de abril de 1915 - Rio de Janeiro, 5 de novembro de 2003) foi um advogado e articulador político brasileiro, notório por sua atuação na transferência da capital do Brasil para a região Centro-Oeste do país. Foi também o primeiro secretário de governo do Distrito Federal, presidente da Novacap, conselheiro do Tribunal de Contas e prefeito interino do Distrito Federal, posto que ocupou entre maio e agosto de 1960.
Participação na transferência da capital federal Jurista goiano, Segismundo Mello iniciou sua participação no processo de transferência da capital nacional em 1946. Na fase final do processo, em 1955, o presidente Juscelino Kubtschek, recém-eleito, solicitou ao então governador de Goiás, José Ludovico de Almeida, o auxílio dos goianos na minuta dos atos legislativos de tal mudança, pois o presidente considerava que eles estavam mais preparados para isso pelo fato de elaborarem a construção de sua nova capital, Goiânia, pouco tempo antes. miniaturadaimagem|Preparativos da mudança para Brasília. Assim, o governador goiano incumbiu essa missão ao advogado Segismundo Mello, juntamente com outros assessores, os quais editaram os atos legislativos que transferiam a capital brasileira do litoral do Rio de Janeiro para a região do Planalto Central.
miniaturadaimagem|O presidente Juscelino Kubitschek discursando após sancionar a lei de mudança para Brasília
Entretanto, até que isso pudesse acontecer, esse processo de transferência da capital federal para o Planalto Central sofreu muitos impasses, como a preferência da maioria dos deputados e constituintes mineiros pela construção da cidade no estado de Minas Gerais e a resistência dos presidentes Prudente de Morais e Getúlio Vargas, sendo que este último chegou até a retirar o artigo terceiro da constituição republicana de sua época, o qual previa a construção de uma nova capital nacional no interior do país e já estava previsto desde a Constituição de 1891.
1749 - 1945: Antecendentes e contexto Os primeiros atos para a mudança da capital nacional do Rio de Janeiro para o interior do país datam de 1749. Naquele ano, o mártir mineiro Joaquim José da Silva Xavier, popularmente conhecido como Tiradentes, sugeriu que a capital federal fosse estabelecida na então província de Minas Gerais, mais precisamente no município de São João Del Rey, mas o cartógrafo italiano Francesco Tosi Colombina considerava a região do Planalto Central mais apropriada e, então, elaborou a Carta de Goiás e das Capitanias Próximas, que sugeria a mudança da capital do litoral para esse local. miniaturadaimagem|180x180px|O município mineiro de São João Del Rey, região onde Tiradentes preferia aue fosse estabelecida a nova capital brasileira. Todavia, quando o Império reprimiu a Tiradentes e seus companheiros por suas lutas contra abusos de poder, o ideal de transferência da capital foi interrompido, sendo retomado somente duas décadas depois pelo fundador do jornal Correio Braziliense, Hipólito José Costa, que na ocasião estava exilado em Londres e usava o meio de comunicação como forma de influenciar a mudança da capital.
A retomada desse ideal também foi influenciada pelo encaminhamento de um memorial que indicava a região mineira de Paracatu como a mais propícia para a edificação da nova capital com o nome de Brasília feito por José Bonifácio à Assembléia Geral Constituinte do Império em 1823. No ano seguinte, a transferência da capital estava presente nos autos da Revolução Pernambucana, mas somente em 1831 essa proposta foi estabelecida em projeto legislativo, com a iniciativa do deputado paraense João de Deus e Silva, prevendo a escolha de um ponto central do país para a edificação da futura capital.
Contudo, essa demanda passou vinte anos tramitando no Poder Legislativo e as terras que receberiam a nova capital nacional só foram definidas em 1852, quando o senador piauiense Holanda Cavalcanti, o Visconde de Albuquerque, apresentou um projeto de lei que autorizava o levantamento de um terreno, entre as latitudes dez e quinze graus, para servir de território destinado à localização da futura capital do Brasil, entre os rios São Francisco, Maranhão e Tocantins.
No ano seguinte, o senador João Lustosa da Cunha Paranaguá, o segundo Marquês de Paranaguá, apresentou um projeto legislativo transferindo a capital do Rio de Janeiro para Monte Alto, no interior da Bahia. De 1853 a 1889, a mudança da capital, do litoral para o interior brasileiro, desapareceu das discussões parlamentares, voltando apenas nas discussões e nos comícios dos clubes republicanos.
Com a derrubada do Império e a instauração do República em 15 de novembro de 1889, as discussões sobre a transferência da capital para o interior do Brasil e seu local exato de edificação foram retomadas com muita força, já que, com a mudança de regime de governo, os parlamentares tiveram que elaborar uma nova constituição. Nesse ínterim, o deputado carioca Thomaz Delfino foi o primeiro a se manifestar sobre o caso no plenário. Logo depois, o senador baiano Virgílio Damásio e o deputado paraibano Pedro Américo, o pintor, também se manifestaram, sendo Virgílio o responsável por apresentar à Comissão dos 21, grupo que examinava o anteprojeto constitucional, uma emenda propondo a transferência da capital. A Comissão dos 21 não aprovou a emenda do senador Virgílio Damásio, então, ele a reapresentou em plenário, propondo, inclusive, que a nova capital se chamasse Tiradentes, em referência ao herói nacional.
Entretanto, a única emenda que, definitivamente, deu origem ao artigo terceiro da Constituição de 1891 foi a proposta pelo deputado catarinense Lauro Muller, o qual justificou a necessidade de mudança da capital brasileira da maneira mais breve, fazendo um pronunciamento de apenas um minuto e apresentando um documento elaborado pelo historiador e diplomata Francisco Adolfo Varnhagen, em 1877, que defendia a localização ideal da nova capital como sendo a região entre Planaltina e os municípios goianos de Formosa e Água Fria. Tal propositura foi subscrita por noventa parlamentares, dentre os quais cinco goianos – os senadores Antônio Amaro da Silva Canêdo e Antônio da Silva Paranhos, e os deputados Joaquim Xavier Guimarães Natal, Sebastião Fleury Curado e José Leopoldo de Bulhões Jardim – e, assim, foi aprovada. Com isso, o artigo terceiro da Primeira Constituição Republicana previa a construção de uma nova capital federal da seguinte forma: "Fica pertencente à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será, oportunamente, demarcada, para nela estabelecer-se a futura capital federal".
Nesse contexto, Floriano Peixoto, o então presidente da República na época, delegou a tarefa de demarcação e delimitação do quadrilátero de 14.400 quilômetros quadrados no Planalto Central ao astrônomo e geógrafo Luís Cruls, o qual contou com o apoio de uma comissão. Esse trabalho foi chamado de "Missão Cruls". Todos os presidentes militares, como Floriano, sempre apoiaram a mudança da capital nacional para o Planalto Central. Todavia, o paulista Prudente de Morais, sucessor de Peixoto na presidência, era civil e contrário à mudança e, então, sabotou de forma orçamentária e adminsitrativa o trabalho de Cruls, impedindo-o de dar seguimento à segunda etapa da delimitação do território. Foi nesse ínterim que se consagrou o governo denominado "café-com-leite", no qual paulistas e mineiros dominavam o país e ambos eram contrários à transferência da capital.
O único lugar do Brasil onde o ideal de mudança permanecia era na cidade goiana Santa Luzia, atualmente Luziânia, sendo Evangelino Meireles o líder do movimento. Este, então, passou a articular ações para influenciar a volta da discussão sobre a transferência da capital e conseguiu o apoio do deputado federal Americano do Brasil, recém-eleito na época, o qual apresentou um anteprojeto de lei que previa a edificação no Planalto Central de um marco onde seria estabelecida a nova capital brasileira. O projeto foi aprovado e, no dia 7 de setembro de 1922, foi inaugurado o marco em Planaltina como comemoração do Centenário da Independência. Para ajudar na retomada do ideal, Gelmires Reis, então intendente municipal de Santa Luzia, além de divulgar o caso em jornais que editava, criou um loteamento denominado Planaltópolis e distribuiu, em escritórios nas principais cidades brasileiras, "lotes para quem quiser morar onde será edificada a futura capital federal".
Contudo, logo as discussões sobre a transferência da capital federal perderam forças mais uma vez, tanto por falta de apoio dos parlamentares desfavoráveis paulistas e mineiros, como dos parlamentares goianos que mudaram seu foco para a mudança da capital de Goiás, de Vila Boa para uma nova cidade que seria construída e denominada Goiânia. Outro fato que fez o movimento em prol à transferência da capital federal perder ainda mais forças foi a retirada do artigo terceiro da Constituição pelo então presidente Getúlio Vargas no fim da década de 1930, época em que ele governava de forma ditatorial, no regime chamado Estado Novo.
1946: Início da articulação política de Segismundo Mello
Em 1946, com a derrubada do Estado Novo e a volta da democracia, o ideal de mudança da capital nacional foi retomado, desta vez pelo goiano que na época morava no Rio de Janeiro, Segismundo de Araújo Mello. Ele fazia parte do grupo de Santa Luzia que lutava pela mudança e, com o apoio do deputado goiano Diógenes Magalhães, desenvolveu um trabalho a fim de reinserir o artigo terceiro da Constituição de 1891, na Assembléia Nacional Constituinte.
Assim, o militar Eurico Gaspar Dutra, recém-eleito presidente da República, promulgou a nova Constituição, reinserindo nela o artigo terceiro da Constituição de 1891. Nesse ínterim, foi criada uma comissão presidida pelo general Djalma Polli Coelho com o objetivo de promover estudos para a escolha do local exato onde seria edificada a nova capital. Em referência a seu presidente, o grupo foi denominado "Comissão Polli Coelho". Esta, como era formada por parlamentares de diversas regiões, logo houve conflito de interesse entre os deputados goianos, que queriam a capital no Planalto Central, e os deputados mineiros, que preferiam-a no Triângulo Mineiro. Mais precisamente, Jerônimo Coimbra Bueno, empreiteiro construtor de Goiânia que representava os goianos na comissão, defendia que a nova capital fosse construída no quadrilátero delimitado por Luís Cruls, em 1892, no Planalto Central; já Lucas Lopes, Juscelino Kubitschek de Oliveira e Israel Pinheiro, que representavam os mineiros, queriam que a edificação ocorresse nas proximidades do Delta do Rio Paranaíba, no Triângulo Mineiro. Por um voto de vantagem, foi definido que o quadrilátero do Planalto Central era o local cientificamente ideal para o caso. miniaturadaimagem|180x180px|Juscelino Kubitschek e Israel Pinheiro, parlamentares que queriam a instalação da nova capital em Minas Gerais. Em 1951, ao retornar ao cargo de presidente, Getúlio Vargas nomeou o general Agnaldo Caiado de Castro para ser chefe de seu gabinete militar e presidir a Comissão de Localização da Nova Capital Federal. Caiado contratou, então, a empresa americana Donald Belcher para fazer os mapas do levantamento aerofotogramétrico do quadrilátero definido por Cruls. Com a morte de Getúlio Vargas, seu vice-presidente Café Filho assumiu o governo e nomeou o marechal José Pessoa para substituir o general Agnaldo Caiado.