A Banda Phoenix, oficialmente Escola e Banda de Música Phoenix do Mestre Propício, é uma das mais tradicionais bandas civis do Brasil , com trajetória iniciada em 23 de julho de 1893, na cidade de Pirenópolis, Goiás. Fundada pelo maestro Joaquim Propício de Pina, a Banda atua na preservação e difusão da música no Centro-Oeste e participa das manifestações culturais e religiosas de Pirenópolis, incluindo a Festa do Divino, registrada pelo IPHAN como patrimônio cultural imaterial do Brasil em 2010. Em 2026, foi apresentado na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás um projeto de lei de autoria do deputado estadual Virmondes Cruvinel, propondo reconhecer a instituição como patrimônio cultural imaterial do Estado de Goiás.

Composta por músicos voluntários, a Banda Phoenix é uma entidade sem fins lucrativos, reconhecida oficialmente como de utilidade pública pela Lei Estadual nº 6.634, de 1967, e pela Lei Municipal nº 12/71, de 1971. A Banda integra a rede de Pontos de Cultura, participa do Conselho Municipal das Cidades (CMC), do Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC), do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), da Salvaguarda da Festa do Divino de Pirenópolis, e do Comitê do Tricentenário Pirenopolino, responsável pela elaboração do plano de metas “Vem 300”. Com média de 90 apresentações anuais em Pirenópolis e cidades vizinhas, a Banda Phoenix participa de festividades cívicas, políticas, sociais, religiosas e culturais do município, como as celebrações da Semana Santa, as festas de São Sebastião, Carmo, Bonfim, Rosário e Divino, com participação nas Cavalhadas.

Durante a pandemia de COVID-19, em 2020 e 2021, a Banda Phoenix adaptou suas atividades com apresentações reduzidas e transmissões online realizadas em parceria com a Paróquia Nossa Senhora do Rosário, permitindo a continuidade das celebrações com acompanhamento remoto do público. Nesse período, a Banda também ampliou sua presença em redes sociais e em seu site. Em 2022, as atividades retornaram ao formato anterior à pandemia.

Desde fevereiro de 1900, a Banda Phoenix atua em colaboração com o Coro e Orquestra Nossa Senhora do Rosário, também fundado por Joaquim Propício de Pina. O Coro e Orquestra é responsável pelo repertório sacro tradicional da cidade e pelo arquivo musical associado à instituição. Esse acervo inclui música sacra em latim para coro e orquestra, além de repertório secular para banda, abrangendo obras dos séculos XIX, XX e XXI. O arquivo também contém partituras autógrafas de compositores locais e regionais e foi utilizado em pesquisas relacionadas ao reconhecimento do choro como patrimônio cultural imaterial pelo IPHAN em 2024.

A instituição tem como sede o centenário Casarão da Banda Phoenix, edifício de arquitetura luso-brasileira localizado no perímetro do Centro Histórico de Pirenópolis, tombado pelo IPHAN em 1990. No espaço estão preservados parte do acervo musical e um pequeno museu, além de ocorrerem ensaios da Banda Phoenix e do Coro e Orquestra do Rosário. No casarão também funciona a Escola de Música Phoenix, que oferece cursos de sopros, cordas, percussão e canto, voltados à formação musical de novos integrantes da banda e do Coro e Orquestra do Rosário.

Origens e Fundação Contexto musical em Meia Ponte

O povoamento da Capitania de Goiás, impulsionado pela exploração do ouro e pela abertura de caminhos no cerrado ao longo do século XVIII, esteve associado à formação de práticas culturais e musicais nas primeiras localidades do estado. Em Meia Ponte — atual Pirenópolis —, como em outras localidades do período colonial, as manifestações religiosas mantinham estreita relação com as práticas musicais, com destaque para as promovidas pelas irmandades. A Irmandade do Santíssimo, predominantemente composta pela elite branca, teve papel relevante na organização da vida religiosa local e na formação de práticas musicais em Goiás.

O ensino musical na região de Goiás remonta ao século XVIII, com a atuação de músicos e famílias ligadas à vida religiosa e cultural de Meia Ponte. Entre os nomes associados a esse contexto estão Custódio Pereira da Veiga e seu filho, o padre José Joaquim Pereira da Veiga. A família Rodrigues Nascimento também esteve ligada ao desenvolvimento da música local, especialmente após a construção do coro da Igreja Matriz de Pirenópolis pela Irmandade do Santíssimo, que já recebia melhoramentos em 1757.

Entre os séculos XVIII e XX, diversos nomes estiveram ligados à formação e à produção musical de Pirenópolis, entre eles Antônio dos Santos Cunha, Pe. José Joaquim Pereira da Veiga, José Inácio de Nascimento, Pe. Francisco Inácio da Luz, Pe. Manuel Amâncio da Luz, Comendador Joaquim Alves de Oliveira, Antônio da Costa Nascimento, conhecido como Tonico do Padre, Silvino Odorico de Siqueira, Antônio de Sá, sob o pseudônimo Gaspar Hauser, Joaquim Propício de Pina e Vasco da Gama de Siqueira.

Enquanto as orquestras se dedicavam principalmente ao repertório litúrgico das celebrações religiosas, as bandas de música passaram a se difundir no Brasil a partir do início do século XIX. Em Pirenópolis, a primeira banda de música foi criada em 1830 sob a liderança do Comendador Joaquim Alves de Oliveira, passando a adotar o nome de Banda de Música da Guarda Nacional a partir de 1831, e permanecendo ativa até 1851, ano da morte do comendador. Posteriormente, surgiram outras corporações musicais, como a Banda Euterpe, fundada em 1868 pelo Pe. Francisco Inácio da Luz e por Antônio da Costa Nascimento; a Banda da Babilônia, também conhecida como Banda do Pe. Simeão, formada em 1873 e regida por José Gomes Gerais; e, posteriormente, a Banda Phoenix, criada em 23 de julho de 1893.

A Phoenix

Joaquim Propício de Pina, nascido em 1867, foi criado pelos tios Braz de Pina, Theodoro e Theodolino Graciano de Pina, integrantes da segunda orquestra da Matriz de Meia Ponte, regida pelo padre Francisco Inácio da Luz, irmão de Antônio da Costa Nascimento, o Tonico do Padre. Nesse ambiente, Propício ingressou na Banda Euterpe, onde estudou clarineta. Posteriormente, passou a ministrar aulas particulares a jovens como Olavo Batista, Américo Borges de Carvalho, José Ribeiro Forzani e Olegário Herculano de Aquino, estudantes do Colégio Ateneu Meiapontense. As aulas, iniciadas em janeiro de 1892, ocorriam à noite, na casa de Antônio Tomás de Aquino Correa.

Com a extinção da Banda do Padre Simeão, os alunos de Propício passaram a utilizar instrumentos como clarineta, cornetim, trombone, bombardino, oficleide, bombo e pratos, e as aulas assumiram caráter mais prático. Em 23 de julho de 1893, data do aniversário de 26 anos de Propício, ocorreu a apresentação que passou a ser considerada o marco de fundação da Banda Phoenix, em referência à Fênix e à continuidade da tradição musical associada à antiga banda da Fazenda Babilônia. Em 1898, após um atentado contra Tonico do Padre, a liderança da Banda Euterpe passou para Odorico de Siqueira. No ano seguinte, Propício já ocupava o cargo de Mestre de Capela do coro da Matriz, ligado às celebrações da Irmandade do Santíssimo Sacramento, além de atuar como maestro da Banda Phoenix e do Coro e Orquestra Nossa Senhora do Rosário.

Em 1901, Tonico do Padre reassumiu o cargo de Mestre de Capela da Matriz. No ano seguinte, a música da Semana Santa foi dividida entre as duas corporações: a Banda Euterpe ficou responsável pelas celebrações de quinta e sexta-feira santas, enquanto a Banda Phoenix passou a atuar no sábado e no domingo. Após a morte de Tonico do Padre, em 1903, a direção da Banda Euterpe e seu acervo musical foram transferidos para o major Silvino Odorico de Siqueira. A partir de então, a rivalidade entre as duas bandas permaneceu associada às divisões políticas locais, até a extinção da Euterpe na década de 1930.

Durante esse período, houve circulação de partituras e transferência de músicos entre as corporações, em contexto de disputa artística e política local.

Pós Propício

Com a morte de Joaquim Propício de Pina, em 11 de agosto de 1943, a Banda Phoenix passou por um processo de reorganização interna. Entre as questões enfrentadas naquele momento estavam a definição da nova regência e do local de ensaios, até então realizados na residência de Propício. Luiz de Aquino Alves, que já atuava como colaborador próximo do maestro e exercia funções de apoio musical na corporação, assumiu a direção da Banda e do Coro e Orquestra Nossa Senhora do Rosário, transferindo em seguida a regência do coro para Sebastião Pompeu de Pina, conhecido como Tãozico Pompeo.

A crise e a reorganização

As transformações econômicas e urbanas ocorridas em Goiás ao longo do século XX afetaram Pirenópolis e tiveram reflexos sobre a Banda Phoenix. A migração de moradores para centros como Anápolis, Goianésia e Goiânia, somada à redução de aulas regulares e ao afastamento de parte da juventude local, dificultou a continuidade das atividades da corporação. A filiação de Luiz de Aquino ao PSD também o inseriu em disputas políticas locais, contexto que contribuiu para seu afastamento da direção da banda, assumida interinamente por Sebastião Pompeu de Pina.

Em 1964, Pompeu Cristóvão de Pina assumiu a presidência da banda e conduziu sua reorganização com apoio de integrantes da comunidade musical local. Vasco da Gama de Siqueira assumiu a direção musical, enquanto Sebastião Pompeu de Pina permaneceu ligado ao repertório sacro. Nesse período foi criada a Escola de Música Mestre Propício. A banda também incorporou parte do arquivo da extinta Banda Euterpe, adquirido da família Siqueira. O acervo, composto por partituras e manuscritos, passou por trabalho de recuperação e organização, incluindo obras associadas a Antônio da Costa Nascimento, o Tonico do Padre, e outras peças que puderam ser recompostas com a reunião dos arquivos da Banda Phoenix e da Euterpe.

A nova geração

Em 1968, José Joaquim do Nascimento, filho de Vasco da Gama, assumiu a regência da Banda Phoenix. Posteriormente, com o apoio de Braz de Pina Filho, também passou a atuar na regência do Coro e Orquestra do Rosário após a morte de Tãozico. Conhecido como Zé Guiomar, ministrava aulas de música no período noturno e participou, ao lado de Braz de Pina Filho, de trabalhos de levantamento e organização do acervo musical e documental da instituição. Durante esse período, a banda participou, em parceria com a Universidade Federal de Goiás, do Primeiro Recital de Compositores Goianos, realizado em 1970 na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, do qual resultaram posteriormente um LP e um CD. Também nesse período houve atividades de restauração de partituras e adaptação de arranjos cujos originais estavam incompletos ou perdidos.

Em 24 de outubro de 1972, a Banda Phoenix venceu um concurso musical realizado no aniversário de Goiânia. Na década de 1980, José Joaquim do Nascimento deixou Pirenópolis e passou a atuar na Corporação Musical Santa Cecília, em Jaraguá.

Década de 1980

Nos anos 1980, Mamede Silvério de Melo assumiu a direção da Banda Phoenix. Durante sua gestão, a corporação manteve participação em festividades religiosas e culturais de Pirenópolis, como a Semana Santa e a Festa do Divino. Em 1992, Mamede fundou a Banda São José do Tocantins, em Niquelândia. Três anos depois, passou a atuar na Banda 13 de Maio, em Corumbá de Goiás, e, em 2002, fundou a Banda Municipal 03 de Julho, em Cocalzinho de Goiás.

Alexandre Luiz Pompêo de Pina

Após a saída de Mamede Silvério de Melo, Alexandre Luiz Pompêo de Pina assumiu a regência da Banda Phoenix. Sua atuação ocorreu em um período de ampliação da visibilidade de Pirenópolis em razão do turismo e do reconhecimento patrimonial da cidade. Nesse contexto, a banda participou de eventos públicos, celebrações religiosas e atividades do calendário festivo local, incluindo a Semana Santa, a Festa do Divino e o aniversário do município.

A regência de Aurélio Afonso